História do Padre Angélico

Vulcão, Kanenori
Fotografia de Kanenori

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Saiu de Fiumicino em direção à Sicília, como faz todos os anos. Entrando no vulcão, cujo cone fez o tempo parcialmente derruir num amontoado de lixo basáltico, põe-se a alisar o solo cinzado e sujo onde, com a ajuda de uma vara, faz perfurações para nelas sepultar bolotas de carvalho vermelho. Lança-lhes um gole de água e persigna-se. Depois é com Deus e com a natureza.

Um ato tão incompreensível pede pelo menos uma explicação excelente.

Num dos seus sonhos de juventude, a pessoa de quem falamos viu-se num bosque primitivo, em cujo chão folhas recortadas brilhavam sob o efeito da lua e onde uma neblina translúcida se mexia a cada passo que dava. Não havia aí ruídos, intrusos, serpentes tentadoras. Via-se, nesse sonho, tão velho que as suas mãos aparentavam o aspeto calcinado de raízes. E tão feliz que não duvidou que o único lugar da terra igual ao de Adão fosse um onde a terra se pudesse reinventar, lavando-se (como num banho de vitriolagem) do bodum humano.

Aos vinte e cinco anos, já depois de ordenado, deixou aqui as primeiras sementes. Agora, no miolo do caldeira adormecida, vão brotando a esmo os miraculosos troncos da sua teimosia. Ou da sua loucura. Decidiu que a localização da choupana fica para mais tarde. Quando as árvores tiverem atingido a altura de um ciclope, virá construí-la, edificar o seu eremitério, provar a modernidade do seu sacrifício.

Onde antes era uma garganta para o inferno, Nosso Senhor quererá outro Éden. Desta vez sem Evas ou répteis. Sem anjos com espadas de fogo.

Um ato tão incompreensível deve ter outra explicação que desconhecemos.

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Questões sobre o riso e sobre o humor

Fotografia de Daniel Nebreda
Fotografia de Daniel Nebreda

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– Há precisamente cinco anos dei uma gargalhada – disse assim de repente, sem mais nem quê, o meu sócio.

– Eu há sete que o não faço – atalhou o meu outro sócio. – Sete anos, cinco meses e vinte quatro dias. Quase sete anos e meio!

Frases como estas aborrecem-me. Nunca sei o que fiz no dia anterior, sucede-me frequentemente o jamais-vu e esqueço-me de datas importantes. O meu gato, por exemplo, completou o terceiro aniversário há mais de 365 dias e só disso me dei conta na passada semana.

Sou péssimo de memória. Frases daquele jaez põem-me os nervos a bulir. Como é possível a alguém recordar-se do dia exato em que tremelicou de riso? Desconfio que os meus sócios se unam às vezes para me prejudicar, também que se prejudiquem muitas vezes, sem se unirem um ao outro ou a mim, que dificilmente me uno a quem quer que seja.

Gustavo, o meu parceiro número um, objetou.

– É muito fácil e facílimo. Dei essa gargalhada por volta das dez e um quarto no dia dezasseis de julho de mil novecentos e oitenta e oito, quando da rua dos Hoteleiros me dirigia para a do Arsenal, no cruzamento com a rua da Boavista. Vi a minha ex-mulher a cambalear de bêbeda. Penso que o amante se tinha aborrecido dela. É ou não engraçadíssimo apanhar a ex meio despenteada, seminua, aos esses, hem?

Venâncio, o número dois, confiscou-me a palavra.

– Ora. Eu não vejo qualquer problema em trazer na cabeça uma lembrança dessas. É uma como as outras. Um tipo fixa as coisas numa ordem de importância. Se o teu inimigo te quer matar com uma bomba e o embrulho lhe explode nas mãos antes do envio, tu ris-te com gosto, ou não? E há uma lápide num cemitério à espera que lhe deponhas ao pé uma rosasita. Assim nunca te foge o sentido das coisas…

Estas conversas a três lá no escritório dão-me arrepios.

Não posso afirmar que saiba a data recente em que casquinei, esgargalhei, ri a bandeiras despregadas. Ou o secreto e escarninho motivo por que o fiz. Sou daquelas pequenas almas que escancaram a boca a humor fácil de uma anedota inocente ou com as facécias do gato caseiro que nos surripia esforçadamente um bocado de carne do prato.

Não consigo escarnecer, confesso, da voz roufenha do Venâncio, nem das carranhas que o número um conserva, infantilmente e amiúde, nas fossas nasais. Suponho que os meus sócios saibam mais do que pode o riso do que eu.

Não atino com as circunstâncias exatas da minha última gargalhada. Como é possível?

