«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

eutrapelia

«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA(1) DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

Aquando da publicação de O Moscardo e outras histórias, tive oportunidade de referir que João Ricardo Lopes é a simbiose entre o poeta e o professor, fazendo lembrar outro grande mestre da poesia, também ele professor: António Gedeão. Ambos desenvolveram essa capacidade de viver num mundo intermédio, entre o onírico e a realidade, o mundo “sensível e o inteligível” – como designou Platão (2) ao mundo a que chamamos real e ao das ideias, equivalente ao céu em termos religiosos -, de trazer para a poesia as pequenas coisas do quotidiano e, a partir delas, buscar a eterna resiliência humana e aceitar que tudo (alegria/dor, felicidade/infelicidade, vida/morte, entre outros) é a vida e ela é feita de sonhos, de outras formas de captar o real.

Outro grande poeta, Eugénio de Andrade, no poema “Matéria Solar”, efetua uma breve reflexão sobre o seu material de escrita – as palavras – inquirindo um interlocutor virtual sobre “Que fizeste das palavras?”, “Que lhes dirás, quando/te perguntarem pelas minúsculas/sementes que te confiaram?” (3). É, precisamente, para fazer germinar essas sementes (frágeis, preciosas e, por vezes, efémeras) que os poetas as entretecem com a página em branco (em formato físico ou digital) de forma a interpretarem o mundo, o ser humano, o real observado ou imaginado, muito embora sempre de uma perspetiva pessoal. Como salienta Rudolf Arnheim: «The human mind receives, shapes, and interprets its image of the outer world with all its conscious and unconscious powers» (4).

O mais recente livro de poesia de João Ricardo Lopes é um ótimo exemplo desse processo de rememoração da vida, do mundo, convertido em palavras partilhadas com o leitor, dessa necessidade de prestar contas a um credor mudo, mas sempre presente: as palavras. Por isso, em “A vida das palavras” (5), um dos poemas que faz parte de Eutrapelia, efetua-se um pequeno périplo por um conjunto de palavras “esquecidas”, mas “tão sonoras ainda” para concluir que “as palavras nascem, vivem e morrem”; no entanto, o sujeito poético constata também que elas ressurgem de forma inusitada, daí o poema finalizar com a interrogação retórica “quem diria que ressuscitam?”

Assim, ao longo de cinquenta poemas, o leitor é convidado a acompanhar as palavras numa viagem pluridimensional: misto de sensações – ora visuais, ora auditivas, ora táteis, ora olfativas – e de memórias intelectualizadas de situações, espaços, músicas, objetos artísticos e pessoas; num regresso ao universo da infância, ao contacto com a terra e os antepassados numa espécie de reviver pueril e incrédulo do Eu, numa tentativa de resgatar as coisas simples e aparentemente negligenciáveis do esquecimento. Esse olhar as coisas com a visão da criança acabada de descobrir o esplendor, positivo ou negativo do mundo (à semelhança de Alberto Caeiro), é desde logo destacado nas duas epígrafes com que inicia a obra: uma de Emily Dickinson, a outra de Jacques Prévert.

Em ambas, o elemento comum é o pássaro, esse animal que partilha terra e ar, que esmorece se aprisionado; visto, em algumas culturas, como um emissário dos deuses, noutras como a voz do infortúnio, do amor infeliz, da ânsia pela liberdade. No caso da primeira epígrafe, realça-se o seu papel simbólico, ele representa a imaginação, a liberdade, a ausência de fronteiras, o sonho e, em última instância, a própria poesia. No segundo, o Eu deseja não parar de cantar para que os pássaros o conduzam até climas mais luminosos (“Yellower climes”) e associa esse ser volátil ao coração da criança. São, precisamente, esses alguns dos tópoi (já explorados noutras obras do autor) que subjazem à construção dos poemas de Eutrapelia: a luz e o seu impacto (“aquilo de que mais gosto/é desta luz”, “e então subitamente o sol”, “abafadores do sol”, “a luz cai mais justa”, “a luz periclitante”, “iluminados pelo assombro/dessa luz”, “interior da própria luz”, “relâmpagos” e “trovões”, “vestir um poema com sol”, “a luz límpida de Creta”, “a luz do sol”, “lâmpadas”, “sol a pique”, “a frontalidade da luz”, “o sol escorre aí”, “luz acesa”, “interior da luz”, “clareiras de luz”, “luz madura de cereal”, “luz limpa e cálida de junho”, “a luz caía”), o maravilhamento com o mundo e o colorido das flores (veja-se, por exemplo, “Allegro”, “Solstício em Creta, palácio de Cnossos”, “Tremezzo”, “Rosas vermelhas, agapantos azuis”, “Gerberas”), a persistência da concretude e da acidez de algumas vivências simbolizadas na “pedra” (“voam como pedradas”, “pedra imprecisa”, “pedra talhada”/“rocha”, “pedras”, “o branco das pedras”, “degraus de granito”, “a pedra que no poço cai”, “pedras do lagar”, “coração da pedra”), o mundo da infância associado à casa e aos avós (“O cheiro da terra”, “Noutro tempo”, “O outono acena mais perto”, “Sabão Marselha”, “Casa dos avós”), a importância da arte na construção da visão de mundo do Eu (“Sevilha, inverno de 93”, “Carnaval e quaresma, segundo Bruegel”, “Duomo, Milão”, “Pavana, Ravel”, “Natural History Museum, Londres”, “Tomas Tranströmer”, entre outros).

