Lembrança da Mena e do Miro

Bêbedos, Drunk
José Malhoa, Os Bêbedos, 1907

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Não há gosto que mais me anime do que rir com vontade. Nestes débeis intervalos de entre-inverno-e-primavera deu-me para remexer na papelada do avô. Já antes o havia dito, é um dossiê muito baralhado de ideias, mas cheio de realismo e de graça.

Dou por mim a partilhar outra das suas histórias.

Leitor, e se nos aprouvesse contar num livro a História Universal das Bebedeiras? Nele teria de constar, evidentemente, a carraspana célebre de Noé, o condutor da Arca. E também as borracheiras em que se deixaram apanhar, tanto como Hércules como Sansão, dois desgraçados cheios de força e pouco juízo. E também as cardinas de Li Bai e de Rumi (não sei se mais fabricantes de poesia, se bebedores de néctar de Baco). Convinha que, igualmente, as do meu cunhado Francisco (precocemente reduzido à condição de ex-motorista, após terem confiscado a licença que lhe permitia conduzir o camião e a semi-trailer – «semitrel» como ele dizia – e tudo por se obstinar a fazê-los embater contra tudo o que fosse matéria dura e merecedora de estar em pé).

Grande ultraje seria – se não peco por imodéstia – não incluir nesse tratado as minhas próprias bezanas ao longo da formatura, uma em particular, quando etilizado em extremo me levaram aos cuidados de uma enfermeira amiga, que me disse «Ai, meu menino, tu és tão bonito, mas estás tão bêbedo».

Mas isso, leitor amigo, isso são bagatelas se cotejadas com as digníssimas pielas da Mena e do Miro. Quem eram a Mena e o Miro perguntarás e com razão. Eram o mais bem-aventurado casal de alcoólicos que conheci nestes rugosos anos de vida e de que vale – de que vale muito – ocuparmos esta pena por alguns instantes.

Ela, Maria Filomena Rodrigues Feital, nascida em 16 de março de 1938, na freguesia de Antime, concelho de Fafe. Ele, Casimiro Manuel da Costa Fontão, nascido em 16 de março de 1938, na freguesia de Darque, nos arredores de Viana do Castelo. Terras excelentes as duas, paróquias de muitos devotos cristãos e boa maternidade de ilustres e incontáveis ébrios e ébrias.

Não será de pouca monta a coincidência ou a simbologia da data em que os viu o mundo pela primeira vez. Investiga, leitor ocioso, e sabê-lo-ás.

Nem o terem-se conhecido na Feira de Barcelos, numa tenda de cacaria. Havemos de convir: que melhor prenúncio de vida a dois do que comprarem para enxoval um cantarozinho pintado?

Gostaram um do outro, casaram, nunca tiveram filhos. Entendiam-se como o vento e o fogo, especialmente à quarta-feira quando mergulhavam na Tasca da Porcina e logo o aroma do fígado frito em cebolada os agarrava a ambos pelo colarinho e os obrigava a sentarem-se a uma mesa lá no canto, à beira dos presuntos pendurados.

Era uma romaria de beberrões. Entrava-se, encomendava-se a broa, as azeitonas, o fígado frito (o dita da cebolada ou, em lugar dele, o bacalhau – desfiado cru, assado às postas, frito com ovo) e pedia-se, sobretudo, a vinhaça.

Berrava o Miro pelo par de quartilhos:

– Venham dois: um pra agora, outro pra depois!

Era a sua maneira de começar, a sua frase de guerra. E chegava a vinhaça, a vinhaça magnífica que fazia espumar canecas e tingir as malgas.

A Mena, cheia de sede, gostava que ele enchesse até cima. Só dizia “bonda!” quando o líquido atingia os beiços esbotenados do barro. Dava um beijinho à tigela, acariciava-a um pouco sobre a mesa de pinho antes de a erguer com jeito. A seguir punha-se a incliná-la sobre os seus próprios beiços arreganhados e, zás, descia tudo goela abaixo num abrir e fechar de olhos. A Mena regougava, dava com a língua estalos de aprovação, atirava para o lado a contrassenha blasfema:

– Se este é o sangue de Cristo, bendito seja quem no matou!

Nunca a Mena teve forças para trabalhar. Jamais o Miro atinou com emprego que pudesse manter por muito tempo.