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Oblívio

old woman, Marnix Detollenaere
Fotografia de Marnix Detollenaere

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Sobre a cómoda ficaram a caixa de madrepérola com os medicamentos por tomar, a pagela da Sagrada Família, os sobrescritos fechados com as contas, o branco sujo do pó. Cristo continua pregado na cruz, o coração em sangue de Maria continua pingativo, o Santo António não se alterou, não se cansou, não cedeu um milímetro com Jesus no braço. Do mármore, a todo o cumprimento dele, perpendicularmente, sobe a lâmina emoldurada do espelho. A idosa olha-se, detém-se, escava com os olhos a pessoa que diante de si responde sem perguntar, inquire sem replicar.

Depois de muito tempo é-se outra vida. Na beira da cama o corpo equilibra-se mal.

Quando se regressa a casa, vozes há que voam desordenadas na concha do ouvido. Não se preocupe, minha senhora, tudo se resolverá. Precisa de alimentar-se, compreendeu? O seu filho não voltará a pôr-lhe as mãos em cima, dou-lhe a minha palavra de honra. Há vozes, mas tão opacas como o olhar através do nevoeiro, como o vidro onde o pó lentamente acamou, como o pequeno quarto às escuras que espera do seu inquilino eterno uma explicação, uma fresta de luz, um sinal de que não morreu.

O que dói não é o velho corpo macerado. O que dói é esse não poder não doer, essa dor infiltrada em tudo o que é nervo, espírito, amor de mãe ofendida.

São horas de fazer alguma coisa na cozinha.

O que terá restado no miserável frigorífico ferruginoso, nas velhas estantes dos armários, nas bolorentas fruteiras quase vazias? É preciso limpar a casa, obrigar os músculos a um derradeiro sacrifício, impor uma ordem à existência cansada. Olha-se ainda, sem palavras, sem ruído, sem compaixão ou ódio, sem tristeza ou saudade. É-se alguém preso a um corpo e um corpo preso ao tempo, como um resto de sabão que se deixa esquecido num tanque. Como um tanque de água estagnada e podre. Como um tanque vazio. Como um tanque meio desmantelado, onde em tantas tardes e noites e manhãs se lavou o rosto.

No princípio é o verbo, no fim é-se um verme. A anciã segura nas mãos a fotografia que lhe tiraram há muito, com o marido e o filho. Não sabe quem sejam os três que ali se juntam, nem que acaso os juntou.

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Via-se bem

Mulher idosa, por Panfil Pirvulescu.
Fotografia de Panfil Pirvulescu

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A velha, via-se bem, lacrimejava. Não havia meio de acender o fogão maldito. Já por duas vezes os dedos trémulos haviam precisado de imiscuir-se no buraco do serrim e de retirá-lo aos bocados. Recolocou o bastão numa das bocas e pela terceira vez, via-se bem que com irritação, pôs-se a peneirar a serradura para o seu interior. Depois com o cabo da foice começou a comprimir as aparas lentamente no espaço em volta. Vinha-lhe à cabeça a história do aerograma: que dor tão funda para aquela família! Retirou o bastão com cuidado, de modo a aguentar o espaço aberto no miolo do serrim e de seguida lançou pelo largo orifício um bocado de papel a arder. Era uma tarde inusualmente fria, não se recordava de um julho assim. Curvou-se mais um pouco e recomeçou a soprar. Fazer deflagrar a chama exigia perícia, paciência, temperança. A velha não tinha filhos, mas não os ter tido não significava que não se doesse da dor dos outros. De dentro do tubo mole das aparas começou a crescer uma língua de fogo. Dentro da cozinha às escuras, o fumo rodava, entretanto, mais espesso, mais azul, mais implacável. Fazia arder os olhos. A velha, via-se bem, chorava.

Os rapazes iam para África a mando do governo. Iam e às vezes não voltavam. Como se governavam lá não o sabia a velha, que fora sempre apenas senhora do seu mundo, enterrada desde a infância nos campos e nos montes, nas singelas coisas das pessoas simples. O filho da Aninhas foi dos tais: levaram-no de pé e trouxeram-no dentro de um caixão selado com chumbo. Uma mulher, ainda que velha e solteira, dói-se dos destinos funestos dos outros. Na solidão da cozinha podia soltar as lágrimas, ainda que lágrimas dolorosamente paridas no silêncio lágrimas e talvez estéreis. Sobre as bocas do fogão colocou as grelhas e sobre as grelhas as pequenas panelas enegrentadas. África é longe, a infância é longínqua, a morte é ainda mais distante, ainda mais intransponível. Pobre rapaz!

