Samwell Lodge

Mehmet A.
Fotografia de Mehmet A.

.

Quando entrou na igreja do Sacré-Cœur, em Paris, na tarde de 21 de abril de 2011, Quinta-Feira Santa, Samwell Lodge, empresário norte-americano, oriundo de Orlando, sentiu um aperto no peito. Possuía de algum modo a certeza de ter vivido já aquele momento: sabia que o Cristo dourado, sob a abóboda azul, lhe roubaria todo o amor; sabia que o coro das freiras beneditinas, durante o ofício religioso, o transtornaria até ao fundo da alma; sabia que a cerimónia do lava-pés iria despertar em si uma vontade incomensurável de lavar-se de toda a sujidade.

Com efeito, a vida tornara-se-lhe insuportavelmente cansativa e vulgar. Todas as ambições, que alimentou durante a juventude, pareciam-lhe agora profundamente ridículas. Todas as conquistas, sobretudo as mais difíceis, pareciam subsumir-se num desastroso sentimento de tristeza e de banalidade. Disto se deu conta certa noite, quando ao regressar a casa ouviu na rádio Brian Ferry cantar My only love e lhe pareceram escritas para si as palavras da canção:

Does it seem so funny
For a fool to cry?
Do you know the
Meaning of goodbye?

Na primavera de 2011 viajou para a Europa, à procura talvez do que procura um fugitivo: de um antro, de uma qualquer espécie de abrigo, de um cisma, de um sinal, de um fim, de uma conversão…

Enquanto, nessa tarde de abril, assistia à missa, recordou as três mulheres de quem se divorciara, os filhos que o não amavam, dos pais anciãos com quem não falava havia quase um quarto de século. Pela cabeça passaram-lhe os detestados colegas de negócios, as falácias em que persistia ao cabo de tantos anos, os golpes de mestre e os de misericórdia. Tanta gente, tanto ódio, tanto tudo!

Tarde quente essa. Tinha a certeza de que passara já por aquele instante. Nesta ou noutra vida, definitivamente não era só um déjà-vu, nem um sonho coincidente com a realidade. Acicatava-o a dolorosa convicção de que toda a sua existência afunilava desde sempre para ali e para o que dali em diante se seguiria. Doía-lhe o coração. Lutou contra as lágrimas, mas o cheiro das velas acesas, milhares de flâmulas espalhadas pelo templo, fê-lo chorar. Avivou-se nalgum imo obscuro dentro de si a recordação do futuro, esse pressentimento impérvio, incógnito, difuso, de que ele ou alguém que ele reencarnava ali regressava. Como podia isso ser? Como podemos nós voltar a um lugar onde nunca estivemos?

Ao seu lado, no banco, um jovem casal sussurrava. Ambos de pele clara, olhos verdes e cabelos aloirados. Pareciam felizes, unidos por um laço de ingénua satisfação. Também eles miravam com fascínio (lia-se bem nos olhos) as rosáceas, o Cristo Ressuscitado, o altar de mármore travertino, o estranho rito quaresmal.

O cântico das monjas ecoava outra vez, feérico, pela nave ampla e luminosa. Depois, o padre repetiu cheio de veemência as palavras de João:

– Je vous donne un commandement nouveau : Aimez-vous les uns les autres ; comme je vous ai aimés, vous aussi, aimez-vous les uns les autres.

Um pouco antes do crepúsculo o americano saiu.

Do alto de Montmartre caía sobre os céus de Paris uma poalha luminosa, cor de fogo, trespassada apenas pela silhueta pontiaguda das grandes torres e dos prédios descomunais. Perscrutava-se uma paz imensa, um silêncio incomum, interrompido ao de leve pelo trissar das andorinhas, pelo murmúrio da cidade, pelo altear ocasional de uma voz em volta.

Samwell Lodge desceu devagar cada lanço da escadaria imensa, reparando em cada um dos artistas que nesse esconderijo pintam, cantam, escrevem e filmam. No funicular passava o jovem casal apaixonado. O americano sorriu.

Em muito tempo, nem ele saberia dizer quanto, era a primeira vez que o fazia.

.

Deus

Lars Nissen
Fotografia de Lars Nissen

.

A pequena igreja enche-se com o ressoar dos tacões. O estampido cresce pela nave e sobe aos altares. Depois dele é o rumor das preces, uma longa murmuração gelada, um marulho de bocas dançantes repetindo-se.

O efeito destes dois ecos consecutivos distrai quem ali não encontrou ainda o seu canal para a Providência. O mais certo é ficar-se a mastigar à toa algumas palavras da comum ladainha.

Quando o padre pronuncia a fórmula trinitária, ouve-se o arrulhar contínuo de um bando de rolas. A espaços, no intervalo das réplicas da assembleia, o coro ornitológico torna-se mais efusivo.

Os distraídos veem apenas a movimentação teatral do sacerdote, o tom ensaiado dos acólitos durante as leituras. Mas quem busca Deus não pode ficar indiferente ao amor veemente destas avezinhas durante o cio. Há quem se escandalize com a animalesca alegria.

Mas Deus é um lugar insondável. A maior parte dos fiéis não sabe onde procurá-Lo. E se O encontra não sabe reconhecê-Lo.

Quando a eucaristia termina, os tacões voltam a ecoar nas lajes frias. Os sinos ocasionalmente repicam, mas o silêncio faz subsumir tudo outra vez.

