Um santo

Dave Herring
Fotografia de Dave Herring

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Perto de Siena, nas imediações da pequena e pacata cidade de Montalcino, mantém-se de pé uma abadia beneditina do século 12, com o seu antigo hospital, a sua torre sineira, os seus jardins e pomares, a sua adega e uma cripta onde declaram jazer os restos de São Varínio, companheiro de Santo Antimo, se alguma verdade existe nas palavras do sacristão a quem cabe o trabalho de abrir e fechar as portas imensas do velho mosteiro.

Regressa aqui todos os verões Monsenhor Enzo Montale, instrutor de teologia, astrónomo aprendiz, poeta e praticante de rapel. Consigo vem um par de jovens sacerdotes e um magote de adolescentes ávidos de jogos eletrónicos, isolamento social e gírias urbanas, miúdos perdidos, a nadar nas imediações como no limbo das águas vazias de onde Deus partiu para a criação do mundo. Reclamam, reclamam a toda a hora, porque Montalcino é um vilarejo sem subúrbios, os travertinos de Sant’Antimo não admitem grafitos, os quartos do templo são celas abertas que comunicam para o mesmo corredor ecoante e comprido, ao longo do qual transcorre o odor das madeiras, o cântico da água e a voz altissonante do instrutor.

«Meus caros, tende cuidado com as palavras: o dito dito está. Uma vez saídas da boca, as palavras são como cebolas descascadas. Vão parecer-vos de um modo ou de outro cruas e muito malcheirosas.»

Todos os verões, depois das aulas, os pais italianos chegam à lacónica conclusão de que não sabem o que fazer com os filhos. Não os compreendem e não compreendem em que momento erraram na sua educação, nem vislumbram um modo de emendarem a mão, se é que ainda vão a tempo.

Por isso, enviam-nos a Montalcino na esperança de que o teólogo possa encontrar na vetusta construção medieval algum do material antiquíssimo de que outrora se fabricavam os milagres.

Monsenhor Enzo principia os cursos estivais a meio de junho e fá-lo tão apaixonadamente que os resultados não podiam ser menos dececionantes: já uma meia dúzia de ex-alunos professou votos, muitos optaram por se juntar a instituições de caridade e a associações de animais, quase todos corrigiram o rumo das suas vidas impregnando-as nalguma espécie de sentido metafísico.

Bem gostaria ele de fazer observar com todo o rigor os cartapácios da Ordem, a famosa Regra de São Bento, de a seguir pura e duramente à boa maneira do seu noviciado. Se o fizesse os instruendos seriam chamados para momentos alternados de oração, cântico, jejum, penitência, sabedoria. Seriam acordados às quatro da manhã para se abluírem das máculas novas e passadas, beberiam chá de urtigas, mortificariam o corpo com banhos no rio (o fresco Orcia que flui não muito longe) e envergariam túnicas de burel. Jantariam e ceariam aveia e fruta, rezariam o terço e meditariam nas Escrituras, sem outras distrações que não a simplicidade do mundo campestre e contemplativo.

Mas os tempos são seculares e a disciplina uma área controversa. Aqui apenas as celas são varridas e arejadas amiúde e todos os pertences dos miúdos postos em caixas de pinho, empilhadas e fechadas por correntes e um grosso cadeado onde se desenha o relevo da cruz do santo de Núrsia e as siglas justapostas.

«Possuir é o erro mais grave dos mortais. É-nos dado o privilégio de desenganarmos os olhos, as mãos e o espírito com o que quer que não nasça no firmamento, nas nossas hortas ou no nosso rio. Nem a poesia se possui, porque também ela é uma forma de vaidade.»

Este Monsenhor é um atleta. Sobe e desce ravinas, içando-se e prendendo-se perigosamente por cordas desportivas, enquanto recita aos discípulos, cada vez mais fanaticamente rendidos a si, trechos da Imitação de Cristo de Tomás de Kempis ou poemas de Tonino Guerra. A sua felicidade é o seu gáudio, o seu gáudio é o apresto com que alavanca as jovens almas transviadas pelo futor das cidades ao encontro da luz limpa deste silêncio toscano.

