Era ali que ficava a casa. Câmaras de vigilância sugavam a toda a volta dela os latidos da rua e os sussurros da bisbilhotice. Nada escapava ao cuidado do vendedor. A mulher tocou à campainha. Vinha de longe. Aquele homem foi-lhe recomendado. Tocou mais vezes. Teve de esperar.
Por fim, um gordo com porte bovino abriu-lhe o portão. De seguida fê-la entrar no seu gabinete, observou-a com interesse, achou de imediato na sua magreza um modo de a consolar.
‒ Minha filha, tu estás muito doente…
A mulher contou tudo, chorou. Todos os obstáculos do mundo pareciam ter-se abatido sobre ela em simultâneo, vinha de longe, alguém lhe dissera que ele a podia ajudar.
Depois foi a vez de o gordo discorrer. A doente escutou palavras complicadas, que a tornavam alvo de uma conspiração de maus-olhados, sortilégios, vilezas sem fim. O gordo explicou que seriam precisas paciência, força de vontade e, sobretudo, a sua ação mediadora. Não disse que o dinheiro tinha o poder de um antídoto. Disse que o poder das orações, das suas orações, junto com uma miscelânea de alecrim, incenso e terra de um cemitério conseguiriam curá-la.
‒ Entende ‒ disse ele num modo de advertência ‒ estas forças malignas são obra de um inimigo poderoso, de alguém que te deseja a morte!
A mulher, desfeita em lágrimas, aluída em cansaço e desilusão, não sabia bem o que entender, nem se a decisão de ter vindo havia sido realmente a melhor.
Desde o divórcio a sua sorte mudara. Mudara tanto que ainda não conseguira voltar a trabalhar e, por causa disso, já quase nada sabia dos amigos, que a evitavam por não lhe suportarem a melancolia atroz. A história atual resumia-se a uma luta contra a vontade de chorar e contra a falta de apetite, contra as cefaleias e contra a aversão provocada pela vida. Era pele e osso, um corpo vencido pelos nervos, pela nostalgia, pela astenia, pela insinuação tremenda do sono suicidário.
O gordo entalou os indicadores nas frontes da mulher e pôs-se a babujar palavras incompreensíveis. As pálpebras descerradas começaram a tremer, as palavras pareciam girar com os dedos num movimento de alarde, galgando as paredes, sumindo-se pelas frinchas como uma horda de demónios.
Depois, como acometido por choques elétricos, o principiou a estrebuchar, a soltar roncos temíveis, a barafustar consigo mesmo, como se se travasse uma batalha. O gordo sabia vender bem e com arte o seu espetáculo!
Exausta, com as frontes magoadas, a mulher queria só libertar-se, sair dali, daquilo, expulsar o maldito que a amarfanhava.
O gordo parecia agora sossegar, regressar a si. Pôs-se com as mãos juntas a orar. Por fim, persignou-se com uma lentidão teatral e olhou-a de novo com interesse untuoso. Era um vendedor. Tinha ali toda a uma gama de soluções abaixo do preço de mercado.
‒ Minha filha, precisamos de começar já, antes que o mal te engula!
Sem resistência, num torpor de carneiro sacrificial, a mulher doente limitou-se a dizer que sim.
«Todas as soluções se obtêm por caminhos tortuosos.» Não nos recordamos do autor desta frase.
Assim que o recontou, humedecendo bem os dedos para que as notas corressem mais facilmente entre o indicador e o polegar, a credora fez com elas um rolo, envolveu-as com um elástico e guardou-as no antiquíssimo baú enferrujado, com motivos orientais. Era aí que acumulava as poupanças, antes de as aprisionar no banco ou de as trocar por peças de ouro. Quando viesse a noite, bem embrulhado num velho xaile, tornaria o baú ao esconso onde deveria permanecer intocado, até que a credora o abrisse e desse ao seu conteúdo o melhor caminho.
Ela estava satisfeita. Uma dívida difícil resgatada é sempre um motivo para acender uma vela. Encheu a cafeteirazinha com água, pô-la nas brasas e espreitou as imagens esverdeadas que dançavam no vidro do anacrónico aparelho de televisão.
A tarde viera mais fria. Novembro costuma arrefecer os nossos contentamentos. Um bom café e um pouco de geleia no pão consolariam a esta hora o autor destas palavras.
Bateram à porta. A credora sentiu as pancadas como uma contrariedade. Calçou os velhos sapatos de homem, cuja pele cortara para lhe dar aspeto de chinelos, passou a mão pelas cãs e foi ver quem era.
Houve um murmúrio, altear de vozes, uma altercação.
– Só me faltava essa. Vai mas é trabalhar, seu vadio!
A credora descalçou os chinelões improvisados, colocou os pés na pedra da lareira e esperou. Daí a tempo quase nenhum, com a estremunhada expressão de quem abreviara criminosamente a sesta, o marido entrou na cozinha. Quis saber:
– Quem era?
– Um pantomineiro qualquer, a pedir para comer…
– Deste-lhe alguma coisa?
– Dava-lhe com o cabo do engaço se o tivesse à mão!
O marido esboçou o gesto de quem acabava de ter um arrepio. Saiu. A credora tinha os olhos de novo no ecrã esverdeado. Na novela desenhava-se uma cena importante. Um dos doutores, um macaco, descompunha a pobre secretária negligente, que lhe interrompera o avanço amoroso com a nova diretora dos recursos humanos.
O marido regressou. Trazia nos braços um curto feixe de lenha. Desviou a cafeteirazinha e deitou sobre as brasas três pequenas achas, formando com elas um tripé. Depois soprou sobre os carvões incandescentes e quando destes deflagrou uma labaredazinha recolocou a minúscula cafeteira na área do calor.
Novembro anunciava o inverno. A chama sabia bem. O marido colocou as mãos em concha sobre o lume e esfregou-as.