À hora habitual, a moça subiu o lanço de escadas e deu a fala acostumada.

– A bênção, madrinha!

– Oh, filha, Deus te abençoe!

– Venho da casa da Soledade. Venho parva…

– O que foi?

– Não sabe o que aconteceu ao Sê Pereira e à Aninhas?

– Já soube, filha. Já soube…

– Chegou um aerograma da Guiné, do Torcato.

– Já sei, filha. Já sei…

A velha regressou ao bolso do avental. Limpou o canto dos olhos com o mesmo pedaço de tecido esquálido onde se assoou a seguir. Seria um daqueles gestos mecânicos que repetimos sem pensar. Depois serviu-se de uma bacia com as batatas e a cenoura que descascou com uma tristeza doente. Que espinho para uma família receber um aerograma do Ultramar um mês depois de fazer o funeral ao filho que o enviou!

– Acho que foi para uma gritaria ontem à noite. Coitados…

A velha soergue o rosto sem dizer nada.

– O Torcato mandava dizer que estava bem, que graças a Deus já pouco faltava para acabar a comissão… que neste Natal já cá estaria para casar com a Rosalina e começar a construir a casa…

Lá atrás, num dia de nevoeiro, uma mulher bastante jovem vê-se engolida pelo desespero. Uma outra, mais adulta, sopra sobre um pedaço de pedra, onde o serrim teima em não arder. «Tudo se há de arranjar, tem calma rapariga.» O fumo circula como uma cortina ofensiva, dá volta às paredes mascarradas de uma cozinha onde o mais belo fruto da vida está guardado, envolto num cobertorzinho macio. «Tem calma, rapariga. Tudo se há de arranjar. Essa criança terá um pai e uma mãe e tu terás uma vida pela frente.» «Como será isso?» «Confia em mim. Se vais para a França, deixa-a a comigo. Tudo se há de arranjar.» «Vossemecê o que fará com o menino? Cria-o por mim?» «Não te aflijas. Nosso Senhor pensa em tudo, ele há de ter pai, mãe e casa.»

– Ai, madrinha. Uma pessoa fica maluca. A Aninhas queria tanto que o marido livrasse o Torcato da tropa… Dinheiro não lhes falta, nunca faltou.

– Sabe Deus o quanto ele tentou.

– Olhe que não é o que se diz por aí…

– O povo o que sabe? O povo fala com peçonha, que é para isso que o povo serve.

– Oh, madrinha. Se ele quisesse… O moço ainda agora estava vivo!

– Cala-te, rapariga! Não sabes da missa a metade… O Pereira bem quis untar os beiços a muita gente, mas os do governo não deixaram…

A noite demorava. A velha retirava de outra bacia as folhas carnudas da troncha para as inspecionar. As palavras, via-se bem, saíam-lhe penosas, amaras, pesadas. O nariz, via-se bem, pingava. Os olhos, via-se bem, pareciam pedrinhas em brasa. Uma devastação nova caía ali, como um pesadelo renascido. Talvez dissesse à rapariga para meter um punhado de caruma e uma pinha na lareira e umas achas e um toro. Não se lembrava de uma tarde de julho assim tão fria.

Dentro da sua cozinha, apenas alumiada pelas duas bocas do fogão rudimentar, sentia-se fulminada por uma estranha traição. Vinham-lhe sempre à cabeça o aerograma, as esperanças do rapaz, as malditas quelíceras da guerra, os homens do governo que arrancavam filhos às famílias para os lançar na imensa África dos caixões numerados e chumbados. A velha, via-se bem, secava a amargura. Era preciso, em todo o caso, suportar a vontade de Nosso Senhor, fazer o caldo, sobreviver.

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O alfaiate

Imagem de alfaiate a trabalhar. Picture of a tailor at work.
Fotografia de Salvador Godoy

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Antes de o calor se tornar arquejante, pode-se aproveitar no máximo duas ou três horas de frescura. Pela porta e pelas janelas abertas corre uma aragem agradabilíssima, um ventinho que amacia os pensamentos, que às vezes carrega o cheiro das praias e do mar, outras vezes traz subtilmente o aroma verde das hortelãs e dos tomateiros, e que é, em todo o caso, o melhor do dia.

O calor cada vez mais excessivo nos meses do estio é a causa deste ódio do alfaiate Iñigo Larraona à terra ancestral. Nos sonhos – se sonhar pode dizer-se do desconcerto de imagens e de pessoas na sua cabeça durante a noite – caminha amiúde por inóspitos carreiros de pedra calcária, sempre descalço, com a planta dos pés e a garganta num ardor igual, violento, de maceração e agonia. As cabras deambulam debaixo do sol em busca de uma sombra ou de arbustos que lhes matem a sede.