Só as pequenas aves nalgum canto seu, sobre o telhado do templo, insistem no gemido doce. Dão entre si leves bicadas, dobram e encastoam com o vagar de ourives as palhas do ninho.

Se entendessem a nossa fala, se lhes falássemos do pecado, que belas risadas não dariam.

.

O túmulo de Vulca

Carol Leigh
Fotografia de Carol Leigh

.

Visto do alto, é um telhado de quatro águas caindo para um pátio interior (o implúvio), onde neste preciso momento se encontra Vulca, a observar fascinado um grande pássaro negro a não mais do que dez passos de distância.

É o primeiro dos oito dias da semana, dia de mercado, e Vulca aguarda visitas em casa. Como este, assistiu já a mais de meia centena de meses inaugurais do calendário etrusco, contado das neves em diante, das neves que Voltumna faz precipitar amiúde sobre Veios, cobrindo-a de uma branquidão tão bela e tão imaculada que o artista nunca deixa de se comover. Os deuses conhecem os segredos do mundo e os homens podem também intuí-los, em parte pelo menos, se não lhes faltarem a inteligência e a atenção. Tudo está à vista de todos: a natureza, mesmo as dos mortos, pode revelar-se, desde que a saibamos sentir, compreender e amar profundamente.

Vulca está intrigado.

Um pouco depois da primeira hora do dia, quando o sol atinge o zénite, vê uma revoada de corvos a descrever, em completo silêncio, círculos perfeitos no horizonte. A seguir, um deles separa-se do grupo e vem poisar na mão direita da grande estátua de terracota que virão de Vetulónia buscar. Trata-se de uma imagem em tamanho natural de Apulo, encomenda de que se ocupou nos últimos meses e onde empregou todo o seu talento indiscutível: o deus caminha em pose majestática, coberto por finas vestes que enrugam com o movimento; um pilar decorado com palmetas e um serpentar de círculos opostos e concêntricos (como esses simétricos) ergue-se do pedestal em direção ao corpo, travando-lhe o passo; longos cabelos frisados e entrançados (à maneira oriental) caem-lhe pelas costas e sobre os ombros, intersecionando-se com as pregas do manto. Na mão esquerda segura uma lira (prova de que na Etrúria se continuam os mitos gregos) e agora na mão oposta (que deveria mostrar um dedo altivo, indicador da estrada solar e das artes, e também do destino) o funéreo animal.

Vulca está ao corrente da arte dos auspícios. Sabe que o adejar, o crocitar e o olhar dos pássaros é um modo de as divindades nos ditarem mensagens, ensinamentos ou profecias, porventura inalcançáveis no seu todo. Quando a mulher, Athínia, abre uma das janelas do piso superior, a ave assusta-se, bate as asas e foge em direção ao poente. Presságio infausto, indício de que algo doloroso vai encontrar em breve na jornada da vida.

Dos dedos e dos fornos deste artesão saíram vasos e inumeráveis estatuetas, urnas cinerárias e relevos, em bronze ou barro, muitos deles representando Vanth, o demónio da morte, Carunos sovando as almas acabadas de embarcar para o reino de Aiter e de Phersipnei (outros chamar-lhes-ão Hades e Perséfone), mas jamais o fim lhe pareceu tão seu, tão cruamente exposto, ou tão certeiramente revelado como agora. Tem a certeza de que vai morrer, não um dia, mas proximamente, talvez amanhã ou daí a uma semana, quem sabe se na próxima lunação ou no ano que virá.

Tínia, divindade dos céus, ou Fébruo e Leinth, senhores da morte, ou o próprio Apulo, ou algum deus oculto, ou todos juntos, enviaram-lhe esse recado: um corvo é um sopro impossível de ignorar, ainda que sem o habitual grasnar sombrio, sobretudo se a sua pupila dilatada nos mira com a intensidade de uma pua: deve, portanto, preparar-se.

Tardam a chegar de Vetulónia.

Vulca lança mão às coisas de que sempre se serviu para trabalhar. Não pode quantificar o tempo que lhe resta, nem quer esbanjá-lo. Um pensamento acaba de o acometer: seria a sua ou a morte de Athínia a que viera anunciar o agoirento animal?

Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas. Mais insuportável do que morrer é sobreviver a uma catástrofe, e nenhuma maior do que a de perder alguém que muito se ama.

O firmamento empalideceu.

Uma cortina álgida cresce sobre os céus da cidade, sobre os telhados de Veios, sobre a cabeça encanecida deste homem que dirá de si para si que o calendário pessoal principia com o dia inaugural de qualquer facto violento e insuportável. Pode-se começar a viver ou a morrer nesse dia, ou ambas as coisas.

Vulca desenha numa tabuinha. É um sarcófago.

Um dia, saído da terra (como Tages, a criança divina), os homens passarão a polpa dos dedos e o olhar estupefacto por este túmulo. Hão de dizer que em mil anos de história deste estranho povo da Itália nenhum outro tesouro se lhe compara. Sobre o tampo, à maneira de outros tantos túmulos etruscos, abraçam-se as figuras de Vulca e de Athínia. No meio de ambos, sobre um curto ramo de loureiro, um corvo desfere sobre nós o olhar.

No interior das suas pupilas, algo nos prende. O quê, ninguém o diz.

.

Big RIP

Ben Goossens
Fotografia de Ben Goossens

.

