Acerca da eternidade do Führer

Fotografia de Rasa Kasparaviciene

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Sempre que pode, Sven Vogel atravessa a pé velhas províncias da Europa à cata de lugares arruinados. Investe pelo interior de túneis e de caminhos ferroviários abandonados, invade o segredo de florestas, devassa o silêncio de portões enferrujados, e aí, no lugar onde as teias de aranha amortalham e os grandes silvados escondem, Vogel fotografa.

Fascinam-no especialmente os castelos, os antigos sanatórios, os edifícios estatais reduzidos a escombros, os teatros mal seguros nos pilares, os hotéis maravilhosos da Belle Époque caídos numa decadência luxuosa e sem piedade. A objetiva das suas câmaras alimenta-se deste entulho, deste silêncio podre, do pó, da oxidação dos ferros e dos vitrais ultrajados, da coisa humana comida já pela morte.

Recentemente, numa das suas deslocações à Baixa Baviera, Vogel descobriu o que resta de uma antiga escola primária.

Na mesa que outrora pertenceu ao professor, dentro de uma pesada gaveta que precisou de arrombar, ao lado de obsoletas canetas de tinteiro e de sujíssimos frascos de vidro fosco, os seus dedos tocaram um caderno pequeno, de contornos arredondados, em cuja capa (sobre a águia e a suástica), o tempo lavrou um líquen peculiar em forma de caranguejo.

No papel amarelecido, entre cálculos e exercícios de gramática, no meio de frases da propaganda nazi e de pequenos improvisos pueris, podia ler-se o seguinte:

Meu querido Franz,

Enobreces a tua escrita com a paixão de um poeta e a lucidez de um filósofo. Graças à nossa escola e a alunos como tu, a sagrada pátria alemã permanecerá para sempre viva e pujante. A tua composição é um hino ao Führer. Ele, expoente da força e da superioridade, há de guiar-nos através da eternidade.

Vogel olhou em volta. O estuque derruído, as janelas estilhaçadas, as fezes dos pombos, e a intensa impregnação devida à urina dos ratos estrafegavam a sombra, mal permitindo respirar.

Debaixo do carimbo desbotado da suástica, assinava o panegírico Karl Oberheim. A data, completamente tomada pelo bolor, não a conseguiu o fotógrafo decifrar.

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Ritual

Fotografia de Hannah Reding

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Adquirira o hábito de lavar meticulosamente as mãos e de aparar as unhas antes de discursar. Passava as palmas e as costas dos dedos por água, ensaboava-as com Clarim e voltava a oferecê-las ao fio que saía da torneira quase a ferver. Era um ritual.

Depois, antes de sair do gabinete, lia uma última vez o texto e corrigia-o com um lápis barato, riscando mais palavras do que as que reintroduzia no papel. Desagradava-lhe o encontro com as fórmulas, os lugares-comuns, as frases que soavam a muito e não diziam nada.

Por fim, olhava-se ao espelho.

Fazia-o em silêncio, procurando lobrigar no rosto à sua frente os mínimos sinais da infância. Ia por aí, atrás do garoto de socos, de camisola rota e buço feio, cuja bravura no trabalho de outrora ele parecia estimar mais do que o prestígio por si alcançado com os anos. Esse miúdo era a sua inspiração.

Permanecia num mutismo quase absoluto muito tempo, tempo incontável, uma hora, um minuto, uma eternidade, até que uma assessora lhe batia à porta.

Esperavam-no.

Era agora. Milhões de espetadores tinham a televisão sintonizada num canal por onde as suas palavras ecoariam, urbanas, escolhidas, talvez um pouco rudes, competentes, em voo picado até ao âmago dos problemas.

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Um mendigo

Fotografia de Mark Williams

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Certas frases soam ao brilho frio das igrejas, pensou Ricardo Navajo, enquanto acariciava, cheio de esquecimento de si mesmo, o pequeno cão a seu lado.

Neste canto da cidade, as esmolas são, de certo modo, menos avarentas, mas bastante mais barulhosas. Um homem colado ao chão ouve de tudo, inclusive palavras articuladas com mecânica sabedoria.

«Devemos sentir-nos gratos pelo que Ele nos reservou e reconhecer que é tão importante o bocado de pão, como a beleza da saxífraga.»

Quem o afirmou fê-lo com certeza tranquila, que era ao mesmo tempo a expressão exterior de uma frenética procura da alma. Depois, voltado para os seus ouvintes, numa espécie de prédica improvisada, também disse:

«Vede: há todo um fundo para onde nos pesa o corpo e todo um céu para onde devemos elevar a alma. Abaixo de nós a terra para nos cobrir, acima de nós as galáxias que nos hão de guiar para todo o sempre o espírito».

Ricardo Navajo coçou o queixo com os dedos enregelados e as unhas grandes. Depois, coçou o ventre maldisposto pela fome. A seguir, pôs-se a massajar a nuca do rafeirito de companhia, deslembrado da tigela de plástico onde dormiam alguns cêntimos em paz.

Nesta esquina da cidade, caminha-se quase sempre com pressa e quase nunca com piedade. As conversas que se atiram ao ar lembram muito os fogos de artifício: são lumes-fogachos que rutilam sem aquecer.

O orador acabou de entrar no Seminário com os discípulos; os automóveis buzinam com regular ferocidade; os semáforos abrem e fecham numa indiferença de deuses ancestrais.

Navajo possui o hábito de cismar no que os outros deixam, à sua passagem, em suspenso. O pensamento humano, se mais algum existe, organiza-se numa estrutura de andaimes. Cada homem vê o mundo da maneira que lhe convém, supondo-o único e universal do alto, ou do baixo da sua visão.

Que existem belas flores e estrelas à nossa volta, o mendigo não duvidava. Mas uma côdea de pão e dinheiro para a terra nos receber dignamente os ossos é outro campeonato.

Navajo recebeu agora mesmo o estampido firme que faz a moeda de um euro. A quadra do Natal é uma boa safra, responderia, se alguém lhe quisesse saber como anda a vida. Agradece-a com uma vénia estudada, enquanto a palma da mão lhe corre pelo lombo de Riquinho. Assim se chama o melhor amigo.

Era o que diria, se alguém lho perguntasse.

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Dedicado a um avô

Fotografia de Carter Yocham

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O autor do presente conto rende homenagem a Johan Poortvliet, avô neerlandês, cuja perícia e dedicação salvaram do lixo um São Nicolau de corda do pequeno Wil Poortvliet.

Não foi fácil.

O brinquedo, feito de chapa e cerâmica, mergulhou a pique de um parapeito desguarnecido no terceiro andar da Nieuwe Keizersgracht na esquina com o rio Amstel e desfez-se em pedaços pungentes, que Wil Poortvliet aceitou mal. Correram-lhe pelo rosto lágrimas gordas. Um pranto.

Wil conhece já a vida. O gato doente dos vizinhos Huygen está por um fio. No seu pueril entender, assim que os olhos benévolos de Sinterklaas vissem o animal cansado de sofrer descobrir-lhe-iam uma solução contra a morte certa. Nenhum amigo das crianças, ainda que girando por ação de uma mola de aço e de rodas dentadas, pode ignorar um tal cuidado, ou deixar de esbanjar a sua bondade com um animal à beira do abate. Wil pensa que não.

Infelizmente as coisas passaram-se, como sempre se passam, de outro modo.

Encavalitado num móvel, o pequeno ia-se esgueirando em direção à fresta da janela à sua frente, onde Meneer Whiskers (um persa azul) o mirava fascinado. Soou dentro de casa um berro de alarme. O pequeno assustou-se. São Nicolau voou numa direção, ele noutra, o felino numa terceira.

Seguiu-se o estrondo. Na rua foi um horror de cacos e vísceras metálicas disparados do santo-brinquedo. Alguns transeuntes ajudaram a recolhê-los, cheios de pena.

Com paciência, com a paciência de um relojoeiro, Johan Poortvliet juntou tudo, colou tudo, consertou tudo. Conseguiu que Sinterklaas fizesse de novo o movimento de acenar, embora um pouco mais perro. Com a paciência de um avô, Johan Poortvliet conseguiu até que o boneco voltasse a acender os olhos e a repetir o gesto de tirar do saco um presente para o oferecer. Era um brinquedo combalido, remendado, mas bem-disposto.

O autor destas palavras apresenta o desfecho:

Meneer Whiskers (que traduzimos como «Senhor Bigodes») continua vivo. Apurou-se tal facto diretamente da boca comovida dos Huygen. Apesar das maleitas da idade, continua a dormitar ao sol do lado de lá do vidro e do tempo.

Ao que parece, do lado de é onde os milagres são corriqueiros.