Andou pelas fábricas têxteis, mas enganava-se muito nos fios. Carregou a massa das betoneiras, mas estorvava nas obras. Nos talhos ninguém lhe dava emprego, que afiados são os cutelos e magros os dedos são. Somente na terra, na poética lavoura, arranjava ele serviço às vezes como jornaleiro, recebendo vinte e cinco, trinta, cinquenta escudos por semana, conforme o préstimo e a bondade do agricultor contratante.

O problema era sempre o mesmo. O Miro arava, abria valeiras, semeava e plantava, estrumava e sachava, mondava e colhia, mas a cabeça portava-se mal, a cabeça ardia-lhe como ferro ao sol. Exigia-lhe sumo de uva a toda a hora, tanto dele no bucho como de ar nos pulmões.

Foi assim que uma vez se voltou sem mais nem menos para a Dona Antoninha, a fidalga da Luz, e com ar sofrido lhe rogou:

– Ó minha senhora, pelas almas! Dê-me um copo de vinho, que eu já não me tenho em mim…

Era um escândalo.

O Miro sorvia ruidosamente o copo alto, a malga funda, a caneca bem medida. Era como se morresse à míngua, como se comesse vinho, os queixos muito sujos, a barba ensopada, a camisa sarapintada de nódoas. Bebia rubro do esforço, vermelho da secura.

Daí para a frente era o desastre. A fidalga vociferava:

– Aquele homem põe-me a alma no inferno. Aquele homem só faz bordel…

«Fazer bordel» era o mesmo que trocar sementes, esquecer a ferramenta no meio dos campos, deixar a água fluir pelos canais errados, não trancar a porta da pocilga. Pior, muito pior do que isto, era pregar sustos à fidalga.

Leitor atento, queres exemplos, não é assim?

Hesito qual deles dar-te, visto que não foram poucos os que testaram a paciência da pobre senhora. Talvez este caso, que é de boa índole. E se dentro dele escutas já o assobio do Miro, não julgues que a Mena ficou de fora.

Em agradecimento de certo obséquio que realizou o fidalgo a gente de fora da freguesia, ofereceram em vésperas de S. João um anho a Dona Antoninha, para o assado.

Foi o bicho posto nas catacumbas do solar, preso numa corte feita de improviso, à espera que lhe dessem um destino. Precisavam de alguém para o matar e de alguém para o esfolar, dado que nem as criadas da casa conseguiam isto, nem os criados estavam para aquilo. Chamaram, portanto, o Miro e a Mena.

O animal era muito bonito, coberto – como não podia deixar de ser – pelo lanoso macio de todos os espécimes da sua espécie, balindo a todos os que lhe afagavam o pelo como a pedir misericórdia, igual a uma figura de presépio.

A Menina Constança, a fidalga mais nova, afligia-se. A Menina Rita, a fidalga mais velha, afastou-se para não ter de olhar e ouvir. As criadas amparavam mal as lágrimas, de tal modo a cena metia dó. Apenas o Miro, que havia emborcado um par de cálices de vinho do porto e outros tantos de aguardente, parecia saber o que fazer – ele e a Mena, que afiava as facas e tinha já duas panelas com água a ferver e um alguidar grande de barro com rodelas de limão.

– Segura-lhes nos cornos, Miro!

– O rais ta parta, Mena. Este peludo tem cornos, por um acaso?

O Miro desferiu-lhe uma marretada na cabeça, que assim se matavam os anhos. O animal tombou. Estava feito! Dona Antoninha, vencendo a relutância, espreitava do eirado. A Mena arrastou-o, deixou-o junto do alguidar, porque queria acabar de amolar as facas. Mas eis que num ápice o anho se levantou e se pôs a barregar outra vez.

– Ai, meu Deus! – berrou a fidalga.

– Ai, meu Deus! – afligiram-se as criadas.

– Ai, meu Deus! – disse o Custodinho, neto da fidalga, que nessa altura estudava no Seminário de Braga e tinha vindo para a missa da solenidade de S. João Batista.

A Mena, já muito emperrada na voz e com os olhos a luzir, disparou imprecações contra o matador incompetente. O Miro, sem se importar com a consternação geral, emendou a mão e acabou à segunda o serviço.

– Ó minha senhora, não se aflija! Não se aflija, digo-lhe eu! Estes bichos são mesmo assim, tanto estão mortos, como estão vivos.