Escreve poemas durante a noite, dentro dos sonhos, na parte mais obscura do sonhar. Quando acorda, resta-lhe na cabeça e na boca (provavelmente no interior arrefecido dos olhos, também) amontoados de cinza.

Do que escreve sobra-lhe apenas isso. Não se recorda de nenhum dos poemas ditos em voz alta, poemas seus, nascidos do contraste entre o fogo e o negrume.

Sabe que lhe agradam muito esses poemas subterrâneos. Sabe-o porque desperta satisfeito e nostálgico, a desejar ir às arrecuas ao encontro da sua alma nua.

Sabe que a alma se desnudou, pois sente frio. Dói-lhe colocar, à maneira de grandes pedras, as vulgares obrigações e afazeres sobre os pensamentos mais sublimes e leves.

Não se sente frustrado. Toda a poesia, incluindo essa que arde em segredo, está destinada a ser esquecida. Se não for por conta do alarme do telemóvel, há de ser por outra coisa definitiva – a estupidez dos homens, o fim da vida na Terra, a explosão do sol, o fim da galáxia, o Big RIP.

.

Nascer do dia

Gary McParland
Fotografia de Gary McParland

.

Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos.

Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a época do ano), o estado do tempo, o cenário com que a rua se apresenta, tudo o impressiona como se em cada manhã nascesse outra vez.

Porque se levanta cedo? Tem pressa de ir para o emprego?

Na verdade, não trabalha já. É um aposentado. Mas dá-se pressa de assistir ao nascer do dia.

Ao longo da sua já considerável vida, sempre o alvorecer (devota grande amor a essa palavra e a outras praticamente sinónimas, como alba, alvorada, aurora, arrebol, dilúculo), dizíamos, sempre o alvorecer lhe pareceu o truque de magia mais extraordinário do universo.

Sai para o terraço com uma chávena de café nas mãos, imaculadamente vestido, impecavelmente penteado e entrega-se à contemplação. A essa hora o cheiro das folhas molhadas pelo orvalho ou pela chuva, o sopro meigo e frio do vento nas árvores, o curto saltitar dos pássaros entre as telhas ou no quintal, o perfume misturado da murta, da terra e do café são como dádivas intraduzíveis.

Um pouco antes de o horizonte ser atingido de lés a lés pela labareda do sol, diverte-o a confusão de linhas esbranquiçadas que os aviões deixam à sua passagem. São traços gelatinosos, translúcidos, como aqueles que os pachorrentos caracóis desenham no cimento.

Vive com o filho, a nora e quatro netos. Ninguém em casa compreende este ritual. Ver a luz nascer, ainda que no inverno, sobretudo quando a cama tanto apetece, não é coisa de somenos importância.

Espera-se uma vida inteira pelo prazer de combinar estas coisas todas. Não há aqui qualquer toque de religião ou de poesia. Um homem em certo momento da sua vida prescinde de tudo. Menos de si.

.

«Eutrapelia» – crítica de Paula Morais

eutrapelia

.

Aquando da publicação de O Moscardo e outras histórias, tive oportunidade de referir que João Ricardo Lopes é a simbiose entre o poeta e o professor, fazendo lembrar outro grande mestre da poesia, também ele professor: António Gedeão. Ambos desenvolveram essa capacidade de viver num mundo intermédio, entre o onírico e a realidade, o mundo “sensível e o inteligível” – como designou Platão (2) ao mundo a que chamamos real e ao das ideias, equivalente ao céu em termos religiosos -, de trazer para a poesia as pequenas coisas do quotidiano e, a partir delas, buscar a eterna resiliência humana e aceitar que tudo (alegria/dor, felicidade/infelicidade, vida/morte, entre outros) é a vida e ela é feita de sonhos, de outras formas de captar o real.

Outro grande poeta, Eugénio de Andrade, no poema “Matéria Solar”, efetua uma breve reflexão sobre o seu material de escrita – as palavras – inquirindo um interlocutor virtual sobre “Que fizeste das palavras?”, “Que lhes dirás, quando/te perguntarem pelas minúsculas/sementes que te confiaram?” (3). É, precisamente, para fazer germinar essas sementes (frágeis, preciosas e, por vezes, efémeras) que os poetas as entretecem com a página em branco (em formato físico ou digital) de forma a interpretarem o mundo, o ser humano, o real observado ou imaginado, muito embora sempre de uma perspetiva pessoal. Como salienta Rudolf Arnheim: «The human mind receives, shapes, and interprets its image of the outer world with all its conscious and unconscious powers» (4).

O mais recente livro de poesia de João Ricardo Lopes é um ótimo exemplo desse processo de rememoração da vida, do mundo, convertido em palavras partilhadas com o leitor, dessa necessidade de prestar contas a um credor mudo, mas sempre presente: as palavras. Por isso, em “A vida das palavras” (5), um dos poemas que faz parte de Eutrapelia, efetua-se um pequeno périplo por um conjunto de palavras “esquecidas”, mas “tão sonoras ainda” para concluir que “as palavras nascem, vivem e morrem”; no entanto, o sujeito poético constata também que elas ressurgem de forma inusitada, daí o poema finalizar com a interrogação retórica “quem diria que ressuscitam?”

