Tocata e fuga

Foto de arquivo pessoal (2019)

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Daqui avista-se mar e rio.

O mar e as formações rochosas que descem do paredão até à linha dos seixos e à espuma. Se por elas saltitamos, vemos charcos salgados e pequenos tufos de funcho-do-mar (resistindo a tudo, semelhantes a borracha), e muitas vezes o pôr do sol. Em cima, no parquezinho onde o verde dos chorões se ilumina todo o ano, perfilam-se as autocaravanas dos turistas estrangeiros, automóveis com casais de meia idade em silêncio, às vezes um ou outro solitário cismando ou o cano de uma objetiva sobre um tripé. Em baixo, no abismo do grito das gaivotas, o eco da rebentação, o chiar da areia quando as ondas recuam, a linha da água encapelando-se, embatendo nos rochedos, esbranquiçada, mansa e violenta, até ao ponto de focagem em que o céu, as nuvens e o sol nela se fundem.

Mas também o rio e a cidade, também esta neblina que agora se ergue da praia e torna mais belos, quase feéricos, os pontos de luz ao longe, nos postes elétricos, nas janelas banhadas pela claridade azul dourada do fim de tarde, essa cortina de vapor que nos confunde as formas e as cores e se entranha na roupa. O rio que é decerto não mais do que um rodapé sobre o qual os nossos olhos distantes principiam a derivar da realidade, a fantasiar, a narrar o mesmo sonho de sempre («Um dia hei de aqui viver!»). A cidade que tão bem se conhece, mas que nos parece outra, tranquila assim, adormecida, silenciosa da Foz à Ribeira, da Ponte D. Luís ao farol e à pérgula, ao terminal de cruzeiros, à refinaria e às praias de Leça, ao fundo, além, na penumbra já.

Fujo.

Os meus sábados são (por esta altura da existência) lugares. Em cada um deles coso e descoso e volto a coser uma certa pele vadia que me acompanha desde criança. Gosto de me perder nas paisagens, de me esquecer nelas, de me redescobrir vivo no silêncio e nas coisas que toco com mãos livres e ávidas.

Como Bach, como Pessoa, como van Gogh ou Sorolla (que comparação esta!), componho, escrevo e retrato em simultâneo. E compondo, escrevendo, retratando (verdade ou fantasia, não importa), sinto-me aconchegado a outro eu que neste espaço e neste tempo deseja permanecer (um dia) para compor, escrever e retratar mais dentro, mais profundamente, mais em paz consigo mesmo, feliz de se juntar à maresia, ao areal, ao frio, às silhuetas que aqui (ao crepúsculo) se multiplicam e renascem e hão vir muitas vezes para matar a morte que lentamente os mata, como a mim a morte me mata sem pressa. É algo como uma concha mental e cardíaca. Um dia hei de aqui viver!

Fujo, portanto.

Os meus sábados servem para caminhar pela costa, para me deliciar com plantas e aves a que raros prestam atenção, para criar poemas que ninguém lê, para fotografar os avanços do oceano e da velhice na minha vida.

Por muito que me esforce, não consigo transferir para as palavras esse maravilhamento. Seria prudente, como Caeiro, ficar-me pelo sentir. O amor que me permite disparar o flash é à prova de grandes discursos. O mar e o rio, as ondas e a cidade, a neblina e o frio que se levantam deste sábado, neste miradouro, são talvez um prémio, a recompensa de dias difíceis que me pedem mais do que me posso dar.

Talvez seja algo que nos acontece a todos: perdemos aos poucos o controlo do quem somos e do que fazemos. Talvez nos sobre esta nesga de ilusão, este clarão que se acende quando o dia se apaga e o lusco-fusco transforma tudo numa enorme presença cósmica. Talvez este banco de pedra, onde me sento, seja aquele umbigo do mundo a que chamavam na Antiguidade «ônfalo» e punham dentro de uma gruta habitada por uma sibila.  Talvez, como eu, milhões de humanos precisem de fugir de si uma vez por semana para de novo se reconhecerem na mais ampla e formidável escuridão.

Daqui avista-se o mar e o rio. O que quer que eles signifiquem.

