O choro dos mortos

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Joe Lenio
Fotografia de Joe Lenio

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Numa pequena povoação entre o Camboja, o Laos e o Vietname, os montanheses têm por costume pendurar no alto das árvores um insólito instrumento constituído por longos emaranhados de fibras atados por tiras de couro e presos a uma espécie de cravelha, que os nativos constroem abrindo orifícios em ossos de tigre ou leopardo ou mesmo viverras, e que emolduram com ripas de figueira ou paineira.

Durante a noite a humidade faz encolher as linhas paralelas e mantém-nas em silêncio. Mas assim que o sol e o vento começam a retesá-las, a floresta enche-se de um choro sobrenatural, que o nevoeiro em dispersão torna ainda mais extraordinário. «São os nossos mortos que partem outra vez» ensinam às crianças.

Os mortos hão regressar com as monções, agora é o tempo dos vivos. Metade do ano para que a memória os guarde fielmente na outra metade que há de vir.

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Logótipo Oficial 2024

João Ricardo Lopes, escritor português (escritor de Portugal), escritor fafense (escritor de Fafe), nascido em 1977.

Bruxa

aldeia, village, sol, sun
Fotografia de Cristian Lee

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O som das árvores, o amor das rolas, o fosforejar do céu são dádivas de que se alimenta o sono. O tempo para, adormece-se só de olhar, cai sobre os camponeses uma poalha repleta de luz.

Derreada, muito para lá do alpendre, Amância fareja as ervas certas. É preciso que alguém acredite esta noite. Com todo o cuidado, usando um velho punhal, separa os talos das flores amarelas de damiana. Depois junta-os num cestinho.

Um sino ouve-se ao longe, desperta-nos do torpor: no inverno, as tardes soalheiras escrevem o seu poema devagar.

Esta noite um homem fará outra vez amor vigoroso. Se sim se não, amanhã toda a aldeia o saberá.

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