Do velho hábito de cuidar dos velhos

Anna Kudriavtseva
Fotografia de Anna Kudriavtseva

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Vejo a minha mãe a cuidar da minha avó, a colher rapando o fundo do prato, enquanto quieta, como uma garota velha, a minha avó se entregava a esse cuidado, frágil, absorta em nebulosos pensamentos indecifráveis, consoladoramente. O último dos seus vícios: um copo de vinho às refeições. Com a bênção de São Gonçalo de Amarante, cujo báculo estampado no copo alto de asa, parecia tocá-la amigavelmente. Era, na verdade, uma minicaneca. De estimação. Como todos os hábitos e objetos do final da sua vida.

Penso muitas vezes na minha avó. Na sua mudez. Na cegueira. Na paralisia. Penso em como movimentos tão simples, como o de trocar de posição na cama, ou de levantar-se a meio da noite para ir à casa de banho, ou de acender o candeeiro, ou de beber um gole de água lhe eram inacessíveis. Penso no abismo do silêncio, multiplicado pela falta de voz, de imagens, de movimentos. Penso nos seus próprios pensamentos. Em como terá pedido ao seu Deus (em noites furiosamente insones) que a levasse, que a libertasse dessa prisão do corpo e da mente, que a deixasse fora do alcance das palavras que, dentro da sua cabeça, chocalhariam sem piedade, vergastando-a.

Quando algum de nós se aproximava da sua cama (que, com o tempo, se tornou numa espécie de lugar assustador, onde um corpo morria devagar e, vivo ainda, nos ensinava os tortuosos caminhos para a morte) sentia o arrepio que se tem diante de um santo. Puxávamos-lhe o cobertor. Dizíamos qualquer coisa. Despedíamo-nos. E a minha avó emitia meia dúzia de sons guturais, decerto em agradecimento.

O quarto adquirira, igualmente, um cheiro característico. O da caixa dos remédios. O da lixívia. O do sabonete Patti. O do detergente da roupa. O da velha manta de alpaca. O do cartucho dos doces ‒ traziam-lhe sempre um cartucho de doces aos domingos ‒ e o do pão de ló. O das bananas maduras. O da madeira da mobília. O da velhice. Tudo junto. Como uma orquestra de odores desafinada.

As visitas rarearam. Deixámos de escutar-lhe os passos no corredor. Repetir as mesmas histórias, vezes sem conta, com a mão da minha avó poisada na sua mão deixou se ser possível, porque os poucos amigos da minha avó foram desaparecendo. A solidão nos derradeiros meses foi apenas contrariada pelos magníficos esforços da minha mãe e dos outros filhos, que a lavavam, vestiam e alimentavam, entre discursos e censuras começados sempre por um «Ó minha mãe…». Penso muitas vezes nessa solidão. Porque a receio mais do que tudo na vida. Porque essa solidão se transformou na minha definição de inferno. Imerecido, profunda e totalmente, no caso da minha avó…

Quando morreu, ninguém se espantou. A tristeza foi-se entranhando em nós… Não fui capaz de chorar, exceto muitos dias depois, quando na imensidão do quarto vazio compreendi que o lugar de cada pessoa é insubstituível e que a morte (pese os labirintos para onde nos foge a memória às vezes) tem em si, no seu escuro alçapão, um ser definitivo e terrível. «Não, nada será como dantes!»

Revejo os desvelos, as arrelias, os ditos por dizer, a segurança e o conforto desse último reduto, que (como num casulo) embrulharam a minha avó Amélia no fim. Aprendi tanto com a sua decrepitude! Jamais se pôs sequer a hipótese de um lar de terceira idade. Jamais se equacionou outra proteção que não a da casa. Os tempos eram, ainda, os do alto dever de «proteger os nossos velhos». Os ralhos eram manifestações de amor zangado e não de profissionalismo mascarado de amor. As chagas curavam-se com mercurocromo e tintura de iodo. Acordava-se a meio da noite para, como aos recém-nascidos, ser trocada a fralda. Se havia lágrimas no canto do olho da avó, a voz da minha mãe crescia no torpor da casa, «Ó minha mãe, você que tem?», e uma sucessão de chamadas telefónicas (para os outros filhos, para a médica, para o hospital) punha-nos a todos em sentido. Ganhar tempo contra o fim inevitável parecia, mais do que uma obrigação, uma obstinação.

Leio, agora, que o Governo quer punir os maus-tratos contra os idosos. Como se a lei pudesse pela força suprir o que o amor perdeu em força… Como se uma sociedade ‒ como esta, como a nossa! ‒ pudesse, à conta de normativos legais, reaprender a cuidar dos mais velhos. Como se uma cegueira (uma amnésia quanto ao futuro) a tivesse desabituado à ideia de que envelhecer envelheceremos todos e que, assim como fizermos, assim nos farão.

E, por isso, penso. Penso muitas vezes, aproveitando o vago marulhar das árvores nestes dias outoniços de agosto. Como se ainda fosse a tempo de alguma coisa. Penso na minha avó. Penso na minha mãe, metendo-lhe a comida na boca. «Ó minha mãe, você é pior do que uma criança…». Penso nos resmungos da minha avó. Nos sons guturais. No báculo de São Gonçalo que usaria, se pudesse, para dar à minha progenitora um enxerto. E o tempo passou. E é como se não tivesse passado…

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Talvez as palavras nos adoeçam

Jonathan Thomas
Fotografia de Jonathan Thomas

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Não sou, como muitos pensam, bom com as palavras. Sou péssimo com elas. A relação é difícil, cada vez menos pacífica. Como se o nosso amor tivesse terminado. Obceca-me o rigor das definições e dos sentidos. E as palavras obstinam-se num significar autónomo, autómato, automático, como se quisessem sentir por mim o que (real, verdadeiramente) sinto. Como se fossem a minha máscara de gesso. Como se fossem o meu dizer. Como se não houvesse mais EU do que a primeira pessoal verbal…

Detesto este jogo.  