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O medo da morte e outros medos

Anette Ohlendorf
Fotografia de Anette Ohlendorf
 

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As salas de espera nos hospitais são lugares incríveis, desconfortáveis, ruidosos, atarracados, repletos de pessoas numeradas, numerificadas, anónimas, cheias de velhice precoce ou consumada, com compressas e ligaduras, deitadas em macas ou presas a cadeiras de rodas, babando-se ou resmungando, ansiando pela chamada do intercomunicador, pedindo outra vez para ir à casa de banho, manejando o telemóvel horroroso (que não para de tocar e toca altíssimo), berrando pela filha que saiu do campo de vista ou contra a mãe que fez chichi pelas pernas abaixo e obriga agora à intervenção de uma funcionária de bata azul e muitíssimo mau-humor.

Chega-se muito antes da hora marcada para a consulta, procura-se uma cadeira plástica livre, limpa, menos retorcida se possível, senta-se nela a angústia toda, devagar, muito devagar se possível, para que a paciência esgote aos bochechos e não de uma vez só, o diabo leve para longe uma crise de pânico, e então, sim, tem-se uma visão claríssima da nossa condição.

O cavalheiro que não deixou de me perseguir com o olhar desde que cheguei é, literalmente falando, um velho conhecido. Cruzámo-nos num corredor da Imagiologia em junho, na Imunohemoterapia em julho, num WC em agosto. Podia dizer que o mundo é pequeno, mas a expressão parece-me duplamente redundante, porque o mundo é mesmo pequeno, para mais dentro de um hospital, e o mundo dos doentes é menor do que o mundo pequeno das outras pessoas, é um mundo asfixiante, uma casca de noz!

Na fila da frente, há uma mulher de lenço na cabeça. É um lenço bonito, elegante, feito de um rosa macio, nacarado, de onde brota uma esperança que me comove. Podia ser verde, ou azul, ou violeta, ou salmão. A mulher tem um rosto fino, não sei dizer se jovem ainda ou já não, mas belo, muito belo, atraente. Gosto de me distrair descrevendo-lhe os lábios, as pestanas, o rubor que pinta as suas faces e contrasta com os olhos  amadurecidas pela surpresa.

Quase sempre trago um livro ou o iPad. Às vezes rabisco um apontamento e faço de conta que não pertenço às estatísticas, que sou um intruso, que não venho ouvir notícias duras, que os ponteiros funcionam de maneira diferente para mim. Chego a esquecer-me das dores nas costas, e da espécie de enxaqueca que se vai costurando na minha cabeça, e da fome, e da sede, do maldito cigarro que alguém decidiu fumar além, ali mesmo, para lá da curta porta que os sensores mantêm sempre aberta e sempre a fechar-se.

Durante a espera há tempo para tudo.

Às vezes atrevo-me a olhar para as pessoas de frente. Explico-me, a observá-las sem piedade, com ousadia, fundo, perscrutando-as até aos ossos. Deve ser uma prática criminosa, porque às duas por três me arrependo, me sinto vexado, me encho de remorsos e de culpa. Sinto-me então ainda mais cansado e mais triste. É como se outra pessoa tivesse ocupado o lugar que deixei vazio e essa pessoa fosse eu a olhar-me ao espelho sem me reconhecer.

Será que na sala há outros monstros como eu? Em que pensará toda esta gente? O que sentirá? Que medo a fará pregar-se ao chão e não agir com ímpetos de motim?

Regresso então ao ancião conhecido, que me segue sempre com um misto de carinho e de espanto («O que trará um rapaz tão novo a este lugar tão tenebroso?», «É o que eu digo, elas vêm cada vez mais cedo!», «Se calhar, é um cancro.», «Sei de miúdos cada vez mais novos a morrer assim…»). Percebo que me quer o nome, a idade, a confirmação da maleita. Adivinho-lhe os pensamentos, apetece explicar que não sou assim tão novo, que não tenho (segundo o apurado até à data) um mal tão grande, que isto se vai resolver, que há na vida complicações inesperadas. Percebo que talvez gostasse de me falar da sua própria enfermidade, dos filhos, dos netos, especialmente, quem sabe, daquela que é enfermeira em Londres e o orgulho da família («Sabe você que tenho uma netinha, pouco mais nova será que o senhor: foi trabalhar há coisa de um ano, ano e meio, para Inglaterra. É uma miúda do dianho. Foi sem medo, ganha muito bem!»).