Não afirmamos que seja fácil.

Em todas as gloriosas tarefas empreendidas ao serviço de causas maiores, deparamo-nos com escolhos. É exemplo disso esta Giuliana Buonarroti. Tem 17 anos e pírcingues espalhados por tantas partes do corpo que os não poderemos numerar, salvo despindo-a. Giuliana é das pessoas mais renitentes, mais recalcitrantes, azedas, desafiadoras que transpuseram o lintel das portas sagradas da abadia. Enzo Montale ainda não lobrigou o modo de a conquistar.

«Não estou pra isto, cazzo

E reitera-o a toda a hora em palavras, gestos, esgares, acutilâncias, zombarias, delinquentes atropelos à castidade do lugar. Agora mesmo lhe vemos manigantes brilhos metálicos no lugar deixado entrever pelas duas metades descaídas de couro do que se suporia ser um top curto e justo e é um indecoroso desfolhar de rosa incontida, de pele morena e tatuada, de fogo luxurioso e uivante.

Enzo Montale esconde bem os sentimentos. Também esta pequena filha do Criador se há de domar a seu tempo, pois domados foram os leões na caverna de Daniel.

Em Montalcino a brisa estival arrasta consigo o cheiro da cevada, da colza, do trigo enxuto. É a esta grande castidade que o consola de tudo ao final do dia. Talvez muitos outros clérigos hajam nela encontrado refrigério para extirparem, nas noites tortuosas, os brotos do pecado.

Enzo sabe que Satanás nos unta os lábios com mel e sabe que com lubricidade derrama sobre o nosso corpo vencido a sedução mais abrasadora, grotesca e inesperada. Nas pupilas fuzilando no escuro de Monsenhor Montale passa e repassa a tira de cabedal de Giuliana, o decote assanhadamente aberto, o desenho formidável dos seus mamilos acerados por uma espécie da anel. É horrível, é maravilhoso, é um pecado muito grande!

Felizmente ele sabe como desensarilhar todas essas teias da luxúria, todos os liames que inçam sobre a carne e a conspurcam. Monsenhor envergonha-se muito de que essa mesma carne, a sua, tenha quase caído em tentação, escutando ali ao perto o respirar excitado, insone, diabólico, da jovem que tão abertamente o afronta e lhe arremessa olhos cúpidos e sem fundo.

Felizmente o caudal bem-aventurado do Orcia lava todos os resquícios do fogo e das cinzas. Em segredo mergulha nas águas e nu nada do pecado para a santidade, da noite para a madrugada, do tormento para a grande liberdade do perdão.

Oh, a brisa da madrugada é revigorante. Envergando uma túnica de estamenha regressa pelos caminhos de terra e à luz das estrelas ao mosteiro. Ainda vai a tempo das matinas. Tendo acabado de aprender mais uma duríssima lição, sente-se poder continuar a ensinar. Ensinar é o seu caminho e o caminho de Enzo Montale, assim crê, é o caminho da salvação.

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Ele sabia

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Johannes Vermeer, A Leiteira, ca. 1657

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O vento punha-se a titilar nas ervas altas e era bom. Era livre. O sol caía em cachos na toca dos grilos e era belo e livre. Os miúdos saltavam os muros e corriam livremente pelos talhões de margaridas e era maravilhoso vê-los. O pintor compunha sem pressa o azul do mar ao fundo e o pé robusto das árvores ao perto e era muito agradável, agradabilíssimo, prestar atenção ao vento e ao sol e às crianças a voarem juntas pelo prado.

O poeta, no entanto, preferia a chuva e o silêncio. Preferia, sem dúvida, o canto mal aceso do seu carvão, a odor forte do seu tinteiro, o peso enorme dos seus versos impregnados na solene tristeza dos poetas. Era um desses homens infelizes para quem a simplicidade das coisas não faz sentido.

Quando a rapariga que vendia o leite lhe bateu à porta, com as faces cheias de rubor e o coração aos saltos, o poeta não encontrou as palavras certas para responder à saudação. Dentro de si as verdades tinham a dureza do mármore e o espontâneo cansaço de uma mesura.

