GRANDES HOMENS

Captura de ecrã 2018-11-11, às 15.28.00
Foto: Aníbal Augusto Milhais (“Soldado Milhões”)

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas poucas conversas de café que vou mantendo com os escassos amigos, regressa amiúde a discussão em torno dos grandes homens.

Em primeiro lugar, surpreende a raridade deste tipo humano: ainda não há muito, na infância ou na puberdade, os havia por aí em todas as casas e eiras, malhando no ferro ou abrindo a terra, porque não era forçoso que se comandasse exércitos e nações, ou se escrevesse sobre o futuro da humanidade, para que se pudesse ser um grande homem. Julgo que aos poucos os mortos os levaram consigo, deixando-nos o implacável papel de os substituirmos e de mantermos acesa a sua memória.

Em segundo lugar, a opinião do que possa ser um grande homem nunca é unívoca ou consensual, exceto talvez num ponto: a marca que ele deixa nos outros mede-se pela distância de anos entre a dor da sua perda e o contentamento da lição que nos deixou. Decerto um de nós citou a frase, que leu nalgum livro importante, e com ele sintetizou um pensamento harmonioso.

Em terceiro lugar, admito que as nossas discussões, além de muitíssimo interrompidas, são injustamente machistas, porque os grandes homens dependem de grandes mulheres e normalmente elas não estão por perto nestas discussões, onde (tenho a certeza) deplorariam o narcisismo e a ingratidão, a falta de visão histórica, a ausência de sentido prático, a vacuidade dos discursos.

Numa das nossas tardes de sábado, um idoso levantou-se da sua mesa, aproximou-se, pediu licença a nossas senhoriase, corroborando a visão do Saldanha, que recordava o avô Mendo, um grande antifascista, explicou-nos a sua teoria sobre os grandes homens, enquanto lhe lacrimejavam os olhos e o devastava uma espécie de asma sem fundo, que o obrigava a falar com grande sofrimento:

– Permitam-me os senhores que lhes conte qualquer coisa sobre um grande homem, um sujeito que me salvou a vida três vezes em poucas horas.

Cada um no seu lugar, no seu modo sonoro e gestual, no seu estilo bonacheirão ou desajeitado, desejou não escutar a longa história que se adivinhava.

– Os senhores são muito novos. De certeza que não sabem que eu sou… Mas já devem ter ouvido falar de mim. Sou Honório de Sá!

O desconforto cresceu. O nome não produziu senão um eco áspero. Tremelicando, o velho sorriu como quem tivesse percebido que ninguém ali dava o devido valor à sua pessoa.

– Eu fui o único soldado destas bandas a voltar da Guerra de 14. Consegui escapar dos alemães, em Armentières, depois de La Lys e fui o único a regressar à terra. A Guerra foi um desastre, mas nós mostrámos coragem, senhores! Mostrámos muita galhardia!

Uma vaga de ternura avançou pelos olhos entrincheirados do ancião. Rostos e imagens do passado deviam estar a subir-lhe à superfície, pois não reparou que lhe entregávamos uma cadeira para se juntar a nós. Sempre de pé, fincado no castão da bengala, pedia auditório.

– Quando fui para a guerra, a minha irmã mais nova disse-me que eu havia de voltar porque lho dissera em sonhos a alma da nossa mãezinha. Daqui destas bandas arregimentaram-se mais de duzentos moços, todos muito novos ainda, solteiros, casados, muitos com a boda assente, alguns com filhos pequenos. Foi uma debandada, senhores! Éramos todos lavradores, rapazes do campo, que vieram arrancar aos pais para os enfiar na guerra!

A princípio levaram-nos daqui para o Porto e mais tarde para Tancos, onde conheci o Milhais, ou Milhões… Já ouviram falar do Milhões? O mais bravo lutador português que existiu, senhores… Em Tancos não havia fome, mas era treino duro de manhã à noite. O Norton de Matos queria-nos prontos para as trincheiras e no final de 17 lá embarcámos para a guerra. Aos milhares, senhores, nas flotilhas dos ingleses… A mim puseram-me nas transmissões, na Companhia de Telegrafistas do Corpo Expedicionário, porque tinha a instrução básica toda e aprendera Latim com o Cónego Vieira, muito amigo de meu pai e que me quis levar para o Seminário…

Lá na fronteira da França, aquilo era um metralhar a toda a hora, canhões, obuses, morteiros. E então, sim, a puta da fome. Aquilo era uma fome de roer os ossos por dentro. Não fazem ideia da fome que nós tínhamos ali, enfiados na terra como as toupeiras, evacuando e urinando no sítio onde metíamos à boca a pouca e má vianda que nos davam.

Mas os alemães devolviam-nos a vontade de viver, senhores. Aqueles demónios faziam-nos buscar forças onde as não tínhamos. Passávamos tudo, mas não dobrávamos a espinha, porque eles vinham por aí abaixo, se não os travássemos. Vinham-nos buscar as mulheres e as irmãs. E era assim que lhes virávamos os fuzis das baionetas e os matávamos quando podíamos como quem se desforra da própria fome de morte… Não fazem ideia os cavalheiros da nossa alegria quando matávamos um desses desgraçados!

No café junta-se mais o grupo para lhe escutar a narrativa. O funcionário esquece-se da bandeja. Faz-se silêncio.

– Na madrugada de 9 de abril de 18, uma terça-feira, vejam os senhores como a memória me não deixa ficar mal, começou a batalha em Calais. Nós sabíamos que a guerra em começando era uma questão de dias, porque não dispúnhamos de armamento. Aquilo era uma aflição. O melhor que tínhamos era a Lewis, mas a maior parte dos soldados usava carabinas, a Kropatschek. Os ingleses tinham melhor armamento, mas nada que se comparasse ao armamento dos alemães.

