A nossa filha multiplica os desenhos. Este agora vai para o frigorífico, trocando de lugar com um outro que ali expomos desde a semana passada. Reparaste no denodo com que fez crescer uma grande árvore quase azul? E as nuvens cor de laranja não são mesmo maravilhosas ao lado de um sol perfeitamente torto e espinhento como uma batata grelada?
É uma artista a nossa menina. Eu mesmo coloco o íman que há de segurar esta nostalgia do tempo vivido em tempo real para sempre. É um amor! Deitada na carpete, com os pezinhos a dar a dar, os lápis de cor atravancando a folha e esse amor pelas coisas que vão nascendo do nada: a casa de janelas acesas e fumo a erguer-se da tosca chaminé, as borboletas esvoaçando ao lado dum pai e duma mãe e dum anjo ao meio.
– Gostas, papá? Gostas, mamã?
E, depois, quando acabo de prender o desenho à parede metálica do frigorífico, sinto uma grande dor no peito e acordo.
– Este é o meu sonho, Sr. Doutor. Deus, que me quis para seu servo, envia-mo todas as noites há semanas… O que significará?
Há em todos nós um campeão, um campeão verdadeiro e irredutível, um campeão invencível, para lá dos trastes que nos tornámos (ou nos tornaram), um campeão de calções e berlindes no bolso a olhar pasmado o capador de porcos com a subtração orgulhosa ao alto, um campeão de ditados e contas de dividir, de lágrimas e joelhos esfolados, a correr pelo meio de carreiros de tojo, atrás das melhores cascas de eucalipto para fazer ventoinhas
(alguém acredita que duas casquinhas cruzadas de eucalipto e um pauzito a meio, a intersecioná-las, davam duas horas de brincadeira?),
um campeão cheio de resina no cós e lama nos sapatos, de cabelo muito macio, loiro, atrevido até, sonhando com minas e cisternas abandonadas, a cismar de boca aberta e com um fio de baba a sair-lhe sorrateiro no aspeto que teria um gambuzino
(vê lá se te apanha um gambuzino),
rindo de um riso inequívoco e belo, de um riso maravilhoso com dentes incisivos em falta, de tudo o que fosse inseto e passasse pachorrento pelo meio das mãos, das lagartas peludas aos lucanos
(as célebres bacaloiras),
mãos que se intrometiam nervosamente (às vezes, desajeitadamente) nos ninhos dos pardais e se comoviam com o ar esgrouviado dos pintos acabados de nascer, rindo de um mundo que era então muito mais do que tempo e espaço, réguas relógios, um mundo em que tudo se fazia a direito e pelo direito, sem pressa e sem ânsia, apenas pelo prazer de se descobrir e viver.
Há um campeão aí. Um campeão que se está a rir de nós, daquilo em que nos tornámos (ou nos fizeram tornar), um campeão de nariz moncoso, a rir do tipo de ar fino e voz melodiosa que abre a porta de nossa casa e atende o nosso telefone e responde a cada frase com um “Certamente, sôtor!”, um campeão que vem de muito longe e se ri da mulher (das crianças) diante do movimento de acrobata da aranha que desce do estuque
(Jorge, tira-me essa coisa daqui, tira-me essa coisa daquiiiiiiii).
Esse campeão, esse rosto cheio de segurança, de cinco anos, a ajudar a chamuscar o porco, a raspar-lhe o pelo com uma faca velha, afiada numa correia de cabedal. Esse campeão do sarrabulho e das sopas de vinho, a correr outra vez pelo meio dos pedregulhos e das urzes, saltitando como um animal montês, caindo e pondo-se em pé numa fração de segundos, com o coração aos pulos, atrás de grilos e joaninhas, a cantar “Lá em cima está o tiro-liro-liro”
(lá em cima está o tiro-liro-liro, ⁄ cá em baixo está o tiro-liro-ló…),
é nele que eu penso agora, como num santo protetor, a quem pedisse a especial graça de me sacudir o torpor, de me afastar as ideias amaneiradas, de me exorcizar o mau-humor, de me endireitar as costas vergadas pela escoliose e pela deceção, de me fazer olhar em profundidade a paisagem, sem metafísica (como o Caeiro), feliz apenas, intacto apenas, vivo apenas
(há quanto tempo não olho uma paisagem como deve ser),
o tempo pega-se-nos, apaga os campeões, avilta-nos. Tão limpos e exatos, tão politicamente precisos, e polidos, e doces neste ar de eunucos de fato e gravata
(Querido, não te esqueças do jantar dos Croft; doutor, a reunião com o Secretário de Estado ficou marcada para as dezassete; Jorge, estás proibido de faltar ao meeting amanhã à noite),
o tempo arrasa, aboneca-nos, faz de nós marionetas, uma espécie de homenzinhos de palha para me servir de Eliot
(Jorge, não acho nada bem que andes a falar aos nossos filhos dessas pinderiquices de quando eras garoto),
torna-nos uns velhacos, uns frouxos, incapazes de defender o sagrado quinhão da nossa memória mais acesa
(vê lá, comporta-te, querido, não dês azo a selvajarias cá em casa).