O primeiro poema da obra surge como uma espécie de metatexto, de texto programático, em que se explora o fazer poético do autor, a forma como ideais e palavras se vão concatenar para erigir um universo poético ao qual o autor regressa ao fim de quase uma década. Nele destacam-se os elementos fulcrais da sua visão de mundo, elencam-se os itens de que mais gosta e que perpassarão todos os poemas: “a luz”, “a voz”, a “fúria do vento”, a “memória”, as pequenas tarefas de um quotidiano longínquo e pueril (“os antigos sábados/em que esfregávamos o soalho da casa”) e a consciência da plenitude, da harmonia, da inclusão num todo de que se é uma parte: “éramos servos humildes/de uma causa maior/e nos sentíamos tranquilos/e asseados” (6). Já o último, “Prodígios”, permite encerrar essa viagem pelo universo das sensações, da simbiose entre natureza e ser humano, pelo campo das possibilidades (como a tripla repetição da expressão “é possível” deixa bem evidente). Numa sucessão de metáforas visuais (o vento a ser arado, decomposto em diversos elementos do planeta Terra; a lágrima constituída pela “subtil viração de certas tardes de inverno”, por exemplo), no apelo a diversas sensações (a audição – “ouvir o coração das pedras palpitar” -, a visão – “conhecer o mundo no desenho confuso dos dedos” -, a tátil/visual – “acordar para o fogo” -, a tátil/auditiva – “dormir sobre as águas”), na alternância contínua entre o presente e o passado, o leitor descobre um “mundo subitamente interrompido”, um prodígio, mas plenamente amado pelo “avô”.

A mediar um e outro, aparecem os restantes poemas, o material palpável da construção do universo poético do livro, aquele que correspondeu à captação da informação através dos sentidos, a sua intelectualização e posterior transformação em nova informação, isto é, visão do mundo (7).

Visão transfiguradora, à semelhança de Cesário Verde, dos surrealistas; união entre musicalidade e símbolo como Camilo Pessanha, num trazer para a poesia os efeitos cinematográficos da dança entre os quatro elementos primordiais (água, ar, fogo e terra) bem evidente em “Trovoada”; na captação desse fenómeno natural como uma espécie de dança luminosa, ao som de uma orquestra dominada pela percussão e pelo piano, conduzidos pela batuta da chuva, numa brincadeira luminosa encabeçada pelos relâmpagos que permitirá salvar o “nós” no momento derradeiro, evidenciado pela tripla repetição de “ao menos isso”.

ao menos isso,
ao menos isso,
os relâmpagos chafurdando
no espaço,
alegrando a noite,
os trovões percutindo
nos gonzos das portas,
o cheiro da terra seca
que os dedos da chuva
levantam.
ao menos isso,
saber algo acordado
em nós e para nós,
como um vibrato ao piano
que alguém toca
a horas tardias,
mesmo a tempo de nos salvar. (8)

