O lugar (in)comum da nossa infância

Village
Fotografia de Chris Erdman

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No vagar da casa definia-se melhor a natureza imutável dos gestos. Era sublime, por exemplo, a luminosidade que transbordava dos dedos à roupa no estendal nas manhãs de maio. Por exemplo, a vaga tristeza súpita que descia connosco ao silêncio mais profundo de uma gaveta. As coisas ocupavam o seu lugar dentro das palavras, ao lado de outras coisas dentro de outras palavras, e vinham contra o olhar, sobre o olfato, ao toque imaculado dos dedos. Existia-se, respirava-se, decompunha-se com minúcia as formas e os cheiros, a tessitura dos tijolos, os pensamentos, o frio. Era o desabrochar da infância.

Essa infância abria uma cancela alta e vinha a correr. Trepava escadas de pedra, interrompia-se instantaneamente diante uma velha porta de madeira, em cujo rodapé espreitava o fumo escuro e a pálida luz elétrica de uma cozinha. Essa infância entrava, invadia um solo indubitavelmente sagrado repleto de objetos puídos, macios, mascarrados. Encontrava aceso o lume da lareira, o brilho dos cobres, as cerâmicas muito lavadas. Chiavam ali três grandes potes de ferro, ali onde cheirava a café fresco, onde mãos trémulas iam depositar a sertã sobre uma trempe, ali onde ardia às vezes – sobre magníficos tições rubicundos – a boa carne do fumeiro, ali onde pequenos olhos atentos escreviam já a sua escrita inócua e fascinada.

Pregado à penumbra deste primeiro espaço, a infância descortinava o claviculário surrado. Era o lugar de onde se partia para todos e de onde se regressava de todos os lugares. As vozes reuniam-se para comer, para contar o tempo, para persuadir a Providência. A infância escutava e rezava, participava na prudente litania com que se defendia a casa dos males deste e do outro mundo, ia sonolenta pelo limiar tosco dos móveis e escapava-se para o corredor. A infância escabeceava como um inseto alado, ensarilhava-se nas teias nascidas sob as traves, gemia às vezes com as velhas missagras ferrugentas das portas interiores, absorvia o aroma intenso do eucalipto, sonhava. Depois vencia o torpor, beijava as faces endurecidas dos anciãos e pedia-lhes a bênção. Depois tombava no sono imaculado dos justos.

Havia na raridade destes gestos sagazes e piedosos outro espaço de que hoje se é órfão. Outro espaço de que hoje se sente uma falta inexplicável. De que hoje se lastimava a dor incalculável. Como se de um remorso se tratasse, como de uma mutilação falássemos, como se um vazio impreenchível nos engolisse. Beijava-se e era-se beijado, dizia-se e era-se nomeado, sentia-se e era posto no âmago dos sentimentos. A infância era essa casa, essa casa-mundo, essa casa-alma, essa casa-intraduzível.

Por muitos anos pensei que me morrera ela, desfeita de cima a baixo pelo sinistro braço do caterpillar. Pensei nessa casa-entulho que os camiões transportaram como uma sombra para parte incerta. Essa casa devolvida aos caboucos e ao cheiro alcalino do saibro, restituída ao desenho ancestral do seu quadrado de terra. Essa casa que outra casa afundou para sempre, debaixo de betão e toneladas de metal.

Mas não. Essa casa onde a infância respira ainda não morreu. Nem a imagem dolorosa do seu desmantelamento pôde destituí-la da sua geografia encantatória. Nem as malditas quelíceras das máquinas puderam abafar as suas vozes benditas. Nem os seus velhos puderam partir – eles que renascem a cada instante na exatidão singular dos gestos que lhes repetimos. Será sempre a casa. Como esses velhos serão sempre uma memória infalível, uma memória que regressa no vagar das sombras e nos enche a boca como uma canção longínqua.

Ah, essa casa não morre.

No vagar da sua esquadria, os gestos eram sublimes, tristes, maravilhosamente esculpidos. Abriam, por exemplo, a terra e sepultavam nela sementes poderosas. Narravam, por exemplo, com palavras poucas e inquestionáveis – à noite, ao lume, no bojo do silêncio – a história de Branca Flor. Nada possuía verdadeiramente esse mundo. Ele era senhor de si. Tudo recaía em nós paulatina, singelamente, como camadas de um amor impossível de corromper. Existia-se, respirava-se, sobrepunha-se sem pressa as minúsculas células do tempo, as formas e os cheiros, a tessitura dos tijolos, os pensamentos, o frio. Era o desabrochar.

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Logótipo Oficial 2024

Os poetas pobres

Gerard Sexton
Fotografia de Gerard Sexton

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Os poetas pobres veem as coisas de um modo que significa alquimia. Tocam-nas e transformam-nas em ouro, ou devolvem-lhes o ouro que têm, mas que (coisas singelas que são, coisas do seu estatuto social, coisas que os olhos dos poetas ricos desprezam) passam por insignificância, tolice, apontamentos de pé rapado.

César Vallejo foi um poeta paupérrimo. Peruano de nascença, andou por este mundo fora colhendo as maçãs da sua miséria. Em Paris, os poetas ricos miravam-no com o mesmo espanto apavorado com que em Braga, nas esplanadas, os poetas ricos atingiam Sebastião Alba, outro mendigo. Há, também, poetas mendigos. Poetas que, literalmente, mendigam pão e, volta e meia, uma cachaça.

Yannis Gitsos, Yourgos Seferis, Paul Celan, Tonino Guerra sentiram a fome. Todos por causa da guerra (dos combates, das perseguições, da prisão). Allen Ginsberg e Charles Bukowski conheceram-na, igualmente, em virtude do alcoolismo, das drogas, do oposicionismo político exacerbado. O caso mais dramático, seguramente, o de Anna Akhmátova, a resistente russa que padeceu toda a série de agruras que o estalinismo pôde infligir. Antes dela, Czesław Miłosz conheceu as agruras do gueto de Varsóvia, que recorda no poema magnífico “Campo di Fiori”. Foram poetas pobres, um ou outro remediou-se, mas humildes sempre, irónicos quando possível, geniais cada um à sua maneira

Em Portugal, a história da poesia é a história da pobreza pura e dura. Cultivaram-na reis, nobres e aristocratas, mas sobretudo gente sem eira nem beira. Camões, Bocage, Gomes Leal, Pessoa foram poetas sem dinheiro. Sá-Carneiro foi um poeta rico, cujo suicídio teve provavelmente algo que ver com o spleen da capital francesa e com a condição anómala de ser filho de burguês abastado para quem os seus avanços literários nada significavam. Sophia foi aristocrata, mas conheceu os apertos financeiros que os opositores de Salazar sofriam quando ousavam perturbar as malhas do regime. Nem todos puderam ser Antónios Ferreiras, Diogos Bernardes, Sá-Mirandas. Nem todos puderam viver dos subsídios generosos de suas majestades ou podem viver dos prémios literários que as fundações, câmaras municipais e juntas de freguesia entregam amiúde. Ou do beneplácito das grandes editoras.