E, no entanto, o campeão continua inteiro, não cedeu só um milímetro, transpira por todos os poros a saúde indefetível dos seres que se não vergam, se não envergonham, se não deixam subornar, boicotar, asfixiar pela cobardia
(estás cá, querido? Vais ao menos a prestar atenção ao volante?),
a correr, a foçar entre os taludes, a agarrar répteis e pássaros distraídos, a observar com minúcia operações e cerimoniais de matadouro, a comer e a beber rijamente feliz, indestrutivelmente feliz, como quando a prova dos nove confirma um cálculo, como quando o coro das meninas ergue brados ao ar, como quando a funcionária em seu auxílio avança com uma vassoura em riste, e nós fugimos, e nós rimos, e nós sentimos o prazer indizível de missão cumprida.
Todas as melhores conversas começam por acaso. Foi desse modo que começou a nossa. Tu, bigodes de chocolate ao largo da boca, como os garotos (logo vi que eras um patusco!), eu com a neura (não me venhas falar das minhas neuras, sou a única autorizada a falar das minhas neuras!), por causa da entrevista de emprego.
As entrevistas de emprego anunciadas são uma vigarice. Os empregadores que precisam de publicitar entrevistas de emprego pertencem a um clube restrito (cada vez mais bojudo, embora) de facínoras, patrões da têxtil, engajadores da construção civil, uns mafiosos, uns trapaceiros, espoliadores de empregadas domésticas, recrutadores de vendedores de banha da cobra (ou, no meu caso, de produtos ortopédicos), uma cambada de intrujões sem alma (se eu fosse do governo pendurava-os a todos pelo pescoço!), uma gentinha desalmada pronta a endrominar a própria mãe (ah se fosse do governo, ou juiz, era um bulir permanente de cordas), uma turbamalta do pior feitio, sempre a enganar o pobre, a fazer perguntas difíceis, a dar-lhe esperanças… Enfim, calo-me por aqui.
E tu não me venhas falar das minhas irritações, sabes lá como estava eu nesse dia, ou melhor, nessa tarde. Nervos à flor da pele, acabada de sair daquela salinha manhosa, no piso de cima do centro comercial, naquele corredor abafado, quase deserto, às escuras, daquela sala cheio da tabaco, daquela mesa onde um tipo me mediu da cabeça aos sapatos, e tu, muito alapado na esplanada, pele irradiante, com o gelado a rodar na boca suja, de olhos fixos em mim, como se te regalassem duplamente o chocolate e o meu minivestido preto (o que julgas tu?, pensas que ia à entrevista sem dar o meu melhor?), sem uma palavra, só a olhar, como se tanto se te desse que a vida corresse de uma maneira ou de maneira contrária…
Mas vá lá, foste um querido. Reconheço que nesse dia, quer dizer, nessa tarde estava uma pilha (Para onde pensa que está a olhar? Julga que sou um bocado ou quê? E limpe essa boca, seu porco!). Tu não respondeste, fizeste tu muito bem, limitaste-te a desviar os olhos, a limpar os beiços sujos, a pedir a conta do gelado e do café (não sei como podes misturar sempre as duas coisas), a levantar-te, a ir e (por essa não esperava eu) a voltar, a postar-te à minha frente, determinado, esclarecedor.
As melhores conversas podem começar assim. Com um olhar sem rancor, um nadinha atrevido, olhos nos olhos, como quem quer explicar uma coisa e sabe o que vai dizer. Sabes como em certos dias a nossa paciência de mulheres é pequena, curtíssima, mais débil do que um fino de cabelo. Não sei como gostei logo do teu sorriso, do teu blazer (reparando bem, até nem eras mau de todo, logo ali percebi como te fica bem o azul!), dos teus dentes certinhos, da tua voz sem azedume e arroucada, sussurrante.
Olhe que é feio atingir uma pessoa assim em público, no meio da praça. De mais a mais, não estava a olhar para si, mas para o senhor que está atrás de si.
Qual senhor, qual carapuça. Essa é revelha. Mentiroso. Voltei-me para ver. Com um grande livro estendido sobre o tampo metálico da mesa, um velhinho invisual dava uma aula de anagliptografia a uma rapariga loira, que percorria cada sulco com um sorriso envergonhado. Qual senhor, qual carapuça. Mentirosão. A loira sim, a loira vistosa, que aprendia com o velhote, para lá olharias tu, meu bandido. E ainda sem uma leve viração de ressentimento, concluíste.
Como terá podido constatar, cada um faz o que quer e pode numa esplanada. Até dizer disparates. E lamento , já agora, que me tenha visto a boca suja. É só.
Não me venhas falar tu de mau humor. Nem de vexames, muito menos do que senti nesse instante (onde estão os buracos no chão quando precisamos deles?). Nem de como e quando sucedeu ao certo a peripécia de estarmos os dois, lado a lado, de um momento para o outro, a gesticular, falar, rir, dizer muitas vezes «claro», «exatamente», «tem razão». Nem como terminámos a rir outra vez, a trocar números de telemóvel, a começar com «tu» onde até há pouco era «você», a embaraçar um aperto de mão logo corrigido por um beijo (um beijinho), o teu perfume com o meu perfume, a tua pele com a minha pele, encarnados os dois, esquecidos do olhar fixo e dos bigodes de chocolate, da neura e da aluna loira de braille.
