É um prazer que guarda desde a infância. Todos os anos no dia do santo patrono, cumpre o ritual de se passear pelos corredores do Rijksmuseum, de abrir para o passado esta janela imensa que Jan Steen pintou, de se intrometer na cena familiar da noite de São Nicolau, de se divertir com o ar choroso do garoto malcomportado (também ao seu irmão mais novo trouxe “Pedro Negro” certa vez carvões em lugar de presentes), o ritual de se enternecer com a alegria dos rostos de outrora, ávidos como ela de vida, embora felizes. Saskia contempla a obra-prima, procurando nela adivinhar o bom aroma do gengibre, as ondas de calor da casa, o som que as velhas senhoras fariam para animar as crianças.
Mais do que uma visão, mais do que um retrato de época, é todo um aconchego o que ali se guarda. Saskia sente, nos minutos preciosos que reserva todos os anos no dia 6 de dezembro, uma espécie de labareda a vibrar dentro de si. É um despertar, como quando as ruas gélidas da cidade vão dar a café animado. Como quando escuta jazz e as suas mãos retomam um desvelo saudoso por Aiden, o seu marido há quase três décadas.
Quando abandona o Rijks, gosta de sentir na pele o ar frio de Amesterdão. Sente-se de um modo muito particular rejuvenescida. O dia de São Nicolau é o prenúncio do Natal que aí vem. Apetece-lhe patinar, pôr-se ao lume numa velha cozinha, preparar doçarias. Aiden deixou de se importar com estas tolices momentâneas.
Depois da guerra, regressou a casa. A História conta-nos muito acerca dos maus regressos, desses que a literatura (desde Agamémnon) sabe escorripichar e que a psiquiatria aproveita cada vez melhor. Regressou sem um tostão, sem uma cicatriz visível, sem uma memória acolhedora, sabendo já – no momento em que desceu o derradeiro passo do portaló maldito – que a namorada o havia substituído.
Gusmán era bom rapaz, com a sorte dos bons rapazes: passaram meses até que assentasse, anos até que descobrisse uma vocação, décadas até ser capaz de pronunciar o nome da grande puta. Quando o fez, a fama de acordeonista rivalizava com a de ladrãozeco e ambas com a de bêbedo.
Como conseguia ele equilibrar-se nos três apodos era coisa que não espantava.
Talvez fazendo intervalos. Talvez caindo nas três desgraças como se cai por umas escadas com gosto, masoquistamente. Talvez segurando a alma nas artes de tocar, furtar e beber como se segura num tripé uma panela de ferro, sem amor, e apenas por necessidade absoluta de manter-se de pé de alguma forma.
Uma noite, no botequim onde o encontravam invariavelmente a guarda, as amantes e os guapos de Buenos Aires ouviram-no tocar maravilhosa, impecável, imaculadamente entre outras o Oblivion e o Adiós Toniño. Dir-se-ia que o próprio Astor Piazzolla teclava ali os botões e agitava os foles, a música saía bela e visceral do salão, cheia de um sentimento que o lustre e os vidros e os cristais fazer repercutir, como se todos, os rostos, objetos, as lâminas embainhadas esperassem ainda um pouco mais e depois mais nada.
Encontraram-no morto a meio da manhã, apunhalado, com um sorriso subtil nascido no jogo de contorção dos lábios.
Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm o segundo filho.
Uma tarde, quando os telhados principiavam a desmaiar na poalha do outono, a mulher encontra o marido de costas, em pé, com um envelope nas mãos, segurando uma fotografia. Nela vê-se uma jovem mulher lendo uma carta. Uma carta que ele mesmo escreveu muitos anos antes. É precisamente essa carta a que lhe chegou agora no correio, muito dobrada, dentro de outra carta, como um bebé no interior do ventre materno. O homem chora. Uma mulher outrora amada explica-se, explica tudo.
