OS COLECIONADORES

Gabriel Jablonsky
Foto: Gabriel Jablonsky

 

A casa encheram-na os três com lixo.

Primeiro o anexo e o pátio, onde depositaram vasos, bidões vazios, serapilheiras que encontravam em estado razoável, lonas e plásticos perfeitamente bons, vassouras e baldes ainda de aproveitar, colchões com molas ao dependuro, uma ou outra ferramenta comida pelo óxido, tábuas cheias de musgo, telhas e blocos de cimento, chapas dignas de ser polidas e reutilizadas, mas sobretudo (no meio do quintal, em cima de uns barrotes) uma estátua de gesso decapitada.

Depois, aos poucos, foram atravancando a despensa, os corredores, as arcas, as estantes, as gavetas dos armários, a parte de baixo das camas. A casa engordava com todo o tipo de objetos: uma coleção impressionante de bagatelas, maquinetas incompletas, sacolas, adereços, caixotins, relíquias, revistas, coisas obsoletas e sem préstimo, tudo muito depositado e arquivado, já não numa certa lógica taxonómica que no início dispunha a colheita por género e semelhança de produtos, mas a esmo, ao calhas, onde pudesse ser.

Os três farejavam em grupo, tomavam como seu o que entendessem ter sido desprezado injustamente pelos outros, levavam para reciclar. Era a sua missão na terra. Com o tempo reduziu-se a ela a razão por que existiam. No pouco espaço sobrante entre as paredes, repetia-se com esforço cada vez mais acrescido as tarefas básicas. Cozinhar, evacuar, tomar banho não despertavam nem uma terça parte do entusiasmo que se punha na sorte de encontrar um tecido, uma bugiganga, uma louçainha, um manipanso, uma piaçava, um desperdício qualquer.

Assustaram-se os vizinhos, vendo crescer imparável o cemitério de quinquilharia. Sentiam asco pelos três, cujo fedor os anunciava e denunciava. Dirigiam-lhe preces que se transformaram em injúrias e ameaças. Dizia-se, por exemplo, que o velho não deixava a mulher e a filha já cinquentona alimentar-se devidamente, citavam-lhe as máximas de que “O muito cagar ensina a pouco comer” e de que “Poupando água e sabão, ganharás o teu milhão”, sabia-se de fonte (talvez não muito limpa) que a banheira a guardavam eles para algum traste que pudesse servir-lhes e para não para se servirem eles do fundamento de terem inventado as banheiras.

As autoridades foram alertadas. Uma, duas, três, mais vezes ainda. Demoraram a aparecer. Quando finalmente o fizeram, o trio havia-se amotinado no seu antro. Esquálidos, macérrimos, de olhos exorbitados pela fome e falta de luz, quase grunhindo, receberam de má vénia as vomitantes e atónitas assistentes sociais, que mal podiam manter-se em pé e ainda assim foram capazes de uma resolução.

O delegado de saúde explicou à presidente da junta que se tratava de um deplorável caso da síndrome de Diógenes e que era preciso, a bem da higiene pública, agir de imediato. Foi com urros e pranto que a família foi retirada à força do ninho de imundície em que vivia. Com espanto e náusea viu a vizinhança, camião atrás de camião, despejar-se o bojo imundo da casa, o que a muitos lembrou (não sem propriedade, acrescente-se) uma valente uma diarreia, ou uma disenteria, limpando-nos sem dó nem piedade as tripas.

BRUXA

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Fotografia: Cristian Lee

 

Nas tardes soalheiras os vidros faíscam, os diospireiros vermelhejam, as velhas procuram no seu passo vagaroso (coturnos nos pés, lenços na cabeça) os estendais.

O som das árvores, o amor das rolas, o fosforejar do céu são dádivas de que se alimenta o sono. O tempo para, adormece-se só de olhar, cai sobre os camponeses uma poalha repleta de luz.

Derreada, muito para lá do alpendre, Amância fareja as ervas certas. É preciso que alguém acredite esta noite. Com todo o cuidado, usando um velho punhal, separa os talos das flores amarelas de damiana. Depois junta-os num cestinho.

Um sino ouve-se ao longe, desperta-nos do torpor: no inverno, as tardes soalheiras escrevem o seu poema devagar.

Esta noite um homem fará outra vez amor vigoroso. Se sim se não, amanhã toda a aldeia o saberá.