Nem sempre a vida nos corre bem. Vê só o que uma desgraça pode trazer à vida de uma pessoa. Se é uma boa história? É uma excelente história. De fadas não será, mas das que contamos com gosto, sim. Esse dia, perdão, essa tarde nem prometia grande coisa, mas a vida é assim, carambolamos, às tantas uma inexplicável leva de sucessos faz-nos girar noutro sentido. Não gozes comigo, vá lá, eu gosto que gostes de mim, não me fales em mau aspeto, olha lá os teus bigodes de chocolate, meu porquinho, foi assim que nos conhecemos, qual humor de cão (ou de cadela) qual quê, todas as melhores conversas começam por acaso, foi assim que nos conhecemos, é uma excelente história, de fadas não será, mas das que contamos com gosto, sem dúvida!
A avenida cheia de gente, gente cheia de pressa, faz-me esquecer tudo. Levo encontrões, pisam-me os pés, olham-me como a um animal ferido (com o seu rasto de morte, largo como um cometa). Mas não me importo. Prefiro assim. Os rostos desfilam vertiginosos, belos, muito belos, horríveis, disformes. Não consigo lembrar-me de nenhum. Só da quantidade. Tantos rostos, tantas histórias, tantos eus engastados uns nos outros, tantos futuros incertos, possivelmente brilhantes, provavelmente encurtados, tantos passados cheios de mossas, tantas cicatrizes escondidas, disfarçadas pelos pírcingues e tatuagens. Da quantidade, sim.
No fim de contas, há o antes e aquele momento em que nos damos conta de que não fazemos diferença nenhuma, absolutamente nenhuma, num mundo repleto de drama, num mundo incapaz de aceitar o drama, num mundo cheio de gente com dramas e absolutamente incapaz de lidar com o drama. Não fazemos falta nenhuma, porra, nenhuma.
O que me fica na memória é a gente à margem, a gente assim como eu, a alimentar os pombos, a gente excluída do caudal, a gente velha, a gente que cisma cada movimento do corpo e o faz rodar devagar, a gente que tem a barba por fazer, a gente que veste casacões de fazenda e rugas descomunais, rugas pronunciadas e verdadeiras como grand canyons, a gente atrelada a cachorros feios e tão sujos que são mesmo uma fotografia, a gente que cheira a óleo e urina e suor e outras secreções talvez secretas.
A avenida é interminável. Todos cabem nalgum lugar. E eu, que me entretenho a não pensar em nada, penso como é engraçado isto de ocuparmos algum lugar, como algures, suspensa num andaime sinistro, há gente-gárgula, como além, no bojo prateado de um boeing, viaja quem sabe o próximo grito da moda, como ali, em frente aos espelhos descomunais das lojas chiques aporta a outra gente, a gente dominadora, a gente a quem se mostra a cabeça subitamente desalojada de chapéus e uma pequena vénia respeitosa. A avenida é interminável. Os vermes têm de esperar a sua vez. Só à noite podem mostrar-se. A noite pertence-lhes. À hora certa os rostos escoarão, trocarão de lugar. Quando a mais ninguém puder pertencer, a avenida há de acoitar estes rostos que olham o vazio e dão de comer aos pássaros. O espaço parecerá maior, desolador, gigantesco. A verdadeira solidão será, portanto, essa.
Mas, neste momento, sou apenas um corpo em movimento, atropelado, empurrado, levado na corrente. Os pés e os olhos esforçam-se por coordenar uma narrativa. A mole de rostos macera, deixa a sua impressão inumana, o seu toque desleal, voyeurista, como se todos fossem um só e um só fosse apenas um sonho. Não consigo lembrar-me de nenhum. Nem sequer da beleza ou da profunda fealdade de um olhar. Aqui sou maquinal e doente como todas as máquinas. Talvez tenha vindo por essa inconfessada razão.
No fim de contas, há o antes e aquele momento em que nos damos conta de que nada em nós é melhor, ou mais legítimo, ou mais perfeito do que nos outros, nestes todos que caminham, reptam, voam diante os nossos olhos. Não fazemos falta nenhuma, nenhuma, porra. E essa é ainda uma outra solidão, uma lídima solidão sem nome, que nos obriga a viver, a pertencer aos gestos, a ser, a durar, a existir para lá de todos os lapsos de memória e amor.
A avenida é interminável. Não sei há quanto tempo me não dou conta de caminhar. Caminho. Limito-me a não pensar. Em breve, terei todo um novo texto pronto. Não sei qual. Definitivamente, não sei.
A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica sotoposto nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas oxidadas para logo se perder nos pedregulhos duros por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo os carreiros dos lobos. As fragas são uma especialidade morosa, exigente. Os pulmões sentem o ar álgido da montanhas. O silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso caminhar, respirar, escutar a ausência de ruído. Algo aqui rodeia permanentemente a cabeça e os ombros, corta a pele, invade as unhas, poisa nos lábios, cai dentro de nós como água num odre vazio.