Li e reli há dias O Estrangeiro. Senti admiração. Inveja. Senti o respeito que por instinto se devota àquilo que nos subjuga. Porque o livro de Camus é um tratado de como escrever bem escrevendo com simplicidade. Frase a frase, eloquente e inteligente ‒ simples e sincrético ‒ como o dizer dos provérbios. Ao folheá-lo em duas ou três noites de insónia, ocorreu-me o pensamento de que «Os livros não são folhas mortas, mas palavras vivas». Vivas e capazes de fazer viver…

Ando cansado…

Por mais do que uma vez pensei em desistir. Quando me encontro com velhos amigos alfarrabistas e me sinto perdido nas suas lojas vetustas, entre milhares de edições mergulhadas no esquecimento (na decadência em que caem devagar todas as coisas humanas), pergunto-me qual a razão de tudo isto. Digo, de continuarmos a produzir lixo intelectual. Digo, de ousarmos supostas eternidades. Digo, de sonharmos com melódicas citações em grandes anfiteatros apoteóticos!

Tenho preferido o silêncio…

O mesmo silêncio que amo nos primeiros dias de setembro, quando me é possível caminhar de novo em paz pelas avenidas dos plátanos e das ginkgo bilobas. Quando uma súbita bátega (com o seu trovão solitário, o seu granizo abundante) sacudiu da praia, qual revoada de moscas, os últimos turistas e, ao pisar a areia molhada, luto contra essa orfandade indescritível do tempo que passou sem deixar rasto.

Um pouco de silêncio nunca fez mal a ninguém…

Leio. Tomas Tranströmer, por exemplo. Que no magistral poema «De março de 79» (do livro A praça selvagem) confessa: «Cansado de todos os que chegam com palavras, palavras, / mas sem linguagem / parto para a ilha coberta de neve». Asfixia essa, a das palavras que nada dizem. Ou dizem tudo. Leio, portanto. Em silêncio. Para ver melhor. Para escutar mais longe. Para sentir mais fundo. Tranströmer conclui o seu poema, lendo nos mantos de neve da ilha onde se refugiou pegadas de corço. «Linguagem, e não palavras».

Talvez, enfim, as palavras nos adoeçam.

E com isto chego ao ponto de partida. Não me venho entendendo facilmente com elas. Não me entendem as palavras. De um e do outro lado da nossa comum tentação (quase vertigem) de amarmos o mundo, cresce a desconfiança de que talvez não saibamos dizer afinal o que queremos dizer. É terrível este antevislumbre do divórcio. E quem agora me lê, qual transeunte abismado (ou divertido) com um grande solilóquio, que me perdoe. Falar para os botões pode ser um excelente motivo para uma última crónica. Ilhas cobertas de neve esperam de braços abertos escritores em crise. Sempre melhores ‒ mais tranquilas pelo menos ‒ do que praias ruidosas, cobertas de multiplicadores de som…

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A última vez

Edd Carlile
Fotografia de Edd Carlile

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para a Ângela, in memoriam

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Entrei no hospital dominado pela vertigem da fraqueza, por imagens incontáveis, em ebulição, incapazes de fabricar entre si um único pensamento. Suponho que fiz um esforço, que soube manter-me firme. O maxilar dorido. O coração acelerando. As mãos subtil, sub-repticiamente suando. Disseram-me «Coragem, João». Nos corredores as pessoas choravam. Disseram «Aqui é sempre assim». Uma covardia incomensurável atravessando-se-me nas pernas, nos ombros, nos olhos. Ainda a tempo de voltar para trás, disseram «Ela está tão fraca, João». Depois o espaço ficou curto, muito curto, uma nesga, um braço, uma unha. Depois, como quem num mergulho de apneia, respirei fundo. Depois tu. Deitada, olhos fundos, sumida, lívida, transparente, como uma lua minguante. Que tristeza tão grande.

‒ Estou no fim, João!

A doença. Essa doença maldita. Nem um ano desde que me contaste.

‒ Arrumada, João!

Os meus dedos tocaram os teus dedos magros. Os meus braços apertaram o teu corpo cadavérico. Precisei de aguentar o primeiro embate, de suportar as cócegas no nariz, de descobrir as palavras certas, de absorver oxigénio suficiente. Paulatino, um arremedo de outrora. Tão perto e tão remotos os dias em que discutíamos o Benfica, os livros, os lances da vida…

‒ Estás igual. Estás a mesma de sempre… A mesma, ouviste?

‒ Posso tirar o cavalinho da chuva…

A doença. Essa doença maldita. Faláramos dela. Sabias o que aí vinha, sabias de cor cada exame médico, cada reação, cada porção de ti que se apagaria em cada sessão de químio, cada dia de inferno que se seguiria a cada dia de inferno. Sabias como tudo seria lento e veloz, inadiável e doloroso, fatal e tristíssimo.

‒ Posso tirar o cavalinho da chuva…

Tinha-te prometido um livro novo, vários livros novos. Havia uma próxima vez para as francesinhas. E outra para o teatro. E tantas conversas para pôr em dia sobre tantas coisas irremediavelmente banais e perdidas, como a poesia e o amor e a tua paixão pela fotografia. Tinha-te imaginado com um homem decente, casada, com filhos, feliz.

‒ Ainda tens tanto para viver, ouviste?