Mas nunca trocámos uma palavra.

Porque me divido agora com a senhora do lenço na cabeça. Tão bonita, tão triste, tão saturada da vinda a este e a outros banquetes semelhantes, tão só («Descobri há meses um nódulo no peito e foi o começo», «Já uma irmã minha morreu por causa do cancro da mama», «O que custou mais foi a quimioterapia. Nessa altura, fiquei com a boquinha toda em ferida.», «Agora, se Deus quiser, isto vai passar…»). Não descortino um modo de iniciar com ela uma conversa. Nem valerá a pena. Não suporto tamanha tristeza. Não saberia contar-lhe algo engraçado, tragicómico, apropriado à situação («Olhe, estou aqui sem saber bem como. Foi como um macaco ter caído de um galho. Descobri tudo por acaso…», «A vida prega-nos rasteiras inacreditáveis. Fui a uma consulta, supondo que me raspava em cinco minutos, e fiquei internado onze dias»). As desgraças cansam, maceram, desgraçam-nos.

Nunca faço nada de relevante. Não consigo concentrar-me.

Sinto que aqui cheira a medo. Na verdade, a diferentes tipos de medo: a medo de que a espera se prolongue interminavelmente; a medo de más notícias; a medo de que a filha subitamente desaparecida não volte para a nossa beira e um bando de estranhos nos capturem e encaminhem para qualquer lado incógnito, incompreensível, irreversível, infernal; a medo de que a nossa mãe demente volte a protagonizar um escândalo na sala (onde já se viu, fazer chichi pelas pernas abaixo?) e de que a funcionária terrível, carrancudíssima, nos passe uma descompostura monumental; a medo de que na sanita faltem o papel e a higiene e de que, nesse preciso instante (em que intestinos e bexiga atingem o limite), soe o nosso nome e a indicação do consultório no altifalante. A medo decerto de sermos afinal tão frágeis como acreditamos que somos; de que se repita uma epistaxe, de que se solte um flato, de que em desespero de causa se diga um palavrão. A medo da velhice. De ficarmos nessa ou naquela maca com algália e saco repleto de urina de lado; a medo de que as palavras sejam a partir de certa altura apenas chocalhos mentais, átomos a bater contras as paredes da cabeça, ideias confusas, morte.

Normalmente, tudo termina quando nos levantamos e nos dirigimos para certa porta. Depois, alguém de bata branca, voz mansa e olhos risonhos apazigua todos os pavores. Não sei como se passará com o velhote que me espia, nem com a senhora de lenço na cabeça que eu espiei. Julgo que é só uma forma de ver as coisas, ou também isso será uma feição do medo: medo de não se saber nada, de não se ter certeza sequer de que à nossa volta outras pessoas existam.

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Os professores são imprescindíveis. Ponto

Marco Tagliarino
Fotografia de Marco Tagliarino

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Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social (quando escrevo «classe social», refiro-me evidentemente a um grupo de pessoas suficientemente próximas umas das outras pelo que são e pelo que fazem juntas, pelo que ganham e pelo que perdem diariamente sendo e fazendo, pelo que sofrem e pelo que ambicionam ganhando e perdendo todos os dias, sendo e fazendo), exceto talvez aquela a que pertenço.

Sou professor.

Com muito orgulho (lá no fundo), com muitas ganas (pelo menos nos dias bons), com talento (suponho), com suficiente destreza e atrevimento (sim) para continuar a sê-lo apesar de tudo.

Sou professor há 20 anos. Contratado, de Português, do ensino básico e secundário. Com experiência alargada ao ensino superior (não gostei), a alunos estrangeiros (adorei), sem esquecer a idosos que nunca, antes de mim, tinham tido aulas formais na sua língua materna (a melhor de todas as coisas que me aconteceram no espaço da sala de aulas). Um entre tantos que se vão desiludindo, a quem uma certa centelha de alegria se vai apagando aos poucos, por não suportar o país imbecil que os trata mal, entenda-se, que os destrata de alto a baixo; entenda-se, dos gabinetes do Ministério às conversas de rua.

