O ESTRANGEIRO

Foto: Raymond Hoffmann

Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.

Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras. 

Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita. 

Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.

– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.

Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente. 

– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?

O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.

– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…

Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana. 

– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?

A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.

– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…

GOSTO DO SILÊNCIO

Foto: Antje Woolum
Foto: Antje Woolum

 

«Os olhos percutentes encontram os meus. Quem diria que são olhos dormentes? O silêncio. O silêncio.
Quando o azul desce, e se transforma no negro chumbado da noite, acende-se sobre ele uma densidade que o protege, e lhe permite continuar a vadiar. Convido-o para o meu quarto, que se desfaz na espuma do texto.»
Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga – curso de silêncio de 2004 (Lisboa, Assírio & Alvim)

 

Gosto do silêncio. Gosto tanto do silêncio que aprendi a recusar quase todas as formas de convívio social, incluindo algumas do amor. A arte de me escapulir. A arte de me esgueirar. De contornar a obrigação do alarido. De ter de condescender com o telemóvel indiscreto. De ter de aceitar como um destino a arruaça com a sua música ordinária, a imitação do mau folclore brasileiro, o karaoke deprimente e o interminável festival de verão, os apitos na estrada, a mota que acelera todos os dias na nossa rua às duas e meia da manhã, a televisão aos gritos no apartamento ao lado, o fanfarrão da construção civil, a piada pornográfica, a fulana de voz nasalada, insuportável, o casal que discute a toda a hora, o puto lagrimento… De ter de tolerar todos quantos, a coberto de uma suposta celebração, sem pejo, multiplicam, amplificam, semeiam o ruído. De ter de mostrar boa cara para o altifalante e o megafone. De ter de curtir o palco e a coluna gigante. De me agradar com o fogo de artifício e a summer party, o chinfrim do tambor e, mais tarde, da bateria às mãos do filho do vizinho. De me deliciar com as noites de aniversário e a televisão nos dias de dérbi. De ter de ignorar os infindáveis duches e os tacões de salto alto sobre o teto, as descargas de água e a grita sexual durante a madrugada…

Gosto do silêncio. Do silêncio que me afasta dos lugares e das pessoas da confusão. Do silêncio que me faz caminhar por entre campos, ao longo de várzeas e veredas estreitas, onde o trissar da passarada e o assobio dos insetos, o rumorejo da água nascente e o ciciar do vento tornam cada instante mais íntimo e integrador de mim em mim próprio, purificador, apaziguador, poderoso! Gosto do silêncio. Do silêncio que é uma forma de linguagem, leve e subtil como as coisas que não víamos e vemos de um momento para o outro. O magnífico rendilhado da teia de aranha, na manhã de inverno, na esquina do celeiro, pejado de gotas de orvalho. O ondular enxuto da cizânia, quando as tardes de primavera derrotam definitivamente as chuvas de abril e abrem o coração mais empedernido para o cheiro absolutamente maravilhoso da terra. A ramagem consoladora das figueiras, nos dias inclementes de agosto, junto ao tanque de pedra, quando o calor parece paralisar toda a paisagem e envolvê-la (com os seus pardais de bico aberto) numa sonolência sem fim.

Gosto do silêncio. Do silêncio que lava os areais sofridos, minutos antes do pôr do sol, e nos penetra os poros e os ossos e nos torna da mesma matéria vaporosa do oceano e do horizonte frio. Do silêncio que sopra para lá das dunas e para cá dos lábios calados. Do silêncio que se encontra e nos faz encontrar a sós com os pensamentos mais inacessíveis, como se por ele brotasse a consciência e os pontos cruéis da agulha que nos cicatriza as feridas mais dolorosas.

Com o passar dos anos, venho-me tornando num viciado em utopias. O silêncio é, talvez, uma das últimas (malogradas) utopias do nosso tempo. Desaprende-se, desaprendeu-se rapidamente, a virtude de escutar, de perscrutar, de fechar os olhos e querer a paz. De exigir respeito pelo sossego e pela quietude. De protestar contra todas as formas que atentam contra o silêncio. Como tão bem escreveu Manuel Hermínio Monteiro (numa crónica publicada na revista K, em janeiro de 1992, e que viria a ser incluída em Urzes), «Andam a destruir o silêncio»! Andam a destruí-lo criminosamente, fazendo morta, cadavérica, putrefacta, a letra da lei que deveria proteger-nos de nós mesmos. Andam a destruí-lo, como o fazem com as nossas florestas, com os nossos mares, com a nossa sensibilidade, com os nossos sonhos e ilusões, com a nossa intimidade. Andam a destruí-lo, individual e industrialmente, desde os brinquedos irritantes que fabricam para as crianças aos dispositivos eletrónicos que apitam, avisam, repercutem, tremem, zumbem, estertoram, buzinam, chafurdam de som ao nosso redor a toda a hora…

Manuel Hermínio Monteiro, no texto atrás citado, pergunta: «Num lugarejo ouvem-se os seus respectivos altifalantes e os dos lugarejos vizinhos. Com tal arraial, quem ousa hoje em dia meditar?! elevar a alma a Deus…? e ter a triste sina de levar com uma pancada sonora nos tímpanos das emoções?» Será essa a questão? Reproduzir o ruído para esconder o homem de deus? Para calar angústias inconfessáveis? Para esquecer as origens telúricas, simples, quiçá primitivas?

Andam a destruir o silêncio. Última, desesperada ponte, creio, para o melhor de nós próprios. Como maravilhosamente ensinam Bashô e a meditação budista. Como maravilhosamente ensinam a música e a poesia. Como maravilhosamente ensinam o vento e as noites de solidão deliberada. Andam a destruí-lo. E ninguém parece importar-se muito com isso!