Eutrapelia, mais do que um brincar ameno com as palavras e as situações, um procurar ridicularizar sorrateiramente determinados comportamentos/situações, é uma reflexão subtil, límpida e frágil sobre a forma como o Eu se constrói/reconstrói a partir da memória e da recuperação do olhar inocente e ingénuo da criança que um dia foi. É a procura de um sujeito pensante uno e coerente, feito da diversidade das sensações, das memórias e das aprendizagens (daí a referência à música e ao cinema – “Concerto de Aranjuez”, “Coltrane”, “Pérotin”, “Eleni Karaindrou”, “Cine Paradiso, Giuseppe Tornatore, Enio Morricone”) – aos museus e às obras de arte (“Caravaggio”, “Bosch”, “Duomo”, “Rijksmuseum”, “Rothko”), aos escritores nomeados ou detetáveis a partir de certos versos (“Anna Akhmátova”, Sophia de Mello Breyner e o poema “Ressurgiremos”, “Saramago”, Shakespeare e o “Falstaff”, “Hesíodo”), dos diálogos estabelecidos com um Tu interior ao poema ou um Vós (símbolo do leitor) que conduz à criação de um universo poético onde vida e morte são encarados como dois lados inseparáveis de uma mesma realidade, onde a fragilidade das coisas simples é evidente pela sua não valorização ou perda de memória. Fernando Catroga considera que “recordar é em si mesmo um ato de alteridade. Ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente à recordação, incita ao testemunho do outro” (9). João Ricardo Lopes enfatiza, no poema que dá nome ao livro, “Eutrapelia”, que são as recordações dos pequenos-nada do quotidiano que permitem à humanidade superar a dor e o desalento.

Eutrapelia

quando os dias forem
demasiado pesados, repetitivos, atrozes,
talvez possas recordar-te
do magnífico jarro amarelo
que renasce todos os anos
no quinhão mais sombrio do quintal,
ou das palavras sábias de Epicuro,
ou das palavras santas de Agostinho,
e amar a beleza de outro modo,
ou conhecê-la para além
das formas, das cores, do senso-comum,
medindo-a não já pela intensidade
e espalhafato,
mas pelo bem que te faz. (10)

A valorização do quotidiano perpassa grande parte dos poemas, razão pela qual em “Arte de furtar” a reflexão sobre o objetivo do furto recai não sobre aspetos materiais e sim sobre o “lugar que nos serve de refúgio”, constituído das “pequenas dádivas” da existência.

o que furtaríamos nós se pudéssemos,
se acaso nos fosse concedido o dom da invisibilidade
e o poder de atravessar com o roubo
as paredes mais impenetráveis?

que espécie de ouro poderia sobrepor-se ao mel,
às pequenas dádivas que colhemos nos dias comuns,
ao lugar que nos serve de refúgio
quando em volta as monstruosidades do tempo
tomaram posse do nosso chão?

qual poderia ser agora a arte de furtar,
a boa boca de que sairiam as sábias sentenças?

e o poema? em que bolso, leitor,
o levarás? (11)

Este poema funciona, deste modo, não só como um relembrar a importância das coisas simples da existência humana, as “pequenas dádivas” da “vida comum”, como as denomina o poeta, que rapidamente são roubadas pelas “monstruosidades do tempo” que “tomaram posse do nosso chão”, mas também como uma transferência de responsabilidade para o leitor, enfatizada pela sucessão de interrogações retóricas. Se Eugénio de Andrade interpelava o poeta sobre o uso que deu às palavras, João Ricardo Lopes questiona o leitor sobre “e o poema? em que bolso, leitor/o levarás?”. No entanto, a responsabilidade do autor enquanto construtor de mundos, agente ativo da cultura e da mudança de mentalidades não é esquecida. Por isso mesmo, em “Poiein”, o autor rememora os gregos e a forma como entendiam a poesia – ela deveria ser sempre a apologia da vida, da positividade e nunca dos conflitos, dos medos e das angústias -, contrapõe as palavras de Juan de la Cruz e destaca que a poesia é sempre (como se torna evidente em momentos históricos em que impera a mordaça e a censura (12)) uma arma, uma luz intensa, algo abrasivo e incómodo a confrontar o comum dos mortais e a instigá-lo a proceder à mudança.

vestir um poema com sol
é o que fazem os gregos desde o começo,
celebrar a vida
e nunca o dissídio de psyche e phren,
nunca o fantasma de Pátroclo
que confessa a Aquiles
a tortura do silêncio

o poema é para eles
uma coisa veemente, pulsante, viva,
incapaz de soçobrar no tempo
ou de ser vencida
pelo pó

às palavras de um poema
chamará Juan de la Cruz séculos mais tarde
lâmpadas de fogo entre as cavernas profundas
do sentido

concordamos, em suma, neste ponto –
nada queima como a poesia quando queima (13)

Porto, 13 de novembro de 2021,
Paula Fernanda da Silva Morais

Notas:

1. LOPES, João Ricardo – Eutrapelia, Fafe: Labirinto, 2021.

2. PLATÃO – A República (intr., trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira), 7.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

3. ANDRADE, Eugénio de – “Matéria Solar” (1980) in Poesia, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2000, pág. 328.

4. ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 461.

5. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 39.

6. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 9.

7. Arnheim esclarece que o ser humano constrói a imagem do mundo «(…)absorbing information through senses and processing and transforming it internelly» (ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 411).

8. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 18.

9. CATROGA, Fernando – “Memória e História” in PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.), Fronteiras do Milênio, Porto Alegre, RS: UFRGS, 2001, pág. 45.

10. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 27

11. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 42.

12. FANHA, José (org. e apresentação) – De Palavra Em Punho – Antologia Poética da Resistência. De Fernando Pessoa ao 25 de Abril, Porto: Campo de Letras, 2004, pág. 10: “Foi um tempo [o do Estado Novo] em que reinou a mordaça mais do que o silêncio e em que toda a palavra era mais perigosa do que pólvora. Por isso mesmo esse tempo encontrou na poesia o seu incêndio mais urgente. Era preciso levantar alto a palavra. Usá-la como rastilho. Viver de palavra em punho.”

13. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., 21.

«EUTRAPELIA» – RECENSÃO DE CLÁUDIO LIMA

Ler aqui também

Hoje reunimo-nos para celebrar os 20 anos de poesia publicada em livro por João Ricardo Lopes. Às primícias poéticas deu o Autor o título de a pedra que chora como palavras (ed. Labirinto, Fafe, 2001). E, a justificá-las, se a intrínseca qualidade da obra não bastasse, assinale-se a atribuição do Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, galardão de encher de orgulho e incentivo qualquer iniciante na difícil arte das belas letras. De facto, percorrendo estes 35 breves poemas, um leitor minimamente apetrechado e familiarizado com os meandros e mistérios da poesia, imediatamente concluirá que aquele livrinho inaugural indiciava, mais do que uma tímida promessa, uma sólida e inequívoca vocação poética. Ainda hoje, volvidos 20 anos, «a poesia irrompe como um meteoro» (pg. 33) ao longo daquelas páginas. Táctil, intensa, evocativa, sob qualquer perspetiva que se a observe, é sempre uma deleitosa fruição o que ela nos proporciona. 

Passados 20 anos e cinco outros títulos de poesia, se o Autor não parou no tempo nem precisou de corrigir a rota, – e entendo que não – é porque partiu de uma rigorosa e bem pensada estrutura formal e conceitual que o tem levado a uma constante e cada vez mais criteriosa indagação do fenómeno, quando não epifenómeno, do que a poesia implica de consistência e aprofundamento. Andam por aí montes de equívocos, montanhas de falácias e cordilheiras de nulidades a doutrinar sobre e a praticar uma escrita balofa e oca a que conferem o rótulo de poesia, travestida, ademais, de genialidade visionária e vanguardista! Um deserto sem vislumbre de qualquer oásis onde mitigar a sede de beleza e unção espiritual!

Um observador comum olha e diz assertivamente: “isto é uma árvore”. E esse juízo, redutor e fechado na estreiteza conceitual, lhe basta. Apenas exige da árvore que lhe dê frutos e alguma sombra. A linguagem com que nomeia e qualifica é pragmática e utilitária; circunscreve o que vê e vê-o por fora e de relance. Um observador de sensibilidade poética, ao invés, vai aos limites da perceção e da expressão da coisa percecionada. Para ele nada é singular e unívoco na linguagem, antes polissémico e polimórfico. Liberta o objeto das amarras a que o uso massivo e ligeiro o submete e explora, ao mesmo tempo que lava as palavras das nódoas causadas pelo uso e o abuso.