Desde então o homem não volta a tocar na mulher. Passa a odiá-la. Usa o silêncio para a punir do crime. E das poucas vezes que lhe dirige a palavra, trata-a por Marjan.
A chuva, depois do intenso tropel que protagonizou com o vento noite fora, retira-se para alguma parte onde a não vemos. Da sua passagem pela aldeia fica o enlameado dos caminhos, o ar miserável das árvores (mais ossudas e descabeladas do que nunca), fica a neblina sobre os outeiros e sobre a igreja, sobre as cercas, sobre a linha torcida do riacho, sobre os telhados tímidos das casas pequenas de pedra. Nelas, nos nichos, nas empenas, nas teias fabricadas pelos aranhiços, nos fios dos estendais, observa-se o modo como a água abundante de fim de outubro pôde deixar uma marca maravilhosa: pequenas lágrimas teimando não cair, esperando o sol que às duas por três as acende a todas. Nenhuma criança esquece a imagem das gotas aguentando-se nas cordas, cheias de luz, sem medo dos olhos gigantes que as cativam.
Conhecemos num desses domingos lentos, véspera de feriado, o velho moleiro de Salzedas. Tem tantos anos que deixou de saber contá-los, tantas histórias na cabeça que começou a misturá-las. Fala devagar, limpando muitas vezes o nariz comovido, espreitando a porta muitas vezes. Sabe o que diz. Diz que o Diabo lhe quer comprar as terras pelo preço de um palácio, mas que a ele não o enganam. O justo justo, o seu a seu dono, nada de trafulhices. Não as quer vender, mas se as vender não será ao Diabo, e se lhas vender ter ele, o Diabo em forma de pessoa, de pagar muito menos, porque o receber a mais é caminho para o inferno.
Apesar desse ar de entulho nas coisas, sempre que assim chove, a aldeia gosta de limpar-se. O solo barrento volta a secar, endireitam-se as veredas, as janelas reabrem-se para purificar o cheiro que no interior das madeiras, dos tijolos, das almas, se torna venenoso. A chuva é um modo de fazer ver melhor.
Como se chama esse velho? Ninguém ali o lembra já (como foi possível olvidá-lo?), se alguma vez o souberam. Fala devagar, assoando-se com estridência, muitas vezes. O Diabo é no fundo bom, porque a bondadosa natureza dos seres não pode extinguir-se. Devemos é procurar-lhe essa semente esquecida. O moleiro de Salzedas é de opinião que o Diabo pode ser repescado por Deus, houvesse forma de lhe obter o arrependimento. Como assim? Ele suspira. Há forma, há forma…
Quando calçamos as botas e nos dispomos a ir, tudo regressa. O fontanário, as alminhas, os muros de granito e de xisto, as cortes, o colmo empilhado, o cheiro atrevido da murta e do alecrim, da cidreira, do funcho, da hortelã, o cantar do açude, a antiquíssima azenha, os carreiros junto aos choupos. Tudo regressa aos poucos. Como fantasmas, os homens e mulheres que aqui viveram existem de novo, regressam às esquinas onde apalavram, riem ou simplesmente se despedem. Ânsias perdidas no tempo tornam-se subitamente vivas, digressionam como sonhos, doem fundo naquela parte de nós que é exatamente o ser nós.
Que o Diabo possa ser reconquistado é o propósito desse homem singular. Não lhe tem medo, espreita-o, espera-o. Põe dois pratos na mesa, dois copos, dois pedaços de broa. No dia em que o acharam morto, com um sorriso serenando-lhe a boca, de ambos os pratos se tinham servido, bebido de ambos os copos, de ambos os nacos de pão sobrado migalhas.
A chuva, depois do intenso tropel da madrugada, é como uma conversa remota que se recorda. A aldeia é sobretudo isso, um manto verbal onde cada um descobre a sua ponta, o seu retorno, a sua dor protegida. As botas pisam-na a medo. É um território sensível. Nunca sabemos o que debaixo de nós quer nascer ou renascer. A chuva é um preparo. Depois dela vem o sol e o silêncio. Nenhuma criança esquece o adulto que assim a observa, sabe-se lá de que mundo. Não esquece.