As palavras batiam em ti como num cântaro vazio. Cavas. Grotescas. Inúteis. Batiam em ti, mesmo se procurasse (e eu procurei tanto) que não batessem. Batiam em ti de um modo absurdo, como quando as palavras batem e queríamos apenas que acariciassem, que anestesiassem, que mentissem, que mentissem com o seu láudano piedoso. Elas batiam. E eu em pânico, ao dar-me conta que queria dizer «Como pudeste tornar-te tão frágil?». Assustado com o poder sussurrar «Como pôde isto ter acontecido?». Mordendo a língua para calar todas as lágrimas que borbulhavam desde o sopé da garganta. «Como?», «Como?», «Como?».

‒ Esta doença é tramada…

E sorriste. Sorriste do modo como sorrias sempre às verdades. Como quando me disseste uma vez que «Os lençóis são o lugar onde mais se mente», porque «Enquanto o diabo esfrega um olho já o fizemos a um amante, a uma criança ou a um doente». Sorriste do modo como sorrias sempre ao desencanto e à fatalidade das coisas. Do modo como sorrias no fim de me contares sobre as tuas viagens, sobre os teus sonhos antigos, sobre um gasto supérfluo. Sorriste do modo como quando sorrias para dentro, do modo como sorrias aos pensamentos e imagens desencontradas da memória e uma profunda tolerância descia sobre  ti e te aceitavas e sabias que «Tudo passa».

‒ Perdemos tanto tempo com coisas que não prestam… Olha, por exemplo, nunca disse à minha mãe «Mãe, eu amo-te!». Porquê, João?

Porque o tempo nos confunde.

‒ Porque não dizemos às pessoas que as amamos, João?

Porque o tempo nos distrai.

‒ E depois o tempo falta-nos…

Porque nos julgamos eternos. Porque nunca se está preparado para outra coisa que não o agora e para sempre. Porque.

‒ Posso tirar o cavalinho da chuva, João.

E o nariz tremeu. Cócegas, prurido, uma careta imensa. Essa doença maldita. A magreza insuportável do corpo, o crânio despido, o respirar roufenho dos pulmões, as intermitências da razão.  Sabias o que aí vinha. Sabias de cor cada passo de cada passo.

‒ E depois o tempo falta-nos…

Os olhos exorbitados e tristes, tristes e exorbitados como todos os olhos que se despedem. Pequenas frases arfantes, truncadas, cheias de nostalgia, penduradas à boca como um resto.

‒ Estou no fim, João!

Essa doença que continua a doer. Mesmo depois do depois. Mesmo depois.

‒ Estás igual. Estás a mesma de sempre… A mesma, ouviste?

E tu sorriste. Daquele modo como sorrias sempre. Com infinita tolerância, como quem sabe que nunca se regressa de um encontro com a morte. Como quem sabe que ela está à espera, a uma nesga, a um braço, a uma unha. Como quem sabe que o tempo confunde, ainda agora e já. Como quem nos vê pelos nossos olhos, uma porta que deixámos de reconhecer,  o elevador, o parcómetro, as ruas, o céu crepuscular…

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A solidão

Willy Marthinussen
Fotografia de Willy Marthinussen

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A televisão ainda ligada não tem réplica. O som atravessa as paredes, evapora-se ou subsome-se, não sei, transforma-se em rumor, decompõe-se em nada ou alcança o tudo, não sei. Sobre o sofá o homem respira. O sofá é invólucro da mesma tristeza: ganhou as formas do corpo, prende-o, afunda-o, dita-lhe uma espécie de submissão. Agosto. As esplanadas vemo-las à pinha, animadas, repletas de um sentimento confuso de narcisismo e inquietação. Não longe da sua praia, do seu jardim, da sua discoteca da moda. Férias de verão. Gargalhadas e ditos prazenteiros fendem as ruas. As luzes aclaram os becos, tornam acessíveis a torre da catedral e as margens do rio, por onde barcos se remansam e namoram. Há lojas abertas até tarde. Os turistas pagam com gosto. A felicidade é mais barata aqui e agora. Em contrapartida, do outro lado destas palavras, o aparato de paredes sombrias, o rumor de uma televisão, o verão decaindo, entrincheirado.

O homem ergue-se a custo. Enverga uns velhos calções de malha, uma t-shirt desbotada, uns chinelos miseráveis, pensamentos, pensamentos, pensamentos. Etilizados. Desconexos. Aborrecidos. Absurdos, na maior parte. Decadentes. A cair na nuca, ao ritmo dos goles de cerveja e de vodka, às vezes. O homem, dizem, foi outro homem. Nunca se sabe bem o que torna um homem noutro homem. Escreve. Dizem que escreveu a tarde toda. Menos e pior do que se desejaria. Escreveu.

«A noite fecha-se sobre mim. Engole, prende-me ao chão. Tenho o corpo rente a outro corpo, respiração com respiração, suspenso. E é quando as palavras são mais silêncio que o peso delas mais pesa. Como pedras chocalhando na cabeça, magoando o coração, ensanguentando a boca, elas pesam. Tenho o corpo rente à terra, rente à respiração das suas veias, rente aos túneis que escavam em profundidade até ao nada. É a consciência. Escuto tudo: a terra, a respiração, a torpe moleza dos meus pensamentos: como fui capaz de tornar-me nisto? Isto 

«A noite é um saco plástico, asfixiando. Arde-me nos pulmões. Os anos que tenho acumulados ensinaram-me pouca coisa. Aprendi de menos. Talvez seja, ao fim e ao cabo, um imbecil! Na ponta dos dedos, sobressalta-me um resto de prurido. O corpo, preguiçosamente, responde com desânimo. Talvez não seja ainda tão tarde. Respiro na respiração do vazio. Nunca é assim tão tarde. A voz inaudível da terra repercute-se nas minhas veias. Não, nunca será assim tão tarde!» 

