Campo dei Fiori

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Mercado de fruta
Fotografia de Slim Mars

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Campo dei Fiori é mais concorrida num determinado dia do que todas as praças de Roma juntas em qualquer parte do ano. Cabazes e cabazes de alperces turcos, mirtilos da Dalmácia, melancias e laranjas do sul da Ibéria, maçãs uzbeques, maboques do Botswana, ameixas azuis da Polónia ou múcuas de Madagáscar invadem os pequenos quadrados onde reina o mercado das flores e onde a estátua escura de Giordano Bruno acabrunha há muito as consciências.

– Um abutre reconhece sempre os outros abutres. Morram os abutres, cazzo!

Palavras praguejadas como estas de Filippo Constanza multiplicam-se. O chão tapizado de restos podres, escarros e insultos é o que se pode esperar de um lugar coabitado por competidores. Todos ganham, tudo se vende, no entanto, a rivalidade corre nas mãos.

Trinta e cinco euros por um quilo de rubicundas cerejas portuguesas é quanto Ignazio Monticcino acaba de embolsar. Ao dele, Federica Livorno seca as mãos ao avental, depois de ter tratado cirurgicamente das suas orquídeas-garça, eleitas por gosto unânime, como as mais belas e as mais caras que se podem transacionar em Itália: cinquenta euros a unidade.

– Um abutre é sempre um abutre. Morram os abutres, cazzo!

Filippo Constanza comercia limões calabreses. É ácido e luminoso como eles. Todas as más palavras respingadas da sua boca são ditas com um sorriso. O mesmo sorriso que esboça quando corta um dos limões em dois e o come tranquilamente em dentadas certas.

Os abutres, aliás todas as espécies de aves raras, todas as formas de carne, diga-se, são mercadoria expressamente proibida agora pelas autoridades em Campo dei Fiori. Isso fica para o Rionale di Monti, ou para o Mercato di San Cosimato.

Não compreendemos, portanto, a que abutres se refere Filippo Constanza.

Os colegas vendedores, que muitas vezes baixam os olhos quando o escutam, também não compreendem. Giordano Bruno lá do alto do pedestal talvez o saiba. Mas a ele não o ouvem, há bem mais de quatrocentos anos.

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Bach

jon-tyson
Fotografia Jon Tyson

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Verdadeiramente devo tê-lo escrito em todos os meus livros ao menos uma vez, nos inéditos também: a música de Johann Sebastian Bach, em particular as suítes que compôs para violoncelo, é o mais próximo que conheço de Deus.

Durante as longas esperas hospitalares (em particular quando acompanhava a minha mãe aos tratamentos oncológicos), nas horas de estudo e de pressão no escritório, caminhando junto ao mar, durante as horas infindas de leitura e de escrita, sobretudo nas viagens de automóvel para casa, devo-lhe o único prazer de estar vivo e de poder espreitar os portões daquilo a que sentidamente chamo paz.

E não é pouco. Porque essa paz, esse prazer de sedosa carícia, essa reconciliação do corpo cansado (tantas vezes exausto, doente, prestes a ceder) com a alma (tantas vezes esfarrapada, confusa, desavinda consigo mesmo, como Sá de Miranda verbalizou no poema mais conhecido de toda a sua obra literária), essa paz, esse prazer, essa reconciliação não têm preço. Interpretadas por Yo-Yo Ma (o meu violoncelista predileto), ou por Rostropovitch, por Mischa Maisky, ou até por Pablo Casales, estas seis composições merecem-me o meu eterno obrigado.

Como em tantas coisas mais, como seria o mundo melhor se lhe procurássemos as criações mais geniais. E as agradecêssemos!

28.12.2024

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Pausa

Héleboro, Helleborus, Natal, Christmas
Fotografia de Annie Spratt

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Por fim a pausa.

Reconhecemos uma pausa quando trocamos o café pela poesia grega, quando trocamos a poesia grega pelo jardim.

Herman de Coninck, poeta e jornalista belga de que cujo sentido de humor gosto bastante, escreveu que num texto maravilhoso, dedicado à mãe, que «poesia tem a ver com a duração» e que é preciso «deixar que as coisas ganhem bolor / deixar que as uvas se transformem em álcool». Dito de outro modo, é bom chegar ao final de um lancil, olhar para trás, compreender o tamanho da nossa jornada e ficar quieto.

