«No espaço de uma aula espera-se que um professor saiba, queira e possa ensinar e que um grupo de alunos possa, queira e saiba aprender.»
«Tudo o mais é admirável, decerto indelével, muitas vezes possível. Tudo o menos deve ser contraposto, esmagado com violência, como se esmaga uma barata, e varrido para o caixote do lixo.»
«Incluo entre os feios insetos do ensino a falta de respeito, as péssimas decisões superiores (provenham elas de onde provierem), a intromissão nefasta de quem não é professor e não é aluno e não respira a natureza deste anfiteatro.»
Estas e outras foram durante quarenta e cinco anos as palavras de abertura do ano escolar de que se serviu o Professor Sebastian Gruber, responsável pela cátedra de Geometria Analítica na Universidade de Tübingen.
Não consta que tivesse sido mau mestre, ou pedagogo incapaz e atávico, ou colega presunçoso e displicente, ou pessoa malquista e desprezível. Pelo contrário, era estimadíssimo dentro e fora do campus.
Todos conheciam as suas aptidões e fraquezas e o Professor Gruber conhecia-as melhor do que ninguém. Dele são, também, as palavras que a seguir se reproduzem.
«No espaço de uma aula ensina-se e aprende-se. Tudo o resto é uma perda indesculpável de tempo. E eu recuso-me a deixar que os meus alunos sejam vítimas ou beneficiários da sua expressão, em todo caso, numérica.»
Resta-nos desejar ao emérito docente as maiores felicidades, agora que, conhecida a jubilação, poderá dividir o tempo precioso da sua vida com os netos, a helicicultura e o tratado sobre fractais que vem redigindo aos bochechos.
Vivemos hoje num estranho mundo em que os vizinhos se olham uns aos outros com ar ciumento e com aquela expressão “Vós é que a levais boa!» É o resultado deplorável do desconhecimento que mantemos sobre as casas alheias. E, nesta matéria, ninguém é mais vítima deste desconhecimento recíproco do que o Padre Inocêncio.
Pobre sacerdote. Pese o adiantado dos anos, com os seus achaques de asma e do reumático e dos acessos de gota, todos lhe invejam a rotina sossegada e solitária.
«Esse», dizem as línguas compridas e os dedos estalejantes «Esse anda sempre na fresca ribeira. Ninguém o azucrina!»
E, no entanto, leitor, nada mais falacioso e despropositado.
O Padre Inocêncio arrosta como todos nós, os demais, provações e amargos de boca. Quantas vezes os seus pensamentos se inundam em segredo de tristezíssimas, e lhe sibila o peito durante as insónias, e se deixa o coração aferroar pelas tenazes malignas dos inumeráveis problemas que, corriqueiramente, lhe entram vida adentro, noite fora, alma a fundo.
Um exemplo.
Todos sabemos que ele e o rebanho de que é responsável celebraram há pouco a quadra pascal. Ouvir em confissão os paroquianos, sermonear-lhes a palavra boa das Escrituras, presidir aos cortejos da Santa Semana, organizar a equipa dos zeladores da igreja, certificar-se de que as flores brancas decoravam todos os altares, etc., não, não foi pera doce!
O Padre Inocêncio ministra as suas eucaristias de um modo solene e rigoroso. Tudo tem de passar pelo seu crivo.
Pois, leitor, ao infeliz Padre Inocêncio sucedeu-lhe no final da Missa de Ramos precisar de puxar as orelhas aos quatro jovens acólitos que, durante a cerimónia, se puseram a esgrimir as hastes de oliveira como se se tratassem de espadas. E que fizeram do Hossana uma bulha digna das melhores páginas de Alexandre Dumas.
O senhor Padre Inocêncio repreendeu-os muito. Uma missa é uma coisa séria, ou não? Seria hora e lugar para farras, porventura? Que desavergonhamento tinha sido aquele? Todos na assembleia a rir, quando deviam todos chorar, chorar de amargura em atenção à paixão de Jesus que se aproximava bíblica e inexoravelmente.
No Sábado de Aleluia, o velho sacerdote quis que se cumprisse a preceito a Vigília Pascal.
E vigiava o bom homem. Vigiava com carão severo não apenas o regresso da luz, durante a lucernário, «Christus heri et hodie, Principum et Finis…», como o comportamento dos travessos sacristães que de quando em quando (podia adivinhá-lo) se entreolhavam com um riso, com um esgar, com um subentendimento (pressentia-o) verdadeiramente malévolo.
Muito espirrou nessa noite o Padre Inocêncio. A cada atchim enterravam-se-lhe os olhos, arrascanhava-se-lhe a garganta, melava-se-lhe a voz. Tapavam-se os ouvidos. Lá tinha de erguer a sobrepeliz e retirar da algibeira o lenço encharcado de muco.
O quarteto de ajudantes lá lhe ergueu o círio e lhe segurou a caldeira da água benta, lá lhe trouxe o turíbulo e lhe levou de volta o óleo quaresmal.
Em dado momento, já numa agonia de moribundo, o Padre exclamou «Eis o cordeiro de Deus…» e ingeriu um pedaço do corpo sagrado de Cristo. De seguida, malditos espirros que não paravam, assou-se com os olhos afogados em lágrimas e ingeriu um pouco do sangue sagrado de Cristo.
