Em louvor do trabalho e dos trabalhadores

José de Uría y Uría, Depois de uma greve, 1895

.

Longe de imaginar o meu futuro, vivi o meu passado. Trabalhei descalço na terra, semeando e colhendo batatas, por exemplo. Trabalhei numa pequena fábrica têxtil, assegurando o funcionamento de uma máquina industrial, o caneleiro de dez fusos, e dei o meu melhor no armazém, onde, juntamente com as minhas jovens irmãs, recortei peças de tecido e embalei toalhas às dúzias, para além do serviço de limpeza geral. Esse tempo coincidiu com o fim da infância e o início da adolescência, tendo com ele aprendido regras básicas e indeléveis, como a necessidade de justiça no trabalho, o dever de excelência do trabalhador, a prerrogativa do descanso e, sobretudo, o direito à ascensão social.

Num tempo em que se negoceia um pacote laboral cheio de armadilhas e traições políticas, algo que me enoja, e numa era em que se fala de despedimentos incomensuráveis por via da generalização da mão de obra robótica (ainda há dias o vi num hospital privado, onde o serviço de admissão ao balcão está a ser substituído por quiosques e por uma aplicação), medito sobre várias coisas em simultâneo: o que perguntarão às crianças do futuro no lugar da famigerada questão «O que queres ser, quando fores grande?»; que aplicações irão pescar-nos a sardinha e o bacalhau em alto mar?; que robôs nos mudarão a fralda, nos ensinarão a escrever, nos darão consulta, nos defenderão em tribunal?

Há dias, repassando um dos corredores mais brilhantes do Prado, voltei a deslumbrar-me com os grandes quadros dedicados às grandes transformações sociais em Espanha, na era da industrialização: são obras-primas de Joaquín Sorolla, Santiago Rusiñol, Juan Martínez Abades, Juan Luna, Darío de Regoyos ou José Jiménez Aranda. E são, muito especialmente, o testemunho da força, da coragem, do sofrimento, da dívida épica que os Estados têm para com os seus trabalhadores (como tão eloquentemente José Saramago o escreveu em Memorial do Convento), a quem, mais do que aos reis e senhores, devem tudo. Estes pintores mostraram o que viram, e o que viram permanece como uma voz silenciosa das muitas vidas destruídas – crianças, homens e mulheres, idosos – pelas tenazes poderosas do dinheiro.

Um quadro me cativou sobremaneira: Después de una huelga, de José Uría y Uría (1895). A violência da cena, apenas compreensível pelos elementos de fundo (os guardas e a cavalaria), e as grandes dimensões da tela contrastam com o plano principal. O assassinato de grevistas é, sempre foi, o último reduto dos regimes podres. Dos regimes cínicos e dos líderes fracos e intolerantes. Dos líderes que se deixam abocanhar pela mordedura lenta dos patrões, banqueiros e donos das fortunas.

Num tempo em que as grandes empresas empilham milhões e os trabalhadores não conseguem pagar casa, numa era em que as máquinas escorraçam das fábricas, dos mercados, dos aeroportos e, qualquer dia, das escolas e (não apenas dos postos de admissão) dos hospitais, o que significa olhar esse passado doloroso? Que futuro imaginar? Como valorizar ainda o trabalho? E – sem segundos sentidos, partidários ou ideológicos – os trabalhadores?

.