Iñigo conhece um sítio onde a água pode ser encontrada, água leve e límpida como toda a água boa. Fica para lá do pinheiro manso solitário, numa das encostas da colina que tem de subir a muito custo. Há um opérculo de madeira, meio escondido pelo giestal, que tem de remover. Depois há uma corda que puxa e que traz do fundo um pequeno pote de barro. Pode então saciar-se.

A sensação é ambivalente: bebe com sofreguidão, lava o rosto, molha a sola dos pés, volta a engolir o manancial prodigioso empoçado nas rochas. A água escorre, ardeja, silencia o clamor da pele. Mas é então que regressa o pânico. Onde estão todos? Onde se enfiaram os amigos? Que solidão é essa que o cerca aí de todos os lados e se torna um pesadelo tão poderoso capaz de o expulsar de si e da sua infância?

Antes de o calor cair com toda a força no país, Iñigo Larraona regozija-se com a paz das manhãzinhas. Na mesa larga do seu ofício, confirma os números com a fita métrica, empurra com gentileza o giz sobre o tecido, recorta as peças, alinhava-as. A brisa faz empolar suavemente o volume de papéis. De quando em quando interceta o fumo de algum cigarro transeunte, ou o aroma dos pêssegos capturado na frutaria da esquina. O alfaiate sente uma pena imensa que estas coisas durem tão pouco e que não as saiba guardar. Não é fácil limpar-se dos pesadelos, ou calcular com precisão o poder que eles detêm, ou compreender a razão por que tantos anos depois continua a sentir-se vazio, descalço, perdido no meio da vida.

Depois, quando o grande lume deflagra nas vidraças e necessita de encerrar as persianas, o sufoco é maior. Não lhe apetece nada, tudo é uma agressão contra si e contra o mundo. Não escuta a voz de nenhum dos vizinhos, nem o ganir dos cães. A solidão encurrala-o sem misericórdia. Não lhe apetece nada, exceto fechar os olhos. Receia, no entanto, que se o fizer, possa sentir os pés em chamas e a garganta torturada por uma sede insatisfazível.

É um homem comum, em suma. Temos razão para acreditar, ainda assim, que todas as criaturas comuns possuem um hemisfério sombrio, ctónico, sem dúvida merecedor de atenta psicanálise e da melhor literatura.

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O sapateiro

Shoemaker. Sapateiro.
Fotografia de Antonio Grambone

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O disco do esmeril continua a girar um bom bocado. É esse som que enche a oficina quando o velho a abandona por alguns instantes e vem para a mesa de pinho no pequeno átrio pregar as tachas. Lá dentro deixa tudo à mão de semear e de colher, a porta escancarada, a lampadazinha acesa, o garrafão de vinho posto entre as coisas frescas do chão.

Não há outra loja de sapateiro na aldeia, nem nas aldeias vizinhas. O velho Faustino goza do prestígio de todas os artesãos únicos, é o que faz, não se conhece da sua pessoa mais do que os gestos rápidos, decididos, vigorosos, com que cose as peles, cola ou substitui um tacão partido ou lixa e arranja as chancas dos lavradores. Toda a sua existência cabe neste casebre onde se encafua longas horas do dia, casebre no interior do qual se alinham meia dúzia de estantes carregadas de botas, sapatos, chinelos, galochas, calçado novo, velho, assim-assim, saído recentemente das suas mãos, não reclamado, esquecido, bonito, feio, elegante, miserável, consertado, sem conserto.

No verão põe uma pequena mesa de pinho à sombra de um cipreste e é aí que se queda, sentado num mocho, duas tachas presas aos lábios, as mãos trabalhando de cor na peça, sem a ajuda dos olhos que só de longe a longe voltam ao ofício, tão sôfregas estão ao movimento geral da ruinha e da praça em baixo e das outras ruinhas mais ao fundo. Dentro, a banca é caótica. Nela, além dos tornos e das serras, atropelam-se formas e formões, martelos e latas repletas de pequenos pregos, facas e tesouras, alicates e torqueses, sovelas e tiras de couro, rolos de linha, colas e pincéis, espátulas, lixas e toda uma horda de utensílios com puas, lâminas, cerdas e cabeças metálicas. O velho Faustino parece não dar pela sua presença, mas no momento certo sabe dar-lhes uso. Nunca com maior prazer do que quando acompanhado por algum outro velho, intrigado por alguma notícia, espevitado pelo lance dramático de uma coscuvilhice nova.

– Então, a tua mulher zangou-se com a irmã, Martins?