E quando os paroquianos proclamavam que o mesmo Cristo não era digno de entrar em suas moradas, o Padre Inocêncio (num arranque de vómito, numa golfada sonora e aflitiva, numa cuspidela em funil que borrifou a toalha do altar, o Missal Romano e a primeira fila da assistência) devolveu-lhes Cristo inteiro!
«Bah, que puta de zurrapa!» arrepiou-se todo. E isto alto, isto para que todos ouvissem bem, que ele já mal escutava.
Mas que tinha ele afinal bebido?
Soube-se (tudo se apura onde as orelhas esticam) que os quatro mafarricos haviam, entre si, jurado substituir no cálice o vinho por vinagre. Um desavergonhamento!
«Mas olha, não fraquejaram aqueles…, aqueles… (faltava ao Padre Inocêncio o termo exato). Não fizeram como São Pedro, lá nisso… E não se atraiçoaram. Nem um só deles foi capaz de entregar os outros… Não fizeram como Judas, lá nisso, aqueles…, aqueles… (continuava a escapar o inocente vocábulo do insulto). Lá nisso, não imitaram o Iscariotes…».
E cismou o pobre homem ao longo dessa noite magnífica em que Cristo ressuscitava e a sua alergia (acirrada pelo fedor cítrico), lux in tenebris, dava aos poucos, finalmente, lentamente, sinais de se finar.
Nesse ano de 1371, ou 1372, ou 1375 (as crónicas incoincidem), um grande nevoeiro estendeu as suas mortalhas sobre a aldeia de Santa Chiara d’Oro, isto nos começos de fevereiro, ou de março, ou de maio, e tendo-a inteiramente coberto no que nela cabia (bosques, campos, o mosteiro das monjas, os casebres tortos de calcário), não mais o sol acudiu aos pomares e aos estábulos, nem aos pátios, nem às leiras de centeio, adormecendo tudo e todos num esquecimento mortal como jamais antes ou depois a pena dos cronistas pôde contar.
Era aquele povoado uma terra maldita. Ninguém amava ninguém, espírito nenhum se importava com o seu semelhante. O almocreve roubava na praça e era assaltado na falperra. O vizinho atraiçoava e era apunhalado pelo vizinho. O camponês enganava na quantidade de pão e na qualidade do vinho, mas iludiam-no no valor da prata. As que serviam a Deus escondiam sob os travesseiros e no fundo dos sonhos palavras e promessas do demónio. A ignomínia e a avareza e a lascívia tinham afogueado os corpos e enegrecido a parede das almas.
De modo que as névoas tornaram ainda mais sombrio o viver daquela gente. As crónicas anotam o castigo: a cerração durou meses contínuos, cegando os que viam e paralisando de todo os tórpidos braços que na terra ou no rio, em casa e na rua exerciam o seu ofício. Foi quando um misterioso vagamundo chegou à praça, um esfarrapado de olhos vivos e palavras poucas, um profeta, ou talvez um peregrino, um penitente, um proscrito.
Pediu guarida no mosteiro, onde sem afeto as clérigas o receberam e onde o faziam pernoitar num curro. Por quanto tempo não se sabe (as crónicas dissimulam mal esta ignorância), porém o bastante (e entre si corroboram-no as mesmas crónicas) para que lhes memorizassem este único brado: “As trevas, como o silêncio dos ladrões, guardam-se nos recessos onde vós não vigiais. Envergonhai e arrependei-vos, desgraçados!”
No dia da Santa, o décimo primeiro de agosto, todas as portas e janelas do mosteiro foram escancaradas, em todas as casas dos aldeães foram removidos os postigos, levantados os cancelos em todos os estábulos. Homens e mulheres comuns, monjas e animais expunham a sua intimidade para que o diabo não pudesse nela acoitar-se e, conhecendo as feições uns dos outros, soubessem reconhecer como Adão no Paraíso o sopro de Deus.
“Arrependei-vos!” bradava o forasteiro. “Abri a vossa morada. Deixai que nela irrompa a luz! Envergonhai e arrependei-vos, desgraçados!”
Um vento macio vindo das montanhas principiou, então, a empurrar o encordoado odioso das trevas e o sol finalmente reapareceu como uma lamparina milagrosa. Não se sabe o que foi feito do predicador, nem se a lenda recolhe alguma verdade de que valha a nossa pena.
A dos outros, a dos cronistas, escreve que a partir desse prodígio Santa Chiara d’Oro passou a ser nome próprio nestas paragens de Áquila, no coração rochoso dos Apeninos.
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João Ricardo Lopes, escritor português (escritor de Portugal), escritor fafense (escritor de Fafe), autor de livros de poesia, contos e crónicas.
Numa pequena povoação entre o Camboja, o Laos e o Vietname, os montanheses têm por costume pendurar no alto das árvores um insólito instrumento constituído por longos emaranhados de fibras atados por tiras de couro e presos a uma espécie de cravelha, que os nativos constroem abrindo orifícios em ossos de tigre ou leopardo ou mesmo viverras, e que emolduram com ripas de figueira ou paineira.
Durante a noite a humidade faz encolher as linhas paralelas e mantém-nas em silêncio. Mas assim que o sol e o vento começam a retesá-las, a floresta enche-se de um choro sobrenatural, que o nevoeiro em dispersão torna ainda mais extraordinário. «São os nossos mortos que partem outra vez» ensinam às crianças.
Os mortos hão regressar com as monções, agora é o tempo dos vivos. Metade do ano para que a memória os guarde fielmente na outra metade que há de vir.
