CRETA

Albrecht Fietz
Fotografia de Albrecht Fietz (via Pixabay)

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A casa estava imunda.

Por cima da velha mobília, dos lavatórios, da cerâmica, dos fogões, dentro dos quartos e da cozinha, nas casas de banho, pelo meio dos corredores, atravancando, entulhando, asfixiando fardos e fardos de palha, e pó, um pó imenso e fundo, e excrementos de pombos, e urina de ratos. Imunda.

Foi assim que a encontraram Theo e Larissa Minakis, o jovem casal de músicos. Haviam aterrado hora e meia antes em Heraclião, vindos de Frankfurt, depois de quase oito horas de voo desde que deixaram o Aeroporto Internacional John Kennedy. A casa estava imunda e eles exaustos, perplexos, enojados.

– Há anos que aqui ninguém vem. – explicou, dando safanões numa das janelas para as traseiras, o Tio Panos. – A casa, meu filho… Tu sabes, desde que o teu pai partiu, nunca mais cá ninguém veio…

A reputação de Theo como um dos maiores oboístas da sua geração corria mundo. Larissa, a mulher russa com quem casou, granjeara-a tocando harpa, embora encantasse também no violino e até no violoncelo. Ambos pertenciam à Orquestra Filarmónica de Berlim, pertenciam a Camille Saint-Saëns, a Fauré, a Debussy e a Ravel, pertenciam um ao outro, ao mundo inteiro, aos palcos onde a música pudesse sublimemente ser interpretada.

Agora, contornando as velhas paredes da casa, era como se tivessem descido ao mundo impiedoso dos homens. Havia bichos fossilizados no soalho, que os sapatos pisavam como grandes migalhas de pão seco. Havia mascarras nos tetos e nos vidros, pesando como grandes úlceras nos lugares onde existiu outrora brilho e aconchego. Havia teias infinitas e sujas, descendo de todos os ângulos retos de todos as esquinas, ensarilhando-se-lhes no rosto e nas mãos de quem passava. Larissa segurava com esforço um lenço sobre o nariz, disposta a ceder a qualquer instante aos impulsos eméticos provocados por aquele labirinto de lixo.

– Os meus irmãos? – arriscou, desconcertado, o mais novo dos Minakis.

– Nem um vaso de manjerona sobre a campa dos teus pais…

O Tio Panos teve de assoar o nariz e de limpar as lágrimas. Uma vez na rua, via-se uma coluna de pó amarelo a sair do antro aberto.

Theo estendeu os olhos até ao porto de Atherinolakos. Era um pouco maior do que antes, mas igualmente deprimente, com pequenos barcos coloridos ziguezagueando na barra, com as grandes chaminés listradas de vermelho e branco das fábricas em pose militar, com os homenzinhos de barrete e o azul tristonho da praia a rolar diante do betão e do cimento escaldante.

– Ficais em minha casa, filho. É um gosto…

Theo traduziu o convite, a esposa sorriu.

– Tio, não queremos dar-lhe trabalho. De qualquer forma, temos reserva no hotel. Amanhã começaremos a limpar tudo isto.

Era melhor assim. Cortesias para o demo, ninguém ali parecia à vontade.

O Tio Panos não tardou a queixar-se da anca: seria impossível ajudá-los! E o trabalho que os dois tinham pela frente!

– Oh, oh, uma esfrega, filhos…

De resto, o Tio Panos não tinha a certeza se algum dos seus dois rapazes podia ajudar naquele biscate. A fábrica de conservas de Demóstenes, primogénito, Theo desconhecia-o certamente, abrira falência e agora “O bom do teu primo dobra a espinha nos pomares de nectarinas de Messara e de Asterúsia”, terraplanando e metendo estrume, arrancando ervas de sol a sol, quando não colhendo e encaixotando, patrulhando (patrulhando sobretudo) carradas de turcos preguiçosos. O mais novo, Giannis sofria de um tipo raro de doença de pele. Pior do que isso, tinha asma e aquela maleita que nos põem tontos, por causa do ouvidos.

– Ah, Theo, aqui o clima gasta-nos a puta da vida. O melhor é não contares com ninguém para isto, filho. Aqui todos morremos antes do tempo, à conta deste sol, deste sal, desta pobreza infinita. Tu ao menos…

Theo fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ele e Larissa não vinham com pressa. Pretendia dedicar-se à memória do pai e da mãe, a única coisa que não podia ser disputada nem desbaratada, a única herança que valia todos os sacrifícios.

O Tio Panos escutou-o de olhos arregalados, sem ripostar.

“Sacrifícios? Que percebia ele de sacrifícios?”

*

Em bom rigor, a cabeça também é uma casa. Possui áreas solares (salas abertas, varandas largas, jardins comunicantes, arrumos fáceis de localizar no tempo, sempre próximos da boca). Possui, por outro lado, as suas gelosias, os seus desvãos, corredores sombrios, portas e escadas interiores, possui caves, compartimentos imersos em nostalgia, lugares de noturnas e infantis e impartilháveis rememorações.

Theo teve de empilhar vários sacos de bagatelas no pátio. A ferrugem consumira grande parte da antiga armação de ferro que emoldurava ainda a ramada e o lugar do poço. Trabalhava sem pressa e sem descanso.

Logo na primeira manhã a mulher chamou a sua atenção para algo encontrado nos fundos do lagar de azeite, soterrado em camadas asfixiantes de serrim. Era uma gaida. A velha gaida familiar!