Atinge-se um ponto alto. Daqui avista-se o desenho acidentado das penhas, o serrilhado da copa das árvores, a linha branca e lisa das neblinas, o vago monótono azul da cordilheira cada vez mais ao fundo. Às costas a mochila pesa mais. A existência, pelo contrário, é agora leve como uma pluma. Em nós, como num envelope selado com lacre, está o instante: no aqui e no agora, vive o eu!
O trilho amplia-se. Vê-se a linha verde do rio. De braços abertos e olhos fechados sentimo-nos querer tombar no abismo. Em nós, como nos pássaros, cresce o apelo da vertigem. Pudéssemos arremessarmo-nos e ir, ir e alcançar o horizonte. Em frente o espaço é uma fronteira. Precisamos de vencê-la. Ela é o intervalo entre nós e nós mesmos, entre nós e – quem sabe – o nosso deus. Minúsculos e enormes, como as figuras de Caspar David Friedrich, abrimos os sentidos.
A viagem conduz-nos a um labirinto de antigas veredas. Empilham-se verdes e amarelos e ocres e vermelhos outoniços, acotovelam-se ramos de nogueiras e de carvalhos, ulmeiros, teixos, juníperos, amieiros, zelhas, medronheiros, azereiros, castanheiros, fumega o curso de uma levada. A água é de uma pureza comovente, límpida de tão nova, fria de tão intocada. Desce, corre já, serpenteia a floresta, onde orelhas, antenas, chifres, se voltam na nossa direção. Somos intrusos neste jardim. Aqui pernoitam as derradeiras ninfas, os últimos faunos. Aqui bocas selvagens ignoram a nossa fala e desprezam-na. O curso da água segue até a uma pequena clareira. A primeira cabana recebe-nos. É terrível o efeito desta aparição. Outras mais acima e mais abaixo. O homem aqui está. E eu vim também. Eu estou aqui. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. O bafo repete-se. É um aldeamento.
A civilização multiplica a presença de objetos. Um telemóvel toca, vibra, fere a ductilidade das formas. Há casacos coloridos, gorros, luvas em movimento. Risos, vozearia, alguém disparando um flash. O alarido assusta o pundonor do pensamento das árvores. Interrompendo a sua filosofia milenar, as rochas desabam. Um garoto empoleirado num píncaro grita. Esboroado, o instante transforma-se em eco. Adultos furiosos alcançam-no, imprecações, uma bofetada, choro. A maldição humana. Aqui estou.
À noite, entre toros e grossas panelas de ferro fundido, as chispas avermelhadas saltitam. Chia, crepita, estala, rumoreja a lareira. Os outros deixaram-me finalmente. Tenho-me a mim. Trouxe vinho e um caderno. Imaculados, os segundos seguram-me ao nada. A música de Brahms (sexteto de cordas, opus 36) adormenta-me. Penso em coisas. Não chega a ser uma narrativa, somente fugazes iluminações. Logo a penumbra as envolve. Penso em ti. Mas também tu és efémera. Penso numa escadaria helicoidal. Subo e desço à infância. Subo e desço a cada coisa que produzi. Subo e desço ao absurdo. A solidão é o espelho de quem sempre fugimos. O vinho e o caderno são supérfluos. Para que continuo eu a fugir?
Regressa-se. A floresta é hostil. Quem aqui vive não ama quem aqui não pertence. Mas regressa-se a que lugar? Volto-me. Cada pegada que aqui deixei é um fóssil. Eu, que sempre aqui pertenci, não sou deste lugar. Mas a que lugar pertenço eu? Intacta a garrafa, vazio o caderno. O princípio do mundo talvez seja assim…
A manhã é dolente. Tu partiste. Eu esqueço-me de tudo. Na praceta, as pessoas repetem o dia anterior. Recebo notícias. Os pássaros voam eufóricos sobre os telhados. Alguém diz «Bom dia». Cheira-me a pão torrado. Dou-me conta das extremidades frias, geladas, dos meus dedos. Respondo «Bom dia» a alguém. Podia pensar na operação, em política, poesia, futebol, comida, viagens. Apetece tanto um café. A manhã é dolente. Tu partiste. Eu não penso em nada. «Bom dia, Lopes». Dou-me conta do meu corpo, abandonado sobre o meu corpo. Pesado como um fardo. Dou-me conta que existo, respiro, silvo. Respondo «Bom dia», «Bom dia», «Bom dia», maldição! Partiste. Vais casar. Dou-me conta que nenhum país é mais longínquo do que o casamento. Dou-me conta que todas as minhas mulheres partiram. Que me doem as falangetas, as falanges, os ossos, os olhos, tudo… «A arrogância é a maior das nossas máscaras e a pior das nossas pernas». Tão bem-dito. Tão maravilhosamente esculpido no meu silêncio. «Tenho idade bastante para to dizer, certeza suficiente para me não arrepender, temperamento para não ficar calada. És um equívoco. Melhor, Miguel, vives num». A manhã é dolente. Uma aragem gélida trespassa-me, como o bafo de uma maldição. Sinto a pele arrepiada, as entranhas em lume, o meu nome percutido, repetido, sem sentido, como a pele maltratada de um tambor. «E quem te pediu a opinião?». Cheira-me