«A noite abre alçapões temíveis, memórias, corredores interditos, escadarias para o além. Solipsista? Talvez! Nosomaníaco? Li Cioran. Niilista, antes mesmo de o ler. Incapaz de compreender o mal de que padeço, se porventura de algum padeço! Os outros não valem sequer o esforço de os sopesar na minha língua. E, apesar disso, sei que me olham como a um borra-botas. Um roto. Um descalço. E talvez não mereça o chão que trago aos pés. E talvez caminhe só e tortuosamente, como um louco. E talvez o silêncio seja já a soma de todos os ruídos que não distingo! E talvez pergunte, como outrora num poema, EXISTO?» 

«A noite revolve as entranhas, o negrume, as falsas gavetas do tempo. Sinto tudo. O ar que perfura cada alvéolo e sai de supetão, num movimento de fuga pelo espaço. As paredes cardíacas, trepidantes, monstruosamente vivas sob a pele. Os pássaros necrófagos que vêm empoleirar-se diante dos olhos. Sinto tudo. O ser e não ser da matéria. O eco. A dor macia do coração abrindo e fechando. A paz que o sono traz, quando por fim me deixo vencer. Sinto tudo. Tudo!» 

«A noite corre e escorre. Escorraça. A noite é uma espécie de morte branda. E a morte é um belo pedestal. Imagino-me morto, desintegrado, limpo, esquecido. Imagino-me da mesma liberdade dos átomos rebeldes. Corpo reingressado no cosmos. Sem medo agora da malha das metáforas, das alegorias, das ideias. Sem medo de caminhar, perdido na eterna revolução das partículas.» 

«A noite fecha-se sobre mim. Engole-me. Em breve o sono virá. Nada temo!»

O homem ressona. Ao redor, um pasmo de objetos derrubados, conspurcados, inutilmente empilhados. Lixo. O homem sabe que em breve pertencerá à mesma casta das formas não-existentes ‒ da não-formiga, da não-estrela, da não-gota de água, da não-poeira. Dorme. A televisão, sempre ligada, emite sons ininteligíveis. Do lado de fora, nalguma praça principal, risos e falas contentes. Cães ladrando. Automóveis circulando devagar. Tilintar de copos. Portas abrindo e fechando e abrindo. Lâmpadas e candeeiros. Poderosos holofotes. Torres de telecomunicações. Um helicóptero. O trapézio da Ursa. Constelações. O espaço.

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Lembro-me de tudo

Fotografia de Örvar Atli Þorgeirsson

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A praia esvaziava-se até à melancólica reunião das gaivotas. Era então uma profusão de sulcos em forma de cunha e gritos selvagens. O ronco do mar, com o ir vir das ondas, desfazia-se num som borbulhante de espuma e cansaço, como se também o mar arquejasse e pedisse a noite. O vento erguia nuvens de poeira e tornava-se cada vez mais forte e frio, fazendo oscilar as bandeiras das marcas de gelados e as tolhas coloridas, ao longe, nas varandas dos prédios. Era essa a hora amada. Um pouco antes do sol-pôr, na travessia final do dia para a noite, quando podia caminhar praticamente só pelo areal e sentir os pulmões inchar com a mescla de elementos contrários, húmidos e enxutos, vindos das entranhas do oceano e das dunas áridas, onde rizomas resistiam e abrigavam um sem-número de ervas aromáticas.

Da planta dos pés às circunvoluções do cérebro, todo o meu ser habitava ali e ali se deixava habitar pelo tempo e o espaço. Às vezes a brisa fazia enfunar o casaco de malha e o capuz parecia tenso, como a vela de um navio. Não raro, a respiração do sargaço fazia-me recuar até à infância mais remota, até antes das minhas primeiras memórias, aquietando-me num pensamento infindável de paz e bem-estar. Era como se tivesse sempre pertencido a esse instante e tudo antes não tivesse passado de um desvio involuntário. Eu era aquela ali!

Caminhava primeiro para norte e depois em sentido oposto. O calção arrepiava-se com os salpicos de alguma onda mais veemente, álgida, cansada. E depois com os salpicos quentes de alguma represa pueril, deixada para trás, no seu tortuoso desenho de canais e torres de areia molhada e onde permaneciam agora algum caranguejo ou alguma estrela tresmalhados e sem vida.

Foi assim que nos conhecemos. Julgo que o destino nos faria aproximar de uma ou de outra maneira. O primeiro vislumbre aconteceu numa dessas evasões de agosto, quando me deixava guiar pelos cheiros e pelo recorte azul acinzentado das montanhas galegas.  Tudo muito simples, espontâneo, quase sem história. Não sei qual das duas reparou primeiro na outra. Nem como chegámos à palavrosa descoberta das coisas comuns. Tudo singelo e doce, como numa canção. Sem sobressaltos. Sem a urgência de um reencontro, de um nome, de um perfume. Tudo crepuscular e delicado, como blandícia de uma voz ou de uma brisa.

‒ Olá!

‒ Olá!