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João Ricardo Lopes, escritor português (escritor de Portugal), escritor fafense (escritor de Fafe), nascido em 1977.
Saiu de Fiumicino em direção à Sicília, como faz todos os anos. Entrando no vulcão, cujo cone fez o tempo parcialmente derruir num amontoado de lixo basáltico, põe-se a alisar o solo cinzado e sujo onde, com a ajuda de uma vara, faz perfurações para nelas sepultar bolotas de carvalho vermelho. Lança-lhes um gole de água e persigna-se. Depois é com Deus e com a natureza.
Um ato tão incompreensível pede pelo menos uma explicação excelente.
Num dos seus sonhos de juventude, a pessoa de quem falamos viu-se num bosque primitivo, em cujo chão folhas recortadas brilhavam sob o efeito da lua e onde uma neblina translúcida se mexia a cada passo que dava. Não havia aí ruídos, intrusos, serpentes tentadoras. Via-se, nesse sonho, tão velho que as suas mãos aparentavam o aspeto calcinado de raízes. E tão feliz que não duvidou que o único lugar da terra igual ao de Adão fosse um onde a terra se pudesse reinventar, lavando-se (como num banho de vitriolagem) do bodum humano.
Aos vinte e cinco anos, já depois de ordenado, deixou aqui as primeiras sementes. Agora, no miolo do caldeira adormecida, vão brotando a esmo os miraculosos troncos da sua teimosia. Ou da sua loucura. Decidiu que a localização da choupana fica para mais tarde. Quando as árvores tiverem atingido a altura de um ciclope, virá construí-la, edificar o seu eremitério, provar a modernidade do seu sacrifício.
Onde antes era uma garganta para o inferno, Nosso Senhor quererá outro Éden. Desta vez sem Evas ou répteis. Sem anjos com espadas de fogo.
Um ato tão incompreensível deve ter outra explicação que desconhecemos.
A velha, via-se bem, lacrimejava. Não havia meio de acender o fogão maldito. Já por duas vezes os dedos trémulos haviam precisado de imiscuir-se no buraco do serrim e de retirá-lo aos bocados. Recolocou o bastão numa das bocas e pela terceira vez, via-se bem que com irritação, pôs-se a peneirar a serradura para o seu interior. Depois com o cabo da foice começou a comprimir as aparas lentamente no espaço em volta. Vinha-lhe à cabeça a história do aerograma: que dor tão funda para aquela família! Retirou o bastão com cuidado, de modo a aguentar o espaço aberto no miolo do serrim e de seguida lançou pelo largo orifício um bocado de papel a arder. Era uma tarde inusualmente fria, não se recordava de um julho assim. Curvou-se mais um pouco e recomeçou a soprar. Fazer deflagrar a chama exigia perícia, paciência, temperança. A velha não tinha filhos, mas não os ter tido não significava que não se doesse da dor dos outros. De dentro do tubo mole das aparas começou a crescer uma língua de fogo. Dentro da cozinha às escuras, o fumo rodava, entretanto, mais espesso, mais azul, mais implacável. Fazia arder os olhos. A velha, via-se bem, chorava.
Os rapazes iam para África a mando do governo. Iam e às vezes não voltavam. Como se governavam lá não o sabia a velha, que fora sempre apenas senhora do seu mundo, enterrada desde a infância nos campos e nos montes, nas singelas coisas das pessoas simples. O filho da Aninhas foi dos tais: levaram-no de pé e trouxeram-no dentro de um caixão selado com chumbo. Uma mulher, ainda que velha e solteira, dói-se dos destinos funestos dos outros. Na solidão da cozinha podia soltar as lágrimas, ainda que lágrimas dolorosamente paridas no silêncio lágrimas e talvez estéreis. Sobre as bocas do fogão colocou as grelhas e sobre as grelhas as pequenas panelas enegrentadas. África é longe, a infância é longínqua, a morte é ainda mais distante, ainda mais intransponível. Pobre rapaz!
À hora habitual, a moça subiu o lanço de escadas e deu a fala acostumada.
– A bênção, madrinha!
– Oh, filha, Deus te abençoe!
– Venho da casa da Soledade. Venho parva…
– O que foi?
– Não sabe o que aconteceu ao Sê Pereira e à Aninhas?
– Já soube, filha. Já soube…
– Chegou um aerograma da Guiné, do Torcato.
– Já sei, filha. Já sei…
A velha regressou ao bolso do avental. Limpou o canto dos olhos com o mesmo pedaço de tecido esquálido onde se assoou a seguir. Seria um daqueles gestos mecânicos que repetimos sem pensar. Depois serviu-se de uma bacia com as batatas e a cenoura que descascou com uma tristeza doente. Que espinho para uma família receber um aerograma do Ultramar um mês depois de fazer o funeral ao filho que o enviou!
– Acho que foi para uma gritaria ontem à noite. Coitados…
A velha soergue o rosto sem dizer nada.