a alfazema. A limos. Aos ácidos de uma oficina de carros. A luz queima-me os cílios, o rosto, a alma confusa. «Se não fores tão hipócrita como julgo que não és, saberás admitir que me perdeste». E a aragem fria e a luz quente são opostos que incomodam, como indecisões do tempo. Não penso em nada. Nem sequer na castidade da roupa que cheira a sabão Clarim. Nem sequer na beleza difícil do caderno aberto, das folhas vazias, lisas, sem linhas, limpas. Nem sequer na esquadria que se me oferece da paisagem para lá desta janela aberta, de vidros amplos e imaculados. «Como se fosses uma santa, hem…». E as palavras formam nós, encordoam-se em gânglios assustadores, enrijecem, são duras e selvagens como cerdas que fazem sangrar o silêncio. E as gavetas, os cabides nus, os armários sem as tuas coisas, são fossas abissais onde ecoam, como submarinos, as minhas mãos desamparadas. «Como se ele fosse melhor do que eu…». Dou-me conta que existo, respiro, silvo, fumo. Dou-me conta que não pensar em nada é pensar em alguma coisa. Longínquos pensamentos cósmicos, ontológicos. Remotos pensamentos como as remotas estrelas que explodem numa baba inalcançável de ruído e luz. Dou-me conta do tempo. Do leve e cruel e agora persistente chicotear do remorso. «Um dia vais perceber, Miguel», «Um dia vais arrepender-te tanto», «Um dia compreenderás como às vezes se teve tudo e se perde tudo para sempre, Miguel!». A manhã é dolente. Tu partiste. Eu esqueço-me de tudo. Das frases que soam como os imperturbáveis mármores dos sábios. «Sou como sou». Do olhar derradeiro, olhos nos olhos, semente de dor, de deceção, de despedida. «Um dia, Miguel». E fumo. Fumo incontáveis cigarros na manhã de maio, atento ao mundo que gira e se não arrepende de coisa alguma. Preso ao ar que circula e sega como obsidiana os laços minúsculos entre mim e as coisas. Sorrindo sem querer para aquele dia em que, no lugar onde cheira a cimento fresco e grandes pulmões rotativos enchem de ar as galerias, nos vimos pela primeira vez. Os teus grandes olhos azuis! «Ele é o homem certo para ti. Sim, casa-te lá!». Não penso em absolutamente nada. Dou-me conta de mim. «A arrogância é a maior das nossas máscaras e a pior das nossas pernas». Que raio de filosofia. Sempre detestei os sábios e os que imitam os sábios. Cheira-me a canela, a caramelo, a chocolate quente. A manhã é dolente. Tu partiste. Sinto fome, sinto uma fome imensa, uma fome voraz. «Um dia, Miguel». Sim! Seja como for, adeus!
Ao inverter a marcha, os pneus desenham no saibro desolado a imagem, o som inesquecível de uma despedida. A noite é gélida e oca, inútil como a casca de um fruto seco. O que soa por dentro agora é um chocalhar de palavras soltas, cascalho, memórias de uma ferocidade extrema. A imagem e o som de uma despedida. Os pneus chiam levemente sobre o alcatrão. A cabeça é um deserto. Curvas, solavancos, travagens repentinas. Frases desconjuntadas e assassinas, como pedras pontiagudas. Depois, outra vez a marcha. E a cabeça distante, como naqueles dias em que atiramos seixos ao rio. Como naqueles dias em que fazemos círculos à toa no caderno. Como naqueles dias em que acendemos fósforos por acender e nos hipnotizamos com a chama mortiça de uma recordação. A noite é um ventre. Uma prisão. Sufocamos.
– Um dia perceberás o que te quis dizer…
– Um dia perceberás o que acabas de perder…
Subitamente, cega-nos o clarão de um pensamento. Holofote doloroso, o remorso. Depois, subitamente, a raiva. O acelerar do carro. O cheiro da embraiagem, da borracha queimada no asfalto. O incêndio da razão.
– És um merdas… Sempre foste um falhado…
– Merdas és tu… Não te admito, ouviste…
A melancolia é uma peçonha. Voltamos a ouvir o velho álbum dos Röyksopp. Voltamos a pensar nas coisas por fazer (o atraso é agora desastroso, incomensurável, irreparável). Voltamos a desejar nunca ter saído da cabeça adolescente. As viagens. Os livros. As memórias límpidas. Os cadernos perfumados pelas longínquas especiarias.
– Porra…
A melancolia é um poço. Cismamos. Todo o nosso ser é, de alto a baixo, um pilar em queda. Um império prestes a desmoronar-se. As antigas dúvidas são as novíssimas dúvidas. Os velhos dilemas pesam agora como o próprio ar que se bebe em travos arfantes. Vetustas cicatrizes abrem e sangram. Quem somos nós, porra?
– És um merdas… Bem que me tinham avisado…
– Ouve… Tem lá cuidadinho com que o dizes… Não te admito…
Havia, outrora, outro caminho. Havia neste corpo outra pessoa. Os pensamentos correm como chispas alucinadas. As imagens sobrepõem-se, atropelam-se, obnubilam. Há em nós um azedume de fiasco. De prejuízo. De tempo perdido. O carro resfolega.