Sorrias. O teu sorriso era, ele próprio, um lugar dentro da paisagem. Foi assim que nos conhecemos. Saía do meu casamento. Devorada pela incompreensão, adendo devagar, esboroada pela dor e pelas traições, pelo nojo… Caminhava sempre com os olhos enregelados, como se um vidro maldito os tivesse aprisionado e subjugado. Caminhava a essa hora, em que o dia e a noite dão as mãos e se despedem e nos pedem uma derradeira prova de coragem. Dizias amiúde:

‒ A primeira coisa que amei em ti foi os teus olhos… Tão tristes…

Foi assim que nos conhecemos. Até que eu própria descobri o meu amor por ti. Quando tive a certeza de que talvez pudesse não voltar a ver-te e me queimou uma sensação precoce de perda.

‒ Não quero que partas!

E tu sorriste. E o teu sorriso era um lugar dentro da paisagem, onde, como num pingo de âmbar, se deixava antever o futuro, selado e transparente, irremediavelmente perto e intocável.

‒ Lembras-te de quando nos conhecemos?

E eu sabia que cada instante vivido contigo era agora um acumular de memória. E eu sabia que aquele primeiro vislumbre se parecia eternizar, mais vivo do que tudo o que vivera.

‒ Lembras-te de quando nos conhecemos?

E eu revia o teu vestido salmão, a tua pele morena, os teus pés descalços, o teu olhar penetrante, meigo, inquiridor, faiscando como um pequenino carvão indecifrável.

‒ Lembras-te de quando nos conhecemos?

E eu sabia que partirias primeiro, que te velaria numa mágoa sem fim, que regressaria a este areal, que caminharia só, nesta hora de abandono, em que uma espécie de espuma gélida se segrega do ventre rumoroso do mar.

Lembro-me de tudo. Das noites que se seguiram. Dos rostos sombrios sobre nós. Dos paredões de ódio contra o nosso amor proibido. Das incertezas e dos choros. Das noites que se seguiram. Da solidão que é maior quando ousámos enfrentá-la. Da praia vazia. Das nuvens ofegantes e dolorosas, carregadas de grãos de areia. Dos anos que vivemos recompreendendo tudo. Da felicidade inesperada que nos abriu, qual gazua omnipotente, o sentido de todas as coisas. Lembro-me de tudo.

‒ Amor e morte andam sempre por perto. Como a terra e o mar. Como o dia e a noite…

Lembro-me de tudo. Das palavras que dizias, vindas de não sei que país inabitável. De que premonição terrível. De que sabedoria tua, temível, temida…

Foi assim que nos conhecemos.

E quando soube que amar-te era possível, deixaste-me. Aos poucos. Primeiro, no cimento intransponível de uma casa onde me não deixaram entrar. Depois, nas paredes brancas de um hospital, onde me aceitavam, fugaz e criminosa, como um gato. Porque era proibido o nosso amor, e eu soube que era possível amar-te.

Lembro-me de tudo. De saber então, quando aqui partilhávamos o lusco-fusco, que um dia, passassem os anos mais depressa ou mais devagar, este lugar me serviria de refúgio. De saber então, quando a felicidade crescia e me curava as lentas feridas de um outro tempo, que um dia regressaria aqui, como regressam todos os que amam aos lugares onde descobriram o amor. Lembro-me de tudo!

‒ Olá!

‒ Olá!

Sorrias. O teu sorriso era, ele próprio, um lugar dentro da paisagem. Foi assim. É sempre assim. Porque o amor nos escolhe e não o contrário. Tudo muito simples, espontâneo, quase sem história. E tu dizias, dizias muitas vezes, e eu queria que o dissesses:

‒ A primeira coisa que amei em ti foi os teus olhos… Tão tristes…

E eu sabia (sempre o soube, desde a primeira vez que nos vimos) que o destino nos faria aproximar de uma ou de outra maneira. Porque o amor nos escolhe e não o contrário. Mesmo contra rostos sombrios. Mesmo obrigando-nos a quebrar paredões de ódio e de betão. Mesmo depois da morte.

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Tudo gente boa

Rui Palha
Fotografia de Rui Palha

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Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de toda a gente. E a compreender, a consolar, a aconselhar, a passar a mão pelo ombro, a dizer «Vai ver que sim! Vai ver que sim!». E a contar algo meu, a explicar que isto custa a todos, a mostrar que não há nada mal nenhum em ser-se frágil, querendo ser-se forte, nas coisas que nos tocam mais fundo.

Sempre fui incapaz de ignorar uma boa história, mesmo se para a conseguir me arrisco a uma reprimenda. Porque é fácil exasperarem-se comigo, pelo tempo que demoro nas lojas, na rua, no gabinete, na sala de espera, no parque de estacionamento. Só para me despedir do colega, da moça do balcão, do amigo reencontrado, do pedinte, do transeunte estrangeiro (de guia turístico em punho).

‒ João, vens?

‒ Já vou, amor! Espera só um bocadinho…

Aprendi este ofício com Maria Antonieta, vendedora ambulante, peixeira, na cidade do Porto, quando lá vivi, nos tempos universitários. Aprendi com esta profissional da psicanálise o costume de ler nos olhos e de entrar, com licença ou sem ela, nos corredores complicados da alma e da cabeça de cada pessoa. Aprendi-a como se aprende o jargão, ou uma anedota, ou um trejeito, ou seja, à conta de tantas vezes conversar consigo, de me rir consigo, de lhe entregar confidências, de lhe escutar outras tantas à puridade.

‒ Olha, olha… O senhor doutor da mula ruça!

‒ Bom dia, dona Maria Antonieta…

‒ Ó caralho, que cara é essa?

‒ Cansaço… Estive a fazer noitada…

‒ Menino, cara de enterro não faz dinheiro! Cara de gente é que é sempre para a frente!