A rapariga amava-o e ele sabia. Mas não era capaz de viver com a alegria ingénua de um grilo, só com o ímpeto de um tigre enjaulado. Era a sua pena e ele sabia.

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Mar

Fotografia de Janet Swanson

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Ponho o mar à minha frente e decido um grande silêncio. Não há maior bem do que calar todas as ressonâncias de que o vento é capaz na nossa boca e por dentro dos nossos olhos e nos confins da cabeça. Elidir um a um todos os sepultuosos ruídos em que morremos quando proferimos alguma palavra, esmaecer até ao nada uma atrás de outra todas as imagens que nos governam desde a infância, apagar o poder das teias cerebrais como quem se enlouquece com uma tesoura entre os dedos. O mar vem aos poucos, apodera-se dos rochedos em agulha e do cheiro seco do areal, transpõe a pérgula e a linha dos metrosíderos, coabita o espaço e o tempo que é, sem que o entendamos completamente como, um adormecimento, uma fragilidade, a própria ideia de deus soprando de novo nas impérvias narinas de Adão.

Só assim renasço. Só assim, atingindo a chã existência de mim mesmo, vergando-me até rastejar e ser argila e cair – repito – no grande silêncio de uma morte. É preciso morrer. Ponho o mar à minha frente e morro. Muitas vezes morri nesta vida. Foram deus e o mar, a mistura de ambos, o sopro que num é o outro, sei lá, foram deus e o mar quem me trouxe de volta muitas vezes – repito – nesta vida.

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Obrigado!

Céu e João Ricardo
Foto de arquivo pessoal (2022)

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Mesmo que ao cair do dia, mesmo que moído pelo grande cansaço das pequenas rotinas mortíferas, mesmo que de modo um tanto atabalhoado, mesmo que pedindo ajuda a Ástor Piazzolla (a quem sempre devi tanta poesia), mesmo que incorrendo no risco da estapafurdice, mesmo que e mesmo que, venho aqui dizer-te, Céu, que não esqueci a data aparafusada ao espaço que hoje marca o calendário: desde 1 de setembro de 2018 passaram os anos bastantes para tão bem nos conhecermos e nos desafiarmos mutuamente a amar. Se a alguém é possível reconhecer o abençoado encontro com a vida, é a mim que compete falar: sou um homem feliz, um homem consciente da sorte que me coube em sorte, um homem afagado pelo muito afeto e pela insuperável cumplicidade dos teus gestos e das tuas palavras. Devo-te um empenho maravilhoso, um companheirismo inexcedível, uma amizade e uma presença indestrutíveis. Cinco anos não é muito, mas é mais do que todos os anos que gastei vivendo-os sozinho ou sofrivelmente acompanhado. Devo-te muito, creio até que nem sempre disso me dando conta. Se, ainda que tardiamente, e cansado, e embrulhado em frases toscas, e ouvindo Piazzolla, me é possível escrever uma só palavra, quero nela inteirar todo o meu carinho por ti e a profunda estima que te tenho: OBRIGADO!

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Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres – discurso de agradecimento

João Ricardo Lopes
Crédito fotográfico: União de Freguesias de Fânzeres e S. Pedro da Cova (2022)

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Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

Permitam-me que encete, deste modo, o meu discurso de agradecimento. Gostaria de o fazer, aludindo à luz…

Tal como o silêncio, ou como as palavras, a luz pode encher-nos de uma felicidade imensa, ou pode arremessar-nos com violência contra as coisas. Não ignoramos a natureza prodigiosa de que é feita, nem o despudor da sua força, quando ao revelar mostra, quando ao mostrar-nos esfacela.

Aprendemos nas aulas de Ciências que a luz é uma radiação eletromagnética propagada ao longo do vácuo, uma corrente de ondas e de partículas, de fotões e de neutrinos, de elementos subatómicos, cuja designação nos aguça a curiosidade e nos atira para fora do senso comum. A luz é feita de nada, mas por causa dela tudo existe. «Faça-se a luz!» principia assim o Génesis.