Por lá, como por cá, há uma imensidão de poetas a contar os cêntimos e a contemplar as coisas irremediavelmente belas que a natureza tem para oferecer, do mais lírico e humílimo que possa encontrar-se pelo caminho, enquanto se faz pela vida e se arranja um ganha-pão decente, sem privilégios ou cunhas partidárias, ganha-pão despido de toda a espécie de adorno e enliças políticas, sociais ou familiares. Ainda que estendendo a mão a quem passa, como esse célebre Ulisses Santiago que conheci no Porto (nos idos da Faculdade) a quem dei cem escudos a troco de um amontoado de versos escritos a tinta verde.

Os poetas pobres veem as coisas de um modo particular. Talvez não vejam o orvalho entre as rosas rubras e aveludadas do seu jardim, mas o orvalho poisado em grandes gotas (que lembram prata líquida) sobre a folha carnosa das couves e das alfaces. Ou talvez vejam de manhã cedo (caminhou o dia os primeiros metros no horizonte) o rasto iluminado dos aviões e se recordem do fio de baba dos caracóis e associem ambos num verso pobríssimo como “aviões segregando a sua baba translúcida”. Ou talvez assistam ao acender das fogueiras nos campos de uma qualquer terreola e se lembrem de outonos passados, evocando avós maravilhosos (com o podão à cinta e botas de vitela calçadas) que os levavam pela mão até ao lugar onde o trabalho os fixou para sempre, muito perto de uma azenha revolta, presa nas névoas e no som do açude, muito perto de uma coluna de fumo no interior da qual a lenha seca produz chamas vermelhoalaranjadas e uma memória pura de afeto. Talvez escutem, caminhando a pé, o som das escrevedeiras, o pio triste das gralhas, a algazarra das levandiscas e saibam com elas iniciar ou concluir uma homenagem à infância.

Ou talvez vivam na cidade e testemunhem o lento dobrar de esquina dos idosos desvalidos, solitários, deixados ao deus-dará, para quem um gesto de amor pode ainda valer tudo e significar que a vida longa não foi (não é) em vão. Talvez não lhes passe despercebida a indigência encapotada das famílias modernas, das que não alardeiam a sua situação e não buscam subsídios (das que trabalham todos os dias do mês e levam para casa salários de merda) e têm todas as contas para pagar. Os poetas pobres conhecem muitas histórias destas. Costumam sentar-se nos bancos de jardim, conviver com outros pobres, ler e ouvir-lhes as assombrosas existências de carne e osso. Talvez se deem conta (como deu Pablo Neruda nas minas de Antofagasta) do terrível mundo que fica para lá ou para cá do palco iluminado de todas as falsidades e estatísticas. Os poetas pobres veem a olho nu e talvez seja por isso que veem melhor, mais a direito, mais dentro, mais fundo.

Pessoalmente, sinceramente, verdadeiramente, não suporto a escrita dos poetas que não vejam as coisas que têm de ser vistas. Dos poetas que comunicam sem ideias, que se glosam a si mesmos, que multiplicam palavras. Dos poetas que cavam dentro da sua própria vaidade e expelem coisa nenhuma. Desses é o reino da Terra, quem sabe do outro reino também. Mas a mim não me apanham a louvaminhá-los. Não apanham!

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A grande nostalgia

Anne Rose Pretorius
Fotografia de Anne Rose Pretorius

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De algum lugar obscuro da minha memória vêm-me chegando por estes últimos dias saudades da antiga Escola Montelongo, onde frequentei o 5.º e 6.º anos, o Ciclo, como então lhe chamávamos, escola nos arrabaldes da cidade, pobre, sem cantina, sem ginásio, com uma escadaria larga que nos levava da cave ao piso superior por entre corredores mal iluminados, onde se abriam as portas das pequenas salas (a sala 1 e a sala 6 eram minúsculas) e onde o grande tesouro não se chamava “campo de jogos” (um baldio irregular, com duas balizas ferrugentas e mal equilibradas, hoje sede da Guarda Nacional Republicana), mas a biblioteca.

A biblioteca era fria, silenciosa, no remanso do rés-do-chão. Do lado de fora das suas janelas gradeadas crescia um silvado no meio de um cemitério de mesas e cadeiras partidas. Tinha três filas de mesas alinhadas e uma D. Lurdes maldisposta ao comando, sempre com o aquecedor ligado, sempre com a mão pronta para um tabefe profilático, sempre com os olhos vigilantes e maus correndo por cima dos óculos e a avisar.

– Quero tudo no sítio!

Era aqui que nos conduzia duas a três vezes por período o professor Miguel Monteiro, o mais extraordinário mestre que encontrei nesse tempo, para podermos desfrutar da leitura silenciosa, do livro que bem entendêssemos, da estante que mais quiséssemos. Só então os fechados armários se abriam. Só então, quando as lâmpadas fluorescentes brancas se acendiam todas, se podia olhar melhor e mais fundo a floresta de lombadas e se extraía das estantes repletas algo como A ilha do tesouro, As aventuras de Tom Sawyer, As viagens de Gulliver, A menina dos fósforos, O príncipe feliz, O rapaz de bronze, Como se faz cor-de-laranja, Histórias de um bichinho qualquer, tantos outros… A rancorosa funcionária (obrigada a levantar-se e a abandonar a TV Guia) rodava a grande chave metálica, fazia silvar o nariz e punha os olhos de lado, como se os quisesse escorraçar das órbitas, seguríssima de que não ia ficar nada no sítio. Era um assombro, podíamos por fim colocar as mãos no cofre. Indiferente ao desagrado da senhora, o temerário professor continuou a levar-nos àquele canto umas quantas vezes por período, permitindo assim que nos déssemos conta de como aqueles livros cheiravam extraordinariamente a madeira envelhecida, do quanto as ilustrações são poderosas etiquetas mentais, da dolorosa separação de uma página quando nos devora a curiosidade e a campainha soa.

Este início de setembro tem-me feito recordar algumas alegrias esquecidas. Por exemplo, o facto de andar nos autocarros da João Carlos Soares & Filhos L.da todos os dias (era preciso picar um passe com um número contado de viagens). Por exemplo, a mochila vermelha carregada com os manuais escolares novos (brilhantes, cheirosos, desafiadores, comprados na Papelaria Avenida do senhor Diamantino Pereira (conservo, ainda, os de Português desses anos distantes). Por exemplo, a satisfação de aprender uma língua estrangeira (no meu caso, o francês) e de poder decifrar os enigmas dos vulcões em Ciências, e de superar a paralisante confusão de xis e ípsilones em Matemática. Gostava de Estudos Sociais e de História, detestava a gramática (a morfologia e a sintaxe, em particular) e era um zero a Trabalhos Manuais, disciplina onde precisei de empregar uma grande dose de improviso, mentiras e promessas para me aguentar na positiva. Odiava Educação Musical, outra deceção da minha vida escolar, provada que ficou a minha completa imperícia em matéria de flautas, xilofones, tambores, leitura de pautas, interpretação de semicolcheias, escrita de claves de sol, cantoria.