MATRIOSCAS

Jerome Zakka Bajjani
Fotografia de Jerome Zakka Bajjani

 

Enquanto num canal de música estrangeiro se reproduzia uma nova versão de Teardrop, Elena organizava e colava fotografias das mulheres da família. Levou anos a conseguir alguns dos espantosos retratos que agora lhe pesavam como ouro nas mãos. Nas primeiras páginas juntou os seus, em sequência anacrónica, começando na última (que um fotojornalista americano lhe tirou (meses antes da gravidez no Metropolitan) e andando sempre para trás, de viagem em viagem, de tour em tour, até aos primeiros anos na Academia de Ballet, chegando à escola secundária e à infância e aos dias de recém-nascida.

Depois vinham três fotografias da mãe Maria Lyubomirova, de um colorido desmaiado (no dia da formatura, no casamento e consigo ao colo). Seguiam-se, andando sempre para trás no tempo, retratos em tons de sépia da avó Marina, e a preto e branco da bisavó Yeva e da trisavó Ania (este último num daguerreótipo, muito ulcerado, quase sumido). Finalmente, em estampas que lembravam pagelas, encaixou as ilustrações da tetravó Oxana e da pentavó Maria Andreïevna.

Algo de visceral se transmitiu naquelas sete mulheres: o desprezo pelos homens. Todas elas foram ou ficaram divorciadas nalgum momento das suas vidas, preferindo a companhia das suas semelhantes em detrimento daqueles que ajudaram a parir as filhas. Todas elas perceberam que o mundo seria melhor se os homens caíssem do seu pedestal de ferro e as mulheres o adquirissem, por direito, devoção e catarse. Entre caloteiros, batoteiros, putanheiros, traiçoeiros, pederastas e vis, resumia-se a longa história dos machos da sua árvore genealógica.

Elena observava com carinho as faces maceradas de todas essas mulheres que a antecederam. Reparou na curiosa expressão igual que todas desenhavam no arquear das sobrancelhas, uma espécie de ar inquisitivo como quem pergunta “Quanto tempo?”

A bailarina não sabia a qual das matrioscas atribuir cada um daqueles rostos e do seu próprio rosto, se à maior de todas, se à semente mais funda. A maternidade impressionava-a de um modo veemente. Era um orgulho enorme pertencer àquelas mulheres, nascidas umas das outras, ser uma mais, uma também, na cadeia infinita que as unia como uma dinastia de dor: acariciou por isso o ventre dilatado.

Chamaria à sua filha Svetlana, que na língua russa significa “luz”, “bela”, “abençoada”. Svetlana haveria de principiar (possuía já essa certeza) um outro ciclo de sete mulheres, fortes, artistas, honestas. Dentro de si, no oco do seu corpo, novas matrioscas seriam geradas, bolotas, bolotazinhas… Um dia, uma pentaneta teria a responsabilidade de continuar a linhagem…

Elena folheava o álbum, acariciava a barriga. Na televisão a música acabava. Que orgulho!

CALIMA

Mohammadreza Momeni
Fotografia: Mohammadreza Momeni

Em março o vento subitamente mudou. Sobre a ilha pôs-se a alastrar uma cortina de pó tão espessa que por ela se podia olhar diretamente o sol. O ar tornou-se insuportavelmente seco e sujo, cansando e ferindo o pouco verde dos catos e dos arbustos, entre os quais se via o sulco e às vezes o corpo dos lagartos negros que aí habitam.

Lanzarote ficou coberta por essa neblina de africanas areias durante um mês. Os naturais não sabiam a que santo ou a que deus suplicar, ou com que demónio negociar, o fim da provação. Não faltava quem predissesse que todos acabariam sepultados, vivos ou mortos, debaixo do tenebroso e prolongado calima que não dava mostras de terminar.

Um eremita de nome Hilário, já no fim da sua vida, disse:

– Abençoada é esta terra, pois nem aqui o mal tenteia as suas raízes!

Havia nas palavras de Hilário orgulho e amargura. Cinquenta anos antes havia ele plantado uma figueira e nela não colhera um único fruto. Velho, embrulhado em andrajos, feito de pele e osso, insistiu:

– O diabo tem medo desta ilha. Aqui os vulcões limpam com fogo e lava as avarentas coisas dos homens, as areias lavam os olhos cobiçosos, o sal extermina o que possa sobrar dos nossos pecados.

De novo se percebia júbilo e tristeza na sua fala. Os que os escutavam, porém, asfixiados pela nuvem vinda do deserto, não sabiam escolher se tamanha era a maldição de se ser puro, se enorme a fortuna de se ser desgraçado.