A cena da descompostura acabara. Agora na televisão esverdeada (por causa do cinescópio quase fundido) ouvia-se uma conversa anódina entre padre e pecadora. Depois principiou o quarto de hora dos anúncios.
A credora olhou a lareira e viu a chama generosa lambendo a lenha. Levou instintivamente ambas as mãos à cabeça, num movimento de fúria e viva indignação.
– O que estás tu a fazer, meu grande macaco? Ai, meu Deus, meu Deus! Tu julgas que este chamiço veio de graça para casa?
A credora pôs-se de cócoras e tentou puxar as ripas para impedir que se consumissem tão depressa. Mas o fogo, áscua gulosa, queimou-lhe os dedos. A credora silvou, repleta de cólera.
– Ouve-me bem, meu pantomineiro desgraçado: seja a última vez, ouviste? Seja a última vez que pões lenha no lume sem a minha autorização. Ouviste-me? Ouviste-me bem?
A tremer, a credora destapou a cafeteirazinha e atirou-lhe uma colher de má chicória para tingir a água. Quem pensava ele que era. Desperdiçar lenha àquela hora da tarde, quando a casa ainda estava tão morninha!
Ele não abriu a boca. Viu o baú oxidado em cima da cristaleira. Precisavam de enchê-lo de novo. Ela tinha razão. No poupar estava o ganho. Sentiu vergonha. Não sabia o motivo exato, mas, sim, sentia uma grande vergonha.
Depois de bater o portão com estrondo, fá-lo todos os dias à mesma hora, o homúnculo põe-se a abrir e a fechar a portinhola da caixa do correio (mesmo ao fim de semana, especialmente ao domingo); a seguir demora-se a escolher as melhores tabuinhas para cortar com a serra elétrica.
Dá-lhe um grande prazer multiplicar o ruído, por causa dos vizinhos. Por via dele, usa as máquinas tanto tempo quanto possível, repetindo o som do corte, a que se segue o zumbido da lixadeira, o som da plaina e, finalmente, o som do compressor para a limpeza do cimento. Trabalha num barracão improvisado, que cercou de malhasol e de uma serapilheira verde.
Adora trabalhar no patiozinho, com o seu barrete ridículo enfiado na cabeça e vir de quando em quando espiar a rua, porque se persuadiu de que o espiam.
As tabuinhas empilha-as num bidão de plástico. Ninguém lhe oferece grande coisa por elas, por isso também as não vende. Ocupa-se e pronto. Detesta os vizinhos e os vizinhos detestam-no. Mas pronto, é um artista!
Quando a mulher, farta dos seus ofícios facinorosos, solta um grito de ordem, o homúnculo para tudo, recolhe as tabuinhas e, quase choroso, vai ver o que se passa com ela.
– Desliga-me essa merda, seu maniáco!
Ele desliga. Deixa tudo limpinho e vazio. Recolhe a serapilheira verde, enrola a malhasol, guarda as máquinas, empurra o bidão e o compressor para o interior mofento da arrecadação, diz «Já vai, já vai», satisfeito com a sua quota-parte de ódio, feliz como um cachorrinho briguento, feio e inofensivo.
– Anda para dentro, seu maniáco!
Então, o homúnculo vai. Volta a abrir e a fechar com estrondo o portão da vivendazinha. Volta a abrir e a fechar a portinhola da caixa do correio. Está tão alegre consigo mesmo que, por instantes, se esquece de que na sua vida nada cabe de belo, sensível ou dignificante.
A mulher assoma a uma janela, exibindo um par de olhos coléricos, como quem faz um derradeiro aviso.
O homúnculo estuga o passo, sobe o curto lanço de escadas e sem um pio mais encafua-se debaixo da asa protetora. Silêncio total: nem pensar em falar alto, encarar ou desafiar a autoridade da casa! Só pensa nas suas tabuinhas empilhadas, polidas, envernizadas. É um artista. Ninguém oferece um tostão por elas ou por si. Mas pronto. A história da humanidade coleciona injustiças destas. O homúnculo já nem se importa.
Comentava-se muito e a meia voz este facto. «Esfrega-se com o bolbo (rodelas ou casca é que não se sabia) para repelir o olho gordo» dizia-se aqui, «Faz infusões para prevenir a gripe» argumentava-se da outra banda, «É uma desleixada e não toma banho» concordavam todos.
Por culpa deste odor, o ambiente na sala de reuniões e, mais ainda, no gabinete pessoal, era pesado e às vezes pestilento.
A santa sorria bastante. A gengiva e a dentuça viam-se bem. Tal com a verruga e o tufinho de três pelos que dela cresciam em arco, como um emaranhadozinho de espigas bravas. No tampo da sua secretária, dentro das gavetas, no interior da agenda, por todo o lado, havia folhas avulsas repletas de garatujos infantis. A santa parecia ouvir toda a gente e não escutar ninguém. Desenhava.
– O Senhor Jesus olha sempre por nós. Há de guiar-nos nesta e noutras decisões difíceis.
O Natal estava à porta. Cada vez que abria os braços, a santa fazia saltar uma presilha da manga do seu casaco de fazenda.
– Mas, presidente, tem de existir uma alternativa menos dolorosa!
– Não estou a ver qual, caro secretário. Poupa-se dinheiro assim e salva-se a face de toda a gente… Talvez seja essa a vontade de Nosso Senhor!
Vendo bem, o botão da manga do casaco estava partida. Por isso, aquela presilha irritante dançava, ofendendo a concentração dos vogais, que mal podiam suportar o cheiro de refogado entre as paredes da pequena sala de trabalho.
– Caramba, mas estamos em cima das Festas! Esta decisão vai ser mais impopular do que nunca. – observou o tesoureiro.
– Pois… Mas quanto mais tarde pior. Além disso, elas não vão propriamente de mãos a abanar!