Trocar o ruído da cafetaria pelo longo tropel dos cavalos e pelo estrugir das armas em Homero constitui um excelente exercício de quietude, mas exíguo se comparado com a luminosa perfeição das heléboros ou do azevinho nestes dias de Natal.

De repente, tudo em volta se parece excedentário e absurdo. Pausar é regressar à justa medida da nossa alma, deter o passo seguinte (o passo em falso) e compreender como Coninck, no já aludido poema, «Tu és o relógio: o tempo passa / mas tu ficas».

21.12.2024

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Arcaísmos

Denis Doukhan
Fotografia de Denis Doukhan

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Poucas coisas me entristecem mais do que a sensação de me estar a tornar velho, velho precoce, velho engolido por um tempo recente, apostado sem clemência em destruir pedaços do humanismo que considera arcaicos, como a pena, a compunção, a castidade, a cortesia leal, a busca paciente, a amizade desinteressada, os gestos sãos, o prazer do silêncio e as saudades, a inteligência intuitiva, os poemas difíceis, o bricabraque, os termos que a língua materna e ancestral fossilizou e a língua franca existe serem lançados fora, como um corpo defenestrado e aleivoso.

Dou por mim a beber café à pressa, a ler pouco, a conversar às escondidas, a apanhar um raio de sol numa nesga, a riscar na agenda afazeres que jamais vou conseguir concretizar, a sentir-me um estorvo no meu próprio corpo, entre os meus pares, contra toda a expetativa que eles e eu formulámos acerca de mim e deles. Porque essa velhice de que falo atinge os antigos e os novos, os idosos e os adolescentes, eu e os outros, todos que fugimos de ver a realidade.

Suponho que os arcaísmos são um reservatório imenso de amor, de vitalidade, de verdade, de autenticidade que precisamos de resgatar. Suponho que não seria mau reintroduzirmos obséquios e donaire no quotidiano, de assumirmos uma coragem e uma galhardia que os nossos avós nos deixaram e que hoje, por culpa da ditadura das modas, da globalização, do apanágio de toda imensa ramificação da cultura pop politicamente correta, e engajada, nos não deixam exibir. Como se escrever ou dizer merda, por exemplo, representasse um atentado inaceitável ao pudor e não gostar da hipocrisia woke nos fizesse merecer o mesmo destino das estátuas derrubadas dos ditadores.

Enquanto isso, podemos fingir que somos civilizados, equilibrados e moralmente íntegros. E aceitarmos que nos palmem a História, ou a reescrevam, e nos impinjam conceitos equívocos e nos apaguem a língua. Tudo em nome da paz e da harmonia universais. Como no jogo das cadeiras, aquele que se atrasar, perde o assento e é expulso!

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O monge do fogo divino

Simone Eufemi
Fotografia de Simone Eufemi

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Albericiano era camponês. Aos quarenta e cinco decidiu deixar os campos, o pecúlio e a mulher para se juntar aos monges de uma ordem menor da província de Lucca.

Os filhos, todos maiores e casados, não acharam bem nem mal. À esposa não fez aquilo mossa, porque um marido negligente significava o mesmo que uma lareira sem lume. Os vizinhos aproveitaram o caso para encher a boca, satisfeitos por se verem livres de um focinho tão difícil, com crenças tão teimosas, multiplicado em gestos tão irrespondíveis.

Albericiano depressa preferiu o retiro das penhas ao interior pouco amistoso do mosteirinho onde o receberam.

Jejuava amiúde. De tal forma que o ventre mal se via. E orava. Orava com o silêncio, com os olhos, com as mãos. Para viver bastava-lhe a beleza dos restolhos, o orvalho das ervas, as penas e o pelo dos bichos que acariciava e que sabia serem duplos de Deus, se é que Deus visitava sítios como o penhascal onde se acoitou.

Nasceu a lenda de que Albericiano não precisava de se alimentar, nem sequer de raízes e gafanhotos como João Batista. Contava-se que convertia as criaturas perdidas das falperras (trânsfugas, salteadores e assassinos) em homens de fé. E que curava não apenas gafos e tuberculosos, mas todos os que definhando da cabeça ou morrendo de desgosto o procuravam.