No canto preferido do telhado Meneer Whiskers tem uma vista magnífica para o Amstel. Descendo para a caleira e avançando vinte passos de gato descobre uma vista privilegiada para o quarto do velho Poortvliet, cujos desvelos não passam despercebidos às suas longas e retorcidas vibrissas: um avô a brincar ao lado de um neto é coisa que entretém verdadeiramente um felino.

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Aral

Moinaque, Caracapaquistão, Usbequistão, barcos, Mar de Aral
Fotografia de WaSZI

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É indescritível a sensação de atordoamento que experimenta este viajante nesta parte do mundo, onde se presenciam factos como os que a seguir se enumeram.

Estamos em Moinaque, no noroeste do Usbequistão. O viajante sobe a uma plataforma de madeira, que facilmente se confunde com o passadiço de um porto. Os barcos lá estão, ali, acolá, mais além, tombando uns a estibordo, outros para bombordo, completamente enferrujados, esquecidos, agonizando sobre o leito arenoso do que foi até há escassas décadas uma das margens do mar de Aral. O viajante recebem-no num tugúrio nascido, algures aí, no meio do antigo perímetro lacustre.

Rustam Kerinov conduz um pequeno rebanho de cabras por entre as quilhas e as âncoras oxidadas. Leva ao ouvido um rádio de pilhas, na boca um cigarro quase completamente encarquilhado, nos olhos a devastação enorme de um ofendido.

«Aqui agora estão a plantar arbustos» explica Serik Tolvashev. «É difícil suportar as tempestades de sal».

«Arbustos?»

«Sim, fileiras de saxaul. Plantam-nos a intervalos de um metro. Para que cresçam e limpem o solo».

O viajante mal respira. A poeira embrulha a cidade-fantasma e cai como uma praga bíblica sobre o pelo dos animais. Chicoteia o casco doloroso das embarcações. Em boa verdade, nada segura o vento, nada se opõe aos minúsculos grãos de sal e de areia amalgamados e em movimento.

«De que se alimentam vocês agora» pergunta o estrangeiro.

Ao longe, Rustam Kerinov já não se vê. Do aparelhito anacrónico chegam, a custo, as notas de Boys don’t cry. Será uma alucinação pensa o viajante. Será um sonho, aqui coisa nenhuma é uma certeza: será uma daquelas circunstâncias absurdas de coisas que se misturam no tempo errado no lugar errado.

«Do pouco que nos sobrou da água, do nada que nos ficou de terra fértil, comemos o que calha» diz Serik Tolvashev.

Neste pedaço da geografia usbeque (mais correto seria escrever caracalpaque), as temperaturas descolam no mês de julho. O anfitrião serve um chá na sua cabana improvisada. Na única estante que nela se sustém, o viajante reconhece um velho exemplar do Corão. Fora destas paredes frágeis zune a força de um demónio, de um desastre, de um male sem nome. Mas a fé, a fé em Deus é maior do que o vento monstruoso capaz de embalsamar os vivos. A fé habita cada pedaço do mundo e é capaz de regenerá-lo.

O viajante ao poisar as mãos no chão sente um estremecimento. Vinte, talvez trinta anos atrás, no preciso ponto onde está o tapete estendido era o fundo de um lago. Sobre a sua do viajante nadariam carpas e lúcios, nadariam sargos e rutilos, nadariam bagres e solhas, nadaria pela certa algum esturjão formidável.

O estrangeiro pensa no pescador Rustam Kerinov, no pescador Orazbay Qobil, no pescador Marat Allanazarov, no vendedor de peixe Almas Dosivov, no encarregado da fábrica de conservas Madi Dyussenbayev, em todos os que nesta jornada conheceu já e se lamentam do mar desviado, roubado, evaporado – do mar de que sobrou o sal maldito e as ossadas dos barcos, do mar transformado em pó.

Nesta banda do que foi o grande azul de Aral, a finitude é imensa. Existe nela algo de nostálgico e de belo, como sempre sucede com a decadência no mundo. Mas suplanta-a a dimensão do sofrimento. Milhões de litros de água transviados para alimentar a ganância e o erro. Ao viajante chega-lhe o pensamento de que o sofrimento é a maior de todas as obras de que o ser humano foi capaz até hoje.

Serik Tolvashev conta como aqui perdeu o pai num naufrágio no início dos anos sessenta, era ele ainda uma criança, viva ainda a água que o matou.

Ao viajante custa-lhe acreditar. Mas aconteceu, numa rara tempestade vinda do Cazaquistão, em meados de fevereiro.

