Um peregrino

Fotografia de Markus Kammermann

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O homem chegou ao lugar santo seco como um poço.

Ao longo de vários dias deambulou pelos mesmos caminhos por onde outros inumeráveis peregrinos iam e vinham a rezar, a cantar ou a chorar. Fê-lo sem companhia, sem palavras, sem um pensamento definitivo acerca do que quer que fosse.

Incomodaram-no sobremaneira nesses dias as pedras tortuosas das calçadas, as edículas, oratórios e paredes sobreaquecidas de todos os labirintos daquele lugar. Perturbavam-no as grandes estátuas implorando os céus, o chão empoeirado e as fontes sem água ao longo da via sacra interminável.

Não compreendia o ofício extenuante do remorso, nem a compulsão para as lágrimas de que falavam às vezes em estranhas línguas, cujo idioma conhecia sem entender, porém, o sentido das frases.

Chamava-se Stanislaus Jakubiak. Era cientista. Declarava-se agnóstico.

Ao sétimo dia, numa das ruelas que saem da praça maior para a periferia do santuário, aturdido ainda pelo reverberar dos pesados sinos do carrilhão, avistou uma oliveira.

Era uma árvore muito antiga. Do tronco original restava somente uma parte retorcida e cambada, como se em algum momento um raio a tivesse rachado ao meio e apenas uma das duas metades tivesse aguentado o sacrifício de existir. Rodeava-a um murete de lâminas de xisto mal seguras, e entre elas, o tronco e as pequenas folhas verde-cinza, adensava-se uma camada espessa de pó.

Stanislaus assinaria por baixo uma declaração que a considerasse a melhor metáfora da fé cristã.

Detendo-se alguns instantes, viu que um pequeno pássaro de penas amarelas pulava ali e erguia o bico. E notou que das folhas desmaiadas dos ramos brotava uma flor imaculadamente branca, viva e resistente. E sentiu que do respirar harmonioso das pedras, da ave e da árvore crescia um silêncio igual ao que sentimos nas terras perdidas nos mapas.

O polaco deu-se conta de que aquele fóssil era uma casa. Formas de amor dependiam daquele escombro e provavam que nada neste mundo é tão definitivo e tão frágil que não possa surpreender-nos.

Recordou-se de um poema de Zbigniew Herbert que diz: “No pó nos enterraram a alma, / no vento nos descobrirão os ossos ainda conjuntados”.

Não tinha a certeza de que o poema pertencesse a Herbert. Nem que os versos dissessem exatamente aquilo.

Sentia-se apenas cansado. Limpava os olhos. Via as coisas.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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