Conheço o João Ricardo Lopes há bastante tempo, desde a publicação da coletânea Histórias para um Natal (ed. Labirinto, Fafe, 2004) em que ambos participámos. Mas, sobretudo, desde a publicação das suas crónicas Dos Maus e Bons Pecados (ed. Opera Omnia, Guimarães, 2007), em que de igual modo faz emergir a sua férula de prosador interveniente, atento ao panorama cultural e cívico português. Dessa obra fiz a apresentação na prestigiada e prestimosa Livraria 100.ª Página em 25 de outubro de 2007, cujo texto-base teve publicação no Diário do Minho a 7 de novembro do mesmo ano. Já então eu pressentia, sob a irreverência, por vezes a causticidade, do jovem cronista, a musculada expressão de quem procura bem mais do que a flutuação abúlica à deriva do tempo.

Cláudio Lima e João Ricardo Lopes

Regressa agora, a celebrar duas décadas de poesia, com um título breve e, para muitos leitores, algo esquisito, se não abstruso: Eutrapelia. Palavra de origem grega formada pelo prefixo“Eu” – que significa bem e belo – e pelo lexema “Trapelós”, de amplitude polissémica, omisso em vários dicionários e glossários da língua portuguesa. O velho Cândido de Figueiredo transverte-a simplificadamente para “qualidade daquilo que é gracioso, chistoso, mordaz”; José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, tomo II, regista “forma chistosa de motejar”; já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, no tomo IX alarga um pouco mais o campo semântico: “modo de gracejar sem ofender, zombaria inocente, disposição de pilheriar agradavelmente, brincar amável e espiritualmente, engraçar-se, pilhéria grosseira, palhaçada, troçador birrento”, etc. Por sua vez, o Google, que regista várias entradas de natureza filológica, filosófica e ética, de divergentes, quando não opostos significados e nuances, tendencialmente valoriza os conceitos de conversa agradável, senso de humor, dito jocoso e inofensivo, etc.

E o Autor? Qual destas múltiplas propostas de natureza semântica o moveu à opção por um título que para muitos leitores se torna embaraçoso e impeditivo de uma imediata apreensão, bem como dos conteúdos que pode abranger? Ele esclarece: ao impulso que o moveu a esta solução subjaz um determinado estado de beatitude por indução (osmose?) de tudo quanto o rodeia, o interpela e o seduz. Uma espécie de filtro que tria a indiferenciada e caótica vasa do quotidiano. Veicula uma poesia que vai beber aos clássicos gregos, orientais e a alguns dos mais representativos vultos da cultura ocidental. Exige ser lida com todo o vagar e atenção, dessa forma removendo eventuais dúvidas e obstáculos ao desfrute de uma lírica adulta, bem burilada, pródiga em sugestão, estesia, brincos de retórica e de encantamento. Importa ser lida empenhadamente, em suma.

Facilmente apreendemos o quanto os prodígios da natureza fascinam o Autor e lhe condicionam o estro poético. No seu cíclico e inalterável movimento, estação a estação, admiramos aqui ora o desabrochar pletórico, ora o inelutável dessoramento e morte, para novo ressurgimento em novo ciclo vital. O eterno retorno em movimento perpétuo. Ocorre-me citar, a respeito, o grande Johann Wolfgang Goethe, quando compara a natureza a um livro: «A natureza é o único livro que oferece valioso conteúdo em todas as suas folhas».

Logo na página 13 encontramos um poema intitulado Bosch, Primavera, Museo Del Prado em que, provavelmente influenciado pela contemplação dos trípticos O Jardim das Delícias e / ou O Carro de Feno, do grande pintor brabantino, que se encontram expostos naquele Museu, observa que «encontrar no meio do sangue revolto / a pedra imprecisa // seria essa, talvez, a mais bela fonte da loucura», porque «depois de extraída tudo regressaria ao seu lugar». E na página 16 é ainda um hino à primavera que nos é oferecido num Allegro de jubilosa exaltação: «daqui observo o afã dos piscos nas ramagens / do limoeiro, / oiço o arrulhar, o trissar, / o assobiar das rolas, das andorinhas, dos pardais (…)  em maio as manhãs / fazem-me mergulhar na terra, / na profusão dos cheiros e das formas, / no frescor das ervas, / na quentura das cravinas e das rosas // arrepio-me de pensar que existo / e respiro / e escuto o tempo».