Sei de fonte lídima que não se anho assado nessa ocasião no solar da Luz, tamanha foi a repulsa e tão grande a lembrança do bicho morto-vivo.

Foram os serviços do Miro e da Mena dispensados, com natural azedume e muitos ralhos à mistura.

Se a consciência e o sentido da justiça tivessem imperado, havia a fidalga de arrepender-se e pedir desculpa ainda por cima. Cá reza o povo, e com bastante arrimo da verdade, que «Tanta culpa tem o bêbedo como o taberneiro: se um é o lume, o outro é o fogareiro».

Está a história pouquíssimo rabiscada no caderno do avô, redigida num estilo, no itálico da sua caligrafia habitual. Data não tem, fundo de verdade talvez tenha. Pergunto-me amiúde porque nunca os terá publicado, se tão melhores são que os meus!

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Logótipo Oficial 2024

Bêbedos

Eduardo Gageiro (1974, Nova Iorque)
Fotografia de Eduardo Gageiro

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Nesse país cada vez mais intocável e sagrado, havia gente boa e má (como houve e haverá sempre em todas as eras da humanidade) e havia os bêbedos, que eram uma porção à parte, lendários pelas façanhas e pelo sofrimento, cuja postura errante (quase sobre-humana) lhes não permitia caber com rigor em nenhum dos dois braços da balança maniqueísta.

Aprendi a entender-me com eles.

Havia, não muito longe da casa dos meus avós, uma taberna. Que frequentava esporadicamente por se vender nela, além de vinho, aguardente e bacalhau frito, pastilhas elásticas, chupas e cigarrinhos de chocolate. A malta da cirrose e a malta das cáries dentárias encontravam-se ali, por assim dizer, numa associada veneração do vício. As mãos zelosas que despejavam a perdição do fígado em copinhos e copos de quartilho eram as mesmas que nos enchiam as sacolas eufóricas com imperdoáveis gulosices de que ainda hoje sinto uma saudade imensa, especialmente bombocas e chocolates Imperial.

Regresso aos bêbedos.

Havia-os espalhados pelas duas divisórias da taberna. Formavam, grosso modo, dois partidos. Os ruidosos, que batiam cartas e faziam grandes manifestações de poder, os fanfarrões portanto. Nos quais se incluíam os mais populares e célebres, por estarem, por regra, ligados ao Sagrado Coração de Maria e aos PPD. Neles se incluíam muitos dos antigos delatadores da PIDE. Que eram ótimos nas opas vermelhas das procissões e péssimos em casa, aonde chegavam, com o cinto nas mãos, dispostos a bater na mulher e nos filhos pequenos e em quem lhes fizesse frente. Um ou dois destes alegres borrachões foram, já depois do 25 de abril, atraídos ao engano e acabaram com uma faca nas costas. Mas disso não me lembro, por não ter nascido a tempo da epopeia geral e das tragédias particulares. Recordo-mo dos relatos, isso sim, que nas noites de verão, ou nas de inverno, faziam sem grande censura desses tempos de viril combate e ajuste de contas.

Havia, do e por outro lado, os silenciosos. Os ébrios que engoliam solitariamente canecas de carrascão e comiam solitariamente a broa e o fígado com cebolada. Ainda antes da Revolução, costumavam dizer «O Salazar é um filho da puta» e costumavam dizer mal da vida. Mas isto só quando cambaleavam e caíam nas bermas a horas mortas. Alguns, que falaram ainda antes das horas mortas, e que gozavam da fama de vermelhos, foram prontamente internados na Rua do Heroísmo (no Porto), em Peniche e em Caxias. Não tanto para um tratamento alcoólico. Mais para uma saudável cura ideológica, que incluía no seu plano terapêutica pancadaria, tortura de sono e ameaças à família. Julga-se que nestes factos se justificam os narrados derradeiramente no parágrafo anterior.

Menos encarnados, e menos amparados por isso pelos braços da PIDE, muitos destes homens sem prole e patroa caíam onde calhava e ficavam ‒ como bebés ‒ encolhidos até que o dia fosse dia, e o chiar dos carros de bois e o estrépito das socas dos lavradores os despertassem… Conheci algumas destas personagens, assisti, aliás, aos seus pavorosos e (porque não confessá-lo sem hipocrisia) hilariantes trambolhões.