Nessa noite, antes de adormecer e de sonhar de novo com os seus quinze filhos numa roda animada (a cantar com ela e a bater palmas e a agradecer a Deus a dádiva da vida), a santa considerou com regozijo que as funcionárias teriam uma boa indemnização.
O segredo é sorrir, sorrir sempre. E deixar que o Senhor Jesus decida por nós o que é melhor para nós. O caminho das nossas opções pode às vezes afigurar-se bem tortuoso!
Nessa noite, quando adormeceu e os sonhos a fizeram elevar-se um pouco deste mundo vil, a santa cheirava a cebola ainda.
Era tarde. Adiante de Lampedusa, o homem deixou de bater os remos. Não fazia a mínima ideia de para onde ir. Pôs-se a imaginar a profundidade do mar no ponto exato em que se encontrava. Pensou também que daí a horas todo o orbe se cobriria de estrelas e que, entre elas, se avistariam generosamente anos-luz de negrume e de solidão. As ilhas mais próximas estariam a uma distância imprecisa, como nos poemas fatais de Heliodoro. Ali era o centro, o princípio e o fim do mundo. Não era fácil.
O homem não sabia porque lhe acorriam tantos pensamentos e tão avulsos. Talvez no fundo de toda aquela água imensa jazesse ainda alguma falua egípcia ou algum birreme romano, com as suas ânforas intactas, com o seu vinho e o seu azeite, com o seu garum ibérico, com os seus óleos e essências fenícias. Ou quem sabe os restos fossilizados de um dos companheiros de Ulisses. Ou dalgum soldado da primeira, da segunda, da terceira guerras púnicas. Ou dalgum dos muitos inimigos de Napoleão e de Rommel e do general Montgomery. Tantos ossos ali sepultados!
O homem não via porque não crer na possibilidade de ali intersecionar, ao acaso, eras e nomes, memórias e sensações. O seu barquito tranquilizava-se no doce ondular da luz e da maré. A viagem trouxera-o sem destino. Apetecia-lhe, não sabia bem, voltar, continuar ou permanecer para sempre assim. Não era fácil.
Recolheu os remos e deitou-se. Aos poucos foi tomado pelo sono. Apenas uma ou outra ave cruzavam o azul, onde os seus olhos viam o agitar dos fosfenos. Acudiu-lhe que se sentiria assim Augusto antes das batalhas, embalado quem sabe nas galés imperiais pelo poema de Virgílio e pelas ondas traiçoeiras do Mare Nostrum. Suetónio aludiu à narcolepsia e à cobardia deste Otávio, antes das batalhas. O homem cedia ao cansaço. Pavorosas palavras teimavam fazer-se escutar na sua cabeça. Imperador ou não, ser-se humano faz-nos descer e subir nas mais perturbadoras ilusões. Por fim, o homem adormeceu.
A cabeça conduziu-o a uma terra cuja existência desconhecia. Tantos livros investigara, tantas viagens fizera, tantos relatos conseguira interiorizar que aquele podia muito bem ser um dos lugares fabricados pela razão e pelo sonho. Talvez o tivesse descrito Platão ou Heródoto. Ou Thomas More. Ou Orwell. Ou ninguém. Mais tarde, quando tentou recordar-se, não pôde descrevê-lo como desejava.
Havia um cais, pelo menos assim lhe pareceu o ajuntamento de embarcações coloridas e oscilantes, de mastros e cordames que rangiam quase sem se mexer. Uma grande escadaria levantava-se do mar e com ela nascia toda uma cidade até a um palácio retilíneo, em cujo propileu assentavam, lado a lado, uma estátua de Apolo e outra de Minerva. Não só a arquitetura lhe parecera antiga (helénica), como os habitantes da cidade, envergavam túnicas e se cumprimentavam erguendo a mão.
O homem admirou-se de aí não se sentir estrageiro. Com efeito, também ele trajava assim, também ele trazia às costas (preso por uma fíbula) um manto vermelho. Também ele ostentava na mão direita uma bracelete de ouro e calçava as mesmas sandálias com que os outros pisavam as mesmas lajes de mármore. O homem acreditou compreender a língua que aí se falava, mas quando quis reconstituir esse sonho não soube discernir qual língua era, se vetusta e morta, se a sua própria língua que os anacrónicos habitantes falavam com enorme desembaraço.
Do mesmo modo, não percebia como pôde caminhar entre as ruas amplas da cidade incógnita sem se perder. Ou como descortinou sobre certa porta esculpidos os números 3, 6 e 9 (e não, por exemplo, a versão romana III, VI e IX). Mesmo sem compreender o absurdo desse pormenor, viu-se a entrar e a demorar-se na prelação de um matemático sobre eles. Havia nas palavras daquele sábio uma teia de significações, de associações, de perfeitas combinações entre os três e respetivos múltiplos. Observou na sala três pequenas mesas alinhadas, seis estantes repletas e nove retratos na parede (reparou de imediato nos de Arquimedes, Copérnico e Einstein). Havia seis janelas, seccionadas tanto na vertical como na horizontal em três partes, perfazendo cada uma delas portanto nove vidros. Havia frescos, retratos, bustos alusivos às nove musas, às três graças, aos deuses olímpicos (seis pintados à direita, seis à esquerda). Ali zumbiam três computadores, onde seis alunos (aos pares) indagavam profundas cadeias de informação, indiferentes à palestra. Também ali nove velas ardiam em cada um dos três enormes candelabros que iluminavam o espaço. E viu um fresco enorme, onde os nove círculos do Inferno, as três cabeças de Cérbero e as seis cabeças de Cila se desenhavam com cores sombrias. Ao rememorar tudo isso, o homem sorriu, dando-se conta da profunda algaraviada mental que jamais poderia pôr em palavras. E reconheceu o orador. Era Nikola Tesla. O mundo podia ser representado por uma cabana infinita, onde os números 3, 6 e 9 atavam pontas geométricas, dentro das quais a vida se organizava infinitiva e infinitesimal. Mas nenhum lógica podia unir aquele inventor àquele lugar.