– Olha, Faustino. A minha cunhada é douda varrida. Ninguém a atura, nem o homem!

– Oh, que diabo. Não me digas…

O Martins dispõe-se a contar e o outro a ouvir, mas os dedos do sapateiro sentem um alto, avaliam uma desconformidade, determinam uma urgência. Lá precisa ele de reentrar na loja e de pedalar no rebolo. A pedra do esmeril principia a desbastar a língua de uma fivela, que o Faustino quer direita e no tamanho certo, não seja ela para umas sandálias em cabedal puro, de encomenda. As chispas e o ruído calam temporariamente o Martins, mas o sapateiro reaparece, o disco do esmeril continua a gemer uns instantes no escuro e a conversa é reatada.

– O Senhor nos dê juizinho até à hora da nossa morte, ó Faustino!

– Mas então?

– A minha cunhada de há uns meses para cá vem a minha casa todos os dias. Chateia. Pela-se por tudo, pede à minha Isabel um cabo de cebolas, um chapéu de palha, um vaso de manjericão, um casaco, um litro de azeite. É uma chorona, Faustino. Aborrece…

– A tua Isabel que a mande à bardamerda, Martins!

– A minha mulher tem a paciência de uma santa, mas a irmã azucrina. Deu, imagina tu, em querer-lhe uma panela…

– Uma panela?

As mãos habilidosas do sapateiro não querem acreditar que uma panela possa estar na origem de um cisma familiar. Interrompem-se com grande admiração, para logo de seguida procurarem uns desperdícios imundos que besuntam com graxa e correm no couro.

– Uma panela, das de cobre que tempos dependuradas lá na cozinha…

– A sua cunhada, desculpa-me ó Martins, é mas é apanhada!

– Tanto lha pediu que a Isabel perdeu a cabeça e agora não se falam.

A sapataria do Faustino fica numa ruinha de casas baixas, de alvenaria rústica. Não se pode dizer que a não visitem fregueses mais importados em aliviar os padecimentos da alma do que em cuidar das necessidades dos pés. Também, por isso, não se pode negar ao velho o talento de um confessor, ou de um médico, ou de um barbeiro.

– Mas ó homem, diz-me cá: o que fez a tua mulher? Deu ou não a panela à irmã?

– Não deu.

– Ai não?

– Deu-lhe foi uma desanca.

Fascina que de uns pedaços de pele, de umas tabuinhas de madeira, de umas aparas de latam nasçam umas alparcas tão bonitas. O Martins esteve para lho confessar, sabe que o mestre sapateiro é um daqueles homens raros que nos conquistam, mas empolga-o o resto da sua história, quer finalizar o que começou.

– Imagino, Martins. A Isabel deve ter-lhe dito das boas!

– Pois disse! Virou-se para ela, e não leves a mal as palavras, que são dela e não são minhas: olha, Lucinda, tu és uma pedincha. Se cobiçasses a piça dos homens como cobiças as minhas coisas, eras a mulher mais puta da freguesia!

O velho gargalha. O riso é, com o martelar e o chiar do esmeril, parte da casa, enche-a, às vezes transborda, ecoa no pátio, contorna o cedro, estruge nas paredes, faz levantar as cabeças. Todos sabem que o riso do Faustino é o prémio da sua arte. O riso – sem menosprezo pelas demais agudezas do espírito e das perícias manuais do homem – é um sinal de génio.

Muitas vezes, felizmente, do demónio também!

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Aral

Moinaque, Caracapaquistão, Usbequistão, barcos, Mar de Aral
Fotografia de WaSZI

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É indescritível a sensação de atordoamento que experimenta este viajante nesta parte do mundo, onde se presenciam factos como os que a seguir se enumeram.

Estamos em Moinaque, no noroeste do Usbequistão. O viajante sobe a uma plataforma de madeira, que facilmente se confunde com o passadiço de um porto. Os barcos lá estão, ali, acolá, mais além, tombando uns a estibordo, outros para bombordo, completamente enferrujados, esquecidos, agonizando sobre o leito arenoso do que foi até há escassas décadas uma das margens do mar de Aral. O viajante recebem-no num tugúrio nascido, algures aí, no meio do antigo perímetro lacustre.

Rustam Kerinov conduz um pequeno rebanho de cabras por entre as quilhas e as âncoras oxidadas. Leva ao ouvido um rádio de pilhas, na boca um cigarro quase completamente encarquilhado, nos olhos a devastação enorme de um ofendido.

«Aqui agora estão a plantar arbustos» explica Serik Tolvashev. «É difícil suportar as tempestades de sal».