De entre todos os beberrões famosos, o mais extraordinário foi o Manelzinho Cesteiro. Cesteiro nas horas vagas, avinhado nas de expediente. Tinha um rádio. Que era grande e com duas poderosas colunas, uma pega, muitos botões e teclas, uma antena gigante. Aos poucos chegava-nos com progressiva nitidez a festa ambulante («Casei c’ uma velha / Da Ponta do Sol / Deitei-a na cama e o raio da velha rasgou-me o lençol»), cantada a duas vozes, a do Maximiano de Sousa e a do meu bêbedo preferido.

Sentia, então, uma felicidade única. Uma felicidade sem mácula, idêntica à que me chegava da roupa branca no estendal rescendendo a sabão Clarim. Porque era tudo pitoresco. Magnificamente alegre. Divertido. E o Manelzinho Cesteiro, pernas escarranchadas, interrompendo de súbito a marcha, rádio às costas, repetia na sua voz roufenha: «Tornei-a a deitar. / Tornou a rasgar. / Perdi a cabeça e atirei co’a velha de perna p’ró ar». E a felicidade era aquilo: o tijolo estereofónico, a cantarola, o cambalear assustador, a mulher do Manelzinho (furiosa, a vir resgatá-lo do riso público), a voz do Manelzinho a ir-se, sempre bem-disposta, muito fanhosa, repetindo a historieta da velha atirada de perna para o ári do Max: «Ó menina da Camacha, / Diz de mim o que quiseres, / Menos que não tenho jeito p’ra agasalhar as mulheres…»

Não me lembro dos cestos, que eram o seu ganha-pão. Da mulher, que era uma matrona minhota, de buço mais espesso que um bigode, só muito vagamente. Da filharada já pouco sei. Dispersou-se pela Andorra, pela Suíça, pelo Luxemburgo. Lembro-me bem, isso sim, de certa manhãzinha de domingo, quando no regresso da catequese, ouvi este desgraçado homem choramingando. Tinha caído num silvado. Pedi ajuda. Lá o retiraram. A cabeça apareceu cheia de escoriações, as mãos sangrando, a roupa esquálida. Aos fedores da bodega tinham-se-lhe acrescentado o das próprias fezes e urina. Davam-lhe o braço, abanavam a cabeça, repreendiam-na com dureza. Sem rádio, sem cantoria, sem felicidade de espécie alguma, o Manelzinho Cesteiro era tão só uma criatura repulsiva.

A miséria humana julgo tê-la compreendido pela primeira vez. Uma pena infinita fez-me detestar a fraqueza do espírito. O homem gemia. Sem rádio, sem cantoria, sem felicidade de espécie alguma, ia-se. E foi. Tão triste que bebia cada vez mais. E depois dele foram, outros companheiros de sina. Praticamente todos. Inchados e amarelentos, tremelicantes, destituídos da aura que primeiro os celebrizou. Até que por fim também a taberna morreu, emparedada por fileiras de blocos e ervas daninhas. À espera de demolição.

E esses bêbedos não regressaram.

Como sempre sucedeu com aqueles que ousaram quebrar regras, aqueles que secretamente admirei sempre, este punhado de homens regressa às vezes ao meu pensamento. Escuto-lhes a algazarra, os impropérios, as cartas batidas com furor nas mesas de pinho, o derrubar das garrafas, o caminhar trôpego, o rádio, a voz nasalada («Casei c’uma velha / Da Ponta do Sol…»), as mulheres furiosas, as ameaças, os beijos surripiados no meio da rua, tudo. E sorrio.

Aprendi a entender-me com eles.

Habitam cada vez mais esse país longínquo, depurado, cheio de nostálgicas reverberações e ecos, espantosas reminiscências, figuras lendárias, emoções e saudades. Não foram pessoas boas nem más. O tempo libertou-os de toda a absolvição e de qualquer condenação. Eram uma porção à parte. O leitor compreende o que digo. E escute. Escute bem. Em dias de sol, quando a roupa ao sol for um baloiçar de perfume e de ternura, talvez lhe chegue uma voz fanhosa, alegre, de homem aos esses: «Ó menina da Camacha, / Diz de mim o que quiseres, / Menos que não tenho jeito p’ra agasalhar as mulheres…».

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