Aturdido pela mescla e pela quantidade de informação, o homem desejou pertencer a outro espaço. Sentiu a respiração faltar-lhe. Era como quando na universidade, antes do esgotamento, se deixava vencer por dúvidas e por questões sem resposta. Temia soçobrar dentro de si mesmo e de enlouquecer.
Não muito depois, sem transição, viu-se no vislumbre de pórfiro e de jaspe de uma praça.
Encimando outras portas, havia letras, símbolos, garatujos, legendas, cunhas hieroglíficas, frases lapidares, anotações, alienígenas, logótipos de marcas internacionais. Numa rua mais ampla abria-se o mercado. Aí vendia-se um pouco de tudo: impressionantes granizados de uma mole de cores e de sabores, livros, quinquilharia, material informático de primeiríssima qualidade (maravilhosamente espelhado, delicado e plastificado), pizas, fruta, artigos de couro, peixe ao retalho, toda a sorte de pedras semipreciosas, perfumes, discos de vinil, cartazes antigos e moedas de todas as proveniências. O mercado, ordenado na sua desordenada aglutinação de elementos, eternizava-se. Era uma babel. O homem sentiu náuseas.
Percebia-se que a humanidade, na densa pegada sobre o tempo, é ácida. Aquele lugar possuía algo de caravançarai e de europeu, de fascinante e de repulsivo. Até a melhor arte é assim, visto ser artificial e resultado de um pensamento. Ao contrário da natureza, que é perfeita e holística, a criação humana é fragmentária e imperfeita, absurda e derivativa.
O homem flainou um pouco até se deter em frente de uma citarra enorme, em exposição numa espécie de tenda bélica, entre punhais, bestas, fundas, revólveres, lêiseres e sílexes do início do Antropocénio. O toque da lâmina, macio e gélido, era a face da morte. Talvez nela residissem ainda microscópicas presenças daqueles que por ela perderam a respiração. Segurava nas mãos não apenas um símbolo, mas uma concreta demonstração da perversa inteligência da humanidade. Mais uma vez, uma espécie de enjoo deu sinal de si.
Além disso, uma impressão de frio (cada vez mais indisfarçável), foi tomando conta de si. Era como se uma película húmida e desagradável o cobrisse da cabeça das aos pés. Não conseguia compreender completamente esta mudança, tanto mais que ali, naquela estranhíssima cidade o sol parecia irradiar imutável e velho, como um deus lá no alto.
Para toda a parte, de toda a parte, iam e vinham rostos. Rostos que o olhavam, que o ignoravam, que lhe provocavam impressões desencontradas, rostos de mercadores e de solitários, rostos de velhos e de imberbes, rostos de mulheres e de servos, rostos impressivos e expressivos, todos eles belos e serenos como personagens de um filme de Bergman.
O homem desceu. Havia agora um edifício em forma de zigurate, à base do qual os seus pés o levavam. Não era já uma bela construção, mas uma difícil passagem pela miséria de homens e mulheres que se acantonavam nas varandas e terraços: proscritos, ladrões, leprosos, prostitutas, refugiados, órfãos, mendigos, idosos lamurientos, mutilados, desdentados, descabelados, fétidos, gente repleta de fealdade, chagas e abomináveis traços de loucura. Era um gueto, um depósito de lixo humano, através do qual o caminho se mostrava perigoso e obsceno. Lanços de escadas abruptos faziam-no ter medo de cair. Era preciso olhar, quando os olhos não queriam ver. Era preciso pensar, quando a cabeça queria esquecer. Era vertiginoso e sujo. O homem chegou ao fundo.
Na exata aresta em que findava o último degrau de granito, principiava um chão paupérrimo de terra batida, desidratado e empoeirado, infeto. Começava aí um cemitério de tendas, que se multiplicavam a perder de vista pelo serpentar do leito de um rio seco. Os seus passos tornaram-se inseguros. Por mais que se esforçasse por manter o equilíbrio, sentia-se cambalear. Algo vertiginoso insinuava-se no seu sonho, pese não o descortinar ainda. Uma algazarra, um alarido, um estertor, uma gritaria súbita fê-lo arrepiar-se. No meio do pó, por entre farrapos arrastados, cresceu a figura de um rinoceronte, que corria a toda a brida na sua direção. O homem paralisou. Ouvia os grunhidos coléricos do animal, possuído de um rancor sem limites. Via o chifre em riste derribando à sua passagem fios improvisados de roupa e corpos negros anémicos. Eram rugidos medonhos, cavernosos, como se proviessem não de uma boca, mas de uma tuba. Que aflição!
Foi neste preciso ponto que o homem despertou. O barco balançava com força, com o vento que se levantara, com a agitação da maré, com a proximidade de um enorme navio de carga que não parava de roncar, avivando-lhe os deveres da mareação.
Lançou os remos de novo à água e pôs-se a batê-los atarantado. O grande animal de carga passou. Ao fundo, avistavam-se já as luzes da ilha de Linosa. Seriam sete e meia, oito horas. Uma fragata da Guardia Costiera deslocava-se mansamente no seu encalço. Que pesadelo! Desde que abandonara o trabalho em Pádua, não sentia tamanha desconsideração por si próprio.
A noite, como uma capa, pesava-lhe nos ombros. Mais do que nunca, prostrava-o a ideia de que a sua vida era um perfeito naufrágio. Os remos supliciavam-no, porque a corrente o arrastava para uma zona de rochedos. Lutava contra ela, como se por fim tivesse encontrado um sentido para a sua existência sexagenária.
O grande holofote da Guardia Costiera cortou as águas, muito para além de si. A cerca de meia milha, a estibordo, empurrado para os mesmos escolhos observou um bote e uma multidão de coletes amarelos. O homem percebeu que a guarda acelerava em sua perseguição. A voz do comandante replicava ordens, palavras duras, avisos. Eram africanos.
