Foto: Gunarto Song

Yuan Chen e Zhou Zhao eram os discípulos mais madraços e descuidados na escola de Li Bei. Durante os primeiros anos serviram de exemplo e chacota aos jovens aprendizes da sua classe, tantas tinham sido as ocasiões em que o velho mestre lhes repreendeu publicamente a preguiça e as outras imperfeições e ainda mais as vezes em que despertaram a risota dos colegas.

– O sábio aprende por si mesmo, antecipa as lições, adivinha o percalço, evita o erro e a desonra. 

Uma manhã, após uma noite de vigília e chuva intensa, o sol regressou ao cimo das árvores e fazia rebrilhar as inumeráveis perolazinhas suspensas dos ramos da cerejeira vermelha e dos zimbros azulados.

Zhou Zhan admirou-se com a dureza da luz assim refletida nos pingos supervenientes da chuva. Eram como minúsculas estrelas alumiando o jardim e ao mesmo tempo queimando os seus olhos. Lavou o rosto, passou água pela cabeça e pelo pescoço, depois orou, depois bebeu um gole de chá, depois escreveu sobre tiras de bambu em belos ideogramas, pincelados com amor:

 

cada coisa tem o seu fogo,
Cada homem tem a sua luz,
Todos nós ardemos por dentro
E por fora ardemos de novo,
Morremos como o sol e a chuva,
E a cada instante renascemos.

 

Além soou o gongo. Li Bei chamava. Se não se apressasse, Zhou Zhao seria mais uma vez advertido com veemência, sentindo-se cada vez mais afastado do caminho celestial prefigurado por Chang Tao-ling, mestre dos mestres, sábio maior entre os sábios. Sentia vergonha da sua conduta, pois andava de boca em boca como os ensinamentos de Lao-Tsé e do Daozang e bem o via no olhar trocista dos rapazes que à sua frente se distinguiam na filosofia e nas artes marciais.

– O caminho de cada um de vós há de levar-vos como tigres às montanhas mais altas, mas só alguns podereis alcançar o coração dos mortais e, como o vento, unir-lhes o coração de pedra às coisas que se encontram a seu lado. Esses, de entre vós, serão admirados por muitos séculos, pois é pura a sua sabedoria.

Yuan Chen aprendera a contentar-se com uma tigela de arroz. Zhou Zhao, por seu turno, sentia um grande desgosto. Jamais seria um “candil no meio da noite”, jamais compreenderia os mistérios a natureza e os segredos do universo, jamais alcançaria a beleza íntima das coisas. Era uma vergôntea teimosa e não um tronco direito, liso e leve.

E por isso escrevia. Por isso olhava a superfície dos fenómenos, anestesiando-se com o canto da água e o doce farfalhar do bosque, refugiando-se nas mínimas labaredas que a todo o momento deflagravam à sua volta. Queria ver: era nisso que se concentrava ultimamente.