Acima, atrás, há pouco, sublinhei o apesar de tudo.

Porque ser professor em Portugal implica uma capacidade quase estoica de suportar dificuldades que começam e acabam no desaforo dos meninos e pais malcriados (eventualmente violentos e desentendidos com a escola) e passam pela permanente sensação de instabilidade (uma teia legislativa imparável, desenhos curriculares sucessivamente reconstruídos, regras de concursos alteradas), sem esquecer a afronta salarial e o descaramento dos governos no tocante ao (des)congelamento da carreira e sistema de avaliação.

Esqueci, não propositadamente, o facto de, para trabalharem, muitos professores terem de se deslocar de casa centenas de quilómetros. Pagando rendas exorbitantes. Pagando portagens. Pagando combustíveis. Sem ajudas de custo. Sem proteção à habitação de espécie alguma (não será de espantar que no Algarve e em Lisboa se encontrem professores a viver em parques de campismo). Sem o reconhecimento, sequer, de uma sociedade que se habituou a queixar-se dos privilégios dos políticos, magistrados e administradores de empresas estatais e que não vê motivo para estender aqui, nesta questão concreta, uma migalha aos professores afastados da sua família, por ser o seu trabalho e, entenda-se, a sua obrigação!

Estamos mal. Os professores são mestres, são docentes. Entenda-se, ensinam.

Quanto a mim, que amei os meus professores (não serei hipócrita a ponto de omitir que detestei alguns), que lhes reconheci mérito e génio, que lhes agradeço as imensas lições, sabedoria e competências que me proporcionaram, que lhe imito ainda a fleuma e o fair-play, o sentido de humor e o sentido de responsabilidade, a dedicação e a exigência, só posso afirmar que são a melhor classe de pessoas com que tive o privilégio de conviver.

Acrescento a esse grupo fabuloso de profissionais talvez os enfermeiros e cuidadores de saúde (nos lares em especial), alguns médicos, um ou dois padres, um ou dois mecânicos, um ou dois pasteleiros, talvez meia dúzia de livreiros e poucos mais.

Não se percebe que profissionais dedicados, quase em regime de abnegação, sejam olhados como parasitas, ingratos, incompetentes, preguiçosos, estúpidos, incapazes de impor ordem e disciplina, queixinhas, etc.

Estamos mal. Porque todos os apodos que usei no parágrafo anteriores são os que se usam diariamente para acusar a classe dos professores. Pior, para dividir os professores entre os bons e excelentes (somente uma parte pequena) e os maus, malucos, horríveis, malcheirosos, ignorantes, peneirentos, maníacos, exigentíssimos, insuportáveis e por aí fora.

Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social, insisto. É provavelmente um exercício para um comentador de televisão, não para quem tem ainda este fim de semana uma pilha de testes de diagnóstico (minto, de avaliação formativa inicial, para corrigir) e as aulas da próxima semana para preparar.

Contudo, tenho este desabafo a bailar na boca: não me estou a ver a fazer outra coisa.

Gosto da sensação de abrir a porta da sala de aula e saudar os meus alunos. Gosto de levantar as cortinas e deixar a luz entrar e de dizer algo belo e sensível. Gosto de os ouvir confessar algo surpreendente, algo impensável como uma ida a Serralves que valeu mesmo a pena, um filme afinal muito bom que eu lhes sugerira semanas antes, um livro fantástico de Gabriel García Márquez (muito melhor que os de Nicholas Sparks, John Green ou Sidney Sheldon)…

Ser professor é exatamente a medida da diferença.

Qualquer coisa como aquela peça minúscula, quase indetetável entre rodas dentadas e alavancas, que fará girar a vida noutra direção, que encaminhará um improvável adolescente rebelde para um curso de engenharia ou para uma faculdade de arquitetura ou para um instituto de medicina. Ou que, não os encaminhando para tão longe, os faz compreender uma vocação indescoberta e os conduz para o outro lado do mundo, atrás de um sonho novo, seja a bordo de um avião ou de um navio, seja em terra a defender animais e florestas, a fotografar montanhas ou a grafitar escombros e miséria.