– O Torcato mandava dizer que estava bem, que graças a Deus já pouco faltava para acabar a comissão… que neste Natal já cá estaria para casar com a Rosalina e começar a construir a casa…
Lá atrás, num dia de nevoeiro, uma mulher bastante jovem vê-se engolida pelo desespero. Uma outra, mais adulta, sopra sobre um pedaço de pedra, onde o serrim teima em não arder. «Tudo se há de arranjar, tem calma rapariga.» O fumo circula como uma cortina ofensiva, dá volta às paredes mascarradas de uma cozinha onde o mais belo fruto da vida está guardado, envolto num cobertorzinho macio. «Tem calma, rapariga. Tudo se há de arranjar. Essa criança terá um pai e uma mãe e tu terás uma vida pela frente.» «Como será isso?» «Confia em mim. Se vais para a França, deixa-a a comigo. Tudo se há de arranjar.» «Vossemecê o que fará com o menino? Cria-o por mim?» «Não te aflijas. Nosso Senhor pensa em tudo, ele há de ter pai, mãe e casa.»
– Ai, madrinha. Uma pessoa fica maluca. A Aninhas queria tanto que o marido livrasse o Torcato da tropa… Dinheiro não lhes falta, nunca faltou.
– Sabe Deus o quanto ele tentou.
– Olhe que não é o que se diz por aí…
– O povo o que sabe? O povo fala com peçonha, que é para isso que o povo serve.
– Oh, madrinha. Se ele quisesse… O moço ainda agora estava vivo!
– Cala-te, rapariga! Não sabes da missa a metade… O Pereira bem quis untar os beiços a muita gente, mas os do governo não deixaram…
A noite demorava. A velha retirava de outra bacia as folhas carnudas da troncha para as inspecionar. As palavras, via-se bem, saíam-lhe penosas, amaras, pesadas. O nariz, via-se bem, pingava. Os olhos, via-se bem, pareciam pedrinhas em brasa. Uma devastação nova caía ali, como um pesadelo renascido. Talvez dissesse à rapariga para meter um punhado de caruma e uma pinha na lareira e umas achas e um toro. Não se lembrava de uma tarde de julho assim tão fria.
Dentro da sua cozinha, apenas alumiada pelas duas bocas do fogão rudimentar, sentia-se fulminada por uma estranha traição. Vinham-lhe sempre à cabeça o aerograma, as esperanças do rapaz, as malditas quelíceras da guerra, os homens do governo que arrancavam filhos às famílias para os lançar na imensa África dos caixões numerados e chumbados. A velha, via-se bem, secava a amargura. Era preciso, em todo o caso, suportar a vontade de Nosso Senhor, fazer o caldo, sobreviver.
Antes de o calor se tornar arquejante, pode-se aproveitar no máximo duas ou três horas de frescura. Pela porta e pelas janelas abertas corre uma aragem agradabilíssima, um ventinho que amacia os pensamentos, que às vezes carrega o cheiro das praias e do mar, outras vezes traz subtilmente o aroma verde das hortelãs e dos tomateiros, e que é, em todo o caso, o melhor do dia.
O calor cada vez mais excessivo nos meses do estio é a causa deste ódio do alfaiate Iñigo Larraona à terra ancestral. Nos sonhos – se sonhar pode dizer-se do desconcerto de imagens e de pessoas na sua cabeça durante a noite – caminha amiúde por inóspitos carreiros de pedra calcária, sempre descalço, com a planta dos pés e a garganta num ardor igual, violento, de maceração e agonia. As cabras deambulam debaixo do sol em busca de uma sombra ou de arbustos que lhes matem a sede.
Iñigo conhece um sítio onde a água pode ser encontrada, água leve e límpida como toda a água boa. Fica para lá do pinheiro manso solitário, numa das encostas da colina que tem de subir a muito custo. Há um opérculo de madeira, meio escondido pelo giestal, que tem de remover. Depois há uma corda que puxa e que traz do fundo um pequeno pote de barro. Pode então saciar-se.
A sensação é ambivalente: bebe com sofreguidão, lava o rosto, molha a sola dos pés, volta a engolir o manancial prodigioso empoçado nas rochas. A água escorre, ardeja, silencia o clamor da pele. Mas é então que regressa o pânico. Onde estão todos? Onde se enfiaram os amigos? Que solidão é essa que o cerca aí de todos os lados e se torna um pesadelo tão poderoso capaz de o expulsar de si e da sua infância?
Antes de o calor cair com toda a força no país, Iñigo Larraona regozija-se com a paz das manhãzinhas. Na mesa larga do seu ofício, confirma os números com a fita métrica, empurra com gentileza o giz sobre o tecido, recorta as peças, alinhava-as. A brisa faz empolar suavemente o volume de papéis. De quando em quando interceta o fumo de algum cigarro transeunte, ou o aroma dos pêssegos capturado na frutaria da esquina. O alfaiate sente uma pena imensa que estas coisas durem tão pouco e que não as saiba guardar. Não é fácil limpar-se dos pesadelos, ou calcular com precisão o poder que eles detêm, ou compreender a razão por que tantos anos depois continua a sentir-se vazio, descalço, perdido no meio da vida.
Depois, quando o grande lume deflagra nas vidraças e necessita de encerrar as persianas, o sufoco é maior. Não lhe apetece nada, tudo é uma agressão contra si e contra o mundo. Não escuta a voz de nenhum dos vizinhos, nem o ganir dos cães. A solidão encurrala-o sem misericórdia. Não lhe apetece nada, exceto fechar os olhos. Receia, no entanto, que se o fizer, possa sentir os pés em chamas e a garganta torturada por uma sede insatisfazível.
É um homem comum, em suma. Temos razão para acreditar, ainda assim, que todas as criaturas comuns possuem um hemisfério sombrio, ctónico, sem dúvida merecedor de atenta psicanálise e da melhor literatura.
