. «A coisa mais triste do mundo é assistir ao espetáculo de um humorista que perdeu a piada» disseste certa vez enquanto empurravas o charuto com a língua e humedecias as palavras com bourbon do forte. «Assistir a uma trampa destas pá, que tristeza!» Não me lembro do nome do artista nem das anedotas que …
O ato terminal
. Ao colocar na varanda a sua bela orquídea, é possível que na cabeça dessa mulher tenham surgido pensamentos complexos. «Da próxima vez que tocar este vaso já muita coisa terá passado». «Se voltar a ver-te, minha querida orquídea, é porque a vida deu uma lição de força em que jamais acreditei». «Quantas vezes entre …
Cada poema é um Big-Ban prodigioso
. «Só nos meus poemas encontro morada» escreveu Jan Jacob Slauerhoff. Cito-o por não precisar de outras palavras para dizer exatamente o mesmo, por comodidade portanto. Mas por defesa também, para não me servir de argumentos mais terríveis para justificar a franciscana fortuna que juntei em quase quatro década de vida. Aos muitos que se …
Cada um de nós viaja para o lugar de todos
. . No preciso instante em que o autor destas palavras escreve a vírgula à direita, zarpa em direção a um ponto cada vez mais minguado no horizonte um batelão. Nele vai um moço de quem me afeiçoei nos últimos anos, moço generoso, antigo aspirante a um posto na Marinha, com ideias próprias, porém com …
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Sempre gostei das suítes de Bach
. Venho passear neste parque quando os dias, como sacos de gelo, pesam estranhamente sobre o corpo e o paralisam. Venho para estar só. Para não ter de olhar para o visor do telemóvel. Para não precisar de ir ao Facebook. Venho para escutar os meus passos na terra molhada. Para ler devagar os meus …
Pessimismos e happy ends: um guião, o filme
. Acordei esta manhã encavalitado num ponto de interrogação: porque somos todos tão pessimistas? Todos, sim! Ou quase todos! A esmagadora maioria dos espécimes da espécie! Pessimistas, avessos à ideia de sorte, descrentes de que o happy-end ainda se vende nos mercearias antigas e nas lojas gourmet, aziagos, autorrebaixadores, soturnos. Porquê? Eu sou um dos …
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Um povo que não ama a poesia é um povo estúpido: ponto!
. Aceitemos o facto: nós, os portugueses, estamo-nos positivamente marimbando para a poesia. Acrescentemos essa a outras famigeradas sinas: nós, os portugueses, damos o litro a escrever poesia, mas estamo-nos nas tintas para a poesia dos outros. Nós, os portugueses, como os demais povos que já foram um dia burgueses, que tiveram já na sua …
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Amélia Tarruca
in memoriam A minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo …
Duplo! sem gelo, se faz favor!
. Improvavelmente tornámo-nos amigos. Não perguntámos o nome. Aceitámos partilhar o balcão e uma garrafa de uísque. Tem um certo gosto por frases elaboradas. Com o mate melhora. Às vezes cai para o teatral. Mas não me importo: tornámo-nos amigos, aceitamo-nos com as impurezas. Prefiro que caia para o teatral do que para o lamechas: …
Sempre fui um gângster
. Sempre fui um pouco gângster. Um gângster bom, arrisco dizer. Batoteiro, apaixonado, zaragateiro, intempestivo, amante da tarefa acabada. Como todo o gângster em condições gosto de serviços limpos — sejam poemas, sejam acertos de contas — porque um bom filho da mãe não deixa nada a meio; um bom filho da mãe gosta de …
Crónica do velho adolescente
. «O melhor lugar do mundo é onde nos apetece ancorar a alma.» Não sei quem afirmou isto, se o devo atribuir a algum dos meus livros, ou se na verdade o pensei e escrevi eu próprio. A frase ginga na cabeça e é bela, apetece apanhá-la a caminho de um parágrafo. Sinto-me tão bem …
Café
Logo pela manhãzinha o cheiro do café espalha-se pela casa, intenso e delicado como os pés de uma criança. Minha mãe sempre acordou cedo. Foi ela a primeira pessoa no mundo a quem admirei o vício. Fá-lo fresco, de borra, todas as manhãs, na velhinha cafeteira de alumínio: a água ferve, depois são duas colheres …
Sempre uma questão de tempo
. . Começo esta crónica com o piano de Ryuichi Sakamoto em fundo. É uma balada tão calma, tão pungente, que um leitor mais sensível se entregaria de imediato ao devaneio por entre jardins e lagos do Japão, junto a uma casa de chá, debaixo de frondosas tílias, segurando a luva delicada de uma mulher …
Outra sobre livros
. No momento em que escrevo estas palavras estou tomado por uma fúria descontrolada, que entre outros perversos efeitos psicomotores me faz escrever cada palavra como se tivesse nascido malaio, russo ou etíope, de modo que a fúria de fúria se alimenta e às tantas estou a martelar no teclado e a fazer dramáticas caretas …
Bibliotecas
. Entre as mais poderosas imagens que o meu cérebro construiu do mundo, conta-se a do lugar imenso, insondável, sagrado, das bibliotecas. Um tal território não é apenas espaço, nem apenas depósito, nem apenas silêncio de livros. Mas verbo, verbo incontido e multiplicado, verbo prestes a conjugar-se, prestes a parir, prestes a replasmar o próprio …