Neste dia 5 de outubro, quero somente dizer OBRIGADO àqueles e àquelas que me tornaram no que sou: aos meus pais (primeiríssimos professores) e aos meus professores (segundos pais) a quem devo tanto. E com «tanto» quero dizer, sem tirar nem pôr, tudo!

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Catedral de São Miguel e Sanda Gudula, Bruxelas

Fotografia de arquivo pessoal (2019)

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O caminho de uma catedral é a passagem drástica do exterior para a sombra e depois, paulatina, a passagem da penumbra para a luz, a admirável presença do silêncio nas imagens que passamos a ver e antes não víamos por excesso de ruído. é conhecida a minha preferência pela arquitetura gótica, o meu fascínio pelo rigor geométrico absoluto, pelo deus que nelas desenhou, cortou, esculpiu, ergueu a pedra e o vidro, o metal e o próprio ar, o meu amor pela linguagem secreta das junções entre o cosmos e o corpo.

Assim que transpomos o pórtico e caminhamos pela nave lateral à esquerda, os séculos atropelam-se. primeiro, uma inscrição em inglês e latim, a lembrar o milhão de mortos do império britânico na primeira grande guerra (muitos dos quais, lê-se, jazem em território belga). depois, o colorido hagiográfico dos vitrais. por exemplo, este onde os meus olhos agora se detêm, retratando o colóquio de um monge e um secular, mesteiral, burgomestre, quem sabe, com molho de chaves na mão. mas é noutro plano, mais distante, em fundo, que me surpreende o cenário. genufletindo, um outro homem (ou mulher com vestes de homem) recebe o chamamento. o pintor fê-lo admiravelmente, fazendo descer sobre o seu rosto o traço amarelo, vivo, oblíquo (agora mais iluminado pelo fulgor da manhã de agosto) da revelação.

Fotografia de arquivo pessoal (2019)

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Percorremos o transepto, tocamos a estátua dourada do arcanjo Miguel, carregando sobre o demónio (um crocodilo, de boca aberta e dentuça ameaçadora), depois a abside, a nave oposta. aí, para lá da galilé, os crentes celebram uma missa. contemplamos o órgão e o púlpito, trabalhadíssimo, de madeira negra, formidável. acendemos a nossa vela, rumorejada com palavras de amor e petição.

Nunca sei o que sentir nestes lugares. e, no entanto, os pormenores regressam, como nós regressámos nesse dia ao coração da cidade. às vezes na luz impura, vejo-os como recortes nítidos e nostálgicos e medito sobre o seu significado.

Qualquer que ele seja, é pessoal. creio que o caminho de uma catedral é esse.

29.09.2019

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Bruges

Bruges 1
Fotos de arquivos pessoal (2019)

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Chegámos à cidade ao início da tarde. depois de nos apearmos do autocarro, avançámos por uma espécie de pista de tartã em direção ao centro. havia um casal de russos, havia de minuto a minuto o som espaçado de uma bicicleta (todo o ruído ali, aliás), havia a memória fixa de Amesterdão, dos subúrbios húmidos onde crescem álamos e nevoeiro, do Vondelpark pejado de corvos e estrangeiros, dos quadros de Brueghel reproduzidos em calendários de bolso.

Sempre gostei de lugares onde se chega a pé aos lugares, onde as árvores e a poesia crescem juntas na mesma água e na mesma terra, digo, na mesma luz, onde o silêncio é tão limpo quanto o chão e o vidro das janelas.

Entrámos em Bruges por uma grande praça ladeada de casas antigas, hotéis, um curioso edifício feito de grandes tubos verticais por onde o vento ecoa, exportando um som indefinivelmente musical e alienígena. traçámos a nossa rota anárquica, observando as grandes cúpulas das igrejas e os nichos dos santos, fotografando o nome das ruas e as singulares numerações pintadas nas paredes de tijolo, apontando mentalmente pormenores (a rapariga das tranças a transportar os manuais escolares novos, o leão flamengo a dançar na bandeira amarela sobre os telhados, as extravagâncias de chocolate nesta e naquela vidraças).