E, no entanto, em toda a sua existência não proferira uma palavra, uma única palavra. Porque Albericiano era mudo.

Contavam que ele se nutria do fogo divino.

Como o brilho do luar sobre as folhas mádidas dos carvalhos, o monge alumiava sem tocar e ensinava sem falar.

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Cinzas

Nastya Kkvokka
Fotografia de Nastya Kkvokka

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Gosto de tocar as cinzas, de sentir o leve esboroar da sua forma frágil erguendo às narinas um olor distante de madeira consumida pelo fogo e dias de chuva e janelas altas sobre um horto de infância. Gosto de as varrer do ferro fundido da salamandra, ou do fogão, de usar um guardanapo humedecido com farrapos dessa matéria insubstancial para polir os vidros e até os metais. Gosto da limpeza que me fica quando dela liberto o espaço e à sucede saturação o ar limpo da sua ausência.

Gosto de olhar as minhas mãos e as minhas unhas manchadas, bordejadas, sujas pelo pó daquilo que existiu e se entrega ao nada sem protesto.

Desconheço texto mais belo sobre elas do que o que escreveu Robert Walser, integrado num livrinho magnífico, intitulado Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos. Apetece quase ler esse texto como uma oração, como o delírio de um eremita, como uma provocação silenciosa àqueles que (como nós) vivemos inteiriçados de orgulho e confiança nas coisas materiais. Eis um excerto: «A cinza é a humildade, a insignificância e a própria inutilidade e, muito em especial, ela própria está impregnada da crença de que não serve para nada. Pode alguém ser mais instável, mais fraco e mais pobre do que as cinzas? Dificilmente. Existe algo que poderia ser mais indulgente e tolerante do que elas? Muito pouco provável. A cinza não tem caráter e está tão afastada da madeira como o desânimo do triunfo.»

Quantas vezes nos sentimos como essa cinza de Walser. E quão especial podemos ser!

13.11.2024

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Livros

Ler_Jilbert_Ebrahimi
Fotografia de Jilbert Ebrahimi

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Todos nós guardamos um lugar indefetível na biblioteca pessoal, um espaço onde habitam livros que descobrimos fora das sugestões académicas, por mero acaso, por sorte, por instinto, livros aos quais regressamos muitas vezes e em diferentíssimas ocasiões, livros que nos defendem da mediocridade e do miserabilismo do tempo, que ostentam o nome de um autor e uma literatura tornados nossos, livros que como uma paisagem vulcânica de Lanzarote, ou como os acordes de Joaquín Rodrigo no Concerto de Aranjuez, ou como os cromáticos feéricos de Jan Vermeer passaram a pertencer-nos pelo efeito de um amor incondicional e inconcessível.

Esses livros podem ser de poesia ou um romance, podem conter áridos núcleos científicos ou filosóficos, podem recuar a uma ilha grega do século VIII a. C. ou fazer-nos avançar na direção de um futuro irreconhecivelmente robotizado, como os de Aldous Huxley. Voltamos a eles na condição de refugiados e em fuga. Procuramos escapar a uma catástrofe. Assim, a porta da salvação fechamo-la por dentro, acendemos a luz bendita de um candeeiro e, ainda que a altas horas, pomo-nos em marcha, buscando num caminho não mapeado o reencontro com a inteligência, com a sensibilidade, com a subtileza.

Nestes dias atrozes (hoje quase ignoramos que atroz decorre do latino atrōx, ōcis, adjetivo que integra significados como cruel, ameaçador, violento, teimoso ou indomável), ler, ler esse filão em particular de livros bons, que amamos, pode aguentar-nos. Quero dizer, pode manter-nos os olhos abertos e a cabeça limpa, uns e outra sem argueiros, mascarras ou teias bolorentas.

09.11.2024

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Pat Metheny & Charlie Haden

Joshua Choate
Fotografia de Joshua Choate

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Durante anos, nas minhas viagens de automóvel por autoestradas ou caminhos secundários em direção às escolas onde trabalhei, escutei centenas de álbuns de música clássica, eletrónica, jazz, pop-rock, new age, guitarra espanhola, fado, canto gregoriano, afrohouse, alternativa, álbuns de muitos outros géneros de difícil catalogação. A escolha recaiu sempre no estado de espírito do momento, na vontade de imergir numa certa paz de empréstimo ou de iluminar todas as reentrâncias da cabeça e da alma com sonoridades enérgicas, fortes, despoletadoras por moto próprio de uma ação ou de uma reação.