Ficaram nessa mesma noite detidas em Agrigento, num centro de controlo de emigração. Eram noventa e quatro (sete das quais, crianças).
Resgatado na mesma fragata, o esgotado professor Silvio Graziani (dadas e recebidas todas as explicações e recomendações) foi deixado tranquilamente na praia de Pozzolana, no mesmo porto e à mesma hora em que o último ferry da vulcânica Linosa descarregava os derradeiros passageiros e viaturas.
Atracou o seu pequeno barco a uma boia de amarração. Nessa altura já não se sentia confuso. Em rigor, não já sentia nada, nem sequer se valia a pena sentir. Era apenas tarde, muito tarde.
Na cidade de Quioto, no antiquíssimo bairro de Higashyama, numa das casas mais humildes e próximas do templo de Kyomizudera, vive o senhor Nakata.
É um artesão completo e legítimo. Os turistas gostariam de o tornar numa atração fotográfica, ao lado das maiko, dos tocadores de biwa e das casas de chá. Mas o senhor Nakata, como manda a boa tradição nipónica, gosta do silêncio e da sombra, prefere o seu trabalho livre de perguntas incómodas e do olhar indiscreto dos forasteiros.
A oficina fica nas traseiras da casa. Um pequeno caminho condu-lo todas as manhãs de uma à outra e devolve-o à noitinha ao ponto de partida. É uma viagem curta, mas suficiente.
O ar frio da neve ou o ar morno da primavera são-lhe igualmente maravilhosos. Os telhados recurvos do templo e a fronde rosada das cerejeiras ao fundo despertam-lhe o mesmo agradecimento, a mesma alegria que a água das fontes e o perfume do musgo.
O senhor Nakata descalça-se sempre que entra na oficina e permanece imóvel algum tempo, até que a visão se acostume à penumbra. Aproveita esses minutos para escrever poesia.
Escreve-a de memória, às vezes repetindo-a em monólogo, esforçando-se por usar a palavra certa no lugar certo. Além do trabalho manual e da poesia, é cultor da sopa de miso, dos banhos de água gelada, da filosofia wabi-sabi e da obediência samurai. Acredita que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior e que mil anos não chegariam para que se atinja a perfeição. Mil e um anos, sim!
Ninguém sabe a idade certa deste homem. Dito de outro modo, ninguém sabe quantos anos faltam para se sentir preparado para morrer.
O senhor Nakata exibe em todos os gestos paciência, labor, paixão. Depois de compor o seu poema (como quem apara uma folha de bonsai ou lhe extirpa uma erva do pequeno tronco), escolhe o papel, o couro, o molde e as linhas com que coser mais um caderno. Cose-os tão devagar como cose uns aos outros os três versos dos haikus.
Para quê apressar o amor se se pode morar nele e não noutro sítio?
Uma vez, depois da guerra, vieram dizer-lhe que o filho tinha sido encontrado morto num poço. O senhor Nakata manuseava a sovela à luz escassa de um gasómetro. Na sua mesa via-se uma coleção de tesouras, facas e réguas, carrinhos de linha, giz, pilhas de papel, tiras de couro de boi e de cordeiro. O cheiro das colas impregnava o espaço. Os visitantes afogueavam-se, dobravam-se numa mesura fúnebre, emocionados com a tragédia. Esperavam não matar o vizinho, já então velho e atingido por várias desgraças.
Sem se mexer, sem um esgar de surpresa, o senhor Nakata escutou a notícia. Aos poucos afastaram-se às arrecuas os que ali foram levar-lha.
O caderno que sustinha nas mãos era esmerado, impolutamente branco, cosido com precisão. Faltava-lhe o resguardo em pele com que deveria fechar-se. Era imperioso que o papel pudesse contar com essa capa de tecido animal para permanecer no tempo, para assegurar ao futuro proprietário o prazer máximo de uma escrita lenta e longeva. Aquele caderno não seria apenas mais um objeto, mas o objeto de que alguém jamais prescindiria.
Diriam «Foi este o caderno que Nakata cosia, quando lhe deram a notícia da morte do filho!»
O artesão prosseguiu com a sovela, abrindo um a um os equidistantes buracos da sua dor. Depois, até que a noite sobreviesse, tapá-los-ia com orgulho, como quem prende a si um destino ou uma missão na terra.
Hoje, os forasteiros ouvem falar dele e procuram-no embalde. Descrevem-no como se descreve a criatura principal de um mito. Dizem que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior.
Mil anos não chegarão para que atinja a perfeição. Desejá-lo em cada dia, isso sim.
O Orador dispôs um olhar exortativo sobre a assistência. A preleção corria-lhe bem, aqui e ali (notava-o agora) talvez alegórica demais. Para o dissimular, o Orador servia-se de um tom mais crispado, acusando os adversários de todo o género de manigâncias. Vieram as palmas. Alguns que tinham os maxilares rigidamente presos à boca para não serem vistos a bocejar, puderam soltar «Bravo» e «Apoiado».
Falou durante uma hora e cinco minutos. No final, elevando o tom, como quem dá o remate final numa pintura muito rebuscada, olhou a plateia e quase gritou:
– Assim, ilustres companheiros, amigos, correligionários, o Partido deverá constituir-se como um exemplo inatacável, lembrando a sua matriz fundadora e os seus líderes do passado. Somos o partido das grandes reformas e nunca nos coibiremos de ostentar na lapela a vitalidade do que criámos, nem o desejo de refundar a nação e de lhe impor as mudanças inadiáveis! Não permitiremos que a causa pública se veja coartada por irrisórios expedientes, negligenciada ou impedida por esta oposição incompetente, acéfala, por esta oposição acrítica, populista e demagógica! Somos nós, nós, este partido, quem tem o ónus da responsabilidade! Não nos demitiremos do nosso lugar de charneira! Em cada aldeia, vila ou cidade faremos chegar o progresso das nossas ideias e faremos que o bom povo compreenda a nossa visão! Tenho dito!
