Nada houve que tivesse valido a pena

Fotografia de Joakim Honkasalo

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Por uma razão ou por outra, ou por todas, há aqueles dias em que nos descobrimos miseráveis. Os ossos gemem, comprimem mais as linhas frontais da nuca, impedem-nos de respirar. O sangue enlameia-se na boca, galga as narinas, conspurca a cerâmica do lavatório. A cabeça e provavelmente a alma, com que se associa às escondidas, erram pelos dedos e provocam tremuras.

Antecipamos o parágrafo.

Trazem-nos comida a casa, digitam-nos uma mensagem, preocupam-se com os nossos olhos vazios. Algures, numa voluta indefinida do cérebro, o comércio da informação opera-se tão devagar quanto possível a um filho de Deus demasiado vivo, ou demasiado morto. As palavras entram e partem em grandes vagões sem mercadoria: não nos servem de nada, não atingem a profundidade, não nos respaldam contra o breu ao redor dos outros, não respiram o mesmo ácido que nos sobe e desce pela traqueia.

O que é isto?

Talvez fosse boa altura para engastar aqui uma frase inteligente. Sublinhei a lápis grosso milhares delas. Tenho-as anotadas, arrumadas, avulsas, postas no interior de livros e de cadernos de que me esqueci, ou em guardanapos, em papelitos irrisórios da publicidade religiosa, em bilhetes de cinema, nos recibos das finanças. Uma frase inteligente é sempre capaz de acelerar o raciocínio e de filtrar o absurdo do tempo numa firmeza tonta de génio. Uma frase de Borges. Uma frase de Kundera. Uma frase de Lobo Antunes. A miséria nutre-se conspicuamente destas certezas que a humanidade gosta de cinzelar.

Como te salvarás?

Dias e dias de solidão, soterrado nos compromissos balofos, a vasculhar na carne mole dos papéis difíceis, trazem-nos o grande mal. O grande mal é a tolerância, a mansidão de escravo, a paciência. Criador e criatura caem juntos na mesma água limpa e diluem-se até ao ponto de se não reconhecerem já, de se odiarem implacavelmente, de se mutilarem. Sobrevém a fúria súbita de Aquiles, a vontade destemperada de apagar todos e tudo, a ordem, a memória, o pedestal do amor, Deus, as galáxias. Um homem riposta com desmesura, odeia e exige. O homem exige que um grande mal vassoure a natureza medíocre das coisas. Futuro, presente e passado querem devorar-se como o dragão do Apocalipse voltado para a sua cauda espinhosa.

Um homem miserável sabe o que isto é.

Mas, então, sombriamente, come-se um pouco de chocolate. Amargo, 100% de cacau. Sai-se à varanda, aspira-se o rumor, bebe-se uma chávena de café, fuma-se um cigarro descoberto numa gaveta de baixo entre postais desbotados e cartas cheias de úlceras amarelas. Recita-se com pudor religioso versos de um poeta arcaico. Olha-se o nevoeiro e o triângulo formado pela luz dos postes elétricos. Existe na vertigem das ações prestes e excessivamente próximas dalgum fim um delírio de felicidade. Parece maravilhosa a potência dos impotentes, a dor física dos extraviados, a loucura dos metros que nos separam do asfalto.

Ponho o violoncelo de Yo-Yo Ma a tocar.

Um homem necessita de escrever. Para todo o sempre ou para a ninharia dos alfarrábios, um homem necessita sempre de um lápis e de um caderno sobre a mesa. Na sua doença mais vil, no lugar onde o orgulho se despenhou mais desastroso, precisa um homem de tudo o que acabou de dispensar: de Deus, do medo, das frases repletas de opacidade, do gato que se reergue do sono, do aconchego do candeeiro atrás da poltrona. Um homem precisa de comer, de dormir, de se perdoar, de fingir que não o ferem horrorosamente a lucidez, o vexame, a fome, a condição mendiga da carne e do osso, da carne e do espírito, da carne e da podridão.

E o que é a sua miséria?

Por uma razão ou por outra, por todas, decerto, há aquelas noites em que apertamos o botão e decidimos riscar de alto a baixo a folha da agenda. Nada houve que tivesse valido a pena. Nem o desengano.