Logo às primeiras horas do dia veio uma chuvada de morteiros que nos quebrou os ouvidos. Foi um martírio, ninguém se entendia no meio dos rebentamentos e na trincheira eram bocados de corpos por todo o lado…Um dos que ficou ali sem braços era meu amigo de criança. Vejam os senhores a carnificina e a dor que me saltou aos olhos, ao ver ali desfeito o Zacarias, o nosso Zacarias… Os alemães tinham a MG08, uma arma terrível, senhores. Aquilo era uma sucessão de tiros, que nunca acabava. Vi muitos dos meus amigos tombarem crivados das balas dos grandes filhos da puta!

Sei que quando o sol começava a querer mostrar-se só se via colunas de fumo e labaredas, como só as há de haver no inferno. Levei com uma bala no pescoço e fiquei enterrado no meio da lama. E lá asfixiaria, se não me valesse o Milhões. Já lhes conto! Esse bravo levou-me em ombros e salvou-me da morte certa, quando por mim passavam as botas dos meus companheiros e me enterravam naquele chafurdar de sangue, tripas, dejetos, pedaços de carne, roupa queimada. Enfim…

Médicos havia-os poucos, e todos lá trás, na retaguarda. O Milhões levou-me como a uma criança, arriscando a levar com uma rajada nas costas. Eu estava muito mal. Veem esta cicatriz, senhores? Foi aqui que o chumbo entrou! Ele é que me não deixou ali. Pegou em mim e levou-me à enfermaria e obrigou um médico francês a dar-me cuidados.

Éramos para ali uma cambada de mutilados e moribundos. Os da Cruz Vermelha não tinham mãos a medir, coitados. Berraram-lhe qualquer coisa, mas o meu amigo, o melhor soldado da nossa história, senhores, não desistiu de mim. Tapou-me o buraco com o lenço que tinha, da noiva, senhores, e não deixou que me esvaziasse o sangue…

O velho tropeça agora nas palavras. Galgado o dique da emoção, as palavras saem-lhe em jorros. Precisa de assoar-se muitas vezes, de limpar os piscos olhos encarnados.

– O safado do Milhões safou-me, ouviram? Empunhou o punhal que levava e apontou-a ao pescoço do doutor. No meio daquele pandemónio, que lhe importava ao francês safar este ou aquele? O safado era mesmo assim. Um amigo como não tive outro na vida, e lá me salvou a vida outra vez. E não contente com isto, tornou a rastejar para o sítio donde viera e ali ficou até caírem todos para o lado. Saibam os senhores que o desgraçado ficou sozinho na trincheira a metralhar contra os alemães…

O narrador dá agora uma risada engasgada de lágrimas, coisa sui generis, o ronco da gargalhada e o do choro misturados, ou então um só e mesmo ronco…

– A batalha estava perdida. De uma maneira ou de outra, estávamos perdidos, que eles mais que nós e tinham armas… Nós não tínhamos nada de jeito… baionetas, senhores, carabinas de ir ao monte à caça do lebrão.

Depois, quando os alemães chegaram, berrando muito, eu estava numa maca, sumido, tomado de febres. Não entendia o que diziam. Alguns queriam disparar sobre nós, mas um cão maior mandou os soldados meter os doutores e enfermeiras num camião e deixaram-nos assim, ao deus dará, no meio de nenhures.

Éramos um ror de feridos, gemendo… Os que podiam andar levaram-nos eles a todos, em fila, como a bandidos, dando-lhes coronhadas e cuspindo-lhes. A nós, os aleijados, deixaram-nos os bochesentregues à morte, assim, daquela maneira…

O café era um respirar só. Alguns conhecidos de pé, muitos sentados, escutando. 

– Mas o tratante do Milhões tinha de aparecer outra vez. Apareceu com um médico estrangeiro, um ruivo. Soube-se mais tarde que também a ele o tinha salvado da morte certa. Ora vejam só se isto não é a mão de Deus! O homem a morrer e o Milhões aparece-lhe, deita-lhe a mão, salva-o de se afogar e depois apanha-me no meio de nenhures, a tremer da febre, e é o médico estrangeiro que me salva a mim e a outros… Muitos morreram à mesma, antes que chegasse socorro…Mas a mim, o Milhões salvou-me a vida pela terceira vez…

Saibam os senhores que se não morri e aqui estou é por causa do Aníbal Augusto Milhais, esse grande homem, o maior que conheci desde que vim ao mundo no tempo dos reis, em 94…

Estranha mistura de sentimentos. De um lado e de outro da mesa, os homens menearam ligeiramente a cabeça, admirados; cumprimentaram o velho, abraçaram-no com ternura, apertaram-lhe a mão. O ruído regressou como sucede no despertar de um devaneio ou no final de um filme. Havia cavalheiros a levantar-se e a arrastar a respetiva cadeira, outros pagando a conta, alguns conversando paralelamente, lembrando histórias da Guerra em África, cenas incríveis, lances de heroísmo comparáveis aos do Soldado Milhões.

Por fim também eu me aproximei para cumprimentar Honório de Sá, para lhe expressar qualquer coisa como um indefinível agradecimento.

– Bela história e porém terrível, senhor Sá. Não há dúvida que me tinha enganado a respeito dos portugueses. Parece que nas horas de aflição mostram afinal o que valem! Foi um prazer enorme conhecê-lo, a si e a esta edificante história!

O ancião saiu por fim, na companhia de um rapaz, porventura seu descendente. Não voltámos a vê-lo.

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