Crédito fotográfico: União de Freguesias de Fânzeres e S. Pedro da Cova (Gondomar)
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Nenhuma palavra é mais obsidiantemente procurada na obra de João Ricardo Lopes do que aquela que escreve silêncio. Em todos os seus livros, não excluindo os de ficção, ela (re)ocorre investida do peso, do poder, do prestígio de um vocábulo-fétiche (como o próprio autor reconhece [1]), em torno do qual se estrutura uma poética de recusa, cisão e reconstrução do mundo, a partir da visão minimalista que a si mesmo e aos outros impõe.
No seu último volume de poemas, Em Nome da Luz (2022), a palavra-conceito silêncio é convocada em onze das quarenta composições do livro. Significativamente, como o penitente que pratica um ato de ablução, como o neófito que encontra a sua paz, como o caminhante que descortina um sentido para a sua existência, como o criador que define uma fórmula, o poeta anota:
EM LOUVOR DO SILÊNCIO
quando precisas de silêncio,
lavas as mãos muitas vezes,
aqueces sem pressa uma chávena de café,
lês os haicais de Bashô
o silêncio, como os caminhos procurados
entre as cidades, não é absolutamente fiável –
é uma adoração apenas, uma labareda,
onde arde o teu amor
e às vezes, sem querer,
um poema [2]
.
Há aqui a verbalização – e recordo apenas o grande mestre Ruy Belo – de um ensinamento que vem confirmar que “Nenhum grande poeta terá deixado de sentir a sedução do silêncio”, porquanto “É-se poeta em exercício, não tanto pelo que se diz como pelo que subtilmente se indica ficar por dizer” [3]. Clarifica-se nestes versos, com efeito, não apenas um intuito purificador, do poeta que deseja desprender-se da sujidade (“lavas as mãos muitas vezes”), mas também – consumada a purificação – o desejo de (re)unir-se a rotinas simples despoletadoras do ato criativo, como sejam o preparar uma chávena de café, o ler os haikus de Bashô, o nutrir-se do fascínio – leia-se “labareda” – que o contacto com as coisas íntimas e despidas torna possível.
Esta grande introspeção que o silêncio traduz para João Ricardo Lopes, sinónima de catarse, de ascese, vem já embrionariamente plasmada em obras anteriores, particularmente no magnífico Eutrapelia (2021). Nele, no poema “Duomo, Milão”, ecoam com leveza espantosa os gestos que o peregrino, o asceta, o homo silens escrevem num esforço de supressão de si mesmos, num empenhamento para o vazio interior e para a busca de redenção:
DUOMO, MILÃO
as primeiras impressões são a pedra talhada,
a luz periclitante nos vitrais
depois os joelhos tocam a madeira
e as mãos tocam o rosto
a oração segregada devagar
num fio de voz
invade a rocha até ao último dos nossos pecados
o silêncio é total.
através das naves e das colunas, ele atinge
o extremo do templo
e é puro
pertencemos a outra era,
as impressões derradeiras são já distantes,
como alguém chamando de dentro de um sonho
ou chamando de outro mundo [4]
.
De que se se pode salvar, ou sobreviver, pela catarse sabemo-lo desde os gregos. A força dramática das palavras tem, a par da beleza (rudeza) lírica das suas imagens, constituído uma das conquistas mais sublimes da literatura. No caso particular da poesia de João Ricardo Lopes, poeta que conheço desde a sua inclusão na terceira e última edição da antologia Anos 90 e Agora (2005), tende esta catarse a confundir-se com fuga à realidade, ou antes com uma feroz resistência à realidade, através do alheamento e da busca de solidão, através da escolha de (dir-se-ia preferência por) pormenores dessa realidade que propendem em última instância a anulá-la: falo da realidade que o poeta decompõe e recompõe em elementos simples, insignificâncias, bagatelas, detalhes que apenas o silêncio e a atenção autorizam a conhecer, aquilo a que Jean-Luc Nancy designa por “misérias literárias” [5] e que conferem à sua escrita um ímpeto (por vezes enumerativo) absolutamente encantador.
ESTA MANHÃ O SILÊNCIO
esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas
e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar
sou agora toda a minha vida, o meu destino
e a casa estremeceu
e as palavras – ferro congelado –
doeram nas mãos [6]
.
O inusitado fundo imagético que decorre das mãos deste outrora novíssimo leva-me a recordar o agrado com que, na malograda Bulhosa, acolhi o seu Contra o Esquecimento das Mãos (2002), quando compelido a estudar a nova geração de poetas, li versos deste jaez:
de refracção em refracção afunda-se
o pensamento nos linhos da casa
é branca a tarde
na alma garimpam-se as impuridades [7]
.
Ou:
durante o intermezzo
cumprimos o possível
das enxúndias, do bodum
dos lodos nos limpámos
até sermos desta transparência de água [8]
.