E trepávamos os dois a escadaria íngreme da rua da Bandeirinha; ela, de avental plástico e com a canastra sobre uma rodilha na cabeça, saracoteando as ancas; eu, com o saco a tiracolo e a Teoria da Literatura do Aguiar e Silva debaixo do braço. Enquanto não desembocávamos na praceta, ficava ao corrente da humanidade vizinha: das maleitas e da solidão da dona Esmeraldina, octogenária com filhos mas sem família; dos cornos do Freire, a quem sempre faltou coragem para o suicídio; dos calotes da Magali, beldade da rua que diziam ser acompanhante; da condicional do Francisco Terra, regressado meia dúzia de dias antes de Paços de Ferreira.

‒ Tudo gente boa. Conheço-os como a palma da minha mão…   

E eu, dividido entre as mamas da Magali e o descontrucionismo de Derrida, a aceitar a explicação.

‒ Tudo gente boa… Dava um rim por esta gente, menino… São meus fregueses e meus amigos… Quando for dar aulas, vai ver como se afeiçoa depressa à miudagem…

‒ Sei lá se vou dar aulas…

‒ Ó caralho, que anda você a fazer com os livros?… A passeá-los?…

Aprendi a ir ao fundo das coisas, a deitar a rede onde o parece ser em menor número e miúdo, quase insignificante. Aprendi-o com jeito, com modos, com arte, com a intuição de que por detrás de cada rosto se esconde uma vida, com o respeito que se exige a cada mágoa e a cada miséria.

‒ Ó Xico, fica lá com meia dúzia de chicharros, homem!

‒ Hoje não.

‒ Caralho, se tos dou, é porque hoje vais ficar com meia dúzia de chicharros…

E o Xico anuía, com o cigarro amolecido, barba por fazer e olho inseguro, relampejando a cólera e a aguardente.

‒ Olha lá! Tira-me esse cu do sofá e vai dar uma volta! Deita-me o olho ali à velhota. Ela que tome o remédio. Se precisar de ir à farmácia, diz-mo tu, ouviste? Tira-me esse cu de casa…

E o Xico dizia que sim com a cabeça, agradecia em monossílabos, aceitava um pouco de luz pelos intervalos da sua paliçada.

Fiquei com o costume. Absorvi-o à medida que me foi parecendo ser mais e mais urgente espalhar essa luz por outras humanidades. Porque a humanidade, em geral e decerto em particular, vive como uma toupeira, escavando às cegas e vivendo sem alegria. Sei que irrito, que aborreço, que prolongo um simples encontro casual, uma compra, um pedido de informação, um «olá», num acontecimento, às tantas numa gargalhada, algumas vezes numa lágrima à esquina do olho.

Tenho escutado reprimendas, avisos, ameaças. Tudo porque acredito nas coisas boas que guardamos em silêncio. Porque gosto de viver menos depressa e ir ao encontro da alma. Porque, como a varina, prefiro o ritual da luz, a multiplicação dos gestos e das boas palavras.

‒ Tudo gente boa, menino…

Ela, indo-se embora, deixando um rasto brilhante de escamas no empedrado. E os moradores à janela, a cismar, a fumar, a esperar pelo dia seguinte, pela hora do aceno, do cumprimento, da companhia.

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Crónica de um amor sem tempo certo

Dmitry Borisov
Fotografia de Dmitry Borisov

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E foi assim que nos vimos de novo ao cabo de tantos anos. Uma ânsia capaz de guindar as tripas à boca. Sorriso miudinho. Nervoso. Incerto. Palavras curtas, entrecortadas, cheias de salamaleque. Tu, quase sem rugas, com o estupendo ar de quem regressa de uma viagem pelas ilhas gregas. Eu, mais frágil, curvado, capaz de jurar que o tempo passou em duas velocidades por nós. O que tens feito? O que fizemos? Passou tanto tempo. Os teus olhos continuam belíssimos. Mas não convém falar de beleza, que é, segundo a tua própria lição, efémera e enganadora. Eu continuo a dar aulas. Tu vens de Bruxelas, não é assim? Ainda no Parlamento Europeu? Mãos incertas, passeando-se pela mesa, sobre os joelhos, nos braços cruzados e descruzados. Apetece um cigarro. A beleza pode provocar calafrios. Foi já há tanto tempo. Como pode acontecer-nos? Acontecer-me isto? Corriges. Não, Miguel. Trabalho na Comissão. O Parlamento é em Estrasburgo! Claro. Desculpa. Confundo sempre. Uma ânsia destas parece um terramoto ao longo das vísceras. Bolas, estás estupenda. Uma mulher feita. Quando te conheci eras uma criança. De algum modo foste sempre uma criança na minha cabeça. Mesmo durante o breve amor que tivemos. Nessa altura éramos um puzzle impossível de preencher. Olha-te bem, agora. Rosto sereno. A pele tratada. Unhas longas e delicadas. O sorriso esmaltado e branco. O ritmo das frases. O tom seguro com que pedes. Conta-me coisas! Casaste?

‒ Não casei.

‒ E tu?

‒ Mais ou menos!

E as chávenas de café chegam dolorosamente para interromper a primeira revelação. Sempre odiei o amor. Sempre achei que todos se amavam neste universo de sete mil milhões. Todos menos eu. Todos odiamos o amor. Até que um dia alguém nos faz acreditar que uma pequena porção da sua loucura nos foi reservada. E aí amamos o amor. Pertencemos ao exclusivo clube dos que têm sorte. Dizemos que talvez tenha valido a pena o sacrifício, a espera, a deceção…

‒ Então. Conta lá!

‒ Vivi com uma pessoa durante algum tempo.

‒ Ah, sim?