Aprendi, sobretudo, nas viagens que, matinal e diariamente, faço para o trabalho que a luz é uma espécie de milagre, uma transformação, um eclodir de vida que à hora certa atinge a massa escura das montanhas do Marão e cai obliquamente sobre a paisagem para nela acordar a visão dos campos, das vinhas, dos riachos recobertos de névoa, dos pássaros, dos canteiros repletos de verde e de olor.

A luz é essa proximidade repentina com aquilo que nos rodeia: com o asfalto atafulhado de folhas outoniças, com o reflexo além no vidro de uma qualquer janela sobranceira, com a cor quase feérica dos bordos, dos plátanos, dos choupos, dos carvalhos, dos castanheiros, de tantas outras árvores benditas nesta altura do ano.

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Marco Martins (Presidente da Câmara de Gondomar) e José António Gomes/João Pedro Mésseder (professor universitário e escritor)

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As viagens demoram-nos no que nelas há de dádiva da luz. Por exemplo, as memórias que se foram e se vão alojando por dentro dos olhos. A vela transbordante, a tremeluzir nas noites de tempestade. O fósforo riscado numa cave antiquíssima na casa dos avós. O candeeiro a petróleo com o seu halo estampado na parede, onde a caliça e o caruncho se entendem. Por exemplo, as labaredas da lareira, a desenhar sulcos no rosto infantil. Por exemplo, o rouquejar das panelas de ferro, com o unto a dissolver-se em bolhas translúcidas pelo meio do caldo. Por exemplo, a gambiarra suspensa das traves, a dançar entre teias de aranha, a pendular com o vento, a brincar com as sombras que sobem da terra batida ao teto. Por exemplo, ainda, o vinho a vidrar nas tigelas, ou as contas do terço, rebrilhantes, a passar entre os dedos de uma avó lendária, numa sonolência que não sabe morrer. A luz é um cismar, também, um pasmo longínquo, uma saudade que regressa por instantes, enquanto o automóvel nos balança nas curvas da estrada e se escuta na rádio um adágio pungente de Barber, ou Bach, ou Marcello, ou Vivaldi. A luz dimana, voluteia, rasga, disseca, queima.

A luz, permitam-me que dela fale um pouco mais, vi-a maravilhosamente em Milão, na Ceia de Emaús de Caravaggio. A mesma que se acende, em chiaroscuro, entre as figuras da Ronda da Noite de Rembrandt, uma das melhores recordações que guardo do Rijksmuseum. É a mesma presença vivificante que abre mais as rugas de São José, no quadro de Georges de la Tour que me inspirou um dos poemas deste livro. Ou que explode nos girassóis de van Gogh. Ou que serenamente nos acolhe nos quadros de Vilhelm Hammershøi.

A luz é, ainda, o reino insuperável de leveza e de simetria, ao mesmo tempo do colosso e da bizarria das catedrais que tanto amo, em cujos vitrais saturados de cor e de narrativa os nossos olhos se esquecem do pouco que somos e do escasso que podemos viver.

A luz sentimo-la às vezes perdida na pele. E depois na alma. Também assim o escreveu Dostoievski, no primeiro capítulo de Humilhados e Ofendidos, quando pela voz do narrador exclama, emocionado: “É extraordinário o poder de um raio de sol sobre a alma de um homem!” Sentimo-la nós assim, especialmente nos dolorosos dias em que nos mingua o ânimo e nos pesa mais o corpo.

A luz – admitamos em suma a sua natureza indefinível e irrepetível (em nós, contra nós, depois de nós) – talvez não ilumine. Talvez nós é que ardamos como insetos atraídos pela lâmpada e atravessados, algures, no seu caminho. Sabemo-nos feridos e consolados por ela. Sabemo-nos despidos e cobertos pelo seu manto. Sabemo-la a viajar pelo tempo e pelo espaço e a deter-se às tantas num pormenor. Esse pormenor em que ela e nós nos encontramos é a poesia.

É dessa luz que, muito particularmente, eu necessito. Dessa luz-silêncio, dessa luz-palavra, dessa luz-poesia. É por causa dela, em obediência ao seu poder que nasceu este e todos os meus outros livros.

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José Augusto Nunes Carneiro (editor), João Ricardo Lopes, Marco Martins e José António Gomes

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Estou em Fânzeres pela segunda vez.