Cláudio Lima, João Ricardo Lopes e João Artur Pinto

Curiosamente, sobre o verão não encontramos nenhum título explícito, não obstante a sua sedução e a sua luminosidade permearem muitas destas composições. Na página 32, por exemplo, podemos ler o poema Agosto, em que fala no «verde azul do mar / ferindo-me como crisocola entre os dedos, / este azul onde os olhos adormecem (…)» E na página 30 repare-se neste extraordinário quadro (tela) estival, intitulado Tremezzo (região italiana da Lombardia): «lembro-me dessa tarde em Tremezzo, / do sol a pique / dos nossos corpos transpirados / à procura de uma sombra (…) os lentos degraus de granito até ao lago, / a água  refrescando-nos os tornozelos, / a lavar-nos do cansaço, / as ondas que os barcos de recreio levantavam / e que vinham de longe, / que vinham contra nós, / criaturas exangues, inofensivas, / sem culpa de nada».

O outono está aqui profusamente referenciado: na página 37, no poema O outono acena mais perto, elenca os gestos rituais de um setembro maduro e abundante: «nestes dias de lavar, brunir, / dobrar em caixas de cartão as roupas, / fazer contas de cabeça, tirar velhas compotas do armário, / despejar-lhes o bolor, lavar os frascos, / fazer polpa, cozer os marmelos, colher os figos, / conservar tudo de novo, como uma memória fresca da infância // o outono acena mais perto, / digo, o ar distraído das coisas, a subtileza madura dos frutos».  Na página 51, em Lendo Erdal Alova, poeta turco, fala do frio que secou os agapantos, das «pétalas soltas, / teias de aranha entre os caules / ressequidos», para concluir: «o outono é a estação do pouco / e eu contento-me / com tê-lo inteiro / aqui, / ou noutro lugar».

Também o inverno percorre estas páginas. No poema, a páginas 10, Sevilha, Inverno de 93, recorda «a pele das tuas mãos / (sempre tão álgidas) / caindo sobre o meu caderno // o que escreves aqui? para quê a poesia? / quem amas tu?» E lá mais para diante, evocando o cineasta russo Andrei Tarkovsky no poema O Inverno ou a Nostalghia de Andrei Tarkovsky, (página 58), é-nos dado a ler: «são agora mais frias as manhãs, / quase espetrais / atravessamos o nevoeiro, / como se atravessa a vau um espelho // os lavradores afastam em molhos a lenha inútil, / pelos campos as gralhas zombam avulsamente» Quadro rústico de grande plasticidade, sem dúvida, a fazer lembrar pintores como van Gogh. A concluir, logo na página seguinte, em Prodígios, leiamos esta quadra: «é possível trazer para dentro da lágrima / a subtil viração de certas tardes de inverno, / quando à janela as cortinas esvoaçam / e se descobre um mundo subitamente interrompido».

João Ricardo Lopes é, sem dúvida, um insaciável buscador de tesouros, naturais ou elaborados por obra do génio humano; coleciona sensações, contemplações, entusiasmos de índole estética e espiritual. Não é um turista apressado e frívolo numa correria tonta, galgando geografias de máquina fotográfica frenética, atrás de alvos banais para registo de selfies e de filmagens. Datados no tempo e situados em amplos espaços da cultura e da arte europeias, estes poemas, de tamanho e estrutura diversificados, constituem-se em precioso álbum literário daquilo que de mais belo e imperecível a humanidade foi realizando. Por aqui se movem em aparições mais breves ou mais demoradas, vultos tutelares da língua e cultura portuguesas, como Camões, Camilo Pessanha, Saramago; génios da arte universal como os poetas Horácio, Schiller, Whitman, Lorca e Seferis; pintores como Vermeer, Caravaggio e Bosch; músicos como Schubert, Debussy e Ravel. E tantos outros, cujas vidas e legados impressionaram o Poeta e o inspiraram nas digressões por museus, catedrais, jardins, monumentos, praças e avenidas, em diversos sítios tais como Creta, Londres, Milão, Madrid, Sevilha, Lanzarote, etc. Um andarilho do sonho e do mistério; do fascínio dos lugares e das coisas em que poisa e demora um olhar deslumbrado.

Encerro esta despretensiosa e limitada exposição-apresentação, lendo o poema O Cheiro da Terra (página 31), demonstrativo da faceta telúrica que esta obra também revela.