Mas tu esquivas-te. Do assunto fugimos ambos. Porque há coisas que não se explicam. Melhor assim. Seguras a chávena com ambas as mãos, ao teu estilo. Sopras juntando amorosamente os lábios. Depois pedes uma pedra de gelo e um copo e canela em pó. Tinha-me esquecido desse teu ritual. Acho-o delicioso, deliciosamente presente, aqui e agora! Gosto de te ter. Pedes-me que te contes coisas, a vida, a minha disponibilidade para talvez amar. Sou incapaz de omitir-te seja o que for. Conto-te tudo…

‒ Não casei… Nunca vou casar… Sou avesso a tudo o que me querem…

‒ Miguel, Miguel… E as mulheres que não te largam… Como lhes explicas isso?

Uma súbita tristeza abate-se sobre o granito da esplanada. Sobre as paredes da igreja. Contra as casas e as janelas e as sardinheiras resvalando das varandas. Escureceu. As nuvens cortinam a luz forte de maio. Não sei como responder-te. Talvez não queiras uma resposta. Talvez não devêssemos ter perguntado sequer. Quantas vezes é melhor ignorar os factos, ir às cegas de encontro ao porvir, ser uma folha apagada, ou, quando muito, com os vagos sulcos de coisas escritas a lápis. É melhor assim. O silêncio prova-o. Atesta-o o embaraço, as sísmicas convolutas das vísceras sem lugar no lugar das vísceras. És a mulher mais bela que conheci, sabias? Mas não falemos de beleza. O amor é um mito para lá da beleza. És ainda a minha antiga aluna de secundário e já outra mulher. Ainda e já um outro tempo no meu tempo. E talvez deva dizer, enfim, qualquer coisa como isto.

‒ Nunca te esqueci, Eunice!

‒ Claro que esqueceste, Miguel!

‒ Nunca!

Apetece um cigarro. Apetece cair, sair, partir. Odiamos o amor quando o amor nos ignora. Ignoramos o extenso combate de palavras e de sentidos em cada palavra e sentido que se diz e se sente. Tremo. As mãos incertas desejam tocar-te e fogem, querem acariciar-te e fincam-se, procuram o perdão e mostram-se frias. O amor mente com as mãos. Apetece um cigarro. E tu bebes o café. Devagar. Tão devagar que o silêncio e a lentidão parecem arrastar a cena por séculos. Lembras-te daquela canção dos Morphine? Até que um dia alguém nos faz acreditar que talvez nunca tenhamos odiado o amor. Olhos enxutos, rosto sorridente, coração limpo. O que tens feito? O que fizemos? Passou já tanto tempo, Miguel. Os teus olhos continuam belíssimos. Mas não convém dizer tudo. Talvez não se deva dizer coisa alguma. Continuo a dar aulas. E tu? Bolas, estás estupenda, Eunice… Uma mulher feita. Quando te conheci eras uma criança. És outra mulher, agora. O que é feito de ti? E tu bebes o café. Devagar. Tão devagar que o silêncio e a lentidão parecem arrastar a cena por séculos. Às vezes é preciso ser assim. Devagar, tão devagar que o tempo para. E aí vemos tudo com minúcia. Quer dizer, onde encaixar cada peça, como acabar o puzzle. O amor não é outra coisa. Não é, pois não?

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Gosto de conversar contigo

Frank Decker
Fotografia de Frank Decker

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Gosto de conversar contigo. Gosto da tua voz, que é meiga e cheia. Gosto dos teus olhos, caindo e recaindo sobre os meus, tão devagar como duas pedras em câmara lenta. Gosto das tuas palavras. Do teu perfume. Do modo como apanhas o cabelo e penteias as farripas tresmalhadas. Às vezes nem te oiço. Sinto apenas a percussão doce das frases a massajar-me a cabeça. E (nunca to disse) apetece-me mergulhar no teu colo, deixar que me embales, adormecer a teu lado.

A vida é tão igual a si própria. Somos todos tão escravos dela! Tão incapazes de sentir. Como se pudéssemos ter dentro de nós cabos e fios e fusíveis, em vez de sentimentos. E, por isso, um dia disse isto.

– Um dia acabamos morrendo sem termos sequer começado a viver!

E tu sorriste. Era um dia de final de outono. E tu passaste a mão pelos cabelos. Era uma daquelas tardes em que o nevoeiro parece chegar de longe e atravessar a janela e engolir tudo em nós e ao redor de nós. E tu disseste. 

– Acho que tens andado distraído, Xavier! Tens mesmo de abrir os olhos… 

E o nevoeiro vinha de longe, de fora, do fundo. Passava pela janela como um exército marchando, como uma boca devorando a paisagem, como um buraco absorvendo os pensamentos. E eu senti-me tão mole, tão aluído, tão triste que não encontrei palavras e foram elas que se disseram sozinhas. 

– Não ando distraído. Já não consigo é distrair-me. Já vivi tudo. Já sei tudo. Já adivinho tudo. A vida é a porra de uma repetição! Nem um milagre me podia salvar agora. 

E tu sorriste. E o teu sorriso era um astro frio, alumiando a anos-luz. Tocaste-me o rosto, deixaste os olhos cair, soar no imo do poço, afagaste-me o cabelo, meneaste a cabeça, disseste. 

– Estás doente. Precisas de curar-te. Essa tristeza é uma sombra maldita, a pesar toneladas de um peso morto e sem justificação. És tão bonito, pá! E tão infeliz! 

E eu sinto. Não tenho medo de sentir. De experimentar de uma ponta à outra os impulsos elétricos do medo e da surpresa e da desilusão. Nada receio. É como uma vertigem. É como fechar os olhos e ir. Já vivi tanto. E, no entanto, os teus olhos poisaram em mim e puxaram-me. Como um magnetismo sem explicação, eles alavancaram os meus olhos, fizeram-me agarrar uma réstia de luz e caminhar. 