Assim, ao longo de cinquenta poemas, o leitor é convidado a acompanhar as palavras numa viagem pluridimensional: misto de sensações – ora visuais, ora auditivas, ora táteis, ora olfativas – e de memórias intelectualizadas de situações, espaços, músicas, objetos artísticos e pessoas; num regresso ao universo da infância, ao contacto com a terra e os antepassados numa espécie de reviver pueril e incrédulo do Eu, numa tentativa de resgatar as coisas simples e aparentemente negligenciáveis do esquecimento. Esse olhar as coisas com a visão da criança acabada de descobrir o esplendor, positivo ou negativo do mundo (à semelhança de Alberto Caeiro), é desde logo destacado nas duas epígrafes com que inicia a obra: uma de Emily Dickinson, a outra de Jacques Prévert.

Em ambas, o elemento comum é o pássaro, esse animal que partilha terra e ar, que esmorece se aprisionado; visto, em algumas culturas, como um emissário dos deuses, noutras como a voz do infortúnio, do amor infeliz, da ânsia pela liberdade. No caso da primeira epígrafe, realça-se o seu papel simbólico, ele representa a imaginação, a liberdade, a ausência de fronteiras, o sonho e, em última instância, a própria poesia. No segundo, o Eu deseja não parar de cantar para que os pássaros o conduzam até climas mais luminosos (“Yellower climes”) e associa esse ser volátil ao coração da criança. São, precisamente, esses alguns dos tópoi (já explorados noutras obras do autor) que subjazem à construção dos poemas de Eutrapelia: a luz e o seu impacto (“aquilo de que mais gosto/é desta luz”, “e então subitamente o sol”, “abafadores do sol”, “a luz cai mais justa”, “a luz periclitante”, “iluminados pelo assombro/dessa luz”, “interior da própria luz”, “relâmpagos” e “trovões”, “vestir um poema com sol”, “a luz límpida de Creta”, “a luz do sol”, “lâmpadas”, “sol a pique”, “a frontalidade da luz”, “o sol escorre aí”, “luz acesa”, “interior da luz”, “clareiras de luz”, “luz madura de cereal”, “luz limpa e cálida de junho”, “a luz caía”), o maravilhamento com o mundo e o colorido das flores (veja-se, por exemplo, “Allegro”, “Solstício em Creta, palácio de Cnossos”, “Tremezzo”, “Rosas vermelhas, agapantos azuis”, “Gerberas”), a persistência da concretude e da acidez de algumas vivências simbolizadas na “pedra” (“voam como pedradas”, “pedra imprecisa”, “pedra talhada”/“rocha”, “pedras”, “o branco das pedras”, “degraus de granito”, “a pedra que no poço cai”, “pedras do lagar”, “coração da pedra”), o mundo da infância associado à casa e aos avós (“O cheiro da terra”, “Noutro tempo”, “O outono acena mais perto”, “Sabão Marselha”, “Casa dos avós”), a importância da arte na construção da visão de mundo do Eu (“Sevilha, inverno de 93”, “Carnaval e quaresma, segundo Bruegel”, “Duomo, Milão”, “Pavana, Ravel”, “Natural History Museum, Londres”, “Tomas Tranströmer”, entre outros).

O primeiro poema da obra surge como uma espécie de metatexto, de texto programático, em que se explora o fazer poético do autor, a forma como ideais e palavras se vão concatenar para erigir um universo poético ao qual o autor regressa ao fim de quase uma década. Nele destacam-se os elementos fulcrais da sua visão de mundo, elencam-se os itens de que mais gosta e que perpassarão todos os poemas: “a luz”, “a voz”, a “fúria do vento”, a “memória”, as pequenas tarefas de um quotidiano longínquo e pueril (“os antigos sábados/em que esfregávamos o soalho da casa”) e a consciência da plenitude, da harmonia, da inclusão num todo de que se é uma parte: “éramos servos humildes/de uma causa maior/e nos sentíamos tranquilos/e asseados” (6). Já o último, “Prodígios”, permite encerrar essa viagem pelo universo das sensações, da simbiose entre natureza e ser humano, pelo campo das possibilidades (como a tripla repetição da expressão “é possível” deixa bem evidente). Numa sucessão de metáforas visuais (o vento a ser arado, decomposto em diversos elementos do planeta Terra; a lágrima constituída pela “subtil viração de certas tardes de inverno”, por exemplo), no apelo a diversas sensações (a audição – “ouvir o coração das pedras palpitar” -, a visão – “conhecer o mundo no desenho confuso dos dedos” -, a tátil/visual – “acordar para o fogo” -, a tátil/auditiva – “dormir sobre as águas”), na alternância contínua entre o presente e o passado, o leitor descobre um “mundo subitamente interrompido”, um prodígio, mas plenamente amado pelo “avô”.

A mediar um e outro, aparecem os restantes poemas, o material palpável da construção do universo poético do livro, aquele que correspondeu à captação da informação através dos sentidos, a sua intelectualização e posterior transformação em nova informação, isto é, visão do mundo (7).