Seguiu-se o ribombo das palmas. Alguns, que dormitavam, começaram por instinto a aplaudir. Aplaudiam com força, com frenesi, com devoção.
O Orador recebeu abraços apertados de consideração, elogios cochichados dos membros da mesa, apertos solenes de mão. Liam-se nos lábios expressões encomiásticas, «Muito bem!», «Honra-nos!», «Parabéns»! Era um homem conspícuo, falara brilhantemente. A grande sala, unânime e rouca, era o sopro guardado de uma bolha de sabão. Unânime e rouca, elástica, crescia na ovação.
O Orador sentou-se no lugar que ocupara antes. Vários colegas levantaram-se em volta para o virem saudar, para lhe exprimirem a admiração e ele, notavelmente contido, sorrindo apenas, recebia e agradecia comovido.
Outro orador subiu ao palanque. Outros se lhe seguiram. Mas nenhum orador era o Orador. O soberbo homem esgotara o filão da melhor retórica. Quando, horas mais tarde, o presidente da mesa declarou encerrados os trabalhos por esse dia, era ainda a intervenção do Orador a que prendia as atenções.
Ninguém duvida da importância deste tipo de acontecimento, nem da profundidade intelectual dos palestrantes. Costuma discutir-se sobre a distribuição de cargos, sobre o modo mais eficiente de criar falanges de apoio, sobre vendetas e punição de dissidentes. Também se fala do futuro do país. Sobretudo do passado do país. A res publica atrai centenas de congressistas que não arriscam nunca mostrar-se descontentes ou cansados. Convém ser cortês com quem tem poder, pese o poder pertencer ao povo. Simplesmente o povo é vasto e abstrato. O melhor é ser cortês com pessoas como o Orador.
Logo que as luzes se sumiram na grande sala, os grupos desfizeram-se e o Orador, retardando-se em colóquios fraternais com um companheiro veterano e outros nem tanto, pôde sentir no jardim anexo o aroma das laranjeiras em flor. Ia comentando ainda coisas sérias, sublinhando ainda a linha de orientação do Partido. Um coro de cabeças anuía. Era exatamente assim. O Orador adivinhara-lhes na cabeça o pensamento. Como podiam eles não concordar?
Era uma noite belíssima. Quando, por fim, se introduziu no carro e se dispôs a regressar ao hotel sentiu-se um tanto só. Verificou no relógio: eram quase três horas. No céu erguia-se o silêncio, um infinito recamado de estrelas e poeira de galáxias. O Orador recordou-se do avô, que costumava ensinar-lhe o nome das constelações e lhe narrava as façanhas dos argonautas.
O ar limpo passava-lhe por entre os dedos e pelas narinas. O volante era tão leve como uma pena. O Orador sentia-se mergulhar num alçapão misterioso. Uma vozinha vinda de nenhures reclamava a sua atenção. Quase sentiu saudades dos campos, das noites da infância, do velho que lhe fazia papas de abóbora. Essa flamazinha aguda doía.
‒ Que porra! – resmungou o Orador.
Ligou o rádio. As notícias acalmaram-no. Falavam do congresso, do Partido, de si. Todos aquiesciam. Repetia-se o aviso, «irrisórios expedientes», o «calcanhar de Aquiles», nada podia perturbar as grandes reformas em curso. Pedia-as o país. O Orador penetrou na noite. Mal-humorado. Terrivelmente…
A meio e no alto do bosque fica o eremitério. Escassa gente atravessou estes portões nos últimos cem anos e nas centúrias anteriores quem o fez pôde descrevê-lo como nós o descreveremos agora: é um lugar ermo, tosco, bendito, impoluto.
Os adjetivos nada dizem, reconheçamos. Haverá quem deseje um relato pormenorizado sobre as suas escadarias, sobre as suas varandas e jardins incultos, sobre a cozinha com forno e celas desertas, sobre o oratório. Mas nem esses serão bem sucedidos. Não há que descrever mais do que paredes e arestas descarnadas, granitos com manchas de humidade e tenebrosos entrançados de silvas ameaçando o lintel das janelitas, junto à cumeeira do tugúrio.
Tudo se mantém inalterado desde a era dos primeiros santos que aqui resgataram a sua existência ao bulício e ao sorvedouro das grandes cidades. A natureza só não submergiu por completo esta edificação pelo caridoso ofício do irmão Anthony Montague, a quem cabe a guarda destas vetustas e gastíssimas lâminas, com que vai limpando como pode as balaustradas, os tetos e as esquinas de pedra musgosa.
Mas o visitante importar-se-ia sobretudo com o silêncio.
De manhã à noite, a maior gratidão do eremita é para o depurado silêncio que brota de todas as coisas em redor, por fora e por dentro de tudo. O bom silêncio envolve-o numa paz profunda e ao ter-se a ele acostumado de tal forma disciplinou o ouvido que alcança facilmente os mínimos estalidos, os mais distantes assobios, o sussurro da água nas fontes do bosque, a súbita mudança do soprar do vento na cabeleira dos pinheirais. Ao mastigar o bocado de pão à noite, os estertores da boca ou o crepitar da lenha tornaram-se palavras inteligíveis de que gosta mais do que das antigas, cujo significado lhe pareceu tantas vezes embaciado e inútil. Mesmo as orações, que medita e repete várias vezes ao dia e durante o serão, prefere pronunciá-las sem articular a língua, dizendo-as com o seu timbre de voz interior, tão belo e abafado tanto tempo. O silêncio tornou-se o seu modo de estar com Deus e o único motivo por que vale a pena continuar vivo.
Montague vive no eremitério há somente cinco anos. Veio de Dublin, onde foi casado e onde exerceu os cargos mais distintos na vida política e também na empresa multinacional EMPIRE.