«Morreu o meu pai. O tio Dmitry escapou por um triz. Foi um infortúnio.»

Ironias ferozes atravessam-se-nos ao caminho, a sensação é indescritível. O viajante, por exemplo, falhou um concerto dos The Cure em Glastonbury há um par de meses, mas escutou-os há instantes, debaixo de uma súbita tormenta de pó. O viajante vê uma doca à entrada do deserto e escuta o estertor de velhos barcos gementes que afundam na terra enxuta. O mesmo viajante bebe – para se hidratar numa tarde escaldante de verão –, um chá a ferver, depurado pela temperatura elevada das impurezas da água péssima de Moinaque. O viajante – ironia suprema – é informado de que, no sítio exato onde Serik Tolvashev lhe serviu a bebida, sessenta anos andados às arrecuas, um naufrágio vitimou o seu o pai.

Quando regressar a casa, este estrangeiro talvez omita, por prudência, alguns pormenores. A vida, na sua pródiga maquinação, sempre pareceu uma mentira. E quem levará a sério, admitamos, a narrativa de um viajante mentiroso?

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Ludro

dunas, dunes
Fotografia de Peggychoucair

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Perder umas eleições como as que perdeu Rubens van der Meer no ano passado é um golpe duríssimo. Primeiro sentiu uma fúria incontida em relação à maioria de idiotas neerlandeses que preferiram o seu oponente, Andries Michels, um tecnocrata corado e mentiroso, nascido nos viveiros políticos do partido liberal, incapaz de uma ideia desempoeirada e de uma palavra autêntica. Depois, aos poucos, deu-se conta de que o molestavam os corredores, os assentos do seu próprio partido, onde se mastigava a mesma doutrina e onde medravam à sombra cogumelos tão venenosos quanto os que via do outro lado da bancada parlamentar.

O desencontro progressivo com os meandros deste ofício de governar e antigovernar conheceu um episódio significativo na manhã de 17 de março.

Nesse dia e após horas consecutivas de chuva torrencial, Haia acordou num caos de sinalização luminosa, barreiras de proteção, agentes da polícia com oleados gesticulando veementemente: por toda a parte se via água a emergir das sarjetas, uma água suja, salgada, malcheirosa. Rubens van der Meer considerou, ensimesmado, que se usassem na câmara baixa as mangueiras dos bombeiros e lavassem com elas os gabinetes, as galerias dos deputados, a boca dos membros do governo, a massa vil de todos os que ali fazem carreira, imaginou se usassem água de pressão em quantidade suficiente para uma higienização razoável, sairia um enxurro tão turvo, tão porco, tão podre como esse ludro que paralisava as ruas da cidade naquele momento.

A decisão de se demitir não apanhou ninguém de surpresa.

E, porém, todos se apressaram a comentar a sua coragem e retidão, a remeter-lhe mensagens fraternas de solidariedade.

Rubens van der Meer não respondeu a nenhuma delas. Em vez disso, partiu em silêncio para a ilha de Schiermonnikoog, onde comodamente se instalou com a mulher, com o cão e com a biblioteca.

Na época boa, quando os ventos amainam e o mar vem enroscar-se nas dunas recobertas de gramíneas, vemo-lo caminhar lentamente pelos longos areais, descalço, sem telemóvel, aspirando em grandes sorvos o ar frio. Não podia imaginar que a fala oceânica possuísse diferentes fonemas. Nem sequer que, entre os grandes penedos húmidos, os belos ostraceiros de bico alaranjado pudessem exibir um talento tão ostensivo. A sua missão não é outra senão criar esquecimento.

Reconheçamo-lo: a obra mais pura de um homem é justamente essa intrigante forma de apagar memórias inúteis.

Perder umas eleições como as que Rubens van der Meer perdeu no ano passado pode ser a melhor coisa que sucede na vida de um homem. O arquipélago frígio é um território delicado, ele próprio fruto de um combate imenso. Quando a mulher – a bela Margriet de olhos verdes-abacate – o alcança e o abraça, não duvida que as pequenas coisas são as únicas por que vale a pena entregar a alma.

E, no entanto, não encontrou ainda um modo de esvaziar o seu ódio, os seus múltiplos ódios guardados e entranhados, o seu sentimento de justiça por cumprir. Um dia (sabe-o no mais fundo de si) espera ainda o poder de se desforrar…

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Pequeno conto trácio

Mar Egeu
Fotografia de Thomas Galler

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A escola primária ficava perto de um pinhal. Nos dias de calor, no verão, escutava-se o rachar das pinhas entre o ziziar ruidoso dos insetos, sentia-se o olor da caruma a entrar nas portas e pelos respiradouros.