– Porra…
Bem gostaríamos de acreditar naquela frase do Eugénio. O nosso destino somos nós. Então, por que carga de água, queremos estas mágoas a repetir-se. Esta vileza de nos esmagarmos contra o nosso próprio sonho. Porquê?
– Um dia perceberás o que te quis dizer…
Não, definitivamente estamos fartos. Saturados. Incapazes de tolerar, transigir, perdoar. Basta. Curvas, solavancos, travagens repentinas. O maldito semáforo. Esta covardia de respeitar o vermelho. Não seria mais fácil irmos sempre em frente, sem filtros, arrependimentos, considerações metafísicas? O que quer que sejamos é agora um peso, uma ninharia, um farrapo (sabemos sempre manusear tão sabiamente as metáforas aniquiladoras). Somos um bocejo. Uma esquírola. Uma vergôntea feia. Uma secreção. Somos ridículos. O carro quase adormece…
– Um dia perceberás o que acabas de perder…
Apostamos que do outro lado alguém se ri desta balofa, incompreensível, miserável frase de recurso. Talvez a maldita sorte ande a mofar de nós. A noite engole-nos. A noite cresce. A noite devora estes e todos os outros argumentos vãos. O clarão dos holofotes cega-nos. As lágrimas podem agora, finalmente, tropeçar nos escombros. Como autómatos, os pneus conduzem-nos. Estamos a caminho de algum lado. Estaremos sempre em caminho. A maldita cabeça repete, como o eco através da garganta, «Não colecciones dejectos o teu destino és tu.» As feridas doem. Nunca presumi que não devessem doer. Bem gostaríamos de acreditar naquela frase do Eugénio. Voltamos a desejar nunca ter saído da cabeça adolescente. As viagens. Os livros. As memórias límpidas. Os cadernos perfumados pelas longínquas especiarias. A estrada é em frente. Apenas em frente. Sempre em frente.
Ultimamente rasuro muito. Rasuro folhas de papel reciclado e rasuro pensamentos. Rasuro conversas e silêncios. Rasuro convites para almoçar e idas ao cinema. Rasuro velhas preferências e a possibilidade de encontrar para elas um remédio, um remendo, um refrigério. Rasuro planos e sonhos e antigos devaneios de adolescente. Rasuro intenções, recordações, ilusões. Rasuro até a música, até Mozart, Bach, Ravel, Debussy. Rasuro. Quero dizer, rasuro imenso, sem contemplações, sem piedade, sem meios termos, sem pensar duas vezes, sem me importar com os destroços, sem imaginar a incomensurável tristeza da nossa pessoa em cinzas, sem meditar devidamente na dor incontida do tempo escoado à toa, desperdiçado, imprestável, empeçonhado, desvivido…
Por vezes acontece-nos isto.
Precisarmos de recomeçar tudo. Precisarmos de recomeçar tudo do zero. De recomeçar abaixo de zero. De recomeçar do lugar maldito onde nos encalhou a alma.
Por vezes é assim.
Precisamos dos ossos estatelados, quebrados, macerados, precisamos de fazer com eles um tripé, um bordão, uma escada. Precisamos de sair do poço. De seguir em frente. De sentir a dor e vencer a dor e sentir que é nossa outra vez a vida que sempre foi nossa.
Por vezes não há outra forma.
É quando estamos fartos. Quando desconfiamos que fizemos tudo mal. Quando descobrimos que fomos desonestos com a consciência. Quando esgotamos o repertório de truques, malabarismos, fantasias e nos vemos olhos nos olhos.
– Chiça, que merda é esta?
Quando percebemos que levámos os olhos à pior das miopias. E nos damos conta de que nada nos liga já à infância. E se tornou evidente que a vida que temos pela frente é a partir de agora uma questão de tudo ou nada. Quando não suportamos a misericórdia das promessas. E sabemos que há outro modo de ouvir Mozart, Bach, Ravel e Debussy. Outro modo de tocar as palavras. Outra forma de enlaçar os pensamentos. De preferir. De querer. De aceitar. De partilhar. De recordar. De planear. De pertencer. De resistir.
Porque às vezes há outra forma.
Os domingos deixam de ser tão horríveis. As noites deixam de ser tão implacáveis. As doenças deixam de ser tão definitivas. Os ataques de rabugice deixam de ser tão veementes, dementes, consequentes.
Porque às vezes é assim.
Precisamos de dar pontapés, murros, cabeçadas à nossa teimosa misantropia. Precisamos de reaprender a respirar. Precisamos de ouvir sobre a nossa falta. Quero dizer, da falta que fazemos. Precisamos que nos lembrem que há um chão onde nos esperam de pé. Precisamos de encontrar uma boa resposta para todas as grandes perguntas.
Porque às vezes é assim.
Aprende-se a somar e a subtrair o mau humor, os narcisismos, egoísmos e snobismos, os arroubos infantis, os arroubos antissociais, os arroubos de toda a espécie, os vícios, as más finanças, a profissão detestável, as teimosias, as hipocrisias…
– Chiça, que merda é esta?