Visão transfiguradora, à semelhança de Cesário Verde, dos surrealistas; união entre musicalidade e símbolo como Camilo Pessanha, num trazer para a poesia os efeitos cinematográficos da dança entre os quatro elementos primordiais (água, ar, fogo e terra) bem evidente em “Trovoada”; na captação desse fenómeno natural como uma espécie de dança luminosa, ao som de uma orquestra dominada pela percussão e pelo piano, conduzidos pela batuta da chuva, numa brincadeira luminosa encabeçada pelos relâmpagos que permitirá salvar o “nós” no momento derradeiro, evidenciado pela tripla repetição de “ao menos isso”.

ao menos isso,
ao menos isso,
os relâmpagos chafurdando
no espaço,
alegrando a noite,
os trovões percutindo
nos gonzos das portas,
o cheiro da terra seca
que os dedos da chuva
levantam.
ao menos isso,
saber algo acordado
em nós e para nós,
como um vibrato ao piano
que alguém toca
a horas tardias,
mesmo a tempo de nos salvar. (8)

Eutrapelia, mais do que um brincar ameno com as palavras e as situações, um procurar ridicularizar sorrateiramente determinados comportamentos/situações, é uma reflexão subtil, límpida e frágil sobre a forma como o Eu se constrói/reconstrói a partir da memória e da recuperação do olhar inocente e ingénuo da criança que um dia foi. É a procura de um sujeito pensante uno e coerente, feito da diversidade das sensações, das memórias e das aprendizagens (daí a referência à música e ao cinema – “Concerto de Aranjuez”, “Coltrane”, “Pérotin”, “Eleni Karaindrou”, “Cine Paradiso, Giuseppe Tornatore, Enio Morricone”) – aos museus e às obras de arte (“Caravaggio”, “Bosch”, “Duomo”, “Rijksmuseum”, “Rothko”), aos escritores nomeados ou detetáveis a partir de certos versos (“Anna Akhmátova”, Sophia de Mello Breyner e o poema “Ressurgiremos”, “Saramago”, Shakespeare e o “Falstaff”, “Hesíodo”), dos diálogos estabelecidos com um Tu interior ao poema ou um Vós (símbolo do leitor) que conduz à criação de um universo poético onde vida e morte são encarados como dois lados inseparáveis de uma mesma realidade, onde a fragilidade das coisas simples é evidente pela sua não valorização ou perda de memória. Fernando Catroga considera que “recordar é em si mesmo um ato de alteridade. Ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente à recordação, incita ao testemunho do outro” (9). João Ricardo Lopes enfatiza, no poema que dá nome ao livro, “Eutrapelia”, que são as recordações dos pequenos-nada do quotidiano que permitem à humanidade superar a dor e o desalento.

Eutrapelia

quando os dias forem
demasiado pesados, repetitivos, atrozes,
talvez possas recordar-te
do magnífico jarro amarelo
que renasce todos os anos
no quinhão mais sombrio do quintal,
ou das palavras sábias de Epicuro,
ou das palavras santas de Agostinho,
e amar a beleza de outro modo,
ou conhecê-la para além
das formas, das cores, do senso-comum,
medindo-a não já pela intensidade
e espalhafato,
mas pelo bem que te faz. (10)

A valorização do quotidiano perpassa grande parte dos poemas, razão pela qual em “Arte de furtar” a reflexão sobre o objetivo do furto recai não sobre aspetos materiais e sim sobre o “lugar que nos serve de refúgio”, constituído das “pequenas dádivas” da existência.

o que furtaríamos nós se pudéssemos,
se acaso nos fosse concedido o dom da invisibilidade
e o poder de atravessar com o roubo
as paredes mais impenetráveis?

que espécie de ouro poderia sobrepor-se ao mel,
às pequenas dádivas que colhemos nos dias comuns,
ao lugar que nos serve de refúgio
quando em volta as monstruosidades do tempo
tomaram posse do nosso chão?

qual poderia ser agora a arte de furtar,
a boa boca de que sairiam as sábias sentenças?

e o poema? em que bolso, leitor,
o levarás? (11)

Este poema funciona, deste modo, não só como um relembrar a importância das coisas simples da existência humana, as “pequenas dádivas” da “vida comum”, como as denomina o poeta, que rapidamente são roubadas pelas “monstruosidades do tempo” que “tomaram posse do nosso chão”, mas também como uma transferência de responsabilidade para o leitor, enfatizada pela sucessão de interrogações retóricas. Se Eugénio de Andrade interpelava o poeta sobre o uso que deu às palavras, João Ricardo Lopes questiona o leitor sobre “e o poema? em que bolso, leitor/o levarás?”. No entanto, a responsabilidade do autor enquanto construtor de mundos, agente ativo da cultura e da mudança de mentalidades não é esquecida. Por isso mesmo, em “Poiein”, o autor rememora os gregos e a forma como entendiam a poesia – ela deveria ser sempre a apologia da vida, da positividade e nunca dos conflitos, dos medos e das angústias -, contrapõe as palavras de Juan de la Cruz e destaca que a poesia é sempre (como se torna evidente em momentos históricos em que impera a mordaça e a censura (12)) uma arma, uma luz intensa, algo abrasivo e incómodo a confrontar o comum dos mortais e a instigá-lo a proceder à mudança.

vestir um poema com sol
é o que fazem os gregos desde o começo,
celebrar a vida
e nunca o dissídio de psyche e phren,
nunca o fantasma de Pátroclo
que confessa a Aquiles
a tortura do silêncio

o poema é para eles
uma coisa veemente, pulsante, viva,
incapaz de soçobrar no tempo
ou de ser vencida
pelo pó

às palavras de um poema
chamará Juan de la Cruz séculos mais tarde
lâmpadas de fogo entre as cavernas profundas
do sentido

concordamos, em suma, neste ponto –
nada queima como a poesia quando queima (13)

Porto, 13 de novembro de 2021,
Paula Fernanda da Silva Morais

Notas:

1. LOPES, João Ricardo – Eutrapelia, Fafe: Labirinto, 2021.

2. PLATÃO – A República (intr., trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira), 7.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

3. ANDRADE, Eugénio de – “Matéria Solar” (1980) in Poesia, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2000, pág. 328.

4. ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 461.

5. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 39.

6. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 9.

7. Arnheim esclarece que o ser humano constrói a imagem do mundo «(…)absorbing information through senses and processing and transforming it internelly» (ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 411).

8. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 18.

9. CATROGA, Fernando – “Memória e História” in PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.), Fronteiras do Milênio, Porto Alegre, RS: UFRGS, 2001, pág. 45.

10. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 27

11. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 42.

12. FANHA, José (org. e apresentação) – De Palavra Em Punho – Antologia Poética da Resistência. De Fernando Pessoa ao 25 de Abril, Porto: Campo de Letras, 2004, pág. 10: “Foi um tempo [o do Estado Novo] em que reinou a mordaça mais do que o silêncio e em que toda a palavra era mais perigosa do que pólvora. Por isso mesmo esse tempo encontrou na poesia o seu incêndio mais urgente. Era preciso levantar alto a palavra. Usá-la como rastilho. Viver de palavra em punho.”

13. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., 21.

.

Apresentação de «Eutrapelia» na Flâneur (Porto)

Teve lugar, ontem à tarde, a apresentação do meu último livro na Livraria Flâneur, no Porto. Senti uma grande alegria por ter reencontrado velhos amigos e por ter podido conhecer novos amigos. Se a poesia for azo para que as pessoas se conheçam e convirjam num olhar diferente sobre o mundo, então valerá ainda mais a pena. Literalmente.

A conversa em torno de Eutrapelia contou com uma recensão notável de Paula Morais, professora e amiga a quem agradeço sobremaneira o cuidado, a gentileza, o carinho enorme, tidos com os 50 poemas do livro, que visitou com acuidade, amplitude e sensibilidade exemplares. Senti-me verdadeiramente privilegiado. Muito obrigado, Paula!

No outro lado da mesa, em representação da editora Labirinto, a poeta e tradutora Sara F. Costa, que pude finalmente conhecer, emprestou a sua visão analítica e poética subtileza à leitura de Eutrapelia, transformando o espaço num momento de diálogo que muito me tocou. Também a ela quero muito agradecer, porque o que dois poetas veem juntos é uma dádiva inestimável.

A todas e todos os que estiveram na Flâneur, sem exceção (família, amigos, colegas), estendo o meu agradecimento, que não é senão o meu modo de dizer (citando Camilo Pessanha) “Que a jornada é maior indo sozinho”: acompanhado por todos, senti-me acalentado, em casa, feliz! Não pode ser maior a satisfação de um autor do que essa, a de ser lido, compreendido, (citando agora Joan Margarit) “culminado”!

.

A grande nostalgia

Anne Rose Pretorius
Fotografia de Anne Rose Pretorius

.

De algum lugar obscuro da minha memória vêm-me chegando por estes últimos dias saudades da antiga Escola Montelongo, onde frequentei o 5.º e 6.º anos, o Ciclo, como então lhe chamávamos, escola nos arrabaldes da cidade, pobre, sem cantina, sem ginásio, com uma escadaria larga que nos levava da cave ao piso superior por entre corredores mal iluminados, onde se abriam as portas das pequenas salas (a sala 1 e a sala 6 eram minúsculas) e onde o grande tesouro não se chamava “campo de jogos” (um baldio irregular, com duas balizas ferrugentas e mal equilibradas, hoje sede da Guarda Nacional Republicana), mas a biblioteca.

A biblioteca era fria, silenciosa, no remanso do rés-do-chão. Do lado de fora das suas janelas gradeadas crescia um silvado no meio de um cemitério de mesas e cadeiras partidas. Tinha três filas de mesas alinhadas e uma D. Lurdes maldisposta ao comando, sempre com o aquecedor ligado, sempre com a mão pronta para um tabefe profilático, sempre com os olhos vigilantes e maus correndo por cima dos óculos e a avisar.

– Quero tudo no sítio!

Era aqui que nos conduzia duas a três vezes por período o professor Miguel Monteiro, o mais extraordinário mestre que encontrei nesse tempo, para podermos desfrutar da leitura silenciosa, do livro que bem entendêssemos, da estante que mais quiséssemos. Só então os fechados armários se abriam. Só então, quando as lâmpadas fluorescentes brancas se acendiam todas, se podia olhar melhor e mais fundo a floresta de lombadas e se extraía das estantes repletas algo como A ilha do tesouro, As aventuras de Tom Sawyer, As viagens de Gulliver, A menina dos fósforos, O príncipe feliz, O rapaz de bronze, Como se faz cor-de-laranja, Histórias de um bichinho qualquer, tantos outros… A rancorosa funcionária (obrigada a levantar-se e a abandonar a TV Guia) rodava a grande chave metálica, fazia silvar o nariz e punha os olhos de lado, como se os quisesse escorraçar das órbitas, seguríssima de que não ia ficar nada no sítio. Era um assombro, podíamos por fim colocar as mãos no cofre. Indiferente ao desagrado da senhora, o temerário professor continuou a levar-nos àquele canto umas quantas vezes por período, permitindo assim que nos déssemos conta de como aqueles livros cheiravam extraordinariamente a madeira envelhecida, do quanto as ilustrações são poderosas etiquetas mentais, da dolorosa separação de uma página quando nos devora a curiosidade e a campainha soa.