Depois de nesse dia de outono ter contemplado na paisagem a formação de bulcões, sobre uma brisa quente e pressaga, lava-se agora à chuva abundante da noite com um quadrado de sabão. A tempestade faz as sombras mais suspeitas, com rebrilhos de relâmpago. Ao lume tem o eremita o seu caldo de feijão e sobre a mesa o De Civitate Dei, que vem há muito decompondo gulosamente em epifania e amor pelo próximo.
Depois de se secar num monte de trapos, sentindo a pele exalar o doce torpor da purificação, Montague dirige o olhar para o firmamento. Há no imo da sua alma qualquer reminiscência druídica, pois a natureza por si só o comove como um deus e lhe apetece alimentar-se de raízes e ervas para reencontrar um caminho perdido.
Escuta então um restolho. Um restolho e um gemido. Julga ouvir, também, o mover das bisagras e o raspar de metal sobre um lancil. Não tem dúvidas de que algo ou alguém vem aí. A pele empola-se, os pelos estão eriçados. Nunca lhe sucedeu igual. A sua santidade, tão duramente procurada nestas paragens, não o impede de apossar-se do tronco de carvalho que lhe serve de cajado e de o projetar defensivamente. É uma arma tão boa como qualquer outra e não tendo outra é esta melhor ainda. Um halo argênteo e azulado corre as paredes, invade-lhe o interior do casebre. Prepara-se para brandir o que segura nas mãos, quando uma voz o imobiliza.
– Olá, está aqui alguém?
II
A rapariga sorria e agradeceu muito o cuidado. Encontrar um chão seguro, poder abrigar-se da chuva e comer algo quente era muito melhor do que podia esperar. Não sabia explicar como ali fora parar, apenas que se perdera do seu grupo e que caminhara sozinha e desesperada durante horas, especialmente depois de anoitecer.
«Graças a Deus, descobrira aquele oásis no meio do deserto!»
Montague, aturdido, envergonhado, estremeceu ao som da palavra «Deus». Deitou uma concha de sopa no prato dela. Achou que talvez fosse avareza. Serviu-lhe outra concha. Não sabia se devia sentar-se a seu lado ou se devia comer num canto da cozinha. Ela falava, falava depressa, repleta de gratidão e de ruído. Como a rapariga não se decidia a começar a comer e o olhava fixamente, ele sentiu-se na obrigação de a acompanhar. Partilharam a refeição, depois de rezarem. Montague não percebia bem o que ela dizia, não tanto pela rapidez da sua fala, mas sobretudo porque o coração lhe batia descompassado e lhe tolhia a lucidez.
«Vivo muito perto de Cardiff, mas sou de Bristol. Na última década vivi em sete países diferentes. Adoro explorar a natureza, sabe? Passo a vida a viajar e a fotografar os sítios mais encantadores do nosso planeta…»
O lume, avivado pela mão diligente do eremita, parecia mais rubro que um rubi. Na face angulosa do granito, a silhueta da rapariga aparecia distorcida, como se da cabeça aos pés inúmeras hastes se descobrissem e a tornassem monstruosa. Por outro lado, a sua voz, vencida agora pelo cansaço e pelo sono, era menos vigorosa, mas muito mais dócil, quase sedutora.
«Quase não abriu a boca… E eu tão tagarela… Fale-me de si. Afinal, é o meu querido salvador… O que seria de mim, se o não tivesse descoberto esta noite?»
Os pelos dos braços e das pernas de Montague voltaram a erriçar. Depois de ter desaprendido determinadas facetas do mundo, aquela linguagem perturbava-o, tornava-o de novo refém de um mecanismo de que se libertara, a seguir à morte da sua mulher, muitos anos antes. O silêncio e o isolamento trouxeram-lhe o caminho do êxtase e encerraram atrás de si portas e corredores de cuja memória não estava já muito certo.
«Não sei o que lhe diga… Vivo só… Aqui… Há muitos anos…»
«Meu Deus, estou tão fascinada! O senhor é um daqueles santos, que se afastaram do mundo para conquistar o direito ao Paraíso!… Tão bonito!»
«Sim.»
«Não consigo imaginar o que tem sido viver longe de tudo! Sem conforto. Sem tecnologia. Sem o toque de uma outra pessoa!»
«Vivo com Deus.»
«Mas Deus é amor. Deus quer que nós amemos, que nos amemos uns aos outros!»
E ao proferir as palavras «Deus» e «amor», a rapariga soergueu o tom, como para espicaçar o entendimento de Montague. Sorria. Para sublinhar o poder do seu raciocínio, colocou-lhe a mão por cima da sua própria mão. O contacto da pele delicada com a pele áspera surpreendeu mais o eremita do que a afoiteza das palavras. O sorriso da rapariga fê-lo recuar. Precisava de retirar-se para orar. Tinha já passado o tempo devido.
Então, a rapariga aproveitou para lavar os dois pratos, estender o saco-cama, cuidar como podia da higiene pessoal. Depois despediu-se do anfitrião, sorriu com um «Boa noite, meu salvador!» e deitou-se.
Montague, mais uma vez, não conseguiu decidir entre usar a sua cela ou acompanhar a rapariga. Não raras vezes precisou de lidar com vermes e répteis, atraídos pela humidade ou pelo calor daquele antro. Receou que soasse a má criação não velar pelo sono da sua visita. Tanto mais que as horas noturnas durante as tempestades lhe pareciam um ensejo para descortinar a vontade de Nosso Senhor.
Ficou, por isso, diante da lareira, não muito longe do perfume que a rapariga exalava e que o entontecia. Era como uma tentação.