– Quem é afinal este Georges Le Brun? – perguntou o Procurador.
O Oficial de Justiça deu um jeito às sobrancelhas, arqueando-as, encheu os pulmões, levantou-se, abriu um dos armários metálico gigantes, apontou com o polegar à retaguarda e fê-lo deslizar horizontalmente, de maneira a incluir toda uma estante a abarrotar de capas e dossiês atados por cordéis de ráfia.
– Isto tudo, doutor….
Depois, como quem tem uma boa história para contar, encontrou uma frase sua disse-a num gozo antecipado.
– O doutor sabe. Em Montreal, os invernos são especialmente cruéis para quem é de fora…
O Procurador estava prestes a conhecer a prodigiosa biografia do maior falsário de literatura de Sainte-Anne-du-Lac no Quebeque, de todo Canadá, provavelmente do mundo inteiro.
•
Georges Ambroise Roger Le Brun nasceu em 25 de agosto de 1944, em Brénac, na margem direita do rio Vézère, na comuna de Montignac. A singularidade da data e a proximidade da gruta de Lascaux criaram no rapaz uma certa crença de que a sua vinda ao mundo fora de algum modo providencialmente preparada para grandes feitos. Na escola sempre os professores o consideraram um aluno excelente, tendo aprendido e dominando vários idiomas (vivos e mortos), entre os quais o alemão, o neerlandês e o russo, o latim, o grego, o hebreu e o aramaico. Desde os tempos universitários tornou-se um incansável perseguidor de arquivos, frequentador assíduo de cronicões e livros hagiográficos, leitor ávido de biografias, colecionador de histórias raras, mas também estudioso de caligrafia e, sobretudo, de literatura comparada. Nesta última área fez o seu doutoramento na Sorbonne, com vinte e sete anos, e na mesma academia permaneceu como professor agregado até surgir o convite que o fez atravessar o Atlântico, rumo à Universidade de Montreal. Publicou dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de recensões para os jornais da elite intelectual francófona.
Mas, curiosamente, foi na escrita de Kafka que os seus olhos poisaram definitivamente. Sentiu ciúme muitas vezes de Max Brod, figura que lhe pareceu indecorosamente bafejada pela fortuna, não apenas por a si ter o genial escritor confiado testamentariamente escritos que mais ninguém conhece, como por ter privado, conhecido e sabido de Kafka o que jamais mortal algum (nem porventura Felice Bauer) pôde saber.
Georges Le Brun leu os romances de Kafka com obsessão. Depois de anos de estudo aturado, principiou a escrever ao estilo do escritor de Praga, acalentando a ideia de poder acrescentar à sua bibliografia e à que ficou nos cofres de Brod escritos inéditos, manuscritos, novidades com que o mundo dos literatos jamais sonhara.
•
– Não me vai dizer que este Le Brun inventou obras de Kafka? – sorriu o Procurador.
– Inimaginável, doutor… Este tipo conseguiu enganar alguns dos decanos dos melhores centros de literatura, apresentando papéis autenticados, cadernos, autógrafos de alguns dos maiores autores do século XX (Kafka foi apenas um deles) e vendeu-os a leiloeiras, institutos, colégios, bibliotecas a preços absurdos.
– Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – completou o outro, dando um jeito nos óculos.
– Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – confirmou o Oficial de Justiça.
•
Georges Le Brun sentiu na juventude um fascínio enorme pela figura de Han van Meegeren, o fracassado pintor holandês que impingiu vermeers aos nazis. O mesmo fascínio fê-lo descobrir Tommaso Debenedetti, jornalista italiano, autor de entrevistas falsas que correram mundo, confundindo tudo e todos com opiniões de figuras públicas que trazia para a ribalta, sem que as mesmas tivessem alguma vez proferido o que quer que fosse do que Debenedetti publicava. Mais recentemente, no início do milénio, Le Brun divertiu-se com as pirâmides que Semir Osmanagićh descobriu na sua Bósnia natal. O mundo torna-se maravilhosamente mais rico, mais criativo, mais liberal com os falsários.