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Bruges 2

Caminhámos em meia lua, depois em reta, por cima de ladrilhos artísticos, através de uma pontezinha, nas traseiras de uma catedral, lado a lado com os barcos repletos de turistas.

Sobre um canal dois octogenários de mão dada abraçaram-se, depois deram um beijo. vimos sorrisos trocistas, ouviram-se exclamações em pelo menos três línguas. a tarde pareceu-nos  uma cortina dourada caindo sobre os jardins. julgo que terei dito algo a propósito de Bruges ser uma dessas cidades onde gostaria de viver.

Não creio ter sido escutado. na verdade, ainda é.

27.09.2019

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O rei e o monge

Daniel Fleischhacker
Fotografia de Daniel Fleischhacker

Teodorico, o Rei tinha-o mandado chamar e ele foi. Três dias de jornada até perto da capital, até à praia onde o esperava um ror de gente. O desgrenhado eremita entrou no areal, trajando farrapos, segurando um longo cajado, sem um esgar de ansiedade, medo ou hesitação. À medida que avançava para o baldaquino ou tenda real abria-se à sua frente uma clareira de espaço e de silêncio. Por fim, João deteve-se diante do monarca.

Teodorico levantou-se impressionado e deu um pequeno passo na sua direção, mas o monge barbudo recuou um passo maior ainda. Depois, em modo de compasso, o monge escreveu com o cajado um círculo na areia. Ninguém poderia nele entrar, sob pena de extrema maldição e vergonha para a posteridade. O bispo enojou-se do cheiro e do aspeto dos seus andrajos, os nobres arregalaram os olhos, o povo sussurrou.

Teodorico sentou-se e disse:

– Bom homem, agradeço que tenhas vindo. Há muito que te procuro. Os meus batedores trouxeram a boa notícia de que vinhas. Sei da tua santidade, conto com ela para que me ilumines o pensamento!

Os guardas trouxeram então, atados e sujos, sem sinal da anterior opulência e de magnificência, o deposto Almostancir e seis dos seus filhos, califa e senhores das ricas províncias do sul, terras ímpias e infiéis, em cujos palácios se cultivava agora o hábito de lançar seguidores da religião de Cristo a covis de leões e de víboras.

Teodorico não sabia que destino dar a tais prisioneiros. Confundia-o o amor devido ao próximo e o ódio merecido a estes distantíssimos inimigos da fé. Dar-lhes a morte atentava contra os preceitos, deixá-los vivos contra a vitória dos seus exércitos e a segurança do seu império.

– Este homem, rei nascido e agora execrado, matou impiedosamente, com ódio absoluto, incontáveis dos nossos irmãos. Quis a mão de Deus que se fizesse justiça. Tu, o mais desapegado dos filhos de Deus, que escolheste as montanhas para refúgio de todos os perigos do mundo, dirás o que fazer com ele e com os seus descendentes!

O monge ouviu estas e todas as palavras de Teodorico.

– Escutei as palavras do nosso bispo (o bispo afetou uma vénia ao ser apontado pelo rei), escutei as palavras dos meus generais (os chefes militares endireitaram mais o tronco), escutei os homens mais sensatos de entre os mesteirais e camponeses (os representantes do povo ergueram orgulhosamente o rosto), mas em boa verdade o digo: Deus por ti falará!

Viviam-se tempos agónicos, apocalípticos. Nunca como então, no virar do milénio, se desejara com tal veemência o ouro, em lado nenhum como ali se desprezava tanto o sagrado exercício de Paulo de Tebas, Antão ou Macário, santos anacoretas. Era preciso que as Escriturasvoltassem a ser lidas, era preciso que as palavras de Jesus voltassem a soar, nesse terrível século de lutas, limpas e desembestadas, como soaram outrora nas praias da Judeia.

O eremita olhou o rei nos olhos, profundamente, demoradamente, afetivamente. Depois sentou-se no meio do círculo, fechou os olhos, cruzou as pernas, colocou sobre elas o bordão e permaneceu imóvel, ausente, sem uma palavra, durante muito tempo. Teodorico, inquieto, escutava os cochichos crescentes dos conselheiros, o murmurar da multidão, o abespinhar das ondas, o grito selvagem das gaivotas.

