BIG RIP

Ben Goossens
Fotografia de Ben Goossens

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Escreve poemas durante a noite, dentro dos sonhos, na parte mais obscura do sonhar. Quando acorda, resta-lhe na cabeça e na boca (provavelmente no interior arrefecido dos olhos, também) amontoados de cinza.

Do que escreve sobra-lhe apenas isso. Não se recorda de nenhum dos poemas ditos em voz alta, poemas seus, nascidos do contraste entre o fogo e o negrume.

Sabe que lhe agradam muito esses poemas subterrâneos. Sabe-o porque desperta satisfeito e nostálgico, a desejar ir às arrecuas ao encontro da sua alma nua.

Sabe que a alma se desnudou, pois sente frio. Dói-lhe colocar, à maneira de grandes pedras, as vulgares obrigações e afazeres sobre os pensamentos mais sublimes e leves.

Não se sente frustrado. Toda a poesia, incluindo essa que arde em segredo, está destinada a ser esquecida. Se não for por conta do alarme do telemóvel, há de ser por outra coisa definitiva – a estupidez dos homens, o fim da vida na Terra, a explosão do sol, o fim da galáxia, o Big Rip.

A INTERDIÇÃO DE SONHAR

Shoayb Hesham Khattab
Foto: Shoayb Hesham Khattab

 

Qutuz, o sultão, rei dos mamelucos, decretou a proibição dos sonhos. Que ninguém sonhasse, sob pena de se lhe ser oferecida a viagem, violenta, para o mundo dos mortos.

Ninguém sonhava, portanto, no Cairo e em todo o vasto país que descia com o Nilo e se dirigia a leste, para lá do Mar Vermelho, até à Península Arábica. Ninguém sonhava. Sonhar era um veneno, tão nocivo quanto um preparado de cicuta ou a cuspidela certeira de uma naja. Por causa dos sonhos os homens acolhiam recados dos anjos e dos demónios, por causa deles erguiam esperanças, alimentavam revoluções, depunham imperadores, cortavam cabeças. Mesmo os sonhos mais comezinhos e inocentes (os que vogam no interior dos olhos das crianças, por exemplo) potenciam desgraças, inquietam a castidade das paredes domésticas, abrem grandes brechas na terracota, juntam-se aos beduínos tresmalhadores, conspiradores, urdidores de guerras e de mártires.

As mulheres apertavam grandes lenços negros à cabeça, para que as suas noites fossem tão escuras por dentro como por fora, sem estrelas, sem luar, sem oníricas imagens e vozes que pudessem ser recordadas de manhã. Os homens prendiam aos pulsos grilhetas e pesadas esferas de chumbo, não fossem as suas mãos tentadas a levantar-se no imo do deserto e segurar as rédeas de um dromedário, o cabo de um alfange, a frente de uma rebelião. Às crianças amordaçavam-lhes a alegria, o entusiasmo, a euforia. Tão pouco lhes destapavam a boca durante o descanso, porque muitas vezes é na calada do sono que se lavanta mais alto o mais fundo e irreprimível dos destinos.

Foi então que nasceu a lenda. Alguém se lembrou de afirmar que comendo tâmaras se obtinha o silêncio e o segredo tão asperamente procurados por toda aquela geração de não-sonhadores. Era como a resina da goma arábica com que se calafetava os interstícios no adobe para impedir que os escorpiões penetrassem sorrateiros nos quartos. Comendo tâmaras, ficava a boca tão saciada e tão fechada quanto a gula do sultão quando lhe traziam jovens amantes para serenar as desconfianças e horrores noturnos.

Em todos os bazares do reino tornou-se este fruto mais procurado do que o ouro ou a seda. Transacionava-se um punhado de tâmaras secos por caxemira pura.

Por essa razão deixaram os pobres de poder comê-las. Por causa dessa fome, não puderam nunca os pobres deixar de sonhar.