«Estamos quase nas férias» pensavam os garotos, pensavam-no um instante apenas, no intervalo dos ditados e do grande silêncio que a vara do professor conduzia, como uma batuta compridíssima.

Desde sempre amou esse som e esse perfume. É por causa deles que o apicultor Giorgos Nicodemou se senta aqui, com a sua paz, observando o mar Egeu ao fundo, cismando na meninice, descobrindo no horror do silêncio o estrépito acalentador das pinhas que cedem à canícula, respirando (como um acordeão aberto) este perfume alcalino, puro e limpo da floresta.

«Quando morrer, quero ser sepultado aqui, no meio destas árvores, sem uma lápide, sem um brevíssimo sinal de que existi. O corpo há de tragá-lo o chão, a alma há de o espaço levá-la para onde vão as almas: para o nada.»

O professor era severo, impiedoso, cruel até. No último dia de aulas, saía-se da sala a correr, galgava-se a escadaria, atingia-se o recreio com a máxima felicidade, aos gritos, quase em histeria.

É assim que o velho Giorgos quer morrer. Com a vertigem de uma libertação há muito desejada, e, de repente, inevitável, não menos do que feliz…

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Um amor sonâmbulo

amor, coração, desenho,
Fotografia de Gaelle Marcel

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Para a Céu

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O rapaz sofria de noctambulismo. Durante a noite, empunhando uma vela, passeava para a frente e para trás pelos corredores da pensão e só ao cabo de algum tempo regressava ao quarto em paz.

É claro que esta história já tem algum tempo. Hoje ninguém passeia pelos corredores das pensões durante a madrugada.

O rapaz procurava o seu amor: ia sem saber que ia, voltava ao ponto de partida sem perceber que partira. Um autómato. Não oferece dúvida que este é o proceder dos que padecem da enfermidade. Nas últimas vezes fazia uma paragem diante a entrada do quarto 107.

Alguém que queria saber mais seguia-o cheio de curiosidade. Quiçá habitasse um quarto lá ao fundo, na ponta oposto do mesmo corredor. Talvez entreabrisse silenciosamente a porta à hora certa (os curiosos estão sempre a par das horas certas) e espreitasse, seguro de poder ver sem ser visto.

O rapaz carregava a candela com a mão direita e com a outra mão escrevia a giz (era, portanto, canhoto) qualquer coisa. Depois prosseguia a sua jornada sonâmbula e não acontecia mais nada. Esta coisa de escrever a giz era recente. Fazia-o com gestos lentos e macios, quase sussurrantes.

De manhã cedo a porta do quarto 107 rangia docemente, deixando sair para a penumbra do espaço comum a boa luz da manhã que nele já se havia instalado. A jovem professora de francês saía para o trabalho, uma rapariga muito bonita, de cabelos loiros encaracolados e olhos safíricos.

Vexadíssima, lia as misteriosas palavras e apagava-as com um lenço, não sem primeiro deitar uma mirada em redor.

Mais uma vez, quem isto observava regozijava-se com o segredo. Devia regozijar-se, porque abdicava do seu próprio sono. Quem trabalha precisa de dormir e nós sabemos que entre a escrita e a limpeza das palavras decorriam horas escassas.

Uma noite o rapaz demorou-se um pouco mais. Escreveu um poema. Era um bom poema, garantiram-nos. A rapariga leu-o na manhãzinha seguinte e hesitou. Vieram outros poemas e outras hesitações. Às tantas a professora passou a usar um lápis e a registar as palavras que lhe dedicavam num caderninho. Estava rendida.

Mas quem seria o poeta. Nos quatro pisos da pensão juntava-se muita gente, jovem, menos jovem, velha. Havia um rapaz bem-apessoado, o do número 114: só se cruzavam ao fim de semana, por trabalharem em diferentes turnos. Ela encarou-o com interesse, mas ele lia as Flores de Baudelaire e nem lhe pôs os olhos em cima.

Como gostaria de conhecer o autor daqueles versos tão belos e tão saturados de ternura!

Alguém conhecia o segredo.

Mas os segredos deixam de ser segredos quando revelados. E nada se sobrepõe ao prazer imenso de o gozar a sós, como fará Deus amiúde lá no Céu, ou onde quer que Ele viva. Além disso, quem pode prever as consequências de uma intromissão (bastante espúria, aliás) na narrativa de terceiros?