O ENTRUDO

 

M. D. Larson
Foto de arquivo pessoal

 

É uma tradição: todos os anos o velho lavrador empilha no meio de um campo lenha da poda, cascas de eucalipto, pequenos toros, ergue uma estaca de mimosa e nele prende um boneco feito de colmo e palha (com umas pantalonas de ganga e uma esfarrapada camisa aos quadrados, um boné ou um barrete enfiado na cabeça obclávea), a que dá o nome de Januário.

À noite a miudagem traz consigo a rapaziada e esta atrai as raparigas em idade de casar. Com estas vêm as mães, com as mães os pais, com todos os nostálgicos avós, para quem as tradições são sagradas e sem mácula (só os que as não têm trazem as imprestáveis tradições de fora) e com a multidão vem o vinho. Faz-se uma roda, canta-se, ri-se, chora-se em tom jocoso o boneco que às tantas fica em chamas. É a morte do inverno, o convite a que a primavera entre. O braseiro levanta-se tão alto e é tanta a algazarra que de ano para ano se alarga o círculo e o ruído alastra. Todos se divertem à custa do carnavalesco Januário, do Pai das Orelheiras, do Entrudo bisonho, em breve reduzido a cinzas, enquanto em volta a turba gira e canta.

O lavrador sente, então, um aperto. Em silêncio, compreende essa grande lei, essa necessidade de a natureza se limpar do velho para que o novo tome o seu lugar. No auge da folia, ninguém repara no como se avermelham os olhos cansados, e se o notam é do fumo, das brasas, do vinho. É fácil confundir!

O ALFARRABISTA

Andreas Agazzi
Foto: Andreas Agazzi

Entre o alfarrabista e o escritor cresceu com o tempo a amizade: um vende os livros que procura e coleciona, o outro coleciona os livros que compra e lê, um pela necessidade de viver, o outro pela necessidade de existir, ambos por amor aos escritos raros de outrora, de cuja sabedoria se alimentam uma boa pena e uma loja de alfarrábios.

Por exemplo, este Elucidário do frade Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, espécie de antigo dicionário de que o escritor gostaria de servir-se para ficcionar um tempo anterior ao seu, começando e concluindo-o com as palavras que deveriam sair das mãos, da boca e do pensamento das suas personagens.

O alfarrabista soube da existência dos dois volumes, editio princeps, em excelente estado de conservação em Bojnice, uma cidadezinha a quatro horas de Bratislava (espantoso o caminho que as palavras tomam) e num lanço medido, com a cautela que a experiência e a devoção ensinam, arrematou-os. Pede agora uma fortuna por eles e a obra merece-a, tanta a qualidade que nela pôs o franciscano, tão longe a foi resgatar, tamanha a sorte de a ter encontrado, tanto o empenho e meticulosidade tidos no leilão, tão surpreendente o preservado aspeto das fragílimas páginas que, de luvas calçadas, folheia.

O escritor conhece bem estes degraus, este cheiro (de papel húmido, tabaco e óleos de lubrificar as muitas maquinetas que também aqui se exibem e às vezes transacionam), esta sensação de alegria pueril misturada com tristeza nostálgica, como antecipando nos seus livros futuros o destino dos velhos, este infindável cemitério de tomos, tombados uns (como manda a etimologia), outros de pé, às cavalitas uns dos outros, postergados, dispostos por toda a parte em pilhas bárbaras, amarelando, expostos à indignidade de uma morte certa e lenta. Enfim, salvar deste inferno todos os livros que o habitam é impossível, um ou outro isso sim, é como tirar a sombra de Virgílio do marasmo secular e fazê-la (dando-lhe uma segunda vida) subir a uma floresta para chamar um poeta tresmalhado e conduzi-lo à presença da mulher que amou, não é muito mas sempre é alguma coisa, e estes dois volumes são um luxo, o escritor delicia-se com eles, já esqueceu a mágoa de há pouco, já lá vai a pungência dos títulos assim malbaratados, já a sua atenção é toda (já que de títulos falamos) para esse que na oficina de Simão Thaddeo Ferreira se fez duplamente imprimir no ano de 1798 e que por inteiro se lê assim ELUCIDARIO DAS PALAVRAS, TERMOS, E FRASES, QUE EM PORTUGAL, ANTIGUAMENTE SE USÁRÃO, E QUE HOJE REGULARMENTE SE IGNORÃO: OBRA INDISPENSAVEL PARA ENTENDER SEM ERRO OS DOCUMENTOS MAIS RAROS, E PRECIOSOS, QUE ENTRE NÓS SE CONSERVÃO: PUBLICADO EM BENEFICIO DA LITTERATURA PORTUGUEZA, E DEDICADO AO PRINCIPE N. SENHOR.