Gostava de histórias. Gostava de espreitar a arrecadação, onde permaneciam cheios de humor (e de pó), os esqueletos humanos. Gostava de desenhar (embora me faltasse qualquer coisa de verdadeiramente artístico). Gostava de folhear os manuais e de por eles ver o mundo – as ilhas selvagens do Pacífico, repletas de cones expulsadores de lava; as belas cidades e comunas de França, com os seus vinhos e os seus queijos; os castelos e mosteiros de Portugal, especialmente os medievais (que já então sobremaneira me encantavam). Gostava de sair a correr para o Pavilhão Gimnodesportivo ou para as piscinas municipais, um e outras significando liberdade. Gostava de correr, de marcar golos, de saltar nos aparelhos, de nadar, de fugir ao trampolim e aos saltos mortais (que me trazem ainda hoje pesadelos).

Mas gostava, sobretudo, da sensação de início. Nesses dias de setembro, como nestes dias de setembro, comprados os novos materiais, organizada a capa (com os seus separadores de plástico colorido da Âmbar), preparado o estojo, o começo acarretava um misto de ansiedade e de esperança, de fé e de algum temor. Tudo dependeria (como depende hoje) das pessoas com quem nos iríamos cruzar. Se o professor Miguel foi um mestre, outros o foram também (a professora Germana Longo de Ciências da Natureza, a professor Clara de Educação Visual, a professora Ana Maria de Matemática, a bela professora Adília de Francês do 5.º ano). Outros o não foram, de tal modo nos oprimiam com o autoritarismo (jamais esquecerei o giz disparado por certa professora à testa de uma colega no fundo da sala), ou de tal forma nos desconcertavam com o seu laxismo.

Gostava nesses dias de começo de outono de pensar que um dia saberia educar os meus filhos com amor, rigor e uma boa coleção de livros. E que eles, tal como eu, amariam a quietude da sala de aula tocada pela boa luz matinal. E que eles, tal como eu, saberiam lidar com os erros e com os fracassos próprios, depurando pacientemente as suas virtudes.

Tenho os livros, não os filhos.

Não sei se o lamente, se apenas me satisfaça com o ensinar os outros. Com a expetativa, ainda assim, de que um dia algum dos meus alunos me recorde com a mesma nostalgia imensa com que falo destas coisas, e talvez me associe a uma ou a outra conquista obtida nas paredes da sua escola, a quem em jeito de balanço conceda a luz de uma dádiva, e não (como tantas vezes parece) a fama imerecida de uma prisão.

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Lanzarote, Saramago e a Casa

João Ricardo Lopes + Pilar del Rio
Com Pilar del Rio na Casa, 2018

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No imaginário português, a árida e despojada Lanzarote é “a ilha de Saramago”. De resto, em lugar nenhum senti a presença de um escritor tão veemente como na casa em que, nesta ilha, viveu ele com a mulher, Pilar del Río.

Com efeito, A Casa (na Calle de Los Topes, 1, em Tías), pareceu-me no final dessa manhã de 29 de agosto de 2018 um nimbo literário, juntamente com a Biblioteca que (quase contígua, do outro lado da pequena estrada) recebe os muitos milhares de livros, revistas, cartas, manuscritos (não contando as estátuas, estatuetas, óleos) que o nobel colecionou em terras canárias. É bastante provável que muitos saramaguianos viajem a este lugar em primeira instância a partir dos seis volumes dos Cadernos de Lanzarote e que, lendo-os (se o preço da curiosidade não for menos do que o medo de fazer umas férias em solo lunar), se sintam tentados a comprar um bilhete de avião e a conhecer o extraordinário chão vulcânico que de Arrecife se estende a Haría, Ye, Guatiza, Orzola, a Caleta de Famara, a Caldera Blanca, a Yaiza, Uga, La Geria, a Las Breñas, a Los Charcones, à Montaña Roja, a Playa Blanca.

Os Cadernos falam de Lanzarote, mas não tanto como gostaria. O volume maior desta escrita diarística incide sobre as relações e questões que o autor alimentou (simpatias, antipatias, querelas, indignações, convites, idas e estadas em eventos literários, notas partidárias, glosas de toda a espécie a respeito do dia a dia social e político do país – olhado à distância, mas com a precisão – e do mundo), mas também sobre o amor a Pilar e aos cães da casa, sobre o maravilhamento do eu na relação tumultuosa com o cosmos, sobre efemérides, sobre uma frase colhida, sobre um pensamento, sobre uma confissão vinda a propósito do ruído do mundo ou vinda do silêncio purgado da sua alma. Todas as alusões à terra lanzarotenha me fascinam, inversamente aos apontamentos da sua agenda social (às vezes fastidiosos, quase sempre narcisistas).

Casa de Saramago Lanzarote
A Casa de Saramago, Lanzarote

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De entre as geniais descrições que Saramago entremeia na meia dúzia de Cadernos a respeito da ilha, uma sobremaneira me toca e me parece súmula perfeita do que nela há de beleza cruel ou de corajosa resistência.

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Há em frente da casa um morro a cujo cimo se chega por uma encosta suave, mas que, do outro lado, desce abruptamente sobre a planície que se estende até ao mar. (…) No geral dos dias, a paisagem que hoje dali se vê é escuta, com o chão coberto de troços de lava triturada pelas estações, uma vegetação rala e rasteira, amarelada, de longe quase invisível, continuamente sacudida pelo vento. Os muros baixos de pedra seca já não dividem as antigas parcelas em que se cultivava o trigo, a batata, o tomate. Agora apresentam a figura de um tabuleiro de xadrez mal desenhado donde os reis, os bispos e os cavaleiros se foram a melhor vida, e de onde os peões emigraram para irem ganhar o pão no turismo da costa. Tem chovido com abundância nestas semanas. Como sempre, por toda a parte, reverdecem logo as ervas, ainda sombriamente porém, como e nas seivas viesse misturado algo do negrume calcinado da terra. Vou até ali de vez em quando (…) e julgava conhecer o morro passo a passo, com os seus restos de velhos muros onde se escondem, rápidas, as lagartixas, e onde esquálidos arbustos lutam contra a ventania, mas hoje, num rebaixo, fui descobrir dois algibes que antes me haviam parecido simples amontoados de antigos escombros. Subi aos tetos abobadados e espreitei pelas frinchas das pedras mal ajustadas. Havia água no interior, uma água verde, imóvel. Não existem nascentes perto (quase não as há em toda a ilha), portanto toda aquela água caiu do céu, alguma é destes dias, outra do ano passado (…). Quando regresso a casa olho para trás. Ai estão os algibes, tranquilos como uma ruína, indiferentes ao deserto em que os abandonaram. Vendo-os assim, guardando o que lhe foi confiado, compreendi a razão por que a estas cisternas chamamos arcas de água. Ao dizer arca, ao dizer água, estamos a dizer tesouro.

(1 de janeiro, Cadernos de Lanzarote IV)

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Durante um certo período de tempo, a minha irmã mais nova e afilhada viveu em Lanzarote, também. Por sua culpa, errei por lugares que me confundiram os sentidos e me fizeram disparar centenas de vezes os relâmpagos das máquinas fotográficas e do telemóvel: Las Nieves, por exemplo. Por exemplo, o Miradouro del Río (donde nos fere o azul claro da Graciosa e o profundo do oceano). Por exemplo, ainda, a Cueva de Los Verdes. Ou a vista ocre do La Corona (o maior cone vulcânico desta terra). Ou as vinhas escuras de La Geria, aninhadas em craterazinhas e aconchegadas em muretes de basalto. Ou o poderoso e avermelhado Parque Nacional de Timanfaya, com a sua imponente massa de lava solidificada. Ou os férvidos Hervideros. Conheci estes lugares como se conhece, deslumbrado, alguém que nos volta a cabeça do avesso. Absolutamente convencido de que também aqui viveria para a escrita, decerto não tanto como o cosmopolita Saramago, mas talvez como Hilário, o eremita.