– Gosto de conversar contigo! 

E o teu abraço é desde então uma casa. Nunca na vida tive tanto medo. O teu abraço apertado faz-me sentir desde então uma criança renascente. E eu sinto uma mistura de tortura e de prazer quando me tocas e o teu perfume e a tua voz e os teus olhos aquecem as minhas tardes enevoadas. 

– Tens de abrir esses olhinhos! 

E dou comigo a pensar nos teus cabelos. E a ouvir pela primeira vez as tuas palavras antigas. E a sair de um túnel terrível. E a escutar outra vez o silêncio das ervas e o rumor das coisas que havia esquecido nos meus olhos. E dou pela paisagem descobrindo-se, desembaciando-se, desimpedindo-se. E talvez me apeteça dizer-te palavras novas, enxutas, belas como grãos de cereal e puras como o toque das unhas na pele, como as tuas mãos finas e firmes. 

– Não ando distraído!

E tu, abraçando-me, acalentando-me como um sol inesperadamente crescido entre as nuvens, tu beijando-me como um milagre, tu sorrindo como um vidro amplo e sem mácula, completas a última frase. Que trago comigo. Que levarei comigo.

– És tão bonito, pá!

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Diga-me você, meu caro!

Andre du Plessis
Fotografia de Andre du Plessis

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Foi por esta altura que nos conhecemos. O frio de novembro estampando-se em todas as janelas, eu desempregado, tu no lar de idosos. Aquela frase soou. Certeira e inesquecível como uma reprimenda.

‒ A ruína é sempre mais feia do que bonita, não lhe parece?

Eu desempregado, tu segurando uma bengala, de pé, com olhos trocistas. Em volta um armazém de corpos tremelicantes e babosos, corpos esquecidos retomando às vezes numa grita desenfreada o caminho das dores e da frustração.

‒ Que lhe parece esta velharia toda?

Eu desempregado, ajudando uma senhora a erguer-se, outra a sentar-se. Eu sem voz, aquecendo as mãos desamparadas de um avô a quem o Alzheimer veio furtar os últimos farrapos de lucidez. Eu acabrunhado, aturdido, com a alma pesando-me na alma, como um cacho de melancolia. Eu atrozmente perseguido pelo inverno de uma ponta à outra ponta das paredes. Eu desejoso de me tornar numa centopeia e de poder esgueirar-me por uma fresta. Eu desempregado, em fuga. E tu quieto, vertical como uma âncora suspensa. Em proa. Agudo como um discurso da consciência.

‒ Já viu bem a miséria que nos espera?

Foi por esta altura que nos conhecemos. Que cruzámos palavras. Que estreitámos a distância. Que aprendemos o preço da amizade. Essa que nos obriga a mentir e a falar verdade e a mentir como só na verdade se mente.

‒ Nem tudo na velhice é forçosamente mau, não acha?

Tu muito sereno. Tu muito contido. Tu muito senhor das palavras que, ditas no momento exato, ficam gravadas para sempre. Tu com um sorriso enigmático, quase de mofa, quase de simpatia, quase feliz, quase pungente.

‒ O senhor parece tão bem disposto!

E as velhotas guinchando, chorando, batendo palmas num estertor de loucura. E os velhos, com os coturnos calçados, com o fio de baba, com a lágrima ao canto do olho, enquanto as funcionárias, sempre com voz estridente, sempre fingindo euforia, vinham meter-lhes a sopa na boca, rapar os iogurtes, acomodar-lhes os travesseiros.

‒ Tem aqui tantos amigos!

E tu sem resposta. Tu mordendo o lábio, cheio de intenção. As sobrancelhas franzindo, aconchegando um pensamento satírico, com vontade de me mandar à merda. Tu incapaz de acreditar na piedade voluntariosa. Tu sereno e belo como um mestre grego. Aproximando-te. Mastigando a verdade. Pondo-me a mão no ombro.

‒ Um dia saberá distinguir tão bem a vida da morte, que lhe parecerá insuportável o tempo perdido…

‒ Como assim?

‒  Lá chegará! Lá chegará…

E eu desempregado, à procura de um norte. E tu desprotegido, à espera do fim. Um de cada lado, agarrados à mesma visão, como as duas serpentes entrelaçadas de um caduceu.

‒ Vejo que é bom rapaz. Pena é não ser lá muito esperto…

Foi, sem dúvida, por esta altura. O frio de novembro estampando-se em todas as janelas, embaciando-as, fechando-as numa estranha obscuridade de cinzas e pó. Eu asfixiando, ajudando uma senhora a erguer-se, outra a sentar-se. Tu aos ziguezagues, atravessando um corredor, saindo para o quarto.

‒ Ou talvez seja mais esperto do que parece… E me julgue tolo!

Foi por esta altura que nos conhecemos. O frio de novembro cobrindo os ossos. As horas caindo na penumbra depressa de mais. A noite caminhando como uma sombra gigante sobre os olhos. Foi assim que nos tornámos íntimos. Cheios de retórica. Irmanados pelo mesmo parágrafo de tristeza e de amor. E nunca pude responder-te. Nem agora que morreste e te levam baloiçando, fechado num enigma de mogno, com a cruz ao cimo, feia e sinistra, brilhando, prometendo a eternidade…

‒ Não é feliz aqui?

Eu desempregado. Tu calado, voltando-me uma última vez o rosto, com aquela última frase na ponta da língua, como a despedir, como a dizer, como a perguntar.

‒ Diga-me você, meu caro: o que é a felicidade?

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