De tanto o desejar possuir um, de muito o pretender vender o outro, escritor e alfarrabista apertam as mãos e dão um abraço. É incrível a semelhança desta cena com a que faria uma criança ao receber na manhã de Natal um divertimento para dele gouvir e com ele anpróóm folgar (já do precioso cartapácio nos servimos) e daí essa mesura do vendedor, esse gracir do comprador, este bitafe de amizade sã que assim sela um negócio mais, um negócio como os outros, talvez um tudo ou nada mais ingenioso, o alfarrabista diz o preço, o outro assina o cheque (raro é também este proceder, que o uso é um cultivador de letras ser pobre e muito regatear) e logo logo vêm os dois tomos numa sacola, muito protegidos (como um par de recém-nascidos), escadas abaixo, inequívoco o facto de que doravante farão a delícia de quem bem ou mal escreverá com eles sobre o que sabe e sobre o que não sabe, até pode ser que saia daqui uma obra-prima e que a não condenem futuramente a coisa pior do que esta arrecadação de papel, inequívoco também a circunstância de terem os dois volumes redigidos pelo menor observante da real província da Conceição (franciscano, já se dissera) custado o equivalente a muitos salários mínimos neste país de exploradores e explorados, e pronto, ficaram feliz o escritor, satisfeito o alfarrabista, contentíssimo o autor destas palavras, todos cansados, é hora de ir dormir, não sem antes um ir verificar se o cheque está bem assinado (como não, que escrúpulo tão desapropriado!), outro reabrir esta e a outra partes do Elucidário (que excitação essa a de remexer em tantas palavras deixadas de usar-se na nossa língua, que pena!), outro ainda verificar se nada falta e tudo condiz com a ideia original (mas qual ideia, se sozinho se escreveu o conto?), e todos a gozar um bocadinho mais essa sensação de conquista, que amanhã é outro dia e tudo terá passado já, já as emoções da véspera serão cinzas, já parecerá certíssimo o ditame de que nada de novo há debaixo do sol e que tudo é vaidade e vento que passa.

O PESCADOR

Birgül Çildogan
Foto: Birgül Çildogan

 

Numa aldeia do Congo, um pescador saía todas as manhãs para o mar sobraçando, com as redes, um livro de poemas. Regressava a casa com um par de peixes e o ar de quem se havia presenciado um prodígio. Os vizinhos admiravam-se com a pescaria nunca mais do que humilde, com a expressão de perplexidade que recolhia para terra com o barco, com a sua tenacidade, com o livro que venerava. Se lhe perguntavam porque não procurava outras redes ou outras águas, o pescador respondia invariavelmente que estava tudo muito bem assim.

«Não apenas o peixe trago do mar».

Ninguém ali era capaz de entender que outra coisa trazia o pescador.

UMA CONVERSA

Tuna Angel
Foto: Tuna Angel

 

No leste da Escócia, em Aberdeen, o vento e a chuva são infalíveis nesta altura do ano. Um e outra costumam fustigar as janelas a maior parte do dia, razão por que uma das grandes necessidades aqui é o bocado entre turnos do trabalho, ou então à noite, que se passa ao lado de um par de canecas altas de cerveja, chips e caraoque. Os pubs existem por toda a parte, muitas vezes porta sim, porta sim.

Nélida viajou de Espanha para estudar os artefactos e incisões nas rochas na aldeia de Rhynie e para rever e documentar-se sobre as maravilhosas, antiquíssimas e enigmáticas esferas de pedra que nas últimas décadas foram desenterradas do chão misterioso desta e de outras regiões limítrofes, aumentando a aura que desde Júlio César esconde este país do mundo fácil e óbvio do saber.

Em mau inglês pediu e foi servida. A língua franca tem ainda muito que se lhe diga. Alguém pusera a tocar The Whole of The Moon numa Jukebox anacrónica. Almoçava-se, bebia-se e fumava-se alegremente em linha, em cadeiras altas, rostos desconhecidos frente a frente, nos dois lados da simétrica bancada, separados pelo exército de galheteiros, saleiros e pimenteiros e pelas inevitáveis bases dos copos. Discutia-se tudo, ao mesmo tempo, em pares quase sempre, às vezes em grupo, um falando todos ouvindo, como nos tempos comunitários das tabernas: futebol, caça às orcas, fraudes eleitorais, pornografia. Nada é mais prazenteiro que uma boa conversa, mantida à custa do álcool e de um prato de bangers and mash ou de surf and turf ou mesmo haggis, seguido de um victoria sponge cake ou de um scone com geleia.