Após uma visita à Bodley, em Oxford, durante a qual mergulhou com penetrantíssima atenção nos sagrados papéis deixados a Max Brod, Le Brun concebeu o romance que Franz Kafka gostaria de ter escrito. Chamou-lhe O Labirinto. Nele, o conhecido agrimensor K. cava um labirinto, profusamente preenchido de corredores e de memórias, cada vez mais fundo (como os círculos infernais de Dante) e, osmoticamente, cada vez mais dentro da sua cabeça, como se escavando a terra escavasse a alma e a consciência, até chegar aos primórdios, ao lugar absolutamente escuro onde a picareta, batendo em pedra, fez saltar a chispa que deu origem à sua própria vida. Um romance freudiano, o mais freudiano de todos os que o checo compôs.
Para dissipar dúvidas autorais, estudou até as elipses, as interrupções que Kafka faria num texto de publicação incerta, como se tomado de assalto por dúvidas e por um cansaço progressivamente mais letais. O Labirinto não seria publicado pela forte razão de não ser imperfeito, mas tão perto de o ser que o leitor ajuizado descontaria na fúria de Kafka o valor da obra deixada praticamente completa. Georges Le Brun cometeu o atrevimento de forjar uma carta recebida de Dora Diamant, na qual a amente aludia à muita expetativa em torno do livro. Não contente com isso, depois de pacientemente o ter redigido com caneta de aparo, com tinta e sobre papel que metodicamente envelheceu na cave, junto com garrafas de moscatel e serrim, Le Brun sobrepôs rasuras, hesitações no alemão, glosas, sinaléticas iguais às que consultou nos manuscritos de Oxford. Fê-lo três vezes. Esperou vinte e um anos pelo envelhecimento apressado do original. Depois pediu por ele dois milhões e meio de dólares. E obteve-os.
•
– Diz-me que há outros. Deixe-me quem são os outros…
O Procurador retirava dossiês, deslaçava capas, abria ficheiros. Era um depósito monstruoso de provas.
– Vai divertir-se. O tipo foi Hemingway, Gertrude Stein, Brecht, Simone Beauvoir, até Shakespeare. Andava ultimamente a traduzir evangelhos apócrifos. Não o tivesse a Interpol apanhado a tempo, tínhamos aí outra Bíblia.
– Caramba. – disse o Procurador. – Este tipo promete…
– Também o que se pode fazer em Montreal, no meio do gelo?
Ambos quiseram rir. Mas rir seria estranho, como quem receasse parecer demasiado idiota perante um caso difícil, impossível de adivinhar.
Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o.
Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre olhara as pessoas que cultivam o corpo como cérebros ocos e fúteis. A jovem deixou-o desgraçadamente preso. Ele, um homem do poder, pensou imediatamente em colher o dia.
Quando ao cabo de alguns dias de ensaio, lhe dirigiu sem pudor um convite, ela recusou-o. Ele recompôs-se da desfeita, concitou os nervos a um leque de frases ambíguas, de promessa e de ameaça, e insistiu. A jovem voltou a rechaçá-lo, enojada. Tinha marido, tinha princípios, tinha a juventude. Ele, velho porco, na qualidade de dirigente do partido, de pai de família e de avô, de líder carismático, deveria ter juízo, deveria acima de tudo ter respeito.
O assunto foi sempre um não-assunto. Quando a despediram do ginásio e quando, com muita pena, prescindiram dos serviços do marido no escritório de advogados, também foi um não-assunto. Os não-assuntos são, de resto, terríveis no nosso país, onde tudo o que vem à boca não passa de saliva e às vezes um pouco de raiva, também.
Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais a procurar refúgio no meio dos hortos ou dos poços, ou das grutas, ou das caves, ou das adegas húmidas. A Andaluzia é um inferno de junho em diante.
À noite, as janelas são escancaradas. A imensa massa de ar quente precisa de ser expulsa das paredes, dos recessos, dos sótãos, do interior dos armários, da própria alma. Sente-se uma quietude a que os forasteiros jamais se poderão habituar, mas que às gentes de cá confunde a mágoa de uma vida tão árdua. Para lá do lintel das portas ergue-se então um vasto mundo de sombras, de alcáceres, de castelos mouriscos, de montanhas, de ecos de batalhas que o tempo não apagou ainda.
De madrugada, não muito longe, aqui em Escañuela, ouve-se o acelerar de uma moto de alta cilindrada. Uma ou duas por vezes semana, este despudorado atravessa as ruas da aldeia e acorda quem tarde se deitou e cedo tem se levantar. Não contente com a velocidade, com o fazê-lo a desoras, com o ruído partido do cano de escape, nunca repete a trajetória nem as noites em que decide apunhalar o silêncio geral.
Na cabeça de Emilio Morales correm pensamentos assassinos. Imagina uma desforra, uma lição brutal, um exemplo para quem desafia o sentido da responsabilidade cívica e abusa da liberdade. Esta moto é todo o seu ódio de estimação. Há momentos em que ela se afasta e outros em que ela se aproxima. Em todos, o cano de escape parece soltar, além de fumo, um longo pernáquio trocista. Emilio perscruta o chiar dos pneus, o furioso cavalgar do motor ao longo das retas de alcatrão aquecido. Não consegue desligar-se desse movimento agressivo e traiçoeiro: mesmo nas madrugadas em que o pária não vem, ele aguarda-o, aguarda ansioso o momento em que o seu descanso seja interrompido pelo sopro da máquina, o momento em que essa vinda maldita termine de vez com a angústia da espera, porque adormecer antes dessa vinda pode significar por ela ser acordado e é esse o seu maior pavor.
Em agosto, porém, o ar pode mudar bruscamente. O ar abafado é substituído num par de horas pelo soprar dos ventos da tempestade. Assiste-se a um formidável fender de relâmpagos desde as camadas mais elevadas da atmosfera, pingos grossos cobrem as gretas do solo e fazem deslizar e transbordar as gorduras do asfalto, o cheiro da terra seca invade os quartos sobreaquecidos. Chamam a este perfume petricor. Há muito que os poetas andaluzes o cantam e anunciam ao mundo, mas as palavras não bastam para exprimir a grandeza deste espetáculo.
Escuta-se o zumbido de uma moto. Ela aproxima-se. O trovão do cano de escape parece querer competir com as forças da natureza. Emilio descarregou a sua praga, e nela o seu rancor. Vem à janela ver o criminoso. As luzes da moto lá estão, um olho vivo no meio da treva e da chuva, monstruosamente idêntico ao do gigante ciclope. Mas subitamente os pneus guincham, não é a derrapagem costumeira, deliberada, provocatória. É mais o estertor de uma manobra imprevista, o som desesperado de um erro de cálculo. Eleva-se o estrondo de uma queda, o replicar cavo e o raspar metálico, durativo, de um embate.
Na Andaluzia o luto tem sempre a dignidade pesada de um tema que não se arquiva.
Na manhã seguinte contam a Emilio os pormenores: o desgraçado teve morte imediata. Sofreu tantos cortes e tão profundos quantos os que a imaginação permita adivinhar. Os railes afiados são uma faca, particularmente se contra eles somos impulsionados.
Emilio Morales rejubila em segredo. Sente que se cumpriu uma espécie de justiça divina, fulminante, atraída quem sabe pelo para-raios das suas preces.
Mas agora tem pesadelos todas as noites. Vê o diabo em pessoa a arpoá-lo com o tridente, a empurrá-lo ao encontro de lâminas atrozes. Vê do outro lado do quarto labaredas altíssimas, cujo sufoco parece persegui-lo das unhas dos pés ao pescoço. Acorda em água, não se sabe aos berros, mas julga que sim.
Aproxima-se da janela aberta e volta a escutar as trevas. O silêncio é total, somente interrompido de quando em vez pelo ladrar dos cães ao longe.
.
Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas espécies de árvores características da Cíclades. Não é impossível que na linha descendente dos vales se sucedam pinheiros, oliveiras e até abetos azuis. Mas a mancha de floresta é escassa, não serve senão para acentuar a sensação de que a ilha é uma gigantesca bossa lítica branquejando o ano inteiro.
Durante praticamente toda a sua existência, Agrafiotis perscrutou a melhor pedra das melhores marmoreiras. Viu separar da rocha-mãe blocos imponentes que camiões e carretas puxadas por animais transportaram até ao seu local de trabalho. Depois a sua cabeça, as suas mãos, os seus olhos ávidos e exigentes viram surgir da matéria informe estátuas de numes (Zeus, Poseidon, Afrodite, Atena), de semideuses (Hércules, Jasão, Prometeu), de heroínas trágicas (Medeia, Electra, Jocasta), de homens e mulheres comuns, de colunas, de bustos, de ornamentos eclesiásticos, de criaturas fabulosas, nascidas da tradição quimérica, que o estado grego muitas vezes subsidiou, comprou e fez migrar para os templos arruinados e espoliados pelo tempo e pelos povos estrangeiros.
Agora, perto dos oitenta anos, Andreas tem uma obsessão: criar o seu próprio túmulo de mármore. Imagina-o como uma cápsula para a eternidade, uma grande bolota de lajes finamente ligadas entre si, desenhadas com o escopro, contendo um punhado de versos da Ilíada (os versos 146 a 149 do Canto VI, os mais belos de todo o poema, os mais belos de toda a história de literatura), assinalando na terra a sua passagem pelo mundo dos vivos.
Mas fascina-o igualmente a ideia de um dia ser encerrado no âmago selvagem de uma destas colinas rochosas, à maneira dos imperadores chineses que desistiram de construir desastrosas pirâmides de argamassa para se emparedarem no solo humilde das montanhas sagradas. Fascina-o desde sempre o mito daquela que o rei Creonte fez encerrar viva numa garganta pedregosa. Naxos, como o lugar sombrio de castigo de Antígona – sepulcro e, simultaneamente, ventre materno – é um cemitério natural e um berço cósmico. Aqui morreram e nasceram forças que vão para além do entendimento humano.
Todas as tardes, um pouco antes do pôr do sol, o velho escultor percorre os caminhos ínvios de Apollonas, de Koronos, de Skado, de Apiranthos, de Stavros. Pretende que a última réstia de sol lhe marque como um traço de grés, o local onde deve principiar a sua derradeira obra. Há de construí-la em segredo e em segredo há sepultar-se nela, como se sepulta o grito do mar no pequeno promontório da praia de Azalas, em Montsouna.
Nenhum sonho da sua vida foi tão belo, tão ousado ou tão legítimo: abrir a cavidade onde há de o seu corpo acamar, esculpir o silêncio, polir o invólucro final onde não possa existir qualquer diferença entre os seus ossos e a pedra. Imagina que precisará de pelo menos vinte anos para o concluir. Mas nada é impossível na vida de um homem. Nada é impossível na ilha de Naxos.
Andreas Agrafiotis gostaria (para nos servirmos da expressão homérica, tanto do seu agrado) que a escuridão lhe cobrisse os olhos no preciso instante em que terminasse a sua tarefa, em que, morrendo, nascesse.
.
A igreja é pequena, antiga, no cimo de uma colina. Todo o seu encanto advém justamente destas três características: da sua dimensão modesta, do românico tardio, do modo como domina o vilarejo, mesmo agora, em tempos de prédios, grandes fábricas e armazéns industriais.
Pietro Foragini é um dos cuidadores deste lugarzinho santo. Com paciência, com gosto, com a ajuda de uma colher de trolha ou às vezes de uma faca de cozinha, dedica-se a extirpar as ervas e as hastes das gramíneas do meio das pedras. Elas nascem nas paredes, na boca das gárgulas, no meio do adro, no cimo da cruz, entre as linhas ogivais dos pórticos. São obstinadas, persistentes, ubíquas. O grande orgulho do senhor Foragini é o de garantir que este templo se mantém asseado, sem sinais excessivos do atrevimento herbáceo, da ferrugem, da imundície das pombas. Justamente, o guano é um dos grandes inimigos do granito, tal como urina dos bêbedos ou as sementes que o vento mistral costuma disseminar nos intervalos mais insuspeitos.
O interior da igreja é responsabilidade das mulheres. São elas quem encera o soalho, quem limpa o pó da talha, quem limpa as teias de aranha à bela rosácea na fachada principal, quem espalha óleo de cedro sobre as madeiras, quem tapa e destapa o rosto dos santos, quem cuida dos altares, quem acende e apaga os círios, quem cuida dos linhos e paramentos sacerdotais.
Ele, Pietro Foragini, lubrifica o mecanismo dos sinos, cuida-lhes do bronze e do badalo tonitruante. Duas a três vezes por ano sobe aos telhados, verifica a integridade das telhas e das caleiras, dá pequenas pancadas nalgum cubo de pedra suspeita, estuda-lhe a resposta, avisa o padre Giovanni de anomalias sobre a cupulazinha e sobre a abside. É uma autoridade ali. Ele decide quando é preciso intervir.
Nem sempre o entendimento é fácil. Delimitar a jurisdição de cada um é árduo na Pieve di Santa Maria Assunta. Entre a boa intenção e a boa ação corre um rio de diferenças.
Esta semana, por exemplo, Ornella Sforza travou-se de razões com Pietro Foragini. Discutiram por causa das glicínias. “Sem autorização”, Foragini segou e fez desaparecer perto do cruzeiro toda a latada destas flores lilases. Foi um debate acalorado. As senhoras tinham ficado coléricas.
– Não se faz! – repetia a senhora Sforza, descontrolada, cheia de ódio.
– Ora essa. Era só o que me faltava, ter de pedir licença para limpar o esterco da nossa igreja.
Também há a questão dos vidros. Estão sempre sujos do outro lado. Elas acrescentam os maus fígados de Foragini, que não se importa de martelar, perfurar, lavar a pedra com o compressor, arrastar ferramentas ruidosas pelo campanário e à porta da igreja quando as senhoras estão a ensaiar os salmos. Ele não esquece a voz esganiçada de Ornella, o tom autoritário com que se lhe dirige e lhe dita ordens. Era só o que lhe faltava, aturar a antiga professora, baixar a orelha, obedecer-lhe.
Não sem motivo, exige-se amiúde a voz meiga e apaziguadora do padre Giovanni, sempre pronto a velar pela reconciliação, pelo bom entendimento do seu rebanho.
Quem visita esta igreja no Piemonte e se fecha na penumbra do seu granito, ou se ilumina na beleza dos seus afrescos magníficos, sente a paz, a boa paz herdada dos tempos da cavalaria, dos romeiros, dos homens e mulheres que buscavam a salvação da alma acima de todos os tesouros do mundo. É um bem precioso, raro, quase impossível de explicar.
Não há dúvida que a igreja está impecavelmente conservada. Quem aqui vem não imagina a que preço.
Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.
Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras.
Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita.
Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.
– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.
Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente.
– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?
O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.
– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…
Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana.
– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?
A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.
– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…