Um tipo rasura, rasura, rasura. Vê-se diante do espelho, considera, cisma, reflete, encontra a prova de que é humano e sempre foi. Um tipo sente em si a verdade, sente-a circular num jorro de catarse ao longo da alma, entre as pregas do cérebro, nos ossos, do posponto da pele às secreções. Um tipo limpa-se. Um tipo lava-se. Um tipo reconhece-se. Um tipo queima a pele velha. Um tipo entrega-se a uma cura sem tempo certo. Rasura o caderno, rasura os pensamentos, rasura as conversas, rasura o silêncio, rasura os convites para almoçar, as idas ao cinema, rasura os planos e os sonhos, os devaneios de adolescente, rasura intenções, recordações, ilusões, rasura até a música, Mozart, Bach, Ravel, Debussy, rasura tudo, tudo, tudo! Porque às vezes não há outra forma e há esta forma. Porque a solução é um milagre pessoal e não há certezas. Porque não há somente isto. Isto. Quero dizer, isto!
Há dores que doem mais do que as outras dores. É um absurdo. Dói-nos tudo quando dói assim. Dói-nos o corpo ao alto, os ossos, o intervalo entre os ossos, os olhos, dentro dos olhos, a boca, a garganta, os pulmões inchando e desinchando, o estômago, os rins, as costas, as mãos, os cabelos até à última ponta do último cabelo. Dói-nos tudo. A mobília, o tapete, as sombras, o silêncio. Tudo. E quando mexemos um músculo o universo inteiro estremece. E quando uma corda vocal quer vibrar todo o espaço trepida com o catarro. E quando as palavras saltam, tropeçando, cegas, às apalpadelas, quando riscam com o seu fósforo efémero a parede gelada do tempo, é ainda um resto de dor que as torna mais belas e terríveis. Porque quando dói tudo dói tudo. É um absurdo. Um cataclismo. Um colapsar de sonhos e memórias e esperanças e alegrias subtis, risos, confidências, carícias, hálitos, secreções, murmúrios, quenturas, prazer… É um absurdo. Porque erguer gigantes não devia ser para tombá-los, vergá-los, humilhá-los, enlameá-los, arrastá-los a ferros. Porque, no interior de um pequeno fole de trezentos gramas, sístole-diástole, sístole-diástole, sístole-diástole, é possível caber um gigante. Um gigante com um milhão de fotogramas, um fantasma, um holograma, um amor!
Porra, um amor!
De maneira que hoje foi mais um dia. Daqueles que precisam de nos arrancar à cova, com esforço, virilmente, sob ameaça de estalo. Meia hora no duche. A água a escorrer na pele como em pedra. Não me lembro se estava quente ou fria. Dá para acreditar? Não me lembro se gemi com frio ou sentindo uma queimadura. Gestos sonâmbulos, mecanizados, entrando e saindo de mim como gente de um motel. Não me lembro do que engoli. Decerto os cereais. Provavelmente um iogurte. Porventura uma peça de fruta. Talvez pão com geleia. Não sei se meio pão com queijo. Possivelmente nada. Não me apetece comer. Ultimamente não sinto fome. O carro levou-me sem um protesto para o trabalho. Não me lembro de o conduzir. Julgo que se conduziu sozinho, como os cavalos nos campos de batalha. Devo ter bebido um café. Ou dois. Teriam sido três ou quatro. Mais. O café é bom, aquece, traz-me de volta à superfície. Chego a reconhecer as pessoas. Digo-lhes a cada qual, à vez, sem pensar muito
Bom dia, como está?
O pior é acordar. As manhãs são bolas de sabão inquebráveis. Escuto-as por dentro (escuto as ervas, o cheiro das madressilvas, o olhar acutilante das gralhas no bosquezito ao lado do apartamento, o frio do riacho, as neblinas erguendo-se até ao cocuruto dos choupos. Escuto crianças. O riso maravilhoso que ecoa dos seus passos. Escuto o sol. Escuto o abrir das janelas, o perfume das roupas que se estendem nas varandas. Escuto o sorriso desdentado das velhas, tricotando e rezando em simultâneo. O frenesim dos pequenos mercados de esquina. As caixas de pão, o cheiro do pão, a farinha saltando sobre o papel pardo das contas de somar). Escuto-as e quando me sacodem, me dizem
Já tocou, professor!
Eu sinto a mesma pesada maquinaria, ferrugenta maquinaria, terrível maquinaria, desengonçada maquinaria, a mover-se, caminhar para uma porta, desaparecer por algum lado, sumir-se nalgum corredor, entrar nalguma conjuntura de paredes. De maneira que respondo
Obrigado! Não me tinha dado conta!
As manhãs são sempre longas, distantes, capazes de vencer-me. Um corpo derrotado é um sempre um corpo. Um touro caído. Decaído. Um corpo.
Obrigado! Tenho aula, sim!
E com o copo de café na mão sinto falta de um café para acordar. De maneira que perco a conta aos cafés que bebo. O café é bom, afugenta as cinzas, traz-me de volta à bela chama que ainda há instantes sentia viva no lugar do coração. Chego a reconhecer as pessoas. Digo-lhes
Está uma bela manhã, não está?