Ouvir o Shout dos Tears for Fears às sete da manhã, quando se está ainda a sair do sono e a manhã entra connosco na A7, vinda das linhas longínquas do Marão, não é algo que se esqueça. Nem se esquece o efeito das notas de Elegy of the Uprooting de Eleni Karaindrou, no instante em que observamos cheios de poesia um bando de pombos que decide voar em círculos (como um cardume prateado) sobre uma floresta de plátanos e álamos cheios de cor outonal. Tão-pouco se perderá da memória Teardrop dos Massive Attack naquele instante em que a sonolência do carro nos leva ao rasto dos aviões no horizonte, na precisa fração de segundo em que o sol os interceta e eles se parecem caracóis segregando pachorrentamente a sua baba hialina.

Um álbum me acompanhou muitos meses, Beyond the Missouri Sky, de Pat Metheny e Charlie Haden. A guitarra de um e o baixo do outro foram um poderoso calmante, um apaziguador maravilhoso, para as horas de trânsito e para as outras, em que o asfalto parecia levar-me em solidão para lá de Deus. Muitas vezes escrevi em pensamento com esta banda sonora em fundo. E nunca soube, ou pude, dizer obrigado. Porque a música (como a poesia) tem de ser escutada, amada, agradecida.

05.11.2024

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A Grande Onda

Katsushika Hokusai, A Grande Onda de Kanagawa, c. 1830
Katsushika Hokusai, A Grande Onda de Kanagawa, c. 1830

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Muitas vezes ocorre sermos surpreendidos por uma espécie de fadiga que pulveriza tudo aquilo de que gostamos e que parece ceifar pela raiz o tronco das nossas emoções. Sentimo-nos cambalear por dentro, ébrios de uma paralisia implacável, sonâmbulos de uma morta temporária, derribados por aquilo a que os anciãos chamam de fastio, ou os poetas de acídia, aquilo a os psiquiatras chamam de astenia ou vulgar, indiferenciadamente, desgosto, depressão, tédio.

Quando somos tragados por essa onda – e é impossível não evocar aqui aquela que Hokusai pintou, engolindo as pobres barcaças dos pescadores de Kanagawa – resta-nos muito pouco, praticamente nada, como se perdurássemos numa existência de cinzas e de silêncio.

Acontece, no entanto, sobrarem na grande viagem dos dias e dos anos alguns farrapos de milagres. Depois da fadiga, do marasmo, da paralisia, sobrevém sempre uma época de brilhantes aberturas da alma. Reacende-se nela, tal como uma chama que se aviva nos carvões mal apagados de uma lareira, o sentido da existência, o fio das palavras, o lampejo da alegria. É o tempo mais fascinante da nossa vida, aquele em que se opera a redescoberta do Eu e da Fé..

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Comunicação

Ronald Plett
Fotografia de Ronald Plett

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Por vezes, ainda de olhos endurecidos pelo sono, venho ao pátio e quedo-me alguns minutos a contemplar. Vejo as linhas triplas de alta tensão, a fuselagem em movimento de um avião pelo meio delas, o rendilhado às vezes esfiapado, translúcido, das teias de aranha nas cornijas do telhado, as estradas subindo e descendo, curvando, nos sítios que foram e são toda a minha vida.

Pergunto-me se estas linhas não serão elas também uma forma de linguagem, de escrita, tal como o sol, as ervas, ou o próprio vento. Não serão uma forma de escrita cuja decifração depende em grande medida da argúcia dos olhos e do sentido da ocasião em que mergulham na realidade e a veem de outro modo?

A poeta polaca Wisława Szymborska diz-nos que «Duas vezes nada acontece / nem acontecerá. É assim sendo, / nascemos sem prática / e sem rotina vamos morrendo». É uma variante do adágio popular «ninguém nasce ensinado». As formas de comunicação do mundo são um pouco como o falso silêncio do cosmo: depende sobretudo do tipo de telescópio com que o perscrutamos. A nossa inocência cessa no instante em que descobrimos um modo de ler o que se encontra para lá de nós.

03.11.2024

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