Há vinte anos recebi aqui um prémio da maior importância para o percurso na escrita que então começava: foi essa distinção, atribuída a Além do Dia Hoje que o desencadeou. Aqui se fez publicar o meu primeiro livro.

Duas décadas volvidas, regresso com Em Nome da Luz. Tomando de empréstimo um verso de Emmanuel Hocquard, «Esse livro passou a ser o meu primeiro livro». Toda a luz que com ele encontrei partilho-a convosco!

Sinto-me profundamente agradecido a esta terra. Agradeço à Junta de Freguesia de Fânzeres e de São Pedro da Cova, na pessoa da Senhora Presidente (Sofia Martins), este Prémio, o livro publicado, este serão verdadeiramente inesquecível e repleto de dignidade. Endereço-lhe, a si, aos autarcas que a antecederam, também, as minhas sinceras felicitações por terem sabido, não apenas sustentar este projeto literário, como sobretudo aquilatar com ele e para ele prestígio nacional.

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Executivo da União de Freguesias de Fânzeres e de São Pedro da Cova (em destaque, a Presidente de Junta, Sofia Martins)

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Agradeço, de modo igual, aos três distintos membros do júri deste Prémio, que primeiramente me leram: a Augusta Cosme; a José Augusto Nunes Carneiro (poeta, editor); ao Professor José António Gomes (cujas palavras há pouco escutadas verdadeiramente me tocaram, e cuja poesia – sob o nome de João Pedro Mésseder – há tantos anos venho estudando com os meus alunos).

Agradeço, de um modo particular, de um modo fraterno, a todas e a todos (família, amigos, conhecidos, curiosos, autarcas, funcionários, artistas presentes), a todas e a todos os que hoje, aqui, nesta Casa de Montezelo, se associaram à cerimónia, partilhando a sua presença, o seu tempo, o seu afeto, a sua luz.

Bem hajam, por isso! Muito obrigado!

Fânzeres, 11 de novembro de 2022

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Apresentação de «Eutrapelia» na Flâneur (Porto)

Teve lugar, ontem à tarde, a apresentação do meu último livro na Livraria Flâneur, no Porto. Senti uma grande alegria por ter reencontrado velhos amigos e por ter podido conhecer novos amigos. Se a poesia for azo para que as pessoas se conheçam e convirjam num olhar diferente sobre o mundo, então valerá ainda mais a pena. Literalmente.

A conversa em torno de Eutrapelia contou com uma recensão notável de Paula Morais, professora e amiga a quem agradeço sobremaneira o cuidado, a gentileza, o carinho enorme, tidos com os 50 poemas do livro, que visitou com acuidade, amplitude e sensibilidade exemplares. Senti-me verdadeiramente privilegiado. Muito obrigado, Paula!

No outro lado da mesa, em representação da editora Labirinto, a poeta e tradutora Sara F. Costa, que pude finalmente conhecer, emprestou a sua visão analítica e poética subtileza à leitura de Eutrapelia, transformando o espaço num momento de diálogo que muito me tocou. Também a ela quero muito agradecer, porque o que dois poetas veem juntos é uma dádiva inestimável.

A todas e todos os que estiveram na Flâneur, sem exceção (família, amigos, colegas), estendo o meu agradecimento, que não é senão o meu modo de dizer (citando Camilo Pessanha) “Que a jornada é maior indo sozinho”: acompanhado por todos, senti-me acalentado, em casa, feliz! Não pode ser maior a satisfação de um autor do que essa, a de ser lido, compreendido, (citando agora Joan Margarit) “culminado”!

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Céu

Céu
Foto de arquivo pessoal (2021)

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Vou perdendo algumas capacidades. É o mais certo na vida, que as vamos deixando no lugar onde nos ficaram a infância, a juventude, os primeiros tempos dourados da idade adulta. Julguei há meia dúzia de anos ter perdido a capacidade de amar. Não decerto de sentir amor. Sente-se amor pelas pessoas que nos querem bem, pelos animais de companhia, pelos ofícios que nos destacam, pelos livros e obras de arte que nos resgatam da estupidez. Mas amar… Supus, felizmente em erro, que amar não me dizia já respeito (se alguma vez mo havia dito).