«Arbustos?»

«Sim, fileiras de saxaul. Plantam-nos a intervalos de um metro. Para que cresçam e limpem o solo».

O viajante mal respira. A poeira embrulha a cidade-fantasma e cai como uma praga bíblica sobre o pelo dos animais. Chicoteia o casco doloroso das embarcações. Em boa verdade, nada segura o vento, nada se opõe aos minúsculos grãos de sal e de areia amalgamados e em movimento.

«De que se alimentam vocês agora» pergunta o estrangeiro.

Ao longe, Rustam Kerinov já não se vê. Do aparelhito anacrónico chegam, a custo, as notas de Boys don’t cry. Será uma alucinação pensa o viajante. Será um sonho, aqui coisa nenhuma é uma certeza: será uma daquelas circunstâncias absurdas de coisas que se misturam no tempo errado no lugar errado.

«Do pouco que nos sobrou da água, do nada que nos ficou de terra fértil, comemos o que calha» diz Serik Tolvashev.

Neste pedaço da geografia usbeque (mais correto seria escrever caracalpaque), as temperaturas descolam no mês de julho. O anfitrião serve um chá na sua cabana improvisada. Na única estante que nela se sustém, o viajante reconhece um velho exemplar do Corão. Fora destas paredes frágeis zune a força de um demónio, de um desastre, de um male sem nome. Mas a fé, a fé em Deus é maior do que o vento monstruoso capaz de embalsamar os vivos. A fé habita cada pedaço do mundo e é capaz de regenerá-lo.

O viajante ao poisar as mãos no chão sente um estremecimento. Vinte, talvez trinta anos atrás, no preciso ponto onde está o tapete estendido era o fundo de um lago. Sobre a sua do viajante nadariam carpas e lúcios, nadariam sargos e rutilos, nadariam bagres e solhas, nadaria pela certa algum esturjão formidável.

O estrangeiro pensa no pescador Rustam Kerinov, no pescador Orazbay Qobil, no pescador Marat Allanazarov, no vendedor de peixe Almas Dosivov, no encarregado da fábrica de conservas Madi Dyussenbayev, em todos os que nesta jornada conheceu já e se lamentam do mar desviado, roubado, evaporado – do mar de que sobrou o sal maldito e as ossadas dos barcos, do mar transformado em pó.

Nesta banda do que foi o grande azul de Aral, a finitude é imensa. Existe nela algo de nostálgico e de belo, como sempre sucede com a decadência no mundo. Mas suplanta-a a dimensão do sofrimento. Milhões de litros de água transviados para alimentar a ganância e o erro. Ao viajante chega-lhe o pensamento de que o sofrimento é a maior de todas as obras de que o ser humano foi capaz até hoje.

Serik Tolvashev conta como aqui perdeu o pai num naufrágio no início dos anos sessenta, era ele ainda uma criança, viva ainda a água que o matou.

Ao viajante custa-lhe acreditar. Mas aconteceu, numa rara tempestade vinda do Cazaquistão, em meados de fevereiro.

«Morreu o meu pai. O tio Dmitry escapou por um triz. Foi um infortúnio.»

Ironias ferozes atravessam-se-nos ao caminho, a sensação é indescritível. O viajante, por exemplo, falhou um concerto dos The Cure em Glastonbury há um par de meses, mas escutou-os há instantes, debaixo de uma súbita tormenta de pó. O viajante vê uma doca à entrada do deserto e escuta o estertor de velhos barcos gementes que afundam na terra enxuta. O mesmo viajante bebe – para se hidratar numa tarde escaldante de verão –, um chá a ferver, depurado pela temperatura elevada das impurezas da água péssima de Moinaque. O viajante – ironia suprema – é informado de que, no sítio exato onde Serik Tolvashev lhe serviu a bebida, sessenta anos andados às arrecuas, um naufrágio vitimou o seu o pai.

Quando regressar a casa, este estrangeiro talvez omita, por prudência, alguns pormenores. A vida, na sua pródiga maquinação, sempre pareceu uma mentira. E quem levará a sério, admitamos, a narrativa de um viajante mentiroso?

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Breves impressões sobre a luz solar

Vilhelm Hammershøi - Partículas de pó a dançar nos raios de sol (1900)
Vilhelm Hammershøi, Partículas de pó a dançar nos raios de sol (1900)

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O tamanho da luz mede-se nas paredes, nestas aqui em Paris, nas de um iglô em Etah, na Gronelândia, ou nas grutas empoeiradas de Qumran. O desenho da luz alastra e escorre, avança e reflui, às tantas eclipsa-se entre volumes de uma natureza nem sempre compreensível. E é então uma solidão, uma devastação, um horror de arrepios onde se cai como num sonho, como num poço, como na morte.

