. Era na penumbra que António se esconsava. As sombras – digamo-lo – dão-se bem com a miséria e com a vergonha dos doentes. Foi, portanto, numa das entranhas do casebre que o ancião escutou o chamar da enfermeira. – Boa tarde, Sr. Paupério! A voz, rouca de solidão, tardou-lhe, vinha embargada, num fio de água …
Vim até cá acima e fiquei
Fico e às tantas fecho os olhos. Às tantas as coisas fluem, as coisas vêm-me involuntariamente à boca, as coisas passam-me diante as retinas, atiram-se-me à nuca, coisas como os murmúrios da avó Amélia, coisas como o cheiro triste da murta nos dias que se seguem ao Natal, coisas como a castidade absoluta das suítes de Bach, coisas como a maciez dos seixos, como a cor fulminante do papel debaixo dos versos de Camões.
Oblívio
. Sobre a cómoda ficaram a caixa de madrepérola com os medicamentos por tomar, a pagela da Sagrada Família, os sobrescritos fechados com as contas, o branco sujo do pó. Cristo continua pregado na cruz, o coração em sangue de Maria continua pingativo, o Santo António não se alterou, não se cansou, não cedeu um …
O alfaiate
. Antes de o calor se tornar arquejante, pode-se aproveitar no máximo duas ou três horas de frescura. Pela porta e pelas janelas abertas corre uma aragem agradabilíssima, um ventinho que amacia os pensamentos, que às vezes carrega o cheiro das praias e do mar, outras vezes traz subtilmente o aroma verde das hortelãs e …
O paraíso
. O velho Malojo entrou na cozinha com as giestas secas e duas laranjas apanhadas pelo caminho. Roubar fruta não era pecado, pecado era deixá-la aos pássaros ou a apodrecer nos ramos. Dobrou as giestas de modo a caberem no fogãozinho e pôs-lhes lume. A névoa azul encheu a penumbra até à soleira, vogando entre …
Só queria dormir
. Olhada do quinto andar a rua era toda ela chuva. Chuva miúda, persistente, escorrendo nos vidros, dos telhados, debaixo dos candeeiros, contra as pernas apressadas das senhoras que entravam e saíam na estação de metro. Ao tipo do 5.º D apetecia-lhe dormir, dormir indefinidamente. O asfalto molhado, o som dos pneus a cortar os …
Fósforos
. O velho recolhia todos os paus de fósforo que podia encontrar. Primeiro julgaram-no um desses artesãos que constroem castelos e navios. Mas ninguém lhe viu vez alguma arte ou obra, e por isso com o tempo passaram a ver nele um doido. Os pequenos paus ardidos dão uma impressão bela do que é a …
O diospireiro
. Nessa Consoada não houve neve, apenas chuva e vento. À volta da lareira não foram postos os potes de ferro, nem se escutaram vozes concordantes, extasiadas e nostálgicas. A velha cozinha recebeu somente um hóspede. Viera para cumprir o voto: enquanto fosse vivo, ainda que por uma noite no ano, aquelas paredes sairiam da …
O homem muito triste
. Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito …
Crónica de um domingo de outono
. Foi bom ter vindo. É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas …
O eremita
. I A meio e no alto do bosque fica o eremitério. Escassa gente atravessou estes portões nos últimos cem anos e nas centúrias anteriores quem o fez pôde descrevê-lo como nós o descreveremos agora: é um lugar ermo, tosco, bendito, impoluto. Os adjetivos nada dizem, reconheçamos. Haverá quem deseje um relato pormenorizado sobre as …
O último dia é sempre um primeiro dia
. A avenida cheia de gente, gente cheia de pressa, faz-me esquecer tudo. Levo encontrões, pisam-me os pés, olham-me como a um animal ferido (com o seu rasto de morte, largo como um cometa). Mas não me importo. Prefiro assim. Os rostos desfilam vertiginosos, belos, muito belos, horríveis, disformes. Não consigo lembrar-me de nenhum. Só …
Quando foi a última vez que assististe a um nascer do sol?
. «Quando foi a última vez que assististe a um nascer do sol?» perguntaste. Sabias que responderia com uma negativa. «Não me lembro», «Não faço a mínima ideia», «Meu caro, não sei dizer». Adquiriste, sem que isso me penalizasse por aí além, a expressão triunfante de um retor. «Mas, como podes tu escrever sobre coisas que não vives?», «Que eventualmente …
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A solidão
. A televisão ainda ligada não tem réplica. O som atravessa as paredes, evapora-se ou subsome-se, não sei, transforma-se em rumor, decompõe-se em nada ou alcança o tudo, não sei. Sobre o sofá o homem respira. O sofá é invólucro da mesma tristeza: ganhou as formas do corpo, prende-o, afunda-o, dita-lhe uma espécie de submissão. …