Recordo, a propósito, uma conversa com Jorge Reis-Sá, que deste poeta me propôs também a leitura do seu primeiro livro, premiado pela Associação de Escritores Portugueses, em 2001. Nele, um curto poemário intitulado A Pedra Que Chora Como Palavras, surgem já – em alicerce – as temáticas que o tempo viria a permitir enovelar e desenvolver. Por exemplo, o apelo (magnetizante) da metapoesia. Por exemplo, o exercício cinematográfico dos cenários onde se faz retratar (autobiográfica ou fictivamente) a voz que se ergue das / se esconde nas paredes translúcidas do poema. Por exemplo, a musicalidade e o ritmo sincopado dos versos, quase sempre curtos e lapidares. Por exemplo, a minudência visual, o olho veemente que absorve as nuances de um anoitecer. Por exemplo, o apuramento da metáfora, muitas vezes insólita, acutilante, desarvorada. Por exemplo, em conclusão, o poder reparador do silêncio – do silêncio de que vimos falando – e que representa bem a tensão permanente entre equilíbrio e desequilíbrio de que fala Rosa Maria Martelo [9].
no outono, quando se oxidam
as folhas,
parece-se mais nítido e
perturbador o brilho dos poetas
com os cigarros no casaco
e um bilhete de comboio para parte incerta
anotamos brevemente na pele da mão
que um dia, se voltarmos,
será apenas por este pouco silêncio (…) [10]
.
Estarei, porventura, a desviar-me do ponto nevrálgico em que gostaria de fixar a atenção. E esse ponto consiste na admissão de que habitam a poesia do autor de Em Nome da Luz – insuficientemente conhecida, escassamente divulgada – apelos sucessivos a uma prática diária de limpeza, de decantação, de precisão, de higienização, insinuada mais ou menos explicitamente em poemas inúmeros onde o eu voluntariamente renuncia aos luxos literários para se comprazer com a dignidade do mínimo, mínimo esse que, paradoxalmente, transporta o máximo do ethos poético. Assim o exprime, por exemplo, no belíssimo penúltimo poema do seu último livro.
HIGIENE DIÁRIA
coisas de que um homem precisa:
dos doze girassóis de van Gogh,
dos quatro Evangelhos,
de sabão rosa [11]
.
Sublinho este apontamento. Sublinho-o, visto que me parece notório que a poesia deste autor tem evoluído no sentido de um pendor sincrético, que confunde progressivamente mais obra e autor, deixando perceber que a poesia não é para si uma mera arte de versos (como a metapoesia sugere), mas uma apologia da vida eremita, um manifesto pessoalíssimo de cosmificação [12], um caminho salvífico do sujeito pelo meio das veredas do abismo: nada lhe importa tanto como a curta vida do poema, como o poder habitá-lo seja de que forma for, ainda que possa, como tão bem o escreveu Gastão Cruz, “Tratar-se de um trabalho destinado ao malogro” [13], ainda que esse pouco possa albergar tudo quanto foi capaz de aquilatar na vida.
Será, porventura, esse o fito desta poética do silêncio de João Ricardo Lopes: incumbir ao escrito a missão de se anular a si mesmo, de se nadificar [14] no sentido em que Jean-Paul Sartre o aduz, de criar (num processo antecipado de autoapagamento) o milagre da vida e, nele, muito em particular, o parto do poema, mais ou menos como quem efemeramente desenha ou constrói sobre um areal e existe apenas porque existiu. Esse processo, assumido cada vez mais como única via, abre a porta a toda uma ordem do caos: o poeta é aquele que descobre por acaso, aquele que desvenda por acidente, aquele que encontra algo buscando outra coisa.
SERENDIPISMO
pensava em Fernando Pessoa,
em ti,
na quantidade de amor que nos exigem as palavras,
no nevoeiro sobre o Zambeze,
nas trovoadas de maio,
na nervura rigorosa de cada folha
encontra-se a perfeição procurando outra coisa,
o vazio, por exemplo
hoje relembrei os abetos de Cremona.
senti de novo a dureza do frio e o pavor do vento
percutindo na floresta
o vazio é também uma forma de serendipismo:
buscas o poema e achá-lo-ás [15]
.
Considero interessantíssimo este poema de Em Nome da Luz, título recebedor há poucos meses do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres. Todo o volume pede olhos avisados. Quem acompanha o percurso poético deste autor saberá reconhecer que ele se vem impondo um pouco em contramão (ou em contramaré), não apenas pelo destaque que confere à metáfora [16], nem pelo reaproveitamento lexical de termos já em franco desuso (ou até mesmo esquecidos), nem pelo quase monacal voto de isolamento a que o escritor se entregou (razão justificadora por si só do seu quase anonimato), como sobretudo pelo quieto movimento de compor o nada, de amar o insignificante, de acreditar piamente no inútil de todo o ruído do mundo.
DA SABEDORIA
alimenta-te da chuva,
de tubérculos ocasionais, da fruta
silvestre,
alimenta-te das paisagens,
do silêncio mais
rigoroso
a poesia, na sua essência,
é eremita.
tudo o mais é excessivo
e inútil.
tudo o mais é vento,
veneno que passa [17]
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Valerá a pena lembrar que tudo o que é “excessivo” e “inútil”, “vento” ou “veneno que passa” não cabe na poesia (“inutilia truncat” prescreveria Horácio”), tão-pouco na alma de um homem limpo, profundamente cônscio da exiguidade da vida (não sou eu quem o diz, mas o Eclesiastes).
Em suma, não existe melhor entendimento do que possa valer um livro, um poema, um verso, do que o sentimento de retidão nele defendido até ao “silêncio mais rigoroso”. Signifique esse silêncio – meça-o o leitor – o muito que significar.