Enovela-se-nos a vida em trapos, em cordas, em fúteis caminhos de perdição. Lastima-se que o tempo haja ido tão mal-acompanhado e que, em vez dele, restasse cá dentro o que resta de um campo arrasado pelas chamas – pavorosas cinzas que ardem noite e dia, dia e noite, noite e dia. E isto sucede ao mais inócuo dos homens. À melhor das mulheres. Perde-se muito, perde-se tudo, ou quase.

Mas então, independente de nós, a vontade das coisas manda. No meu caso, mandou sem que lho tivesse pedido, ou (verdade seja dita) que o tivesse querido. A vontade das coisas trouxe-me de regresso, e fê-lo enviando (a mim, um cético, um pessimista) o melhor dos anjos da guarda. Foi em 1 de setembro de 2018.

Há, portanto, neste dia (não algo, mas) alguém a lembrar. Que o seu nome seja tão divino é outra ironia. Que por ele se tenha o inferno decidido a deixar-me não o duvido. Que me tenha nestes três anos cumulado de poesia, de afeto, de coragem, de companheirismo é coisa para alardear. Nenhuma Céu é demais na vida de um homem, sobretudo se a beleza da sua alma tiver paralelo na beleza dos seus olhos, sobretudo se a beleza dos seus olhos reverbera na beleza dos seus gestos.

Hoje estas palavras (por ridículas que me possam parecer) tenho de as deixar ditas nalgum lado. Três anos é quase nada. Mas arrisco um “quase tudo”, tão docemente mudaram a minha vida.

Muito obrigado, meu amor!

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Junto ao mar

Fotografia de arquivo pessoal (2021)

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Ali, junto ao mar, sentindo nas costas a presença majestosa do farol, olhando à sua frente o istmo de areia muito branca e nele o enrolar da água azul, respirando longamente o misto húmido-enxuto das algas e das dunas, Céu sentiu esvaziar-se-lhe a cabeça, ou mais propriamente talvez, sentiu-se preenchida por uma sensação inefável de bem-estar. Era a mesma terna alegria que em criança experimentava no labirinto de roupas brancas que a avó deixava a flutuar nos estendais batidos pelo sol. Nesses dias (recordava-se tão bem) fechava os olhos e aspirava em haustos profundos o aroma do sabão. Nesses dias (como recordar pode ser tão maravilhoso) era como se a sua vida coubesse inteira no pátio invadido pela luz e pelo perfume.

Agora, ali, junto ao mar, a brisa do final da tarde fazia-lhe cócegas no rosto, soprando sobre ele as farripas loiras do cabelo e o pó subtil do areal. Apetecia-lhe dançar, erguer os braços, gritar, girar sobre si mesma mais e mais depressa, cada vez mais vertiginosamente, para que as imagens e os cheiros, para que as ténues variações de frio e de calor se fundissem e com eles se fundissem também o tempo e todas as memórias. Céu sentia-se feliz. Muito feliz.

O homem que ela amava fotografava-a, sorrindo. Exigia-lhe, porém, poses, postura, correção. Um atrás de outro o homem que a amava fazia disparar relâmpagos com o pequeno orifício vítreo do telemóvel. Reclamava a sua beleza, os seus olhos verdíssimos, a sua atenção, o seu corpo. Raios o partissem. Seria tão bom tê-lo apenas quieto e protetor junto a si, como o farol centenário, dentro do seu sonho desperto, a brincar consigo e com o amor e a terra, naquela dança eutrapélica e cheia de graça. Puxou-o por isso contra si. Libertou-o do objeto tirano. Beijou-o. Era preciso resgatar os dias perdidos. Peneirando-se no tecido de pequenas nuvens tardias, o sol abria linhas oblíquas. Como se dito pela primeira vez, como se fosse possível redizê-lo como da primeira vez, soprou as duas palavras com intensidade, com intenção.

– Amo-te.

E amava.