Este início de setembro tem-me feito recordar algumas alegrias esquecidas. Por exemplo, o facto de andar nos autocarros da João Carlos Soares & Filhos L.da todos os dias (era preciso picar um passe com um número contado de viagens). Por exemplo, a mochila vermelha carregada com os manuais escolares novos (brilhantes, cheirosos, desafiadores, comprados na Papelaria Avenida do senhor Diamantino Pereira (conservo, ainda, os de Português desses anos distantes). Por exemplo, a satisfação de aprender uma língua estrangeira (no meu caso, o francês) e de poder decifrar os enigmas dos vulcões em Ciências, e de superar a paralisante confusão de xis e ípsilones em Matemática. Gostava de Estudos Sociais e de História, detestava a gramática (a morfologia e a sintaxe, em particular) e era um zero a Trabalhos Manuais, disciplina onde precisei de empregar uma grande dose de improviso, mentiras e promessas para me aguentar na positiva. Odiava Educação Musical, outra deceção da minha vida escolar, provada que ficou a minha completa imperícia em matéria de flautas, xilofones, tambores, leitura de pautas, interpretação de semicolcheias, escrita de claves de sol, cantoria.

Gostava de histórias. Gostava de espreitar a arrecadação, onde permaneciam cheios de humor (e de pó), os esqueletos humanos. Gostava de desenhar (embora me faltasse qualquer coisa de verdadeiramente artístico). Gostava de folhear os manuais e de por eles ver o mundo – as ilhas selvagens do Pacífico, repletas de cones expulsadores de lava; as belas cidades e comunas de França, com os seus vinhos e os seus queijos; os castelos e mosteiros de Portugal, especialmente os medievais (que já então sobremaneira me encantavam). Gostava de sair a correr para o Pavilhão Gimnodesportivo ou para as piscinas municipais, um e outras significando liberdade. Gostava de correr, de marcar golos, de saltar nos aparelhos, de nadar, de fugir ao trampolim e aos saltos mortais (que me trazem ainda hoje pesadelos).

Mas gostava, sobretudo, da sensação de início. Nesses dias de setembro, como nestes dias de setembro, comprados os novos materiais, organizada a capa (com os seus separadores de plástico colorido da Âmbar), preparado o estojo, o começo acarretava um misto de ansiedade e de esperança, de fé e de algum temor. Tudo dependeria (como depende hoje) das pessoas com quem nos iríamos cruzar. Se o professor Miguel foi um mestre, outros o foram também (a professora Germana Longo de Ciências da Natureza, a professor Clara de Educação Visual, a professora Ana Maria de Matemática, a bela professora Adília de Francês do 5.º ano). Outros o não foram, de tal modo nos oprimiam com o autoritarismo (jamais esquecerei o giz disparado por certa professora à testa de uma colega no fundo da sala), ou de tal forma nos desconcertavam com o seu laxismo.

Gostava nesses dias de começo de outono de pensar que um dia saberia educar os meus filhos com amor, rigor e uma boa coleção de livros. E que eles, tal como eu, amariam a quietude da sala de aula tocada pela boa luz matinal. E que eles, tal como eu, saberiam lidar com os erros e com os fracassos próprios, depurando pacientemente as suas virtudes.

Tenho os livros, não os filhos.

Não sei se o lamente, se apenas me satisfaça com o ensinar os outros. Com a expetativa, ainda assim, de que um dia algum dos meus alunos me recorde com a mesma nostalgia imensa com que falo destas coisas, e talvez me associe a uma ou a outra conquista obtida nas paredes da sua escola, a quem em jeito de balanço conceda a luz de uma dádiva, e não (como tantas vezes parece) a fama imerecida de uma prisão.

.

Céu

Céu
Foto de arquivo pessoal (2021)

.

Vou perdendo algumas capacidades. É o mais certo na vida, que as vamos deixando no lugar onde nos ficaram a infância, a juventude, os primeiros tempos dourados da idade adulta. Julguei há meia dúzia de anos ter perdido a capacidade de amar. Não decerto de sentir amor. Sente-se amor pelas pessoas que nos querem bem, pelos animais de companhia, pelos ofícios que nos destacam, pelos livros e obras de arte que nos resgatam da estupidez. Mas amar… Supus, felizmente em erro, que amar não me dizia já respeito (se alguma vez mo havia dito).

Enovela-se-nos a vida em trapos, em cordas, em fúteis caminhos de perdição. Lastima-se que o tempo haja ido tão mal-acompanhado e que, em vez dele, restasse cá dentro o que resta de um campo arrasado pelas chamas – pavorosas cinzas que ardem noite e dia, dia e noite, noite e dia. E isto sucede ao mais inócuo dos homens. À melhor das mulheres. Perde-se muito, perde-se tudo, ou quase.

Mas então, independente de nós, a vontade das coisas manda. No meu caso, mandou sem que lho tivesse pedido, ou (verdade seja dita) que o tivesse querido. A vontade das coisas trouxe-me de regresso, e fê-lo enviando (a mim, um cético, um pessimista) o melhor dos anjos da guarda. Foi em 1 de setembro de 2018.