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Casa de Saramago Lanzarote - escritório de Saramago

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O escritor português soube rodear-se de um conforto notável. Da janela do seu antigo escritório alcança-se sem custo o mar. Na penumbra do espaço, brilham não só as lombadas dos livros e as vitrines, onde ficaram aprisionadas as suas canetas, mas igualmente o Atlântico ao fundo e as ramagens das araucárias, das alfarrobeiras, dos encefalartos do jardim. Na piscina da casa, nas suas varandas generosas, ou na Biblioteca a que me referi acima (conspícua, aconchegante, ampla), José Saramago soube criar uma teia imensa de vozes e de amizades, de que dá conta nos diários. Lanzarote, com o seu cenário exótico de cinzas e piroclastos, com a secura do seu corpo velho (onde apenas os catos e as balsamíferas de eufórbio suportam ser plantas), com a sua costa acidentada e de fortes contrastes cromáticos, tornou-se para as visitas de Saramago um motivo extra para regressarem. O escritor português gostava, de resto, de as receber na sua casa. Mais ainda se portugueses fossem.

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Maria Alzira Seixo chegou hoje, vem passar uns dias connosco. De cada vez que vou ao aeroporto esperar um amigo português tenho a curiosa impressão de estar a recebê-lo no próprio limiar da casa, como se toda a ilha de Lanzarote fosse minha propriedade, e não apenas estes dois mil e poucos metros empoleirados no alto da encosta que desce de Tías até Puerto del Carmen… Mais curioso é o sentimento de responsabilidade que me leva a desejar que o visitante só leve de cá boas recordações, isto é, que, dia e noite, o tempo, o céu, o mar e a paisagem tenham estado perfeitos, que o vento não tenho soprado demasiado, que nenhum turista distraído ou mal-educado tenha atirado uma lata de coca-cola ou um invólucro de cigarros vazio, que nenhum residente – canário, peninsular ou estrangeiro – tenha infringido o código não escrito que o manda comportar-se como exemplo de civismo quotidiano, que para isso, acho eu, é que temos o privilégio sem preço de viver neste lugar.

(14 de setembro, Cadernos de Lanzarote III)

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Que Lanzarote me haja parecido um paraíso é assunto discutível. A minha afilhada sorria, se e quando eu o afirmava categórico, chapinhando nas águas quentes da praia de Famara com a alegria e os planos de um garoto. Existe na ilha e no arquipélago uma dureza de que os forasteiros mal se dão conta. Há três anos lia e corrigia o manuscrito de O Moscardo e Outras Histórias, escrevia nessa paragem, diante uma lua cheia magnífica, as duas narrativas que fechariam o livro («José, Pilar» e «Famara»). A varanda noturna dava-me a impressão de que entre os vizinhos (em cujas garagens abertas se acendiam churrascos e se brindava de cerveja na mão) existia ainda uma unidade ancestral, perdida nas nossas cidades e aldeias. Os garotos corriam e jogavam à bola descalços, algazarrando de um modo que acordou a minha própria infância. Era como assistir ao passado em direto, como ter regressado a um aconchego inesperado, como ter ali à mão de semear o sossego, a jovialidade, a leveza de que se precisa para viver bem e escrever melhor.

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Casa_Biblioteca

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Mas a Catarina advertiu-me que o dia a dia não é fácil. Falta tudo aqui: água, carne e verduras, comodidades que noutras partes são banais. E o clima é duro, por vezes insuportável. Falou-me da calima, essa praga do deserto de que outrossim Saramago dá nota.

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Lanzarote não é sempre o paraíso. Ontem amanhecemos com o céu tapado pela calima, um ar espesso e soturno que transporta para aqui, por cima de cem quilómetros de oceano a poeira do Sara, e nos põe à beira da sufocação.

(25 de março, Cadernos de Lanzarote III)

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O que comove na Lanzarote de Saramago é o sentido de que uma terra inóspita e desconhecida possa ser a nossa casa. Exilado de Portugal, do Portugal cavaquista (é bom não esquecer), o escritor encontrou a sul, a mil e quinhentos quilómetros de distância o seu refúgio, o seu espaço, o seu tempo. Em Lanzarote viveu os 17 anos finais da vida, aí viu-o mundo o viu ressurgir, do chão, da cinza, colecionando pedras e miniaturas de cavalos, escrevendo alguns dos seus romances mais conspícuos. “Lanzarote não é minha terra, mas é terra minha”, escreveu. E talvez por isso também Lanzarote vê José Saramago como um dos filhos distintos e dele se orgulha.

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Quando os meus olhos, atónitos e maravilhados, viram pela primeira vez Timanfaya, quando percorreram e acariciaram o perfil das suas crateras e a paz quase angustiante do seu Vale da Tranquilidade, quando as minhas mãos tocaram a aspereza da lava petrificada, quando das alturas da Montanha Rajada pude perceber o esforço demente dos fogos subterrâneos do globo como se eu próprio os tivesse acendido para com eles romper e dilacerar a atormentada pele da terra, quando tudo isto vi, quando tudo isto senti, achei que deveria agradecer à sorte, ao acaso, à ventura, a esse não sei quê, não sei quem, a essa espécie de predestinação que vai conduzindo os nossos passos, o privilégio de ter contemplado na minha vida, não uma, mas duas vezes, a beleza absoluta.

(28 de abril, O Último Caderno de Lanzarote)

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É este o Saramago que idolatro. O homem que se serve do seu formidável talento para compor poesia com palavras cirúrgicas. Tal como a ilha que o acolheu, também o escritor português nos conduz por caminhos acidentados para nos desafiar a outra vida, a outro destino, a outra beleza que não mirra com a idade e antes com ela revigora. Em lugar nenhum podia Saramago ter cicatrizado tão profundamente a sua dor de homem desterrado. Nenhuma terra podia ter recebido filho mais grato e fecundo. Mãe e filho de um acaso. E ainda bem.

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Logótipo Oficial 2024

Eugénio e a Foz

Foto de arquivo pessoal
. Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade.

Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas partes do Porto que o final do verão torna imprescindíveis, luminosas e enxutas como enxutos, luminosos e imprescindíveis são todos os poemas do autor de Os Sulcos da Sede.

Os jardins, o cheiro das algas e da água, a pedra branca e ardente de alguns antigos edifícios, o corpo generoso das árvores (em cuja sombra nascem estátuas de bronze e casais jovens perdidos de amor), o burilar da luz no vidro alto dos prédios ou nos rochedos húmidos em frente às esplanadas, o azul do horizonte e os navios ao longe cosendo horizontalmente o oceano e o céu lembram estrofes inteiras de Eugénio:

«Um dia chega / de extrema doçura: / tudo arde. // Arde a luz / nos vidros da ternura. // As aves, / no branco / labirinto da cal. // As palavras ardem, / a púrpura das naves. / O vento, // onde tenho casa / à beira do outono. // O limoeiro, as colinas. // Tudo arde / na extrema e lenta / doçura da tarde.»