Por fim, cansado, impaciente, cheio de tédio, perguntou.

– Então?

O asceta abriu os olhos de novo, levantou-se, fitou o céu e, brandindo o cajado, declarou:

– Porque me perguntas, Teodorico, o que tu próprio sabes já?

O corpo dos prisioneiros pendia, exausto, macerado, sem esperança. Teodorico, o Rei voltou a inquirir.

– Como podes tu saber o que eu sei?

– Foste ungido. A tua semente nasceu da semente d’Aquele que entre nós viveu um dia, as palavras d’Ele habitam as tuas palavras, o que Ele disse tu o dirás… Não perguntes mais!

Depois, perfurando pelo meio da multidão, pelo mesmo caminho por onde veio, o eremita partiu, infundindo nela o mesmo temor de antes. Afastavam-se os homens à passagem, juntavam as mulheres curiosas cabeças nas suas costas. Em breve desaparecia, sumindo-se na floresta que havia de o levar aos lugares trogloditas onde gastava os seus dias.

O monge dissera nada e tudo dissera. As suas palavras eram a afirmação de uma ideia, mas podiam sê-lo também da ideia contrária. Teodorico, perplexo, quis saber o que pensavam os outros da enigmática resposta do monge João.

Era um doido, declarou o anelado bispo: a resposta dele era um opróbrio, uma estultice, uma marca do demónio. O que o eremita quis dizer era óbvio, defenderam os generais, olho por olho, dente por dente: aqueles cães moiros mereciam ser atirados a um poço e deixados apodrecer à fome e ao frio! Isso não, corrigiram os homens do povo, devia era negociar-se a sua vida, exigir-se os resgates devidos a um rei e a príncipes: se o nosso dinheiro é útil, o do inimigo é-o duas vezes mais, para curar as feridas da guerra!

Teodorico levantou-se. Todos se ajoelharam.

Era mister que olhasse para o fundo, para dentro, para onde não podia mais enganar-se. Ele sabia, sim. O monge acertara. O paradoxo é inerente à condição de mandar.

Beijou a cruz que trazia no peito e ergueu-a para que os infiéis conhecessem o novo poder. Depois, brandindo a espada fê-la descer sobre as odiosas cordas que sujeitavam os cativos. Libertou-os, sem saber porque o fazia ou com que riscos. Ordenou que os montassem nos cavalos saqueados.

E eles foram, pelo mesmo caminho do eremita, a caminho da floresta. Ninguém sabia em direção a que deserto.

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O velho político

Sergei Smirnov
Fotografia de Sergei Smirnov

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O velho político estava bastante confiante. Ia defrontar o antigo partido nas eleições do outono e dar uma valente lição aos ex-correligionários, provando ser capaz, sozinho, de derrotar toda uma máquina de angariar votos e de eleger-se à boa maneira antiga: berrando e prometendo, prometendo e berrando. O velho político tinha de si a mais alta estima, ele era uma instituição!

No início do debate, o jornalista moderador, à maneira de um introito, colocou um par de questões a cada candidato. Eram sete ao todo. O velho político terminava a ronda. Tinha bebido. Estava bastante bem-disposto. As faces vermelhuscas não ajudavam à imagem. mas sabia exatamente o que dizer.

– Começo por questioná-lo sobre o leitmotiv da sua candidatura independente: vinte anos ao serviço e agora a decisão de enfrentá-lo. Porque o faz? Não receia que muitos dos seus camaradas vejam nesta sua candidatura um ato de traição?

O velho político tinha resposta para aquilo.

– Oiça. É uma falsa questão. Eu não posso ser mais conotado com o partido a que pertenci. Foram outros tempos! Tenho uma visão nova sobre os mesmos problemas…

– Perdoe a insistência, mas não admite a hipótese de haver alguma contradição em liderar um partido duas décadas, ser eleito sucessivamente nas suas listas e agora refutá-lo liminarmente?

– Nem pouco, nem mais ou menos… Sou um homem com visão, um cidadão livre, com convicções próprias! Esta terra precisa de um pulmão. Temos de a catapultar…

– Terra que liderou durante vinte anos…

– Sim, mas com a minha equipa agora…

– Porque pensa que conseguirá fazer no próximo mandato o que não conseguiu em cinco?