O humorista Alphonse Allais medita no diâmetro silencioso da luz nessa manhã de 1889. Da luz solar intermitente, hiemal, luz levíssima que entra pelos vidrilhos da sala e se põe a fazer caretas iridescentes no estuque, nas portas, na porção branca da alvenaria que o grande armário de ébano não tapou. Não lhe ocorre uma única linha, não lhe ocorre uma única razão para começar um novo conto, não lhe ocorre sequer que mais de um século depois, noutro país, outro indivíduo pense exatamente o mesmo sobre a luz e nela reflita indecisamente, sem vontade de rir ou de fazer rir, completamente convencido de que a literatura – para renascer – precisaria da honestidade dessa luz, da boa luz que gela na Gronelândia e se sacode no pó ardente dos desertos do Mar Morto.

É incontestavelmente belo o rosto da luz.

Ele, ela, amplia os batimentos cardíacos, enormiza o poder das palavras (mesmo, ou sobretudo, as que não são ditas), aquece a natureza monstruosa das formas informes, atrai os gatos, faz abrir mais os olhos e os poros, dita as leis, se não as leis de Deus, as do cosmos.

O escritor Alphonse Allais bebe um porto. Prepara, como um lagarto consolado, uma folha de papel. Talvez haja descoberto a ponta da agulha por que tanto procurou toda a manhã. Entre as palavras desenhadas há, igualmente, acometimentos de um sol longínquo. Escrever é costurar com a luz o pano imóvel do vazio. A bem dizer não lhe importa nada. Importa-lhe tudo.

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Ludro

dunas, dunes
Fotografia de Peggychoucair

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Perder umas eleições como as que perdeu Rubens van der Meer no ano passado é um golpe duríssimo. Primeiro sentiu uma fúria incontida em relação à maioria de idiotas neerlandeses que preferiram o seu oponente, Andries Michels, um tecnocrata corado e mentiroso, nascido nos viveiros políticos do partido liberal, incapaz de uma ideia desempoeirada e de uma palavra autêntica. Depois, aos poucos, deu-se conta de que o molestavam os corredores, os assentos do seu próprio partido, onde se mastigava a mesma doutrina e onde medravam à sombra cogumelos tão venenosos quanto os que via do outro lado da bancada parlamentar.

O desencontro progressivo com os meandros deste ofício de governar e antigovernar conheceu um episódio significativo na manhã de 17 de março.

Nesse dia e após horas consecutivas de chuva torrencial, Haia acordou num caos de sinalização luminosa, barreiras de proteção, agentes da polícia com oleados gesticulando veementemente: por toda a parte se via água a emergir das sarjetas, uma água suja, salgada, malcheirosa. Rubens van der Meer considerou, ensimesmado, que se usassem na câmara baixa as mangueiras dos bombeiros e lavassem com elas os gabinetes, as galerias dos deputados, a boca dos membros do governo, a massa vil de todos os que ali fazem carreira, imaginou se usassem água de pressão em quantidade suficiente para uma higienização razoável, sairia um enxurro tão turvo, tão porco, tão podre como esse ludro que paralisava as ruas da cidade naquele momento.

A decisão de se demitir não apanhou ninguém de surpresa.

E, porém, todos se apressaram a comentar a sua coragem e retidão, a remeter-lhe mensagens fraternas de solidariedade.

Rubens van der Meer não respondeu a nenhuma delas. Em vez disso, partiu em silêncio para a ilha de Schiermonnikoog, onde comodamente se instalou com a mulher, com o cão e com a biblioteca.

Na época boa, quando os ventos amainam e o mar vem enroscar-se nas dunas recobertas de gramíneas, vemo-lo caminhar lentamente pelos longos areais, descalço, sem telemóvel, aspirando em grandes sorvos o ar frio. Não podia imaginar que a fala oceânica possuísse diferentes fonemas. Nem sequer que, entre os grandes penedos húmidos, os belos ostraceiros de bico alaranjado pudessem exibir um talento tão ostensivo. A sua missão não é outra senão criar esquecimento.

Reconheçamo-lo: a obra mais pura de um homem é justamente essa intrigante forma de apagar memórias inúteis.

Perder umas eleições como as que Rubens van der Meer perdeu no ano passado pode ser a melhor coisa que sucede na vida de um homem. O arquipélago frígio é um território delicado, ele próprio fruto de um combate imenso. Quando a mulher – a bela Margriet de olhos verdes-abacate – o alcança e o abraça, não duvida que as pequenas coisas são as únicas por que vale a pena entregar a alma.