Nélida explicou a sua paixão. Um dos comensais sorriu: para ele a História era como a Matemática, uma treta.

– Como assim?

– Vocês historiadores passam a vida a tentar dizer-nos que o passado foi assim, deixando de fora informações que nunca poderão ter e que seriam preciosas para que soubéssemos como tudo aconteceu realmente…

– O senhor exagera. A História baseia-se em provas, em testemunhos, em evidências, em documentos, caramba…

– E que importa dizer que foi assim, se não for capaz de explicar todo o mecanismo de emoções, todas as fases de um pensamento, todo o cenário de uma batalha, todas as perspetivas de uma revolução, toda a verdade escondida na mentira de uma omissão e de uma peça a menos?

– Meu caro senhor, isso é como o paradoxo de Tarski.

– Ora, explique lá!

– Qualquer coisa como isto: entre o zero e o um há todos os números. Se os números são infinitos, então será logicamente impossível avançar de um número para o outro. E, no entanto, veja: tenho aqui um pedaço de pudim. – Engoliu-o – E agora tenho zero pedaços de pudim. Meu caro, a História é prática, é razoável e tem imenso charme!

Todos em volta se riram. Muito bem respondido. Pediu-se uma rodada de Belhaven para celebrar. Nélida recusou. Agora só o café.

Quem assistia sem participar olhava o céu fusco, de uma cor esverdeada e suja, que caía sobre os telhados e sobre a marina. Ao longe, um navio de carga descia a Edimburgo ou a Newcastle. Também ele parecia cheio de sono e sem vontade de tagarelar.

PARABÓLA SOBRE O AMOR

Samanta Krivec
Foto: Samanta Krivec

 

Um homem amava perdidamente uma mulher, mesmo não sendo correspondido, apesar de saber que jamais ela o amaria, ainda que admitisse que o amor é muitas vezes um veneno capaz de consumir-nos. Amou-a anos a fio até começar a esquecer-se de amar, porque tudo na vida esquece e cai, como caem (desfeitas em pó) as flores muito belas que nos ofuscam.

Um dia, o homem voltou a ver a mulher. Estava tão envelhecida e distante do rosto com que sonhara interminavelmente nas suas noites da juventude que não pôde deixar de sentir-se fascinado: para se libertar do sofrimento, ele antigamente punha-se a imaginá-la velha e feia. Agora, por piedade, esforçava por recordar-se da sua beleza aos vinte anos.

 

 

ONDE PARA O RISO?

Julien Oncete
Foto: Julien Oncete

 

Um jovem humorista romeno tentou sem sucesso, ao longo da noite, divertir uma plateia na capital do seu país. Usou algumas das suas melhores armas, como a sátira inteligente, o burlesco absurdo ou a paródia. Em vão procurou ridicularizar-se a si mesmo, porque a assistência se não manifestava, o que o fulminou.

Decidiu procurar então a ajuda de um bar, onde expôs o sucedido. Um professor de literatura confessou a mesma estupefação. Dias antes lera para a sua turma do primeiro ano cens hilariantes do Anfitrião, mas ninguém se rira. Como era possível?

Os dois homens saíram juntos. Já na rua viram um velho desdentado a girar a manivela de um realejo. Tinha um chapéu de coco e fizera prender à volta do pescoço uma grande túlipa amarela, iguais às que tinha num cesto à sua frente, porque era um vendedor-pedinte. Balançava-lhe no nariz uma argola dourada e nas pernas uns corsários listrados, demasiados grandes e demasiados largos, sobre os quais vestia uma camisa com enormes colarinhos azuis. Nunca o tinham visto, pelo que a visão do exótico e anacrónico homem, misturada com a cançoneta circense que saía do mecanismo, produziu neles uma gargalhada.

O velho, tomado pela indignação, interrompeu-se para se pôr a insultá-los. Os transeuntes, repletos de indignação também, apoiavam-no. As imprecações pareceram-lhes tão ébrias e tão roufenhas que o riso cresceu. Humorista e professor punham a mão na barriga e limpavam as lágrimas, quando a voz do velho os fez voltar. Foram então agraciados com um penico cheio de urina.

Houve aplausos dos circunstantes. Mas, entre eles, nem um sorriso.