A última vez

. para a Ângela, in memoriam . Entrei no hospital dominado pela vertigem da fraqueza, por imagens incontáveis, em ebulição, incapazes de fabricar entre si um único pensamento. Suponho que fiz um esforço, que soube manter-me firme. O maxilar dorido. O coração acelerando. As mãos subtil, sub-repticiamente suando. Disseram-me «Coragem, João». Nos corredores as pessoas choravam. Disseram «Aqui é sempre …

A solidão

. A televisão ainda ligada não tem réplica. O som atravessa as paredes, evapora-se ou subsome-se, não sei, transforma-se em rumor, decompõe-se em nada ou alcança o tudo, não sei. Sobre o sofá o homem respira. O sofá é invólucro da mesma tristeza: ganhou as formas do corpo, prende-o, afunda-o, dita-lhe uma espécie de submissão. …

Lembro-me de tudo

. A praia esvaziava-se até à melancólica reunião das gaivotas. Era então uma profusão de sulcos em forma de cunha e gritos selvagens. O ronco do mar, com o ir vir das ondas, desfazia-se num som borbulhante de espuma e cansaço, como se também o mar arquejasse e pedisse a noite. O vento erguia nuvens …

Tudo gente boa

. Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de …

O António

. Estou a vê-lo, ao pé de mim, a desembrulhar consoladamente caramelos de fruta, sentado na soleira da porta, com as calças arregaçadas, socos nos pés, a tesoura da poda presa à ilharga, numa presilha de couro, como um polícia com o cassetete. Nunca compreendi essa necessidade de ter sempre à mão a tesoura da …

Um passeio a pé

. Princípios de setembro ao cair da tarde: o outono enviou já os seus emissários. Para lá das portas das casas de pedra, desde o fundo dos lagares, emerge e vibra como uma corda de guitarra o aroma intenso do mosto. Embrulhamo-nos nele como num antigo provérbio: por onde os nossos passos vão, ele acompanha-nos …

Jorge Luis Borges

. O que têm em comum João de Panónia e Aureliano de Aquileia, o missionário David Brodie e o romancista Pierre de Menard, o assassino Avelino Arredondo e o poeta Ollan, a bela Ulrica e Abenjacan (o Bohkari), a vingadora Emma Zunz e um velho professor de Cambridge, que fortuitamente encontra o seu duplo jovem, …

Um homem desempregado

. A fila no Centro de Emprego é uma lombriga roendo as entranhas desde o começo da manhã. Passam centenas de automóveis, os autocarros da Carris, os táxis, os peões, a meia dúzia de biciclistas matutinos, as carrinhas cheia de pressa dos correios, outras centenas de automóveis, uma ambulância histérica, os idosos agarrados aos andarilhos, …