Há muito que a Foz me fascina. Para ser preciso, desde que a descobri nos tempos de caloiro na Faculdade de Letras, desde que nela e por ela aprendi (seguindo em direção ao Parque da Cidade, a Serralves, ao Campo Alegre, ou então à Ribeira, à Sé, a S. Bento) a calcular a distância entre as diversas camadas temporais do Porto e a por elas calcorrear a literatura dos poetas e romancistas que a têm como ponto de chegada, ou de partida. Pisar o chão da Foz é gostar da escrita de António Nobre e de Raul Brandão, talvez também da de Manuel António Pina e da de Rui Lage. Cirandar pelo arvoredo do Jardim Botânico é reler Rúben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen. Apearmo-nos no Largo Amor de Perdição, junto aos clérigos, torna obrigatória a lembrança da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. E nos últimos anos já não consigo descer de Miragaia à Alfândega sem rememorar, por exemplo, Intermezzi, Op. 25 de Manuel de Freitas. De todos os cantos da Invicta, da Foz sobretudo (volto a ela), chega o eco nada distante das praias de Matosinhos e de Vila do Conde, o eco demorado dos poemas de Ruy Belo. Ou a serenidade da poesia de Albano Martins, vinda da outra margem do rio.

Mas é aqui, neste pedaço da costa, que a poesia mais se acende, em especial nesta altura do ano, iluminada pelo génio de composições como esta de O Sal da Língua:

«No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos / cantar com a chuva. / A criança voltou. Corre no vento.»

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Foto do jornal Público
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Agora as crianças correm de outro modo, montando perigosas bicicletas atrevidas ou serpenteando turistas com trotinetes, segurando às vezes o venenoso telemóvel que as desliga da realidade. Mas a Foz é delas, ainda. Delas e do vento. Dos salpicos de azul por entre metrosíderos e figueiras. Delas e dos muros amarelos que ladeiam o alcatrão. Delas e das gaivotas que poisam sobre os curiosos candeeiros em forma de tridente. Delas e do macio aroma da relva cortada (enleando-se no cheiro do pó e no cheiro a iodo do mar). Delas e da cor indecifravelmente bela das varandas tocadas pelo rútilo da luz, digo, do sol doirando o mar.

Também deste brilho (desta exultação) dá conta Eugénio, no poema «Mar de Setembro», do livro homónimo:

«Tudo era claro: / céu, lábios, areias. / O mar estava perto, / fremente de espumas. / Corpos ou ondas: / iam, vinham, iam, / dóceis, leves – só / ritmo e brancura. / Felizes, cantam; / serenos, dormem; / despertos, amam, / exaltam o silêncio. / Tudo era claro, / jovem, alado. / O mar estava perto. / Puríssimo. Doirado.»

Junto à estátua de Camões, o mar ainda sedutor de entre agosto e setembro sopra-me o seguinte pensamento: que bom que seria se estes e outros poemas de Eugénio de Andrade pudessem nascer dos canteiros floridos da Foz, ocupando – quem sabe em bronze ou pedra – o lugar sujo dos cartazes propagandísticos e publicitários que tanto a enfeiam. Não digo que se ponha de pé uma estátua ao poeta maior deste canto da cidade (tenho a certeza de que Eugénio havia de repudiá-lo). Contudo, seria um ato de justiça que ele fosse lembrado de uma ou de outra maneira. E a justiça, ainda que tantas vezes tarda, faz-nos bem. Eugénio merece-a.

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Tocata e fuga

Foto de arquivo pessoal (2019)

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Daqui avista-se mar e rio.

O mar e as formações rochosas que descem do paredão até à linha dos seixos e à espuma. Se por elas saltitamos, vemos charcos salgados e pequenos tufos de funcho-do-mar (resistindo a tudo, semelhantes a borracha), e muitas vezes o pôr do sol. Em cima, no parquezinho onde o verde dos chorões se ilumina todo o ano, perfilam-se as autocaravanas dos turistas estrangeiros, automóveis com casais de meia idade em silêncio, às vezes um ou outro solitário cismando ou o cano de uma objetiva sobre um tripé. Em baixo, no abismo do grito das gaivotas, o eco da rebentação, o chiar da areia quando as ondas recuam, a linha da água encapelando-se, embatendo nos rochedos, esbranquiçada, mansa e violenta, até ao ponto de focagem em que o céu, as nuvens e o sol nela se fundem.

Mas também o rio e a cidade, também esta neblina que agora se ergue da praia e torna mais belos, quase feéricos, os pontos de luz ao longe, nos postes elétricos, nas janelas banhadas pela claridade azul dourada do fim de tarde, essa cortina de vapor que nos confunde as formas e as cores e se entranha na roupa. O rio que é decerto não mais do que um rodapé sobre o qual os nossos olhos distantes principiam a derivar da realidade, a fantasiar, a narrar o mesmo sonho de sempre («Um dia hei de aqui viver!»). A cidade que tão bem se conhece, mas que nos parece outra, tranquila assim, adormecida, silenciosa da Foz à Ribeira, da Ponte D. Luís ao farol e à pérgula, ao terminal de cruzeiros, à refinaria e às praias de Leça, ao fundo, além, na penumbra já.

Fujo.

Os meus sábados são (por esta altura da existência) lugares. Em cada um deles coso e descoso e volto a coser uma certa pele vadia que me acompanha desde criança. Gosto de me perder nas paisagens, de me esquecer nelas, de me redescobrir vivo no silêncio e nas coisas que toco com mãos livres e ávidas.

Como Bach, como Pessoa, como van Gogh ou Sorolla (que comparação esta!), componho, escrevo e retrato em simultâneo. E compondo, escrevendo, retratando (verdade ou fantasia, não importa), sinto-me aconchegado a outro eu que neste espaço e neste tempo deseja permanecer (um dia) para compor, escrever e retratar mais dentro, mais profundamente, mais em paz consigo mesmo, feliz de se juntar à maresia, ao areal, ao frio, às silhuetas que aqui (ao crepúsculo) se multiplicam e renascem e hão vir muitas vezes para matar a morte que lentamente os mata, como a mim a morte me mata sem pressa. É algo como uma concha mental e cardíaca. Um dia hei de aqui viver!

Fujo, portanto.

Os meus sábados servem para caminhar pela costa, para me deliciar com plantas e aves a que raros prestam atenção, para criar poemas que ninguém lê, para fotografar os avanços do oceano e da velhice na minha vida.

Por muito que me esforce, não consigo transferir para as palavras esse maravilhamento. Seria prudente, como Caeiro, ficar-me pelo sentir. O amor que me permite disparar o flash é à prova de grandes discursos. O mar e o rio, as ondas e a cidade, a neblina e o frio que se levantam deste sábado, neste miradouro, são talvez um prémio, a recompensa de dias difíceis que me pedem mais do que me posso dar.

