BUCÓLICO

avó e neto, grandpa, grandfather and grandson, love
Foto: Steffi Atze

 

Ao cimo da colina fica o centro do mundo. Dali avista-se tudo: a aldeia poisada nas encostas, a igreja medieval, o rio mais abaixo com a sua pontezinha romana, os carros de feno e os rebanhos deslocando-se devagar, iguais aos carros de feno e aos rebanhos de há mil anos.

Aí, protegido pelas ramagens de um velho freixo repleto de vergônteas e raízes, escutamos o seguinte diálogo:

– A minha vida foi covarde, fraca, miseravelmente vivida…

– Porque diz essas coisas tão feias?

– Porque fui sempre um covarde, um fraco, um miserável…

– Não diga essas coisas tão feias…

– Mas tu podes ter outro destino, meu filho!

– Como assim, avozinho?

– Podes pôr em mim os teus olhos, ver o que não queres para ti, olhar-te agora num tempo futuro…

– Mas, avozinho, como pode acreditar nessas coisas tão feias? Foi sempre tão amigo de toda a gente.

– Matei todos os meus sonhos, desprezei todas as mulheres com medo que me desprezassem, ignorei os avisos, descri nos conselhos, supus-me velho em todas as idades da minha vida… Não fui sequer, por fim, capaz de pôr termo ao terrível remorso que por dentro me devora como uma Erínia!

– O que quer dizer com isso?

– Tu sabes… Acabar com tudo…

– Avozinho!

– Mas tu és diferente, filho! Digo-te que tens outro destino à tua espera. Digo-te que vás! Vai enquanto a sombra dos teus pés não é suficientemente pesada para te emperrar ou demasiado forte para te fazer voltar o pescoço… Vai e nunca olhes para trás!

As nuvens adejam lá em cima. A colina é suave como o contorno de um fruto. Todos os que gostam de uma boa história sabem como as palavras são vaidosas e o quanto apreciam um bom cenário em fundo.

«Nunca olhes para trás!». Realmente, quando se caminha nunca se deve voltar os olhos para trás. É uma verdade universal.

 

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O AMOR COMO ELE É

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Foto: Nico Ouburg

Gostava de ter sido uma pessoa diferente, mas se pudesse voltar atrás não saberia por onde começar, disseste uma vez. Lembro-me bem. Havia bocados de telha no chão, por causa de um temporal de véspera. Lembro-me que falavas com o avô e eu escrevia no asfalto. Escrevia tão distraído como o Cristo que escrevia distraído no chão.

Nessa altura, a voz era já um motor lento e rouco, afligido pelo catarro e pelo começo de um cancro. Não sabia que sim. As mãos tremiam-te. Tão brancas que mal podiam ser da mesma carne que nós. E talvez não fossem carne, mas já um vapor frio. Todo o teu corpo era uma despedida: pálido e inquieto, distante e enregelado. Como quando esperamos uma partida. Como nos domingos, antes de cairmos no nosso poço de melancolia, sabendo que cairemos nesse poço. Como nos dias a seguir às Festas, quando janeiro se torna uma estrada interminável e intransitável. Como quando sentimos o nosso ser amarfanhado, doloroso, tomado pelo medo e pela angústia. Nessa altura, todo tu eras um tronco apodrecido, caminhando sem firmeza, sem certeza, como se os ossos tivessem principiado a ruir por dentro.

Gostava de ter tido mais tempo para mim, Manel. (Manuel era o meu avô!) Gostava de ter estudado. Gostava de ter sido inginheiro.

O catarro devia ser uma espécie de código, de linguagem, de entendimento entre velhos. Porque catarravas primeiro e o meu avô ria e catarrava também. E o riso de um provocava o riso do outro e o catarro do primeiro puxava o catarro do segundo. O catarral não impedia que o meu avô puxasse do maço de Kentucky e to estendesse como quem oferece, misericordioso, um peitoral Santo Onofre ou um Dr. Bayard. Eu ouvia e escrevia. Com um pedaço de telha. Com o coração aceso de curiosidade e vaga ignorância.

Nem ao menos me ficou um neto e companhia, Manel. Tu tens sorte. Tens muita sorte, Manel.

E a sorte do meu avô era ter-me por perto. Aviar-lhe os recados. Dar-lhe cabo das leiras de cebolo e pisar-lhe os ervilhais. A sorte do meu avô era limpar-me o ranho e ensinar-me a plantar batatas, dar-me café de borra com leite e broa e explicar-me, um a um, o nome dos pássaros. Era uma sorte, sem dúvida. Aquela que têm aqueles que ficam na nossa cabeça quando viajamos e pensamos neles. Aquela sorte imensa que possuem os que nem sonham que nós sonhamos com eles e que por sua causa damos imensas voltas na cama. Aquela sorte dos que nos fazem sorrir e às vezes chorar em segredo. Porque, porra, aqueles que amamos têm esse poder, mesmo se nem
imaginam ao de leve que têm esse poder. 

Quem me dera ter por cá um dos meus. Estão todos lá na França. Todos, Manel. Não me ficou ninhum.

Quando, velho Gusmão, passaste o baraço pelo pescoço e pela trave a corda espessa de sisal, sabias que o amor é branco como a flor da cicuta e negro (nigérrimo) como as bagas da beladona. Porque o amor é formoso e saturado de uma subtil peçonha que nos aviva e nos mata aos poucos. Angústia súbita que nos incha com as vísceras, nos queima por dentro, nos sufoca, nos corrói, nos abandona às vezes.

Esse teu neto, Manel, que moço curioso! Parece que está lá longe, mas está a apanhar tudo o que dizemos…

Quando, velho Gusmão, te penduraste numa trave, sabias que o amor é formoso e sinistro, belo por fora, mas terrível e devastador também. Sabias que quando por ele respiramos e não pelos pulmões, quando nos alimentamos por ele e não por nossas mãos e boca, quando por ele sonhamos e não pelos nossos olhos abertos e distantes, estamos à beira da morte. Quando pontapeaste o escabelo, onde te havias empoleirado, e sentiste o golpe da corda serrar-te a garganta, sabias que valeria a pena ter durado mais, ter durado até se atrofiar de todo o esqueleto, se a vida te não tivesse negado o único bem por que valia tudo. Esse teu neto ainda te vai dar muitas alegrias, homem. Olha para o que eu digo.

Com a sincera mágoa de quem nunca leu um único poema, romance, enfatuamento romântico, sabias que o amor é culpa de muita coisa. Pedra como todas as pedras, hirto e morto, inflexível e cheio de esperança, ou de arrependimento, ou de arestas ou de comiseração. Quando aos oitenta e seis anos te deixaste ir, baloiçando pesadamente como um pêndulo, ninguém pôde compreender-te. Nem aqueles que tinhas na cabeça e nos sonhos e nas saudades. Nem esses. 

Demoraram três dias a dar-te com o corpo. Com o corpo. O resto talvez não venham nunca a encontrá-lo.