E, no entanto, não encontrou ainda um modo de esvaziar o seu ódio, os seus múltiplos ódios guardados e entranhados, o seu sentimento de justiça por cumprir. Um dia (sabe-o no mais fundo de si) espera ainda o poder de se desforrar…

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O insulto

Emmanuel Kauffmann_typewriter
Fotografia de Emmanuel Kauffmann

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O rapaz gostava de coisas antigas. Todo ele, digamo-lo, caía para o antiquado. A começar pelo pullover sem mangas, de um tom amarelo pastel. Não havia uma única mulher no escritório que o não achasse piroso.

Depois havia aquela coisa entre o nariz e o lábio superior, aquela pelagem a parecer-se com um bigode, ou um buço, e que o tornava mais feio e antipático. E as raras palavras que dirigia aos colegas não ajudavam:

– Pode, por obséquio, arremessar esse agrafador na minha direção?

Era realmente muito desagradável. Ser-se interpelado de um modo cortês, à antiga, dificilmente pode aceitar-se num espaço onde crápulas e devassas se prestam todos os dias a uma feroz demonstração de animalidade.

Ponhamo-nos de acordo: o escritório é um lugar errado para se pedir o que quer que seja por favor. Ainda menos com palavras que ninguém entende.

O rapaz possuía outro grande defeito. Chamava-se Valdemiro. Valdemiro Perestrelo. Não convém hoje que se seja chamado de Valdemiro e Perestrelo. Não perguntemos porquê.

Outra disformidade merece ser assinalada. Embora fosse calmo, o rapaz escrevia demasiado depressa. Matraqueava o teclado do computador com força, com vigor, com fanatismo, num estilo que importunava toda a gente.

O chefe de departamento alertou-o em várias ocasiões para os perigos de uma escrita rápida:

– Fixe o que lhe vou dizer, Perestrelo: não me escreva coisas como “Recebemos com agrado o seu pedido” apagando uma letra na palavra pedido, entendeu? Nem que “Vamos verificar a sua conta” com uma letra a menos na palavra conta. Tem ido malta para o olho de rua por causa deste tipo de equívocos…

Mas o rapaz não se enganava. Possuía treino e devoção, outro grande mal nos dias que correm.

Habitava um apartamento modesto cheia de objetos obsoletos. Dedicava-se a traduzir Shakespeare. Fazia-o de um modo bastante simples: primeiro espreitava o texto original, depois repetia-o sotto voce, a seguir martelava na máquina de escrever a sua versão. Não usava dicionário.

A máquina de que se servia – uma pesadíssima Remington, modelo 12 de 1930 – nas noites mais criativas do rapaz prensava o papel num delírio que não deixava ninguém dormir no prédio.

O treino de Valdemiro vinha daqui.

Datilografava sem necessidade de conferir as teclas redondas. Fazia-o depressa e bem. Limitava-se a corrigir de quando em quando a posição dos oculinhos redondos. No fundo, alimentava o seu modo de vida, que nos parece tão bom como qualquer outro.

Foi, por isso, um espanto ouvir-lhe na manhã do dia de anteontem o insulto.

O chefe de que falámos atrás, impacientou-se com qualquer coisa. Incomodou toda a gente no escritório e toda a gente no escritório descarregou no rapaz, de tendência calado e sorumbático.

O insulto é uma prova corriqueira da nossa fraqueza. Ou das nossas fraquezas.

Esquecemos – e não será desprezível mencioná-lo – que a máquina de escrever de Valdemiro Perestrelo era gaga. Gaguejava nos P e nos A. Por vezes, quando o seu dedo tradutor apertava contra as respetivas teclas, havia um soluço e saíam dois caracteres juntos, ambos mal desenhados. Isso, admitamos, aborrece. Isso estragava, se não a boa disposição, o ótimo papel munken de que o rapaz se servia.

Porque lembramos isto? Porque a nossa cabeça se enreda amiúde em aborrecimentos de que nos não livramos facilmente.

De maneira que o colega mais chegado lhe disse algo como isto:

– Ó pancrácio, tem lá cuidado ou ainda rebentas a mesa!

De maneira que Valdemiro se interrompeu uns vinte segundos e, tomado por uma ira mansa, respondeu a direito e sem rodeios:

– Peço-lhe encarecidamente, Rui Maciel, que vá à berdamerda…

Um insulto, ainda que proferido por alguém desacostumado de os proferir, é sempre motivo de coletiva indignação. Assinalemos aqui o despropósito: não se manda ninguém à berdamerda, menos ainda quando se traduz Shakespeare.

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