Theo passou devagar os dedos pelo corpo articulado do instrumento, sentindo com uma excitação assustada a pele de ovelha e a madeira.

– Meu Deus, este objeto vem de longe. Vem de há tanto tempo, Larissa!

Receava alguma escoriação, algum golpe, algum rombo fatal. Mas não. Miraculosamente a gaida permaneceu íntegra e intacta, submersa e protegida pelo entulho. Theo limpou o bocal e levou-o aos lábios. Depois pôs-se a soprar. O som que principiou (vindo das profundezas da casa ou das profundezas da sua memória) era poderoso. Theo sentiu-se recuar centúrias, ou mesmo milénios. Sentiu-se embalado em viagens de barco e atravessar caminhos empoeirados até aldeias de pastores, nos confins de uma montanha. Na lonjura espremida dos dias, aquele som era toda a sua origem, toda a memória da sua gente, da sua coragem, da sua errância, do seu fado. Aquela gaida, mais do que um objeto envelhecido, queimava como um vínculo, ardia como um vulcão acordado.

O fascínio de Larissa era o deslumbramento do marido, mas dificilmente podiam ser o mesmo sentimento.

– O meu pai recebeu-a em herança do avô. Nunca imaginei que tivesse ficado para trás.

Theo explicou a origem balcânica do instrumento, que parecia conter em si o ânimo de um guerreiro invencível e o lamento de um homem eternamente em crise. A toada, que a custo começou, tornou-se um fluxo, um jorro de angústia e de amor, uma manifestação de fé na vida e de veneração pela morte.

Larissa sentia-se subjugada. Que som maravilhoso no meio de tanto esterco!

*

– O teu primo estica até aos cinquenta mil. Nem a casa vale mais do que isso.

– Não a vendo nem por cinco, nem por cinquenta, nem por quinhentos mil…

– Mas, filho, para que hás de querer tu manter de pé este tugúrio?

Não, definitivamente, o Tio Panos não podia compreender aquela estúpida decisão. Theo cortou, como costumava fazer o seu pai, a conversa.

– A decisão está tomada.

Larissa, que pouco entendia de grego, mas que compreendeu todo o diálogo, poisou a mão esquerda sobre a mão direita do marido e encarou com uma carga mal medida de desprezo as fuças do velho tio resmungão. Este sentiu-a, sem dúvida, porque (fincando-se na bengala) imediatamente se ergueu e se encaminhou para a saída.

– Bem. A nossa proposta é esta. Tu, claro está, faz como entenderes… Amanhã mesmo devolvo-te o molho das chaves.

– Não precisa. Todas as portas e janelas serão mudadas. As obras começam em breve.

– E os teus irmãos? Hão de querer por ela alguma coisa, não?

– Com os meus irmãos entendo-me eu. Não se preocupe, tio!

Pelo rosto de Panos Minakis pisou lenta uma sombra imensa, como a que as nuvens fazem na água quando as vemos da janela de um avião.

Então, sem mais palavras, deixou-os.

Theo sentia-se esplendidamente bem-disposto.

Acocorou-se e apertou a polpa dos dedos nas folhas de citronela do vaso que tinha diante de si. Agora que a casa se via desentupida de tudo quanto nela haviam depositado usurpadoramente, usando-a e confundindo-a com uma pocilga, via outra vez o desenho limpo de cada ação familiar. Podia até imaginar o sorriso galhofeiro da mãe, descendo ao pátio com as suas maravilhosas travessas fumegantes, com as suas saladas e as suas espetadas de cabrito. Podia ver a grande mesa que a ramada defendia do sol cheia de gente. Podia ver o irmão Filipos, à esquerda, com o cachimbo de meerschaum, dando grandes fumaças, enquanto folheava os poemas da Ritsos. Podia ver no lado oposto o irmão Andreas, a cardar a superfície pilosa da gaida, acariciando-a como à nuca de uma mulher. Podia ver à cabeceira o pai, Nikos Minakis, erguendo à luz clara de junho um jarro do seu melhor Kotsifali, “O vinho dos imperadores, meus filhos”, dizia antes de o verter num dos copos de cristal que se tiravam do aparador em cada boa ocasião.

Eram uma família orgulhosa. E tinham razões para isso.

*

O reflexo da luz sobre a água transparente do tanque foi a última imagem que Larissa fixou. Sentia-se bem ali. Mas agora tinham de voltar.

Em rigor nunca se deixa Creta. Os homens vão e voltam. Sós ou acompanhados, regressam sempre. Os gregos fazem culminar na chegada todo o caminho para a perfeição. Só atingindo de novo a soleira da porta paterna se compreende o movimento de sair. “Se Ulisses tivesse prescindido da última viagem, não valeria um dracma” dizia a mãe às vezes.

Theo e Larissa consultaram o painel eletrónico. Saíam por tempo indeterminado, convencidos, porém, de que algo novo tinha principiado. Para os gregos, todo o tempo é uma oportunidade de começo.

Ao rodar a gazua na porta principal, o mais novo dos Minakis sentiu o que sentem os filhos empossados de uma missão: nostalgia, arrependimento, esperança e uma dose necessária de soberba. Era de si que precisava a casa. De si e de obras, de gente nova que a continuasse, da gente velha que a não deixasse morrer.

No interior de um saco magnífico de couro italiano, Larissa transportava a primeira memória que aquele lugar fabricou: também na Rússia havia pastores e montanhas e camponeses tresmalhados pelo horizonte. Também na Rússia se chorava de saudade, quando se encontrava, fortuita, uma brecha no destino.