E as palavras recomeçam. Os alunos apontam, seguem o raciocínio, não fazem perguntas, acreditam na versão limpa e oblíqua das páginas do manual. As palavras saracoteiam-se com um vago esplendor de ouro falso. O conhecimento. Tão grato, o saber. Tão importante senti-lo fluir na sala, como o balbuciar de um vento moderado e casto.
Sim, meus caros. O conhecimento é sagrado. Puro como uma Vestal.
De maneira que tenho andado meio esquecido. Quase me esqueci de ti, imagina? Quase me esqueci que o sofrimento é uma ampulheta, engolindo tudo de um lado e depois do outro lado, à vez, cambalhota para aqui, cambalhota para acolá, à vez, acumulando tudo, aniquilando tudo…
Não há remédio para isto. Guillén escreveu uma vez sobre a saudade que sentimos das pessoas que nos morrem ainda vivas. Achei belo. Suponho que o acharás também. Belo. E tão triste. Tão triste.
Todas as pessoas prestam. Mais que não seja para nos ensinarem a preciosa lição de que não podemos confiar nelas.
Que saudades, avô!
Massajo a cabeça com o champô, sinto o frio rodear-me o corpo por todos os lados, a chuva a cair do outro lado da parede, o sono a puxar-me de longe (da infância), os minutos a passar lentos, velocíssimos, o jato de água quente deslizar de novo, por mim abaixo.
As pessoas são como as árvores!
Como as árvores, avô?
Como as árvores. Uma vezes são da terra, outras vezes são do céu, outras vezes são de debaixo, de muito debaixo, do último pedaço de raiz, tão escondidas como o Diabo.
Enxaguo-me. Já tão exausto, como se estivesse a preparar-me para a cama. Já tão distante, como se pertencesse a outro tempo. O felpo a lembrar-me a ferida na orelha, o desalento da manhã ocupadíssima, a viagem, o mau tempo, o pequeno-almoço devorado a correr, os sons da campainha, os cheiros desagradáveis, o tom de voz crispado, os pixéis fundidos dos computadores, as faltas, as falhas, as frustrações.
Um dia hás de perceber tudo isto, meu filho!
O quê, avô? O que hei de eu perceber? Que as pessoas gravitam em torno de nós como corpos aleatórios, desejados, indesejados, esperançosos, malditos? Que as melhores pessoas nos morrem e são como os primeiros cadernos de escola, onde escrevemos as mais puras manhãs? Que o destino é um matadouro de sonhos? Que nos magoa horrivelmente amar e ser amado? Que amar é só o primeiro sinal de decadência? Que um animal nos mora na alma e nos morará sempre, igual aos primeiros vírus?
Porque tu és reguila! Tu vais desenrascar-te bem, não vais?
E de um momento para o outro, apoiando-te na bengala, sem olhar para trás, sem te despedir, caminhando curvado (sempre que penso em ti, sempre que me recordo, mais curvado me pareces), caminhando paulatino, caminhando na mesma direção, caminhando para longe, foste sem voltar.
Tu és reguila, hem? Olho aberto, ouviste?
E só me ocorre nevoeiro. O nevoeiro que agora me tapa a visão, debaixo de bátegas inclementes. O para-brisas dançando como um louco, o ar condicionado no máximo, os intermitentes ligados. O nevoeiro que me não deixa olhar mais na tua direção, tu mancando, apoiado na bengala, deixando-me para trás, sem me ouvir, rouco, cansado de gritar por ti, com as lágrimas e o ranho a impedir-me de respirar, incapaz de compreender.
Porque não se compreende que um avô deixe uma criança assim…
Todas as pessoas valem a pena. Mesmo aquelas que não valem nada. Aprenderás como…
E a viagem alonga-se, eterniza-se, deixa-me ainda mais longe de quem sou, como se de repente tivesse principiado a rodar noutra estrada, a galgar anos em lugar de asfalto, a procurar um ser de outrora como se procura um objeto perdido, a descobrir com olhos novos verdades antigas, a alcançar finalmente o significado das palavras que ficaram gatafunhadas em papel pardo, junto à lareira, com um velho lápis de carpinteiro aguçado pela tua navalha.
Que saudades, avô!
E é quando dou por mim junto do portão. A confusão ímpia das segundas-feiras. O motorzinho escancarando-lhe a boca, introduzindo-me na vida, engolindo. Que saudades, avó! Dessas manhãs junto à lareira, das tuas mãos calosas, quentes, magoadas.
Aprende a conhecer as pessoas, meu filho! Tu és reguila! Tu vais safar-te, não vais?
Primo um botão. O carro fica para trás. O ar violento da cidade. Sim, avô! Prometo que sim! Verás que sim! Juro que sim! Porque nunca se deixa uma criança para trás, dobrada num pranto, ferindo-se sem cura! Nunca se deve ser surdo e insensível. E um velho morrendo-nos, curvado numa bengala, enfiando-se no nevoeiro, é uma questão de honra, de orgulho, de sangue!
Prometo que sim! Verás que sim! Juro que sim, avô!
Saberei desenrascar-me, conhecer as pessoas, escrever melhores palavras, ser alguém. Todas as pessoas prestam. Mais que não seja para nos ensinarem a preciosa lição de que não podemos confiar nelas. E há, algumas, pouca, escassíssimas, que nos fazem bem, que nos saram das hemorragias.