Talvez seja algo que nos acontece a todos: perdemos aos poucos o controlo do quem somos e do que fazemos. Talvez nos sobre esta nesga de ilusão, este clarão que se acende quando o dia se apaga e o lusco-fusco transforma tudo numa enorme presença cósmica. Talvez este banco de pedra, onde me sento, seja aquele umbigo do mundo a que chamavam na Antiguidade «ônfalo» e punham dentro de uma gruta habitada por uma sibila.  Talvez, como eu, milhões de humanos precisem de fugir de si uma vez por semana para de novo se reconhecerem na mais ampla e formidável escuridão.

Daqui avista-se o mar e o rio. O que quer que eles signifiquem.

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O medo da morte e outros medos

Anette Ohlendorf
Fotografia de Anette Ohlendorf
 

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As salas de espera nos hospitais são lugares incríveis, desconfortáveis, ruidosos, atarracados, repletos de pessoas numeradas, numerificadas, anónimas, cheias de velhice precoce ou consumada, com compressas e ligaduras, deitadas em macas ou presas a cadeiras de rodas, babando-se ou resmungando, ansiando pela chamada do intercomunicador, pedindo outra vez para ir à casa de banho, manejando o telemóvel horroroso (que não para de tocar e toca altíssimo), berrando pela filha que saiu do campo de vista ou contra a mãe que fez chichi pelas pernas abaixo e obriga agora à intervenção de uma funcionária de bata azul e muitíssimo mau-humor.

Chega-se muito antes da hora marcada para a consulta, procura-se uma cadeira plástica livre, limpa, menos retorcida se possível, senta-se nela a angústia toda, devagar, muito devagar se possível, para que a paciência esgote aos bochechos e não de uma vez só, o diabo leve para longe uma crise de pânico, e então, sim, tem-se uma visão claríssima da nossa condição.

O cavalheiro que não deixou de me perseguir com o olhar desde que cheguei é, literalmente falando, um velho conhecido. Cruzámo-nos num corredor da Imagiologia em junho, na Imunohemoterapia em julho, num WC em agosto. Podia dizer que o mundo é pequeno, mas a expressão parece-me duplamente redundante, porque o mundo é mesmo pequeno, para mais dentro de um hospital, e o mundo dos doentes é menor do que o mundo pequeno das outras pessoas, é um mundo asfixiante, uma casca de noz!

Na fila da frente, há uma mulher de lenço na cabeça. É um lenço bonito, elegante, feito de um rosa macio, nacarado, de onde brota uma esperança que me comove. Podia ser verde, ou azul, ou violeta, ou salmão. A mulher tem um rosto fino, não sei dizer se jovem ainda ou já não, mas belo, muito belo, atraente. Gosto de me distrair descrevendo-lhe os lábios, as pestanas, o rubor que pinta as suas faces e contrasta com os olhos  amadurecidas pela surpresa.

Quase sempre trago um livro ou o iPad. Às vezes rabisco um apontamento e faço de conta que não pertenço às estatísticas, que sou um intruso, que não venho ouvir notícias duras, que os ponteiros funcionam de maneira diferente para mim. Chego a esquecer-me das dores nas costas, e da espécie de enxaqueca que se vai costurando na minha cabeça, e da fome, e da sede, do maldito cigarro que alguém decidiu fumar além, ali mesmo, para lá da curta porta que os sensores mantêm sempre aberta e sempre a fechar-se.

Durante a espera há tempo para tudo.

Às vezes atrevo-me a olhar para as pessoas de frente. Explico-me, a observá-las sem piedade, com ousadia, fundo, perscrutando-as até aos ossos. Deve ser uma prática criminosa, porque às duas por três me arrependo, me sinto vexado, me encho de remorsos e de culpa. Sinto-me então ainda mais cansado e mais triste. É como se outra pessoa tivesse ocupado o lugar que deixei vazio e essa pessoa fosse eu a olhar-me ao espelho sem me reconhecer.

Será que na sala há outros monstros como eu? Em que pensará toda esta gente? O que sentirá? Que medo a fará pregar-se ao chão e não agir com ímpetos de motim?

Regresso então ao ancião conhecido, que me segue sempre com um misto de carinho e de espanto («O que trará um rapaz tão novo a este lugar tão tenebroso?», «É o que eu digo, elas vêm cada vez mais cedo!», «Se calhar, é um cancro.», «Sei de miúdos cada vez mais novos a morrer assim…»). Percebo que me quer o nome, a idade, a confirmação da maleita. Adivinho-lhe os pensamentos, apetece explicar que não sou assim tão novo, que não tenho (segundo o apurado até à data) um mal tão grande, que isto se vai resolver, que há na vida complicações inesperadas. Percebo que talvez gostasse de me falar da sua própria enfermidade, dos filhos, dos netos, especialmente, quem sabe, daquela que é enfermeira em Londres e o orgulho da família («Sabe você que tenho uma netinha, pouco mais nova será que o senhor: foi trabalhar há coisa de um ano, ano e meio, para Inglaterra. É uma miúda do dianho. Foi sem medo, ganha muito bem!»).

Mas nunca trocámos uma palavra.

Porque me divido agora com a senhora do lenço na cabeça. Tão bonita, tão triste, tão saturada da vinda a este e a outros banquetes semelhantes, tão só («Descobri há meses um nódulo no peito e foi o começo», «Já uma irmã minha morreu por causa do cancro da mama», «O que custou mais foi a quimioterapia. Nessa altura, fiquei com a boquinha toda em ferida.», «Agora, se Deus quiser, isto vai passar…»). Não descortino um modo de iniciar com ela uma conversa. Nem valerá a pena. Não suporto tamanha tristeza. Não saberia contar-lhe algo engraçado, tragicómico, apropriado à situação («Olhe, estou aqui sem saber bem como. Foi como um macaco ter caído de um galho. Descobri tudo por acaso…», «A vida prega-nos rasteiras inacreditáveis. Fui a uma consulta, supondo que me raspava em cinco minutos, e fiquei internado onze dias»). As desgraças cansam, maceram, desgraçam-nos.

Nunca faço nada de relevante. Não consigo concentrar-me.

Sinto que aqui cheira a medo. Na verdade, a diferentes tipos de medo: a medo de que a espera se prolongue interminavelmente; a medo de más notícias; a medo de que a filha subitamente desaparecida não volte para a nossa beira e um bando de estranhos nos capturem e encaminhem para qualquer lado incógnito, incompreensível, irreversível, infernal; a medo de que a nossa mãe demente volte a protagonizar um escândalo na sala (onde já se viu, fazer chichi pelas pernas abaixo?) e de que a funcionária terrível, carrancudíssima, nos passe uma descompostura monumental; a medo de que na sanita faltem o papel e a higiene e de que, nesse preciso instante (em que intestinos e bexiga atingem o limite), soe o nosso nome e a indicação do consultório no altifalante. A medo decerto de sermos afinal tão frágeis como acreditamos que somos; de que se repita uma epistaxe, de que se solte um flato, de que em desespero de causa se diga um palavrão. A medo da velhice. De ficarmos nessa ou naquela maca com algália e saco repleto de urina de lado; a medo de que as palavras sejam a partir de certa altura apenas chocalhos mentais, átomos a bater contras as paredes da cabeça, ideias confusas, morte.