O velho político vermelhava agora ostensivamente, sorrindo com afetação. Havia mais candidatos na sala e não lhes fora dirigida qualquer questão com a mesma veemência. Irritava-o já o tom, os esgares, a insistência do jornalista moderador, para não falar da sua muito provável falta de isenção.

– Oiça! Do que esta terra precisa é de uma de uma liderança forte e experiente. Sou o candidato mais cotado. Tenho experiência e prestígio. Sei bater às portas certas!

Rapidamente o atacaram os adversários. Oportunismo, nepotismo, clientelismo, cizentismo. Acabados em ismo, as palavras soam como chocalhos. O velho político não se livrava do coro crítico que lhas pendurava como vis medalhas ao pescoço. Da plateia às escuras chegavam invisíveis imprecações rudes.

– Corrupto!

O candidato mais à direita soltou a língua.

– O senhor é a pessoa nesta sala menos capaz de entender o futuro e, mormente, de o assegurar. É responsável pelas decisões mais vergonhosas de que há memória na nossa terra, no período democrático… Se houvesse justiça neste país, o senhor estaria preso!

Atenazado pelo rigor, força e juventude dos seus adversários, acossado pelo passado recente a que não eximir-se, vencido pelo torpor do bom alentejano que fizera juntar  à feijoada, o velho político principiou a descambar.

– Esse investimento, a que o senhor chama de «negociata», senhor candidato, é uma mais-valia para esta cidade. Todos, exceto o senhor naturalmente, sabem isso… De resto, o senhor no meu lugar, e conhecendo-o eu como conheço, tinha metido umas boas milenas ao bolso. Mas isso é outra questão…

O jornalista moderador precisou de acalmar os ânimos e de lembrar ao velho político e a todos os senhores candidatos o dever de elevação e de respeito pela democracia.

Mas logo ao primeiro ensejo, o velho político destratou a jovem candidata do partido ecologista, que o inquiria sobre benefícios e benfeitorias alegadamente associadas à sua presidência e a diversas empresas poluidoras.

– Ó senhora candidata, ou menina (talvez seja mais correto tratá-la por menina), suponho que ainda usava cueiros quando eu já governava esta terra. Faça o obséquio de não me vir com pedagogia. Os empresários são, toda a gente sabe isso, a alma de uma região. Não se seja, ou não se faça de pretensiosa, de inocente ou de parva!

Os apupos vieram sob os mais variados registos. Repreendido, admoestado, confrontado com ferocidade por todos os rivais, enxovalhado pela escura assistência, posto perante factos de que se esquecera ou de que não pretendia recordar-se, humilhado pela sua prestação errática diante uma geração diferente daquela que o erguera em braços, o velho político sentia encurralar-se-lhe o raciocínio e roncarem as entranhas. Os gases corriam de víscera em víscera, tomando de assalto o sossego de que tanto necessitava numa hora tão cruel.

Discutidas, arengadas, propostas as melhores, rejeitadas as ideias mais espúrias, chegou-se à fase final do debate.

Quando o candidato do centro-direita, no seu timbre descansado, fazia já o apelo final ao eleitorado, escutou-se um arroto. Foi sonoro e explosivo.

O orador interrompeu-se, surpreendido. Depois, como querendo mascarar o que parecia ser um momento embaraçoso na sala, prosseguiu. Mas teve de parar novamente, quando de novo à sua esquerda, berrando como um sopro de trombone (em escalas diferentes nos diferentes microfones), se escutou indisfarçável, longo e superior o efeito terrível da flatulência.

Os olhares voltaram-se todos na mesma direção. Escarlatíssimo, a espirrar sangue, aceso com um rubi pelos holofotes, o velho político pediu desculpa.

Não houve forma de dominar as gargalhadas, as casquinadas alvares, o apupo de uns e de todos. Nem o caudal de ferozes caricaturas que doravante se publicaram, pintaram e reproduziram em som, a cores e em tarjas insultantes.

Por essa, ou por outras superiores razões, o velho político não foi capaz de reeleger-se.

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