Limpidez

Fotografia de Matt Hoffman

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Há um só modo fiável de amar a vida: chegar perto da limpidez que exige paciência, coragem, sacrifício, muitas vezes silêncio e abnegação. E, também, derrotas, o confronto com o contraditório, aprendizagem permanente. Zbigniew Herbert, num poema notável, diz que «Gostaria de descrever a emoção mais simples», trocando «todas as metáforas / por um termo / arrancado do peito como uma costela / por uma palavra / que caiba / nos limites da minha pele».

Com efeito, aprendemos com a idade que nada é tão difícil como a limpidez da infância, uma dádiva equívoca, mas preciosa. Aprendemos que a verdade (como o sol) continua a irradiar luz e calor, mas mudou de posição no horizonte. A ironia não pode ser mais flagrante: à medida que envelhecemos e enfrentamos a miopia física, olhamos mais profundamente para dentro dos fenómenos, do carácter das pessoas (do nosso próprio carácter), da perplexidade da vida, para o sentimento que os pequenos seres despertam, para a dor que nos infligem a ignorância e a selvajaria humana; olhamos mais densamente para o interior do cosmos, da morte, da genuína felicidade nascida num poema; olhamos para o conforto das vozes amigas, para a sageza solene dos quadros de Vilhelm Hammershøi ou para o enfeitiçamento dos acordes de guitarra de Isaac Albéniz ou de Joaquín Rodrigo. A vida não exige fortuna ou génio para ser meritória. Exige apenas bondade e quietude. E nós aprendemos com a idade que nada importa mais do que estarmos próximos do nosso destino, ainda que o nosso destino seja uma miragem. Reconhecemos o destino pela confiança e pela alegria com que abrimos a porta em cada manhã. Ao fim e ao cabo, a compaixão é o prémio da nossa descoberta.

Escrevo estas palavras numa manhã luminosa de dezembro, com uma chávena de café nas mãos. Sinto muito para lá de mim a harmonia do espaço e a impetuosidade da mente em esforço. Podia ter usado o lápis e o papel para escrever outra coisa qualquer. Mas precisava de anotar este pensamento. A vida escolheu-nos, como o amor nos escolhe, ou o olhar de alguém que procura o nosso. Suponho que corresponder a esse desvelo vale não só a pena, como sobretudo o coração.

29.12.2025

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Breves impressões sobre a luz solar

Vilhelm Hammershøi - Partículas de pó a dançar nos raios de sol (1900)
Vilhelm Hammershøi, Partículas de pó a dançar nos raios de sol (1900)

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O tamanho da luz mede-se nas paredes, nestas aqui em Paris, nas de um iglô em Etah, na Gronelândia, ou nas grutas empoeiradas de Qumran. O desenho da luz alastra e escorre, avança e reflui, às tantas eclipsa-se entre volumes de uma natureza nem sempre compreensível. E é então uma solidão, uma devastação, um horror de arrepios onde se cai como num sonho, como num poço, como na morte.

O humorista Alphonse Allais medita no diâmetro silencioso da luz nessa manhã de 1889. Da luz solar intermitente, hiemal, luz levíssima que entra pelos vidrilhos da sala e se põe a fazer caretas iridescentes no estuque, nas portas, na porção branca da alvenaria que o grande armário de ébano não tapou. Não lhe ocorre uma única linha, não lhe ocorre uma única razão para começar um novo conto, não lhe ocorre sequer que mais de um século depois, noutro país, outro indivíduo pense exatamente o mesmo sobre a luz e nela reflita indecisamente, sem vontade de rir ou de fazer rir, completamente convencido de que a literatura – para renascer – precisaria da honestidade dessa luz, da boa luz que gela na Gronelândia e se sacode no pó ardente dos desertos do Mar Morto.

É incontestavelmente belo o rosto da luz.

Ele, ela, amplia os batimentos cardíacos, enormiza o poder das palavras (mesmo, ou sobretudo, as que não são ditas), aquece a natureza monstruosa das formas informes, atrai os gatos, faz abrir mais os olhos e os poros, dita as leis, se não as leis de Deus, as do cosmos.

O escritor Alphonse Allais bebe um porto. Prepara, como um lagarto consolado, uma folha de papel. Talvez haja descoberto a ponta da agulha por que tanto procurou toda a manhã. Entre as palavras desenhadas há, igualmente, acometimentos de um sol longínquo. Escrever é costurar com a luz o pano imóvel do vazio. A bem dizer não lhe importa nada. Importa-lhe tudo.

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