Rezou. Pediu perdão a Deus por todas as impurezas que nesse final de dia o pudessem ter cometido. Especialmente, quando se lembrou de Rose, a sua falecida mulher. Porque se lembrou dela nesse final de dia, sim, não da Rose murchando numa cama de hospital, mas da Rose do namoro e do casamento, bonita e insensata, que o desafiava a toda a hora, sem temer ou admitir sequer a têmpera do pecado.
«Não consegue dormir? Ou simplesmente nunca dorme?»
Montague estremeceu. A rapariga dirigiu-lhe nova pergunta.
«Assustei-o?»
«Não.»
Apesar da fadiga, do calor da fogueira, do som aconchegante da água precipitando-se das alturas, a rapariga explicou que não conseguia adormecer. Intrigava-a aquele modo de vida de Montague, aquela decisão de voltar as costas ao mundo, aquele silêncio e solidão no alto e no meio da floresta.
«Não voltei as costas ao mundo…Voltei-me para Deus…»
A rapariga abriu o fecho do saco-cama, soergueu-se (dorso encostado à mochila) e, iluminada pelas achas, disse que também Zaratustra viveu nas montanhas, mas que ao cabo de dez anos, segundo as sentenças de Nietzsche, precisou de voltar para junto dos seus semelhantes.
Um pouco depois, o eremita e ela, na mesma posição em que haviam jantado, estavam um dia diante o outro, sentados à mesa. No mesmo tom sereno, no mesmo ritmo apaziguado, disse muitas palavras doces. De quando em vez, a rapariga mexia no cabelo e sorria. A camisola que envergava tornava-lhe o desenho dos seios mais óbvio, como se ao mesmo tempo os guardasse e os expusesse. Montague não ouviu quase nenhuma das palavras que lhe foram destinadas.
Então, animada pelo assentimento do eremita, reparando mais na beleza dos seus olhos azuis (que as barbas desleixadas não podiam senão evidenciar), afogueada pela gratidão que sentia em relação a esse homem invulgarmente casto e sóbrio (mais atraente lhe parecia o seu carácter assim), a rapariga tomou-lhe as mãos e beijou-as, acariciou-lhe o rosto, percorreu com os dedos a comissura dos lábios e, por fim, beijou-os também. Montague nada fez para interromper estes desvelos.
III
O eremita acorda sempre antes alba. Hoje não. Os olhos, terrivelmente cansados, avistam uma leve coluna tisnada a subir e a tocar o cume da cozinha. É uma língua de fumo que sai do raizeiro sobre a laje da lareira. Sobressalta-se, de chofre, ao dar-se conta das orações negligenciadas. Sente frio. A fome revolve-lhe o estômago. Recorda-se da tempestade, que durante a noite recrudesceu. Agora que os sentidos recobram o seu préstimo, percebe também um perfume diferente no ar, pairando como uma memória difusa. Lava o rosto, medita as primeiras orações, come um pouco de pão e, então, sim, compreende a indolência do seu corpo: acode-lhe à cabeça a rapariga.
Não pode descortinar um único sinal dela. Não percebe quando, como e porque partiu. No chão, onde o saco-cama foi estendido, não se perscruta o mínimo vestígio. Somente o areão e alguma folha ressequida, algum inseto sossegado e em trânsito entre esconsos.
Montague, aturdido, lembra-se do corpo nu da rapariga, do corpo quente e meigo que roçou no seu próprio corpo e o submeteu. Mas o chão, o puro chão do seu tugúrio, nada informa sobre o amor que ali existiu.
A rapariga, cujas palavras irresistíveis, cujo sorriso invencível, cuja doçura o fizeram mergulhar num sono profundo, desapareceu. Procura um só indício de que a sua cabeça o não engana. Na pedra onde costuma lavar o seu prato, não pode avistar senão um prato. Não possui dois pratos, aliás. Em cima da mesa, na exata posição em que o deixou ontem, o De Civitate Dei de Santo Agostinho.
A demanda prossegue. Fora, a manhã mostra-se esplêndida, como todas as manhãs de sol que sucedem às noites de procela. Montague verifica o granito sem lama da escadaria, a pequena vereda de acesso sem sulcos ou estrias de calçado, o portão que permanece tão fechado como um segredo por confessar. Treme.
O que foi tudo? Um sonho? Uma visita do demónio?
O frio fá-lo tiritar. Sente-se horrivelmente só. Pela primeira vez, nesse lustro, as forças faltam-lhe. O que foi tudo aquilo? Uma epifania? Uma prova de fé a que Deus o sujeitou?
Treme. Sente-se doente. Na pedra da lareira acumula-se a cinza da noite. Nenhum calor, nenhuma chama, nenhuma centelha aviva os seus olhos. Somente um fiozinho de fumo resta no corpo ardido do raizeiro. Montague pensa que chegou o seu momento: divino ou demoníaco, o sopro da vida está prestes a expirar. Não sabe, não o censuremos, que interpretação dar a tudo isto…
A nossa filha multiplica os desenhos. Este agora vai para o frigorífico, trocando de lugar com um outro que ali expomos desde a semana passada. Reparaste no denodo com que fez crescer uma grande árvore quase azul? E as nuvens cor de laranja não são mesmo maravilhosas ao lado de um sol perfeitamente torto e espinhento como uma batata grelada?
É uma artista a nossa menina. Eu mesmo coloco o íman que há de segurar esta nostalgia do tempo vivido em tempo real para sempre. É um amor! Deitada na carpete, com os pezinhos a dar a dar, os lápis de cor atravancando a folha e esse amor pelas coisas que vão nascendo do nada: a casa de janelas acesas e fumo a erguer-se da tosca chaminé, as borboletas esvoaçando ao lado dum pai e duma mãe e dum anjo ao meio.
– Gostas, papá? Gostas, mamã?
E, depois, quando acabo de prender o desenho à parede metálica do frigorífico, sinto uma grande dor no peito e acordo.
– Este é o meu sonho, Sr. Doutor. Deus, que me quis para seu servo, envia-mo todas as noites há semanas… O que significará?