Normalmente, tudo termina quando nos levantamos e nos dirigimos para certa porta. Depois, alguém de bata branca, voz mansa e olhos risonhos apazigua todos os pavores. Não sei como se passará com o velhote que me espia, nem com a senhora de lenço na cabeça que eu espiei. Julgo que é só uma forma de ver as coisas, ou também isso será uma feição do medo: medo de não se saber nada, de não se ter certeza sequer de que à nossa volta outras pessoas existam.

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Os professores são imprescindíveis. Ponto

Marco Tagliarino
Fotografia de Marco Tagliarino

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Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social (quando escrevo «classe social», refiro-me evidentemente a um grupo de pessoas suficientemente próximas umas das outras pelo que são e pelo que fazem juntas, pelo que ganham e pelo que perdem diariamente sendo e fazendo, pelo que sofrem e pelo que ambicionam ganhando e perdendo todos os dias, sendo e fazendo), exceto talvez aquela a que pertenço.

Sou professor.

Com muito orgulho (lá no fundo), com muitas ganas (pelo menos nos dias bons), com talento (suponho), com suficiente destreza e atrevimento (sim) para continuar a sê-lo apesar de tudo.

Sou professor há 20 anos. Contratado, de Português, do ensino básico e secundário. Com experiência alargada ao ensino superior (não gostei), a alunos estrangeiros (adorei), sem esquecer a idosos que nunca, antes de mim, tinham tido aulas formais na sua língua materna (a melhor de todas as coisas que me aconteceram no espaço da sala de aulas). Um entre tantos que se vão desiludindo, a quem uma certa centelha de alegria se vai apagando aos poucos, por não suportar o país imbecil que os trata mal, entenda-se, que os destrata de alto a baixo; entenda-se, dos gabinetes do Ministério às conversas de rua.

Acima, atrás, há pouco, sublinhei o apesar de tudo.

Porque ser professor em Portugal implica uma capacidade quase estoica de suportar dificuldades que começam e acabam no desaforo dos meninos e pais malcriados (eventualmente violentos e desentendidos com a escola) e passam pela permanente sensação de instabilidade (uma teia legislativa imparável, desenhos curriculares sucessivamente reconstruídos, regras de concursos alteradas), sem esquecer a afronta salarial e o descaramento dos governos no tocante ao (des)congelamento da carreira e sistema de avaliação.

Esqueci, não propositadamente, o facto de, para trabalharem, muitos professores terem de se deslocar de casa centenas de quilómetros. Pagando rendas exorbitantes. Pagando portagens. Pagando combustíveis. Sem ajudas de custo. Sem proteção à habitação de espécie alguma (não será de espantar que no Algarve e em Lisboa se encontrem professores a viver em parques de campismo). Sem o reconhecimento, sequer, de uma sociedade que se habituou a queixar-se dos privilégios dos políticos, magistrados e administradores de empresas estatais e que não vê motivo para estender aqui, nesta questão concreta, uma migalha aos professores afastados da sua família, por ser o seu trabalho e, entenda-se, a sua obrigação!

Estamos mal. Os professores são mestres, são docentes. Entenda-se, ensinam.

Quanto a mim, que amei os meus professores (não serei hipócrita a ponto de omitir que detestei alguns), que lhes reconheci mérito e génio, que lhes agradeço as imensas lições, sabedoria e competências que me proporcionaram, que lhe imito ainda a fleuma e o fair-play, o sentido de humor e o sentido de responsabilidade, a dedicação e a exigência, só posso afirmar que são a melhor classe de pessoas com que tive o privilégio de conviver.

Acrescento a esse grupo fabuloso de profissionais talvez os enfermeiros e cuidadores de saúde (nos lares em especial), alguns médicos, um ou dois padres, um ou dois mecânicos, um ou dois pasteleiros, talvez meia dúzia de livreiros e poucos mais.

Não se percebe que profissionais dedicados, quase em regime de abnegação, sejam olhados como parasitas, ingratos, incompetentes, preguiçosos, estúpidos, incapazes de impor ordem e disciplina, queixinhas, etc.

Estamos mal. Porque todos os apodos que usei no parágrafo anteriores são os que se usam diariamente para acusar a classe dos professores. Pior, para dividir os professores entre os bons e excelentes (somente uma parte pequena) e os maus, malucos, horríveis, malcheirosos, ignorantes, peneirentos, maníacos, exigentíssimos, insuportáveis e por aí fora.

Não me julgo capaz de medir a importância de nenhuma classe social, insisto. É provavelmente um exercício para um comentador de televisão, não para quem tem ainda este fim de semana uma pilha de testes de diagnóstico (minto, de avaliação formativa inicial, para corrigir) e as aulas da próxima semana para preparar.

Contudo, tenho este desabafo a bailar na boca: não me estou a ver a fazer outra coisa.

Gosto da sensação de abrir a porta da sala de aula e saudar os meus alunos. Gosto de levantar as cortinas e deixar a luz entrar e de dizer algo belo e sensível. Gosto de os ouvir confessar algo surpreendente, algo impensável como uma ida a Serralves que valeu mesmo a pena, um filme afinal muito bom que eu lhes sugerira semanas antes, um livro fantástico de Gabriel García Márquez (muito melhor que os de Nicholas Sparks, John Green ou Sidney Sheldon)…

Ser professor é exatamente a medida da diferença.

Qualquer coisa como aquela peça minúscula, quase indetetável entre rodas dentadas e alavancas, que fará girar a vida noutra direção, que encaminhará um improvável adolescente rebelde para um curso de engenharia ou para uma faculdade de arquitetura ou para um instituto de medicina. Ou que, não os encaminhando para tão longe, os faz compreender uma vocação indescoberta e os conduz para o outro lado do mundo, atrás de um sonho novo, seja a bordo de um avião ou de um navio, seja em terra a defender animais e florestas, a fotografar montanhas ou a grafitar escombros e miséria.

Neste dia 5 de outubro, quero somente dizer OBRIGADO àqueles e àquelas que me tornaram no que sou: aos meus pais (primeiríssimos professores) e aos meus professores (segundos pais) a quem devo tanto. E com «tanto» quero dizer, sem tirar nem pôr, tudo!

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Quando os dias são um só dia interminável

Fotografia de MWHUNT

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Por fim, o cansaço faz-me dormir. Precisei de cinco dias para o conseguir. Jantei e lavei os dentes. A penumbra desenha-se no horizonte. No podcast, as palavras do locutor são exatas, informadas e tranquilizadoras:

«… a começar Poema dos Átomos; a música de Armand Amar, com as palavras de  Jalaluddin Rumi, poeta sufi do século XIII; na interpretação, as vozes do iraniano Salar Aghili e do turco Haroun Teboul…».

Aos poucos os gemidos do ancião na cama ao lado deixam de ouvir-se. Deixa de ouvir-se no corredor o ranger metálico do carrinho da enfermagem. Deixa de ouvir-se a água que goteja imparável na torneira da casa de banho. Deixa de ouvir-se o bip-bip do aparelho que monitoriza a frequência cardíaca. Deixam de ouvir-se as vozes que ordenam e as que acalentam, as que suplicam e as que insultam, as que explicam e as que não compreendem, as que berram e as que ciciam, as que possuem ciência e as que têm sentimento.