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Um bom pai

Raffaello Sanzio - A Sagrada Família com cordeiro, 1507
Raffaello Sanzio, A Sagrada Família com cordeiro, 1507

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Pelas mãos do Dr. Paul Gilbert passaram vezes sem conta os manuscritos descobertos nas cavernas de Qumran, perto do Mar Morto, e também os papiros encadernados em couro desenterrados em Nag Hammadi, ou os que se acharam no túmulo de Jebel Qarara.

É universalmente reconhecido como um dos maiores especialistas da Bíblia massorética, uma autoridade na leitura (das diversas versões) dos evangelhos canónicos e dos apócrifos, autor de inúmeros ensaios que se tornaram uma referência no mundo académico (por exemplo esse best-seller A verdade ou a sombra dela nos Evangelhos Gnósticos, dado à estampa não há muito tempo publicou pela The University of Chicago Press).

Resta acrescentar que domina o aramaico, o hebraico, o grego (incluindo o dialeto koiné) e o latim, entre outras línguas antigas de que a civilização se vai desapegando. Não fosse a unânime aclamação, seria alvo certamente da nossa inveja mais grosseira.

Ao Dr. Gilbert confiaram o texto agora mesmo vindo à luz do deserto nas montanhosas imediações do Mosteiro de Santa Catarina do Sinai. É um documento antigo (plausivelmente dos séculos III ou IV, porém, e com grande pena da comunidade científica, pouco preservado, que contém frases enigmáticas escritas em copta.

“Enigmáticas” é dizer pouco. Talvez “controversas” fosse adjetivo mais apropriado. O Dr. Gilbert suspeita tratar-se de um novo evangelho, que em breve há de nomear e dar a conhecer ao mundo.

Eis um trecho em que concentrou a sua atenção.

«…e então, o menino alegrou-se. E Maria alegrou-se com ele e também José se alegrou e as servas. Da fonte brotava um manancial de água fresca onde vinham as aves do deserto saciar-se da sede. Dela beberam Jesus, Maria e José, os servos e as servas, as alimárias e os outros animais.

Havia por ali algumas figueiras com os seus frutos. Tendo-os visto Jesus, a uma trepou sem conseguir alcançá-los, e posto que se desequilibrou e caiu e magoou, chorando pelo sangue que aflorava à palma das mãos, José – cheio de bondade – o levantou e consolou, lavando com a água da fonte as feridas e pondo sobre elas a sua saliva para as cicatrizar.

Maria, que a tudo assistiu preocupada, considerou como José, seu esposo, era um bom pai, amigo do menino, e de si e dos servos e servas, temente ao Senhor, e generoso nos pequenos gestos que fazia. E, assim cogitando, secretamente se regozijou como mãe e esposa e mulher, e pôs em José, apesar de a sua idade ser distante já da juventude, todo o seu amor…»

O Dr. Paul Gilbert releu cada uma das frases traduzidas. Teme tê-las traduzido mal. Encontra nelas uma porção maravilhosa de heresia e de amor. Quem terá composto semelhante discurso? Que amor é esse que tão confusamente se insinua?

No seu íntimo, Paul rejubila: estas palavras são uma lufada de ar fresco no corredores bolorentos em que se acamou ao longo dos séculos a piedade mística de Maria.

Vem-lhe à memória a História de José, o Carpinteiro, narrada pelo próprio Jesus. Um bom homem, um pai ancião que morreu aos cento e onze anos e cujo corpo jamais seria tomado pela podridão. Tê-lo-ia amado a jovem Maria de um modo humano, aprendido com os anos, com a maternidade e com o sofrimento?

O Dr. Gilbert lê e traduz. O papiro é fragílimo. Sente vertigens, quase, de lhe tocar!

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Lembrança da Mena e do Miro

Bêbedos, Drunk
José Malhoa, Os Bêbedos, 1907

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Não há gosto que mais me anime do que rir com vontade. Nestes débeis intervalos de entre-inverno-e-primavera deu-me para remexer na papelada do avô. Já antes o havia dito, é um dossiê muito baralhado de ideias, mas cheio de realismo e de graça.

Dou por mim a partilhar outra das suas histórias.

