Ele sabia

. O vento punha-se a titilar nas ervas altas e era bom. Era livre. O sol caía em cachos na toca dos grilos e era belo e livre. Os miúdos saltavam os muros e corriam livremente pelos talhões de margaridas e era maravilhoso vê-los. O pintor compunha sem pressa o azul do mar ao fundo …

O abençoado

. Traziam-lhe marfim e ele esculpia-o com a paciência mais apurada de que o género humano é capaz. Os objetos saídos das suas mãos contavam-se entre os que mais vorazmente atraíam a cobiça dos estrangeiros em Brazzaville, em Djambala, em Sibiti, em Mandigou e em todo o Congo. Chamavam-lhe «O abençoado», embora o seu nome …

O insulto

"Um insulto, ainda que proferido por alguém desacostumado de os proferir, é sempre motivo de coletiva indignação. Assinalemos aqui o despropósito: não se manda ninguém à berdamerda, menos ainda quando se traduz Shakespeare."

A igrejinha

. Em Albitreccia, a meio do vilarejo, numa colina sobre o bosque, ergue-se como uma ilhota de pedra a pequena igreja medieval. Ou o que dela sobrou. Os séculos despiram-na impiedosamente. Primeiro dos sinos e do ouro litúrgico, depois das imagens ricamente esculpidas em cedro e dos frescos, por fim dos vitrais e dos telhados, …

O silêncio

. Enquanto não poisava completamente a noite, ele ia passando em revista as notas de agenda. Era cada vez mais complicado tê-las organizadas na memória. O jantar, no fogão, dava mostras de estar quase pronto. No chuveiro terminara o som da água a correr. Daí a nada ela viria juntar-se-lhe. O tempo do desejo acabara …

Creta

. A casa estava imunda. Por cima da velha mobília, dos lavatórios, da cerâmica, dos fogões, dentro dos quartos e da cozinha, nas casas de banho, pelo meio dos corredores, atravancando, entulhando, asfixiando fardos e fardos de palha, e pó, um pó imenso e fundo, e excrementos de pombos, e urina de ratos. Imunda. Foi …

Belle Époque

. ‒ Nestas circunstâncias, o melhor é contar sempre com um segurozinho de acidentes pessoais. – explica o cavalheiro anafado, que enverga um casaco de peles zibelinas. ‒ Melhor, sem dúvida… – assentem os outros senhores, ensalsichados noutros casacos de pele e de charuto ao canto da boca. Um paquete do Grand Hotel ajuda a …

Deus

. A pequena igreja enche-se com o ressoar dos tacões. O estampido cresce pela nave e sobe aos altares. Depois dele é o rumor das preces, uma longa murmuração gelada, um marulho de bocas dançantes repetindo-se. O efeito destes dois ecos consecutivos distrai quem ali não encontrou ainda o seu canal para a Providência. O …

Nascer do dia

. Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos. Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a …

Ciúme

. Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm …

O castigo

. Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais …

O túmulo

. Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas …