A SEITA

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Foto: Gilles Quesnot

 

A seita, desobedecendo a Martinho de Dume, seguia o tempo pagão.

Lunídio, Marcídio, Mercrídio, Jovídio, Venusídio, Saturnídio, Solídio eram dias de podar e queimar a lenha inútil, de lavrar e semear, de pastorear as ovelhas e criar os bácoros, de mondar e ceifar e moer o grão, de enxertar as videiras, de sacrificar a Juno a melhor das reses, de recolher o mel e a própole, de agradecer os frutos e abençoar o vinho novo, de lavar com água pura de uma fonte e cinza os altares domésticos, de festejar com o címbio os casamentos, de libar com a arféria em honra daqueles que haviam partido, de celebrar mês após mês os ciclos da lua e do sol e as velhas divindades que habitam os bosques e os rios e as noites gélidas do mês de Jano e das Februas.

O cronista João de Biclaro explica que no reinado de Leovigildo “eram estes pagãos em número incontável”, mas que no tempo de seu filho Recaredo principiaram a cessar, à medida que o catolicismo ia extirpando os resquícios que suevos deixaram, erguendo cruzes onde antes se venerara os ídolos, elevando nos pedestais das igrejas e guardando nos nichos das capelas imagens de santos que depunham e esqueciam em definitivo as estátuas dos falsos deuses e deusas de Roma. “Somente em poucas aldeias e rincões alguns restavam, tão renitentes e fanáticos que nem a lâmina das espadas, nem as ameaças de impiedosos castigos os ensinavam a seguir a verdadeira fé de Cristo”. Cheio de sarcasmo, chama-lhes João “purissima huius spei omnium” (“os mais puros de todos”).

Viterico, o monarca assassino de Liúva, tolerou a seita, outros a perseguiram. Como tantas vezes sucede na História, a memória dos “puríssimos” foi sepultada e desenterrada muitas vezes. Como cacos de uma ânfora, chegou aos nossos dias.

Quem sabe por que divinas mãos trazida!

A INTERDIÇÃO DE SONHAR

Shoayb Hesham Khattab
Foto: Shoayb Hesham Khattab

 

Qutuz, o sultão, rei dos mamelucos, decretou a proibição dos sonhos. Que ninguém sonhasse, sob pena de se lhe ser oferecida a viagem, violenta, para o mundo dos mortos.

Ninguém sonhava, portanto, no Cairo e em todo o vasto país que descia com o Nilo e se dirigia a leste, para lá do Mar Vermelho, até à Península Arábica. Ninguém sonhava. Sonhar era um veneno, tão nocivo quanto um preparado de cicuta ou a cuspidela certeira de uma naja. Por causa dos sonhos os homens acolhiam recados dos anjos e dos demónios, por causa deles erguiam esperanças, alimentavam revoluções, depunham imperadores, cortavam cabeças. Mesmo os sonhos mais comezinhos e inocentes (os que vogam no interior dos olhos das crianças, por exemplo) potenciam desgraças, inquietam a castidade das paredes domésticas, abrem grandes brechas na terracota, juntam-se aos beduínos tresmalhadores, conspiradores, urdidores de guerras e de mártires.

As mulheres apertavam grandes lenços negros à cabeça, para que as suas noites fossem tão escuras por dentro como por fora, sem estrelas, sem luar, sem oníricas imagens e vozes que pudessem ser recordadas de manhã. Os homens prendiam aos pulsos grilhetas e pesadas esferas de chumbo, não fossem as suas mãos tentadas a levantar-se no imo do deserto e segurar as rédeas de um dromedário, o cabo de um alfange, a frente de uma rebelião. Às crianças amordaçavam-lhes a alegria, o entusiasmo, a euforia. Tão pouco lhes destapavam a boca durante o descanso, porque muitas vezes é na calada do sono que se lavanta mais alto o mais fundo e irreprimível dos destinos.

Foi então que nasceu a lenda. Alguém se lembrou de afirmar que comendo tâmaras se obtinha o silêncio e o segredo tão asperamente procurados por toda aquela geração de não-sonhadores. Era como a resina da goma arábica com que se calafetava os interstícios no adobe para impedir que os escorpiões penetrassem sorrateiros nos quartos. Comendo tâmaras, ficava a boca tão saciada e tão fechada quanto a gula do sultão quando lhe traziam jovens amantes para serenar as desconfianças e horrores noturnos.

Em todos os bazares do reino tornou-se este fruto mais procurado do que o ouro ou a seda. Transacionava-se um punhado de tâmaras secos por caxemira pura.

Por essa razão deixaram os pobres de poder comê-las. Por causa dessa fome, não puderam nunca os pobres deixar de sonhar.

O CASAMENTO

Thierry Boitelle
Foto: Thierry Boitelle

 

Era um nevoeiro tão intenso que a manhã parecia perder-se dentro de si própria. Mal se avistava o perfil das árvores e o campanário e o rio de álgidas águas que corria ali propínquo.

A noiva chegou. Dir-se-ia que o branco decidira engolir toda a cidade, deixando-a suspensa de cada passo que a conduzia das escadas à nave central e ao altar. Prisioneiras da galilé, laterais uma e outra, as estátuas de António de Pádua e da Virgem Maria. No rosto de ambos, reverbera a vermelhidão da chama das velas e círios que o sacerdote fizera acender. A catedral, vazia, gélida, perfeita, ecoava.

A noiva entregou a mão ao noivo e os dois as mãos ao padre que os casou. Ela tinha sido homem e era agora mulher. Ele tinha sido mulher e era homem agora. Assim se encontravam e apaziguavam, finalmente, seres e sexos transviados, errantes, renascidos dos abismos humanos. Deus, que tudo vê e sabe tudo, não se zangava com o seu corpo transformado, nem sequer com o ministro que no sacramento os unia com marido e mulher. Era uma catarse. Toda a cidade se limpava do esterco, da imundície das feias palavras e horrorosas ameaças que praticara com aqueles dois.

Nunca se vira um nevoeiro assim. Era como se um manto de futuro arrependimento se levantasse já da memória mais crua. Os olhos míopes nada viam ainda. Somente os olhos acesos dos santos ardiam, os da Virgem puríssima e os de António, padroeiro dos fecundadores.

O PRESÉPIO

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Pintura de Antonio Allegri (Correggio)

Esperava-se nesse Natal de 1521 um milagre. Todo o Danúbio fora infestado de turcos, depois que Solimão tomou a cidade de Belgrado e se dispunha agora a despedaçar o reino da Hungria. Os otomanos espezinhavam e matavam, mas pior do que isso exigiam o horroroso devsirme, o tributo sobre o sangue. As crianças eram carregadas sem pingo de piedade pelos oficiais estrangeiros e levadas em cestos, à garupa dos cavalos ou das mulas; convertiam-nas depois à religião inimiga, transformando-as em máquinas de guerra leais ao sultão, esquecidas de tudo quanto tinham sido e de tudo que poderiam ter sido. Assim Solimão, o Magnífico, punia os cristãos, roubando-lhe a terra dos antepassados e deixando que os antigos filhos se transformassem nos castigadores vindouros.

Na ilha de Čakljanac, na pequena igreja bem a meio das duas margens do rio, alguém se lembrara de repetir a tradição do santo italiano de Greccio. Construíram, portanto, junto ao altar uma cabana com toros e colmo e dispuseram as figuras de barro. Eram figuras tão reais que a comoção se apoderou dos crentes e do padre. Rezava-se com lágrimas suplicantes para que os soldados do sultão não cumprissem o odioso imposto, e por isso as mães apertavam os filhos e ecoavam mais alto as palavras do pregador.

                                                    

Da cidade de Nándorfehérvár tinha partido uma guarnição. E foi em muito má hora que ali chegou, nessa noite pura em que toda a aldeia se reunia para celebrar o nascimento do salvador da humanidade. Os brutais janízaros irromperam pelo templo e fizeram cumprir a determinação do califa e imperador, retirando-os pela força (erguendo os sabres, arreganhando os dentes, cuspindo impropérios) os rapazes que deveriam tornar-se, eles próprios, a futura guarda do sultão.

Conta-se que nessa noite, desse teatro de barro, madeira e palha, desapareceu misteriosamente para nunca ser encontrada a figura do Menino Jesus. Que todos as figuras adquiriram a feição pungente de um velório e que os próprios anjos tapavam o rosto com as mãos castíssimas que deveriam erguer-se em solene devoção.

Este presépio é, ainda, o mais bizarro do mundo.

O PECADO

Jochen Bongaerts
Foto: Jochen Bongaerts

Era um padre jovem. Gostava ainda de recordar as coisas que fizera na aldeia antes de ser ordenado. O pensamento vogava às vezes para a pontezinha sobre o qual contemplava o riacho, a água muito limpa, os alfaiates flutuantes, as algas adormecidas, os pequenos peixes escuros. Gostava sobretudo de apertar em ambas as mãos as bênçãos que se cruzavam no seu caminho: sementes de nêsperas e de tâmaras, bolotas, grandes castanhas vergonteadas, nozes, seixos polidos. Algo profundamente seu lhe inspirava essa ciência da palpação, como se o tato, o desocultar da pele, o ardor dos dedos conjugados, o fizesse compreender melhor os desígnios do Senhor.

Isso mesmo foi o que disse, quando o surpreenderam, ofegante, de olhos fechados, abraçando-a pelas costas, acariciava hipnotizado, com frémito, com volúpia, os belos seios de Irene, a moça que havia semanas o servia na paróquia.

FÓSFOROS

Fósforos - Chema Madoz
Foto: Chema Madoz

O velho recolhia todos os paus de fósforo que podia encontrar. Primeiro julgaram-no um desses artesãos que constroem castelos e navios. Mas ninguém lhe viu vez alguma arte ou obra, e por isso com o tempo passaram a ver nele um doido.

Os pequenos paus ardidos dão uma impressão bela do que é a nossa vida e do que a nossa morte é. Alguns são facilmente decapitados, outros mantêm inteira a cabeça cínzea e o tronco chamuscado. Unidos uns aos outros com paciência e vagar, eles erguem paliçadas, pontes, jangadas entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. São como poemas escritos para durar um instante de milagre e para sempre de tristeza. É preciso compreendê-los.

Em dezembro, quando os dias se apagam mais cedo, muito próximo do Natal, encontraram o velho morto em casa. Jazia estendido no chão, no interior de uma gaiola gigantesca, composta por milhares e milhares desses encantadores pedaços de madeira queimada. Era um pobre mausoléu.

Nele se guardava ou prendia o velho, ninguém até hoje foi capaz de decifrar de quê ou porquê.

O DIOSPIREIRO

Florentin Vinogradof
Foto: Florentin Vinogradof

Nessa Consoada não houve neve, apenas chuva e vento. À volta da lareira não foram postos os potes de ferro, nem se escutaram vozes concordantes, extasiadas e nostálgicas. A velha cozinha recebeu somente um hóspede. Viera para cumprir o voto: enquanto fosse vivo, ainda que por uma noite no ano, aquelas paredes sairiam da ténebra e do silêncio e seriam adoçadas pelo brasume e pela sombra cada vez mais tremelicante das suas mãos. Tinha esse dever.

Sobre a longa mesa de pinho abriu a garrafa, desembrulhou o jantar, sentiu o abandono garroteá-lo, mastigou sem gosto. Os talheres enferrujados da casa, a lareira mascarrada e mal desentupida, a ausência de cânticos, a falta do aroma da canela pareceram-lhe a parte significativa e incompreensível do seu destino. Era o último, tinha essa obrigação!

Estendeu ao comprido do soalho, paralelo ao lume, um saco-cama, deitou-se nele e ao cabo de muito tempo adormeceu. Quando horas mais tarde abriu as janelas, foi surpreendido pela luz lavada, veemente, puríssima da nova manhã. Havia rútilos e revérberos macios e dolorosos, que os olhos aceitavam e rechaçavam ao mesmo tempo.

Saiu então para o pátio, caminhou pelo horto, andou no meio das ervas e das árvores, seguindo os regatos e os trilhos da murta. O cheiro do verde era tão intenso que em mais do que uma ocasião se sentiu compelido a descer as pálpebras e a aspirar em longos haustos o que da terra invisivelmente se erguia. A dada altura parou a contemplar um diospireiro. Estava ainda carregado de frutos: velhos e encarquilhados dióspiros, repletos de bolor, iluminavam os ramos quase secos, dando-lhe uma cor de cobre e de fogo e uma feição amicíssima.

O homem espantou-se. Não podia entender como, ao invés de todos os outros em volta, aquele diospireiro não tivesse sido despojado pela intempérie ou pelos pássaros famintos. Comovia aquela visão do tempo miraculosamente adormecido. Com algum esforço de imaginação, o homem conseguiu ver o desenho e o amor das árvores incontáveis que nessa altura do ano as crianças decoram com enfeites, luzes e flocos de algodão. Sentiu então que não estava só, que nalguma parte deste ou do outro mundo o aconchegavam.

O MOSCARDO NA SECUNDÁRIA DE FAFE

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Há pouco mais de uma semana, a Biblioteca da Escola Secundária de Fafe recebeu-me calorosamente em mais uma viagem de O Moscardo e Outras Histórias, praticamente na celebração do aniversário do seu lançamento.

Ora, é desse tempo e dessa viagem que se têm construído algumas das minhas melhores memórias recentes. Porque o livro, que se quis sem editora e imaculadamente meu, deixou e vai deixando de me pertencer, lido e analisado já por leitores de todo o país, de idades tão distintas como as que separam os meus jovens sobrinhos dos meus pais, de lugares tão diferentes como os que vão de uma amada aldeia incrustada na serra algarvia a uma universidade nos EUA ou a uma ilha do Pacífico.

No dia 28 último, alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Fafe deram voz aos pequenos contos do meu livro, iluminando-a com a voz e a música e o teatro e a ciência da sua leitura. Chovia tanto nessa feia tarde de novembro. E foi (e já) uma memória tão bonita!

Ainda que pessoalmente haja agradecido ao Carlos Afonso e à Sara Freitas, ao Augusto Lemos e à Gabriela, à Esperança e ao António Joaquim, aos colegas de Departamento e aos que dele não fazem parte mas que quiseram assistir ao encontro literário em torno de O Moscardo, aos alunos das turmas 10.º J e 12.º M, aos funcionários envolvidos, reitero o meu muito obrigado!

Dessa sessão resultaram as belas fotografias que deixo em rodapé e a leitura da Sara Freitas que hoje publico (bem-hajas, Sara!) e que passará doravante a pertencer ao arquivo crítico desta página.

Posso somente, e em jeito de súmula, desejar que este grande inseto (António Joaquim Gonçalves lembrou oportunamente o significado do moscardo, animal espezinhador dos camponeses) continue a voar. E a perturbar o nosso silêncio.

 

 

TOCATA E FUGA

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Foto de arquivo pessoal (2019)

 

Daqui avista-se mar e rio.

O mar e as formações rochosas que descem do paredão até à linha dos seixos e à espuma. Se por elas saltitamos, vemos charcos salgados e pequenos tufos de funcho-do-mar (resistindo a tudo, semelhantes a borracha), e muitas vezes o pôr do sol. Em cima, no parquezinho onde o verde dos chorões se ilumina todo o ano, perfilam-se as autocaravanas dos turistas estrangeiros, automóveis com casais de meia idade em silêncio, às vezes um ou outro solitário cismando ou o cano de uma objetiva sobre um tripé. Em baixo, no abismo do grito das gaivotas, o eco da rebentação, o chiar da areia quando as ondas recuam, a linha da água encapelando-se, embatendo nos rochedos, esbranquiçada, mansa e violenta, até ao ponto de focagem em que o céu, as nuvens e o sol nela se fundem.

Mas também o rio e a cidade, também esta neblina que agora se ergue da praia e torna mais belos, quase feéricos, os pontos de luz ao longe, nos postes elétricos, nas janelas banhadas pela claridade azul dourada do fim de tarde, essa cortina de vapor que nos confunde as formas e as cores e se entranha na roupa. O rio que é decerto não mais do que um rodapé sobre o qual os nossos olhos distantes principiam a derivar da realidade, a fantasiar, a narrar o mesmo sonho de sempre («Um dia hei de aqui viver!»). A cidade que tão bem se conhece, mas que nos parece outra, tranquila assim, adormecida, silenciosa da Foz à Ribeira, da Ponte D. Luís ao farol e à pérgula, ao terminal de cruzeiros, à refinaria e às praias de Leça, ao fundo, além, na penumbra já.

Fujo.

Os meus sábados são (por esta altura da existência) lugares. Em cada um deles coso e descoso e volto a coser uma certa pele vadia que me acompanha desde criança. Gosto de me perder nas paisagens, de me esquecer nelas, de me redescobrir vivo no silêncio e nas coisas que toco com mãos livres e ávidas.

Como Bach, como Pessoa, como van Gogh ou Sorolla (que comparação esta!), componho, escrevo e retrato em simultâneo. E compondo, escrevendo, retratando (verdade ou fantasia, não importa), sinto-me aconchegado a outro eu que neste espaço e neste tempo deseja permanecer (um dia) para compor, escrever e retratar mais dentro, mais profundamente, mais em paz consigo mesmo, feliz de se juntar à maresia, ao areal, ao frio, às silhuetas que aqui (ao crepúsculo) se multiplicam e renascem e hão vir muitas vezes para matar a morte que lentamente os mata, como a mim a morte me mata sem pressa. É algo como uma concha mental e cardíaca. Um dia hei de aqui viver!

Fujo, portanto.

Os meus sábados servem para caminhar pela costa, para me deliciar com plantas e aves a que raros prestam atenção, para criar poemas que ninguém lê, para fotografar os avanços do oceano e da velhice na minha vida.

Por muito que me esforce, não consigo transferir para as palavras esse maravilhamento. Seria prudente, como Caeiro, ficar-me pelo sentir. O amor que me permite disparar o flash é à prova de grandes discursos. O mar e o rio, as ondas e a cidade, a neblina e o frio que se levantam deste sábado, neste miradouro, são talvez um prémio, a recompensa de dias difíceis que me pedem mais do que me posso dar.

Talvez seja algo que nos acontece a todos: perdemos aos poucos o controlo do quem somos e do que fazemos. Talvez nos sobre esta nesga de ilusão, este clarão que se acende quando o dia se apaga e o lusco-fusco transforma tudo numa enorme presença cósmica. Talvez este banco de pedra, onde me sento, seja aquele umbigo do mundo a que chamavam na Antiguidade “ônfalo” e punham dentro de uma gruta habitada por uma sibila.  Talvez, como eu, milhões de humanos precisem de fugir de si uma vez por semana para de novo se reconhecerem na mais ampla e formidável escuridão.

Daqui avista-se o mar e o rio. O que quer que eles signifiquem.

SOPHIA

Sophia - Eduardo Gageiro
Foto: Eduardo Gageiro

 

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas

 

Os meus alunos reagem sempre com surpresa quando nas aulas lhes digo que “amo” este ou aquele escritor, especialmente se o dito é ou foi homem, sobretudo se o digo com a sincera entoação com que se diz (ou deve) amo. Recordo palavras deste género para com um Tomas Tranströmer, um Herberto Helder, um Salah Stétié, um Fernando Pessoa, um Tonino Guerra, um Pablo Neruda, um Federico García Lorca, um Czesław Miłosz, um Ruy Belo.

Cada vez menos acostumados à subtileza da arte e à figuração do discurso, os meus alunos perguntam à boca cheia, como quem afirma, se sou “panão”.  Ou então, pior ainda, sugerem-no com piadas de caserna.

Escuso de dizer que me incomoda a mistura de preconceito e estupidez (porque os miúdos são cada vez mais estúpidos, mesmo quando são espertíssimos), a má-criação e a ousadia, a certeza de que o futuro vem já muitíssimo comprometido a julgar pela má amostra do presente, e que a escola, em vez de se afirmar como um espaço de elevação, curiosidade e mente aberta, acolhe adolescentes torpes, atrasados e imbecis.

Vem tudo isto a propósito, ou talvez a despropósito, do meu amor (nunca disfarçado nem diminuído) por Sophia. Porque eu amo, na verdade, Sophia.

Sophia de Mello Breyner Andresen é, de resto, um nome quase religioso, que em nós entra como o rútilo do sol nas manhãs mais doces e nos acompanha pelo dia fora, desabrochando pensamentos, preenchendo-nos de reflexões, escandindo frases belíssimas que a boca repete e os olhos fixam.

Não farei aqui um panegírico (detesto louvaminhas), mas, e com a toda a genuína ingenuidade que pode um leitor de longa data aquilatar, não resisto a biografar a minha sedução pela obra da autora de A Menina do Mar, d’ A Fada Oriana, d’ O Cavaleiro da Dinamarca, das Histórias da Terra e do Mar, dos magníficos Contos Exemplares, de Coral, do Livro Sexto, de Geografia, de Navegaçõesou de Ilhas, estes últimos livros de poesia puramente solares e veementes, ressonantes, espumosos como o próprio mar que anima e inspira.

Quando, nos meses do verão passado, ouvi e reouvi a entrevista de Isabel Nery a Luís Caetano, no programa A Ronda da Noite, a pretexto da biografia que acabei por ler sobre a escritora, não pude deixar de me surpreender com o sofrimento sentido em cada revelação, em cada defeito e pecado a ela apontados, em cada linha que devolvia essa mulher à condição humana. Talvez porque, admito-o, ao longo de décadas fui fabricando a ideia de que Sophia era uma deusa, uma espécie de númen tardio do panteão grego, tão de mármore quanto Atena ou Apolo, tão misteriosa quanto Hermes ou Dioniso, e não humana já, não deste mundo de vis e covardes, e muito menos com taras como a de usar pinça para tocar em dinheiro ou de lavar o cabelo com vinho no mar.

Sophia é, mitomania particularíssima esta, a minha própria evasão para o oceano.

Quando viajo até à Foz do Porto, quando caminho pelo Passeio Alegre, quando me demoro na pérgula colorida que aí nos abre o olhar sobre o azul do céu e do mar, quando me debruço sobre as grades ferrugentas junto ao farol, quando me salpica o mesmo sal que oxida a pedra e o ferro, eu repito de olhos fechados versos como «Um dia serei eu o mar e areia, / A tudo quanto existe me hei-de unir, / E o meu sangue arrasta em cada veia / Esse abraço que um dia se há-de abrir».

Quando me dou conta da corrupção galopante que nos asfixia de alto a baixo, e nos envenena a verdade e o mérito, e nos faz desacreditar no país a que devemos a vida, a língua e o nome, revolto-me, sublinho outros versos, outro dizer e outra lucidez de Sophia, outra coragem como a que pôs em Mar Novo: «Este é o tempo / Da selva mais obscura // Até o ar azul se tornou grades / E a luz do sol se tornou impura // Esta é a noite / Densa de chacais / Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.»

Quando, numa turma do básico ou do ensino secundário, me sinto impelido a citar, a exemplificar, a explicar um tropo, uma figura de estilo, ou uma sequência descritiva, um efeito de linguagem com adjetivo e nome, uma qualquer maravilha sintática e semântica, recorro invariavelmente a textos como os que Sophia compilou nos seus livros narrativos ou mesmo nas notas poéticas em prosa, como em «Caminho da Manhã» do Livro Sexto, que escutei uma vez a Eunice Muñoz na Antena 2. Porque a escrita desta mulher é, de facto (metáfora provavelmente gasta) repleta de luminosidade, esquadria e perfeição. Ensinar gramática com Sophia é diferente. É como trabalhar num laboratório com música. Ler em voz alta as suas histórias é regressar aos tempos em que o «Era uma vez» silencia miúdos birrentos e os faz comer a sopa que não querem (tem-me sucedido fazê-lo a turmas do 8.º ano e encontrar o rosto dos miúdos desviados do livro, a cismar, a ouvir meio absortos, seduzidos, esquecidos da aula, a amar Sophia à sua maneira, incertos de tudo, como se as palavras dela os hipnotizassem). Esquadrinhar os seus poemas é aventurar-nos num exercício de arquitetura clássica, com pórticos e pilares e terraços limpidamente desenhados e sem mácula.

Estudei no Porto, no Campo Alegre. Algumas vezes visitei o Jardim Botânico. Quando o fiz, pus a mão no rapaz de bronze a meio do buxo. Pensei nesse Hans pelágico, bisavô, vindo do norte da Europa. Evoquei as antigas quintas e as muitas árvores que do lugar onde hoje arqueia a Ponte da Arrábida, lá do alto, desciam até ao rio. E não há vez em que não me lembre das suas personagens ascetas ou aristocratas se me embrenho pelas ruas muito direitas da Foz e me deparo com essas janelas aximezadas onde secretamente espreitam candeeiros acesos, sofás de couro e estantes repletas de livros.

Sophia é todo um espaço mental que não sei confessar ou traduzir. A sua estatura é enorme e as raízes que dela despontam profundíssimas, porque é porventura o caso literário mais próximo de uma enorme árvore. Sophia ampara-nos aos quatro ou cinco anos e torna-se um caso sério de amor. Eu, que nunca a conheci pessoalmente, conheço-a desde as aulas de português do professor Miguel Monteiro, saudoso mestre que nos leu na bibliotecazinha do ciclo preparatório um excerto de A Noite de Natal. Nunca esqueci essa manhã.

Brevemente, no dia 6 de novembro, completar-se-á um século do seu nascimento. Haverá seguramente uma miríade de efemérides celebrativas, bustos e placas descerrados nas nossas ruas, leituras e dramatizações nos teatros nacionais, testemunhos emocionados na televisão e nos jornais. Pela minha parte, julgo tudo isso merecido. À minha maneira homenageio-a lendo-a e fazendo-a ler. Aos meus sobrinhos, pequenos ainda, ofereço já os contos maravilhosos que hão de constituir parte da sua formação e afeto literários. Conto-lhes o enamoramento de Vanina e Guidobaldo, a distração da fada boa que se equivocou, a mágica circunstância da menina que vivia com um caranguejo, um peixe e um polvo.

Talvez no futuro outros jovens leitores de agora tornem mais fácil o ensino de então. Sophia não pode faltar nas salas de aula de 2050 ou 2100 ou 2119. Nessa altura, quem sabe, estes e outras palavras afins, façam mais sentido.

Sophia, porque a amo, merece!