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«O Moscardo» na Escola Secundária de Fafe

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Há pouco mais de uma semana, a Biblioteca da Escola Secundária de Fafe recebeu-me calorosamente em mais uma viagem de O Moscardo e Outras Histórias, praticamente na celebração do aniversário do seu lançamento.

Ora, é desse tempo e dessa viagem que se têm construído algumas das minhas melhores memórias recentes. Porque o livro, que se quis sem editora e imaculadamente meu, deixou e vai deixando de me pertencer, lido e analisado já por leitores de todo o país, de idades tão distintas como as que separam os meus jovens sobrinhos dos meus pais, de lugares tão diferentes como os que vão de uma amada aldeia incrustada na serra algarvia a uma universidade nos EUA ou a uma ilha do Pacífico.

No dia 28 último, alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Fafe deram voz aos pequenos contos do meu livro, iluminando-a com a voz e a música e o teatro e a ciência da sua leitura. Chovia tanto nessa feia tarde de novembro. E foi (e já) uma memória tão bonita!

Ainda que pessoalmente haja agradecido ao Carlos Afonso e à Sara Freitas, ao Augusto Lemos e à Gabriela, à Esperança e ao António Joaquim, aos colegas de Departamento e aos que dele não fazem parte mas que quiseram assistir ao encontro literário em torno de O Moscardo, aos alunos das turmas 10.º J e 12.º M, aos funcionários envolvidos, reitero o meu muito obrigado!

Dessa sessão resultaram as belas fotografias que deixo em rodapé e a leitura da Sara Freitas que hoje publico (bem-hajas, Sara!) e que passará doravante a pertencer ao arquivo crítico desta página.

Posso somente, e em jeito de súmula, desejar que este grande inseto (António Joaquim Gonçalves lembrou oportunamente o significado do moscardo, animal espezinhador dos camponeses) continue a voar. E a perturbar o nosso silêncio.

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Catedral de São Miguel e Sanda Gudula, Bruxelas

Fotografia de arquivo pessoal (2019)

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O caminho de uma catedral é a passagem drástica do exterior para a sombra e depois, paulatina, a passagem da penumbra para a luz, a admirável presença do silêncio nas imagens que passamos a ver e antes não víamos por excesso de ruído. é conhecida a minha preferência pela arquitetura gótica, o meu fascínio pelo rigor geométrico absoluto, pelo deus que nelas desenhou, cortou, esculpiu, ergueu a pedra e o vidro, o metal e o próprio ar, o meu amor pela linguagem secreta das junções entre o cosmos e o corpo.

Assim que transpomos o pórtico e caminhamos pela nave lateral à esquerda, os séculos atropelam-se. primeiro, uma inscrição em inglês e latim, a lembrar o milhão de mortos do império britânico na primeira grande guerra (muitos dos quais, lê-se, jazem em território belga). depois, o colorido hagiográfico dos vitrais. por exemplo, este onde os meus olhos agora se detêm, retratando o colóquio de um monge e um secular, mesteiral, burgomestre, quem sabe, com molho de chaves na mão. mas é noutro plano, mais distante, em fundo, que me surpreende o cenário. genufletindo, um outro homem (ou mulher com vestes de homem) recebe o chamamento. o pintor fê-lo admiravelmente, fazendo descer sobre o seu rosto o traço amarelo, vivo, oblíquo (agora mais iluminado pelo fulgor da manhã de agosto) da revelação.

Fotografia de arquivo pessoal (2019)

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Percorremos o transepto, tocamos a estátua dourada do arcanjo Miguel, carregando sobre o demónio (um crocodilo, de boca aberta e dentuça ameaçadora), depois a abside, a nave oposta. aí, para lá da galilé, os crentes celebram uma missa. contemplamos o órgão e o púlpito, trabalhadíssimo, de madeira negra, formidável. acendemos a nossa vela, rumorejada com palavras de amor e petição.

Nunca sei o que sentir nestes lugares. e, no entanto, os pormenores regressam, como nós regressámos nesse dia ao coração da cidade. às vezes na luz impura, vejo-os como recortes nítidos e nostálgicos e medito sobre o seu significado.

Qualquer que ele seja, é pessoal. creio que o caminho de uma catedral é esse.

29.09.2019

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