Há, portanto, neste dia (não algo, mas) alguém a lembrar. Que o seu nome seja tão divino é outra ironia. Que por ele se tenha o inferno decidido a deixar-me não o duvido. Que me tenha nestes três anos cumulado de poesia, de afeto, de coragem, de companheirismo é coisa para alardear. Nenhuma Céu é demais na vida de um homem, sobretudo se a beleza da sua alma tiver paralelo na beleza dos seus olhos, sobretudo se a beleza dos seus olhos reverbera na beleza dos seus gestos.

Hoje estas palavras (por ridículas que me possam parecer) tenho de as deixar ditas nalgum lado. Três anos é quase nada. Mas arrisco um “quase tudo”, tão docemente mudaram a minha vida.

Muito obrigado, meu amor!

.

Eugénio e a Foz

Foto de arquivo pessoal
. Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade.

Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas partes do Porto que o final do verão torna imprescindíveis, luminosas e enxutas como enxutos, luminosos e imprescindíveis são todos os poemas do autor de Os Sulcos da Sede.

Os jardins, o cheiro das algas e da água, a pedra branca e ardente de alguns antigos edifícios, o corpo generoso das árvores (em cuja sombra nascem estátuas de bronze e casais jovens perdidos de amor), o burilar da luz no vidro alto dos prédios ou nos rochedos húmidos em frente às esplanadas, o azul do horizonte e os navios ao longe cosendo horizontalmente o oceano e o céu lembram estrofes inteiras de Eugénio:

«Um dia chega / de extrema doçura: / tudo arde. // Arde a luz / nos vidros da ternura. // As aves, / no branco / labirinto da cal. // As palavras ardem, / a púrpura das naves. / O vento, // onde tenho casa / à beira do outono. // O limoeiro, as colinas. // Tudo arde / na extrema e lenta / doçura da tarde.»

Há muito que a Foz me fascina. Para ser preciso, desde que a descobri nos tempos de caloiro na Faculdade de Letras, desde que nela e por ela aprendi (seguindo em direção ao Parque da Cidade, a Serralves, ao Campo Alegre, ou então à Ribeira, à Sé, a S. Bento) a calcular a distância entre as diversas camadas temporais do Porto e a por elas calcorrear a literatura dos poetas e romancistas que a têm como ponto de chegada, ou de partida. Pisar o chão da Foz é gostar da escrita de António Nobre e de Raul Brandão, talvez também da de Manuel António Pina e da de Rui Lage. Cirandar pelo arvoredo do Jardim Botânico é reler Rúben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen. Apearmo-nos no Largo Amor de Perdição, junto aos clérigos, torna obrigatória a lembrança da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. E nos últimos anos já não consigo descer de Miragaia à Alfândega sem rememorar, por exemplo, Intermezzi, Op. 25 de Manuel de Freitas. De todos os cantos da Invicta, da Foz sobretudo (volto a ela), chega o eco nada distante das praias de Matosinhos e de Vila do Conde, o eco demorado dos poemas de Ruy Belo. Ou a serenidade da poesia de Albano Martins, vinda da outra margem do rio.

Mas é aqui, neste pedaço da costa, que a poesia mais se acende, em especial nesta altura do ano, iluminada pelo génio de composições como esta de O Sal da Língua:

«No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos / cantar com a chuva. / A criança voltou. Corre no vento.»

.
Foto do jornal Público
.

Agora as crianças correm de outro modo, montando perigosas bicicletas atrevidas ou serpenteando turistas com trotinetes, segurando às vezes o venenoso telemóvel que as desliga da realidade. Mas a Foz é delas, ainda. Delas e do vento. Dos salpicos de azul por entre metrosíderos e figueiras. Delas e dos muros amarelos que ladeiam o alcatrão. Delas e das gaivotas que poisam sobre os curiosos candeeiros em forma de tridente. Delas e do macio aroma da relva cortada (enleando-se no cheiro do pó e no cheiro a iodo do mar). Delas e da cor indecifravelmente bela das varandas tocadas pelo rútilo da luz, digo, do sol doirando o mar.

Também deste brilho (desta exultação) dá conta Eugénio, no poema «Mar de Setembro», do livro homónimo:

«Tudo era claro: / céu, lábios, areias. / O mar estava perto, / fremente de espumas. / Corpos ou ondas: / iam, vinham, iam, / dóceis, leves – só / ritmo e brancura. / Felizes, cantam; / serenos, dormem; / despertos, amam, / exaltam o silêncio. / Tudo era claro, / jovem, alado. / O mar estava perto. / Puríssimo. Doirado.»

Junto à estátua de Camões, o mar ainda sedutor de entre agosto e setembro sopra-me o seguinte pensamento: que bom que seria se estes e outros poemas de Eugénio de Andrade pudessem nascer dos canteiros floridos da Foz, ocupando – quem sabe em bronze ou pedra – o lugar sujo dos cartazes propagandísticos e publicitários que tanto a enfeiam. Não digo que se ponha de pé uma estátua ao poeta maior deste canto da cidade (tenho a certeza de que Eugénio havia de repudiá-lo). Contudo, seria um ato de justiça que ele fosse lembrado de uma ou de outra maneira. E a justiça, ainda que tantas vezes tarda, faz-nos bem. Eugénio merece-a.

.