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Bahia, 08.06.2023 / Paulo José Miranda
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[1] Cf. entrevista de João Ricardo Lopes à revista Novos Livros – “João Ricardo Lopes: “Dormir uma noite inteira e acordar com vontade de recomeçar a vida”, disponível em linha em https://shorturl.at/beky8 (consultado em 2023-06-03).
[2] Em Nome da Luz, Elefante Editores, s.l., 2022, p. 43.
[3] Ruy Belo, «Poesia e Crítica de Poesia», Na Senda da Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 61.
[4] Eutrapelia, Editora Labirinto, Fafe, 2021, p. 14.
[5] Jean-Luc Nancy, «Compter avec la poésie», Resistance de la Poésie, William Blake & CO, s.l., 2004, p. 24 : « Si la poésie insiste et résiste – elle résiste à tout, en quelque sorte, et c’est peut-être aussi pourquoi les poètes font souvent «figure de peintres du dimanche», comme vous dites avec raison : l’insistance de la poésie va jusq’aux formes les plus humbles, les plus pauvres, les plus démunies, jusq’à des véritables misères littéraires, jusq’au goût le plus sucré ou le plus sot pour des bouillies à demi cadencées d’ésotérisme et de sentimentalité (il y là comme une clochardisation), mais elle va jusque-là, si bas, parce-qu’elle insiste, elle demande quelque chose, et quelque chose que, je le crois vraiment, on ne peut pas réduire aux retombées petites-bourgeoises du pire romantisme (…) ».
[6] Op. Cit. (2022), p. 30.
[7] Contra o Esquecimento das Mãos, Editora Labirinto, Fafe, 2002, p. 46.
[8] Ibidem, p. 48.
[9] Rosa Maria Martelo, «Poesia e des-equilíbrios», A Forma Informe, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 9: “Se a poesia pressupõe ou procura o equilíbrio, é porque se joga no limiar de o perder e num permanente confronto com o desequilíbrio. (…) Faz parte do movimento construtivo da poesia um certo desencontro do poema com ele mesmo, isto é, o desajuste das suas próprias estruturas e a possibilidade de fazer «oscilar» (o termo é de Luiza Neto Jorge) os pressupostos que lhe serviram de ponto de partida.”
[10] A Pedra Que Chora Como Palavras, Editora Labirinto, Fafe, 2001, p. 35.
[11] Op. Cit. (2022), p. 46.
[12] O termo é de Luís Miguel Nava, que o diz assim: “Todo o acto poético é uma cosmificação. Cosmificação que se opera a partir do caos a que dá lugar a destruição da língua. Não por acaso o acto poético se chama de criação e a etimologia aproxima a poesia do fazer.” Cf. «Artaud: Tric Trac du Ciel – Uma visão de conjunto», Ensaios Reunidos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 40.
[13] Gastão Cruz, As Leis do Caos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1990, p. 35.
[14] No primeiro capítulo de O Ser e o Nada, Sartre anota: “(…) é preciso, primeiramente, reconhecer que não podemos conceder ao nada a propriedade de «se nadificar». Já que, ainda que o verbo «nadificar» tenha sido concebido para tirar ao nada até a mínima aparência do ser, é preciso confessar que somente o ser se pode nadificar, já que, seja de que modo for, para se nadificar é preciso ser. Ora, o nada não é. Se podemos falar dele é porque possui tão somente uma aparência de ser, um ser emprestado (…). Por outro lado, o ser pelo qual o nada vem ao mundo não pode produzir o nada mantendo-se indiferente a essa produção, como a causa estoica produzindo o seu efeito sem se alterar. (…)” Cf. «A Origem da Negação», O Ser e o Nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica, Edições 70, Lisboa, 2021, pp. 77-78.
[15] Op. Cit. (2022), p. 17.
[16] Bastará levar em linha de conta o que Rosa Maria Martelo assinalou, quando diz que “Creio que uma das consequências do empobrecimento da condição ontológica da poesia passa pela secundarização do papel da metáfora e pela construção de um modo de expressão essencialmente alegórico.” Cf. «veladas transparências (o olhar do alegorista), Vidro do Mesmo Vidro – Tensões e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961, Campo das Letras, Porto, 2007, pp. 86-87.
Perder umas eleições como as que perdeu Rubens van der Meer no ano passado é um golpe duríssimo. Primeiro sentiu uma fúria incontida em relação à maioria de idiotas neerlandeses que preferiram o seu oponente, Andries Michels, um tecnocrata corado e mentiroso, nascido nos viveiros políticos do partido liberal, incapaz de uma ideia desempoeirada e de uma palavra autêntica. Depois, aos poucos, deu-se conta de que o molestavam os corredores, os assentos do seu próprio partido, onde se mastigava a mesma doutrina e onde medravam à sombra cogumelos tão venenosos quanto os que via do outro lado da bancada parlamentar.
O desencontro progressivo com os meandros deste ofício de governar e antigovernar conheceu um episódio significativo na manhã de 17 de março.
Nesse dia e após horas consecutivas de chuva torrencial, Haia acordou num caos de sinalização luminosa, barreiras de proteção, agentes da polícia com oleados gesticulando veementemente: por toda a parte se via água a emergir das sarjetas, uma água suja, salgada, malcheirosa. Rubens van der Meer considerou, ensimesmado, que se usassem na câmara baixa as mangueiras dos bombeiros e lavassem com elas os gabinetes, as galerias dos deputados, a boca dos membros do governo, a massa vil de todos os que ali fazem carreira, imaginou se usassem água de pressão em quantidade suficiente para uma higienização razoável, sairia um enxurro tão turvo, tão porco, tão podre como esse ludro que paralisava as ruas da cidade naquele momento.