O CHEIRO DA TERRA

o cheiro mais antigo de que me lembro

é o perfume da terra

antes mesmo da fragrância húmida

do mar e da chuva,

antes do odor do papel, dos vernizes

ou da tinta,

antes mesmo do aroma dos laranjais,

ou das rosas, ou do pão

invade-me às vezes uma volúpia incerta

de caminhar descalço

sobre os campos lavrados,

de erguer punhados dessa matéria negra

e macia

– aparentada com o ardor

do alecrim e da rezina –,

caindo em torrões e grânulos

como deve cair

os cheiros são o nosso modo de rastrear

o tempo

é um mistério o que deles nos fica

e porque ficam,

um mistério

O SENHOR NAKATA

Captura de ecrã 2019-03-31, às 16.47.11

para a Céu

Na cidade de Quioto, no antiquíssimo bairro de Higashyama, numa das casas mais humildes, próxima do templo de Kyomizudera, vive o senhor Nakata.

É um artesão legítimo e completo. Os turistas gostariam de o tornar uma atração fotográfica, ao lado das aprendizas de gueixa (as maiko) e das casas de chá. Mas o senhor Nakata, como manda a boa tradição nipónica, gosta do silêncio e da sombra, prefere o seu trabalho livre das perguntas incómodas e do olhar indiscreto dos forasteiros.

A oficina fica nas traseiras da casa. Um pequeno caminho condu-lo todas as manhãs de uma à outra e devolve-o à noitinha ao ponto de partida. É uma viagem curta, mas suficiente. O ar frio das neves ou o ar morno da primavera são-lhe igualmente maravilhosos. Os telhados recurvos do templo e a fronde rosada das cerejeiras ao fundo despertam-lhe o mesmo agradecimento que a água das fontes e o perfume do musgo do jardim.

O senhor Nakata descalça-se sempre ao entrar e permanece imóvel algum tempo, até que a visão se acostume à penumbra. Aproveita esses minutos para escrever poesia.

Escreve-a de memória, às vezes repetindo-a nos monólogos, esforçando-se por usar a palavra certa no lugar certo. É, além do trabalho manual e da poesia, cultor da sopa de miso e dos banhos de água gelada, da filosofia budista (wabi-sabi) e da obediência samurai. Acredita que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior e que mil anos não chegariam para que se atingisse a perfeição. Mil e um anos, sim!

Ninguém sabe a idade certa deste homem. Dito de outro modo, ninguém sabe quantos anos faltam para se sentir preparado para morrer.

O senhor Nakata é paciente, laborioso e apaixonado. Depois de compor o seu poema (como quem apara uma folha de bonsai ou lhe extirpa uma erva), escolhe o papel, o couro, o molde, as linhas com que há de coser mais um caderno. Cose-os tão devagar como cose uns aos outros os três versos dos haiku. Para quê apressar o amor se pode nele morar e não noutro sítio?

Uma vez, depois da guerra, vieram dizer-lhe que o filho tinha sido encontrado morto num poço. O senhor Nakata manuseava a sovela, à luz escassa de uma lâmpada.  Na sua mesa via-se uma coleção de tesouras, facas, réguas, linhas, um esmeril, giz, pilhas de papel, tiras de couro de boi e de cordeiro. O cheiro das colas impregnara todo o espaço. Os visitantes afogueavam-se, dobravam-se numa mesura fúnebre, emocionados com a tragédia. Esperavam não matar o vizinho, já então velho e atingido por várias desgraças.

Sem se mexer, sem um esgar de surpresa, o senhor Nakata escutou a notícia. Aos poucos afastaram-se às arrecuas todos os que ali foram levar-lha.

O caderno que sustinha nas mãos era esmerado, impolutamente branco, cosido com precisão. Faltava-lhe o resguardo em pele com que deveria fechar-se. Era imperioso que o papel pudesse contar com essa capa de tecido animal para permanecer no tempo, para assegurar ao futuro proprietário o prazer máximo de uma escrita lenta e longeva. Aquele caderno não seria apenas mais um objeto, mas o objeto de que alguém jamais prescindiria. Diriam «Foi este o caderno que Nakata cosia quando lhe deram a notícia da morte do filho!»

O artesão prosseguiu com a sovela, abrindo um a um os equidistantes buracos da sua dor. Depois, até que a noite sobreviesse, tapá-los-ia com orgulho como quem prende a si um destino ou uma missão na terra. Cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior. Mil anos não chegarão para que atinja a perfeição. Desejá-lo em cada dia, isso sim!