Leitor, e se nos aprouvesse contar num livro a História Universal das Bebedeiras? Nele teria de constar, evidentemente, a carraspana célebre de Noé, o condutor da Arca. E também as borracheiras em que se deixaram apanhar, tanto como Hércules como Sansão, dois desgraçados cheios de força e pouco juízo. E também as cardinas de Li Bai e de Rumi (não sei se mais fabricantes de poesia, se bebedores de néctar de Baco). Convinha que, igualmente, as do meu cunhado Francisco (precocemente reduzido à condição de ex-motorista, após terem confiscado a licença que lhe permitia conduzir o camião e a semi-trailer – «semitrel» como ele dizia – e tudo por se obstinar a fazê-los embater contra tudo o que fosse matéria dura e merecedora de estar em pé).

Grande ultraje seria – se não peco por imodéstia – não incluir nesse tratado as minhas próprias bezanas ao longo da formatura, uma em particular, quando etilizado em extremo me levaram aos cuidados de uma enfermeira amiga, que me disse «Ai, meu menino, tu és tão bonito, mas estás tão bêbedo».

Mas isso, leitor amigo, isso são bagatelas se cotejadas com as digníssimas pielas da Mena e do Miro. Quem eram a Mena e o Miro perguntarás e com razão. Eram o mais bem-aventurado casal de alcoólicos que conheci nestes rugosos anos de vida e de que vale – de que vale muito – ocuparmos esta pena por alguns instantes.

Ela, Maria Filomena Rodrigues Feital, nascida em 16 de março de 1938, na freguesia de Antime, concelho de Fafe. Ele, Casimiro Manuel da Costa Fontão, nascido em 16 de março de 1938, na freguesia de Darque, nos arredores de Viana do Castelo. Terras excelentes as duas, paróquias de muitos devotos cristãos e boa maternidade de ilustres e incontáveis ébrios e ébrias.

Não será de pouca monta a coincidência ou a simbologia da data em que os viu o mundo pela primeira vez. Investiga, leitor ocioso, e sabê-lo-ás.

Nem o terem-se conhecido na Feira de Barcelos, numa tenda de cacaria. Havemos de convir: que melhor prenúncio de vida a dois do que comprarem para enxoval um cantarozinho pintado?

Gostaram um do outro, casaram, nunca tiveram filhos. Entendiam-se como o vento e o fogo, especialmente à quarta-feira quando mergulhavam na Tasca da Porcina e logo o aroma do fígado frito em cebolada os agarrava a ambos pelo colarinho e os obrigava a sentarem-se a uma mesa lá no canto, à beira dos presuntos pendurados.

Era uma romaria de beberrões. Entrava-se, encomendava-se a broa, as azeitonas, o fígado frito (o dita da cebolada ou, em lugar dele, o bacalhau – desfiado cru, assado às postas, frito com ovo) e pedia-se, sobretudo, a vinhaça.

Berrava o Miro pelo par de quartilhos:

– Venham dois: um pra agora, outro pra depois!

Era a sua maneira de começar, a sua frase de guerra. E chegava a vinhaça, a vinhaça magnífica que fazia espumar canecas e tingir as malgas.

A Mena, cheia de sede, gostava que ele enchesse até cima. Só dizia “bonda!” quando o líquido atingia os beiços esbotenados do barro. Dava um beijinho à tigela, acariciava-a um pouco sobre a mesa de pinho antes de a erguer com jeito. A seguir punha-se a incliná-la sobre os seus próprios beiços arreganhados e, zás, descia tudo goela abaixo num abrir e fechar de olhos. A Mena regougava, dava com a língua estalos de aprovação, atirava para o lado a contrassenha blasfema:

– Se este é o sangue de Cristo, bendito seja quem no matou!

Nunca a Mena teve forças para trabalhar. Jamais o Miro atinou com emprego que pudesse manter por muito tempo.

Andou pelas fábricas têxteis, mas enganava-se muito nos fios. Carregou a massa das betoneiras, mas estorvava nas obras. Nos talhos ninguém lhe dava emprego, que afiados são os cutelos e magros os dedos são. Somente na terra, na poética lavoura, arranjava ele serviço às vezes como jornaleiro, recebendo vinte e cinco, trinta, cinquenta escudos por semana, conforme o préstimo e a bondade do agricultor contratante.

O problema era sempre o mesmo. O Miro arava, abria valeiras, semeava e plantava, estrumava e sachava, mondava e colhia, mas a cabeça portava-se mal, a cabeça ardia-lhe como ferro ao sol. Exigia-lhe sumo de uva a toda a hora, tanto dele no bucho como de ar nos pulmões.