Na minha cabeça, presa por auscultadores a outro tempo e a outro espaço, as vozes que cantam numa língua ininteligível fazem-me atravessar paisagens de deserto e de água. Aos poucos confundo sonho e realidade e sinto-me cair dentro de mim como um fardo num poço, como Daniel na cova dos leões, como Brás Cubas no seu devaneio mortal.

Nunca li direito o Ser e Tempo de Heidegger. Envergonho-me. Se o tivesse feito, poderia agora, neste limbo existencial, entender melhor o que significa “existir” e o que significa “pertencer momentaneamente” a um mundo a que pertenceremos sempre “momentaneamente”, dure o nosso tempo o que durar.

Vogo. O sono acolhe-me como o vazio do espaço acolhe uma rocha à deriva. Sem uma palavra, sem uma reação química, sem um suspiro, governando-me apenas por leis físicas. O poema de Rumi e a música de Amar e as vozes dos dois cantores árabes são agora um rasto na minha memória. Durmo.

Desperto uma hora depois, sacudido pela mão diligente que me há de injetar tinzaparina sódica. Os olhos erguem-se num esforço tremendo, pesam-me. Mais que eles pesa a cabeça. Sou um prego. No pontinho em que a agulha perfurou a pele fica um leve ardor. Com alguma sorte há de ficar também, de mistura, uma nódoa negra e um papo.

Oiço de novo as vozes e os nomes a que me fui acostumando nos derradeiros dias: Leopoldo, Virgílio, Júlio, Clementina, David, Eugénia, Rosa. Nomes ditos num “tu” que me desbarata, num “tu” próprio para anciãos meninos de 80 anos, num “tu” referente a corpos cansados e teimosos que insistem em retirar de si a algália e o cateter e a sinistra ventosa do oxigénio.

Sou um prego, uma cavilha, uma cabeça macrocefálica, de chumbo, que se segura sem tino. Escureceu entretanto. Penso em dormir outra vez, mas receio a sacudidela que virá (mais cedo ou mais tarde) medir-me as tensões, avaliar-me a temperatura, picar-me o dedo para ver como se comporta a glicemia, trazer-me o meio Triticum para descansar bem…

Ao invés, caminho até à sala de estar no coração do piso. As ironias entrelaçam-se. Cheira a café que não posso beber, cheira a cigarros que não posso fumar, cheira a tílias que não posso respirar. O janelão, sujo e meio baço, deixa contemplar a noite, o frenesim dos táxis, a procissão de faróis entrando e saindo e ladeando o Centro Comercial. De cada lado do vidro abre-se dez centímetros de liberdade; um aloquete impede-nos de colocar fora dele mais do que o nariz e talvez um olho; somente uma migalha de evasão, de paz, de poesia.

«Aqui os dias são todos iguais, um só, sete ou cem.»

Escrevo a frase no caderno que pedi para trazerem de casa, mas rasuro-a logo de seguida com raiva. Nem sequer me parece bonita, nem sequer genuína, nem sequer minha. Parece-me ruído, isso sim, chocalhar de pensamentos e de coração, lamechice.

Por fim, o cansaço é um preâmbulo de loucura.

Nunca na minha vida me senti tão só, tão inútil, tão impotente. Talvez regresse ao poema de Rumi e à música de Armand Amar, às vozes luminosas que não decifro de Aghili e Teboul. Talvez me atire ao Alprazolam escondido, interdito, na gaveta. Vogo. O sono arremessa-me no vazio como um asteroide pela noite sideral, do nada e atrás do nada.

Um dia emendar-me-ei quem sabe com Heidegger. Hoje, porém, ser e tempo não passam de palavras plúmbeas e espúrias, desastrosas (Leopoldo, Virgílio, Júlio, Clementina, David, Eugénia, Rosa), envoltas em cheiro de fezes e de urina, a que ninguém, nem o próprio Deus, me ensinaria a voltar.

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Ódio à mediocridade

Marco Gentini
Fotografia de Marco Gentini

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«Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.»
Pedro-Daniel Névio, Escoriações

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A casa do escritor ficava no subúrbio norte, numa área sossegada, a seguir a campos, entre curtos eucaliptais. Lembro-me do cheiro a limpo, do perfume da alfazema, da frescura da mobília, do odor dos sofás de cabedal. Lembro-me da porta aberta do escritório, das estantes escorrendo das paredes, escondendo-as, de um ou outro quadro de Kandinsky no intervalo dos livros, do adágio de Mozart, do violino de Itzhak Perlman, da meia sombra e da meia luz tapando o vaso das orquídeas e alumiando o formidável persa azul aos pés, no tapete, do ar muito quieto do seu corpo quando lhe anunciaram a minha visita.

O escritor concedeu-me uma entrevista, autografou-me sete dos seus livros, ofereceu-me um volume de poesia em edição limitada, corrigiu nele um verso terrível, teimoso, com caneta de feltro, abraçou-me no fim.

«Cuidado com a mediocridade. Odeie-a.»

Era quase noite quando regressei à cidade, ao centro, às banais lentejoulas dos meus comparsas no círculo intelectual. Na madrugada seguinte vim para a varanda queimar papéis. Fi-lo sem arrependimento. Voltaria a fazê-lo na minha vida. Repeti-me a repreensão de Horácio, «Inutilia truncat», que hoje é a minha divisa.

O escritor, agora que o leio dobradamente, póstumo, sem peias, é um génio. Não engaja frases ou versos, fá-los encontrar-se com leveza e com verdade. Não lhes disfarça o vazio com efeitos de pirotecnia, enche-os com amor. Dele escasso se diz, nada se escreve, pouquissimamente se indagou nesta década seguinte à sua morte.

Penso muitas vezes nesse encontro, nessa tarde de outubro, nessa literária mediocridade absurda que ao redor de nós se levanta como um circo, como um cerco, repleta de aplausos lorpas, provincianos, reles, serôdios, babujados, amacacados, odiosos.

Tanta razão, escritor!

Vêm dizer-me «Fulano publicou», «Sicrana vai publicar» e é um tédio. Bocejo por vislumbre, lendo já de roldão, à laia de adivinho, tantas páginas repletas de mais do mesmo, da mesma retórica (retoricazinha, vá lá) balofa, oca, medíocre, que enche cada vez mais escaparates de livrarias e estantes de bibliotecas. Bocejo de pensar que aí vem mais do mesmo, da mesma merda ociosa que pulula nos cantinhos de jornal, com estrelas, panegíricos, recomendações de leitura…

Horrível.

Por cá a malta distrai-se, distrai, facínora. Distraiu, distraiu-se sempre. Não há que fazer. Prefere cantar teias de aranha a ver paisagens, embora espreite pela mesma janela. É uma questão de «escala do olhar» como escreveu Fiama. E em terra de cegos, já se sabe…

Hoje acordei com saudades dos dias em que amava a literatura como uma religião. Sim, escritor, odeio a mediocridade. Deve ser isso o que terei de ensinar a quem me lê. Talvez seja uma questão de apostolado. Talvez tenha de pregar no deserto ou aos peixes. Sublinhei a lápis grosso «Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.» E é exatamente assim.

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