A decisão de se demitir não apanhou ninguém de surpresa.
E, porém, todos se apressaram a comentar a sua coragem e retidão, a remeter-lhe mensagens fraternas de solidariedade.
Rubens van der Meer não respondeu a nenhuma delas. Em vez disso, partiu em silêncio para a ilha de Schiermonnikoog, onde comodamente se instalou com a mulher, com o cão e com a biblioteca.
Na época boa, quando os ventos amainam e o mar vem enroscar-se nas dunas recobertas de gramíneas, vemo-lo caminhar lentamente pelos longos areais, descalço, sem telemóvel, aspirando em grandes sorvos o ar frio. Não podia imaginar que a fala oceânica possuísse diferentes fonemas. Nem sequer que, entre os grandes penedos húmidos, os belos ostraceiros de bico alaranjado pudessem exibir um talento tão ostensivo. A sua missão não é outra senão criar esquecimento.
Reconheçamo-lo: a obra mais pura de um homem é justamente essa intrigante forma de apagar memórias inúteis.
Perder umas eleições como as que Rubens van der Meer perdeu no ano passado pode ser a melhor coisa que sucede na vida de um homem. O arquipélago frígio é um território delicado, ele próprio fruto de um combate imenso. Quando a mulher – a bela Margriet de olhos verdes-abacate – o alcança e o abraça, não duvida que as pequenas coisas são as únicas por que vale a pena entregar a alma.
E, no entanto, não encontrou ainda um modo de esvaziar o seu ódio, os seus múltiplos ódios guardados e entranhados, o seu sentimento de justiça por cumprir. Um dia (sabe-o no mais fundo de si) espera ainda o poder de se desforrar…
«Pimenta no cu dos outros é doce» respondeu com a costumada contundência Venceslau Rodrigues.
E tendo-o dito, encarou o chefe, um indivíduo que fora homem e sorria agora petizmente, falsamente, mansamente, um tipo que se pretendera grande e luzia agora numa vermelhez apequenadora e terrível, um nédio que enganara três partes do mundo e que agora segurava nas partes extremadas da calva – hemisfericamente ridículos e ralos – tufos de uma pilosidade suja, situada sobre um crânio balofo de onde lhe saíam, por hábito, frases ocas, melódicas, melosas, idiotas.
Venceslau detestava-o. Detestava-o como se detesta um traste. Como se detesta um vendido. Um pulha. Aquele chefe era uma puta política.
«Não conte comigo. Não entrarei nesse seu jogo, Mascarenhas. Não mesmo!»
O corado recompunha o sorriso, recebia a negação com regozijo íntimo, numa mistura antecipada de ressentimento vingável e de vingança exemplar.
Escutava o vogal como o escutavam os outros todos na mesa em forma de ovo, na mesa que era a sua cabeça cintilante e ovular e quase lisa.
«Meu caro, Venceslau: o Partido (pronunciava partido com uma entoação magnífica, com uma oclusão artificialíssima da letra pê, de modo a torná-la mais explosiva), como bem sabe, nunca prescindiu do direito de cada um opinar ou de manifestar as suas convicções, ou de proferir as suas opiniões, ou de discorrer sobre as suas opções. Sempre foi apanágio deste Partido ouvir, debater, conciliar. Aprovo muito esse seu impulsivo verbal.»
O nédio olhava em volta para reclamar a unanimidade.
«O Venceslau faz-se vincar pelo apelo do coração, o que muito louvo. Este Partido, mau grado as apreciações da comunicação social e de alguma oposição, é um Partido permeável à multiplicidade de tendências e juízos…»
Na mesa comprida, oval, cintilante, sem pó, repleta de excelentes canetas de aparo e de impecável papel, os outros rostos viam, ouviam e calavam com sossego e naturalidade. A questão extremava-se. Era uma divergência entre o vogal Venceslau Rodrigues e o presidente-chefe Pompílio Mascarenhas. Uma quezília quase pessoal.
Nestas ocasiões, deve imperar o máximo silêncio, o máximo mutismo, a máxima inexpressão. Quando muito, um rosto destes (que veem e ouvem e calam) aspirar o oxigénio com um pouco mais de veemência, pode arquear as sobrancelhas, principiar o que em princípio há de parecer uma tossidela. Mas sem certezas. E, por isso, o melhor nestas lutas é não tossicar, franzir o sobrolho, respirar.
«Conheço bem a pluralidade e a democracia deste partido.» redarguiu o outro. «O que o senhor pretende é criar uma caça às bruxas cá dentro. Quer expulsar os incómodos, ponto. Admita-o, Mascarenhas! Propõe uma revisãozinha estatutária, aperta a malha, às tantas acusa, depois persegue, por fim expulsa.»
Venceslau Rodrigues falava para o invisível. Na mesa comprida e oval e cintilante, sem pó, as suas palavras caíam num dos pratos da balança. No outro sopesava o sorriso maligno de Mascarenhas. O silêncio era o fiel, a travessão, o cutelo, o próprio ato de avaliar. A questão extremava-se. Era uma divergência.
Nestas coisas, a inexpressão é imperiosa. Leitor, nem um cocegar nas mãos, nem uma tremura nos olhos, nem um pio!