Foi assim que uma vez se voltou sem mais nem menos para a Dona Antoninha, a fidalga da Luz, e com ar sofrido lhe rogou:

– Ó minha senhora, pelas almas! Dê-me um copo de vinho, que eu já não me tenho em mim…

Era um escândalo.

O Miro sorvia ruidosamente o copo alto, a malga funda, a caneca bem medida. Era como se morresse à míngua, como se comesse vinho, os queixos muito sujos, a barba ensopada, a camisa sarapintada de nódoas. Bebia rubro do esforço, vermelho da secura.

Daí para a frente era o desastre. A fidalga vociferava:

– Aquele homem põe-me a alma no inferno. Aquele homem só faz bordel…

«Fazer bordel» era o mesmo que trocar sementes, esquecer a ferramenta no meio dos campos, deixar a água fluir pelos canais errados, não trancar a porta da pocilga. Pior, muito pior do que isto, era pregar sustos à fidalga.

Leitor atento, queres exemplos, não é assim?

Hesito qual deles dar-te, visto que não foram poucos os que testaram a paciência da pobre senhora. Talvez este caso, que é de boa índole. E se dentro dele escutas já o assobio do Miro, não julgues que a Mena ficou de fora.

Em agradecimento de certo obséquio que realizou o fidalgo a gente de fora da freguesia, ofereceram em vésperas de S. João um anho a Dona Antoninha, para o assado.

Foi o bicho posto nas catacumbas do solar, preso numa corte feita de improviso, à espera que lhe dessem um destino. Precisavam de alguém para o matar e de alguém para o esfolar, dado que nem as criadas da casa conseguiam isto, nem os criados estavam para aquilo. Chamaram, portanto, o Miro e a Mena.

O animal era muito bonito, coberto – como não podia deixar de ser – pelo lanoso macio de todos os espécimes da sua espécie, balindo a todos os que lhe afagavam o pelo como a pedir misericórdia, igual a uma figura de presépio.

A Menina Constança, a fidalga mais nova, afligia-se. A Menina Rita, a fidalga mais velha, afastou-se para não ter de olhar e ouvir. As criadas amparavam mal as lágrimas, de tal modo a cena metia dó. Apenas o Miro, que havia emborcado um par de cálices de vinho do porto e outros tantos de aguardente, parecia saber o que fazer – ele e a Mena, que afiava as facas e tinha já duas panelas com água a ferver e um alguidar grande de barro com rodelas de limão.

– Segura-lhes nos cornos, Miro!

– O rais ta parta, Mena. Este peludo tem cornos, por um acaso?

O Miro desferiu-lhe uma marretada na cabeça, que assim se matavam os anhos. O animal tombou. Estava feito! Dona Antoninha, vencendo a relutância, espreitava do eirado. A Mena arrastou-o, deixou-o junto do alguidar, porque queria acabar de amolar as facas. Mas eis que num ápice o anho se levantou e se pôs a barregar outra vez.

– Ai, meu Deus! – berrou a fidalga.

– Ai, meu Deus! – afligiram-se as criadas.

– Ai, meu Deus! – disse o Custodinho, neto da fidalga, que nessa altura estudava no Seminário de Braga e tinha vindo para a missa da solenidade de S. João Batista.

A Mena, já muito emperrada na voz e com os olhos a luzir, disparou imprecações contra o matador incompetente. O Miro, sem se importar com a consternação geral, emendou a mão e acabou à segunda o serviço.

– Ó minha senhora, não se aflija! Não se aflija, digo-lhe eu! Estes bichos são mesmo assim, tanto estão mortos, como estão vivos.

Sei de fonte lídima que não se anho assado nessa ocasião no solar da Luz, tamanha foi a repulsa e tão grande a lembrança do bicho morto-vivo.

Foram os serviços do Miro e da Mena dispensados, com natural azedume e muitos ralhos à mistura.

Se a consciência e o sentido da justiça tivessem imperado, havia a fidalga de arrepender-se e pedir desculpa ainda por cima. Cá reza o povo, e com bastante arrimo da verdade, que «Tanta culpa tem o bêbedo como o taberneiro: se um é o lume, o outro é o fogareiro».

Está a história pouquíssimo rabiscada no caderno do avô, redigida num estilo, no itálico da sua caligrafia habitual. Data não tem, fundo de verdade talvez tenha. Pergunto-me amiúde porque nunca os terá publicado, se tão melhores são que os meus!

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