COISAS INSÓLITAS

Coisas insólitas
Fotografia de Petri Damstén

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O suplemento cultural do El País noticiava na semana passada, e a propósito da entrevista com Hernán Diego Caballero – o mais caro, o mais culto, o mais singular cangalheiro de Madrid – uma série de factos bizarros, a que chamaram nas caixas laterais da peça “Cosas Increíbiles”.

Recordemo-las:

A nadadora

Paloma Martínez*, ex-atleta olímpica, nadadora, divorciada cinco vezes, exigiu em testamento que a depositassem no caixão completamente nua, devendo o esquife ser de madeira de cedro azul e conter dois palmos bem medidos de areia proveniente de Alicante, sua terra natal.

Exigiu, igualmente, que a não maquilhassem, mas que, antes de ser encaminhada para o crematório, lhe desenhassem “ao de leve” um sorriso no rosto, “delicado, mas trocista”. Não dispensou o velório, mas quaisquer tipos de cerimónias religiosas foram liminarmente excluídos, por sua vontade.

Varrida a areia da urna – não constante, diga-se, do circuito cinerário de todos os fins –, o funcionário de serviço leu, eram nove menos um quarto, sobre o tampo do féretro a lacónica inscrição: «Em suma, fui uma tola!»

O podologista

Gervasio Muñoz, podologista, viúvo de noventa e muitos anos, pretende ser sepultado com as fotografias do casamento, ocorrido em junho de 1946. Explicação: a mulher, Concepción Aguilara, possuía os pés mais bonitos que viu em toda a sua vida e nunca eles lhe pareceram tão belos como no dia da boda, calçando uns modestos peep-toe feitos de uma imitação de pele de cobra e emprestados pela sua irmã mais velha.

Na campa de Gervasio todos os recipientes deverão apresentar a forma deste membro inferior e todos deverão – pelo período de vinte anos – ser enchidos uma vez por semana com orquídeas brasileiras, as prediletas da sua defunta.

Deixa testamentada a soma de oitenta e cinco mil euros para este efeito.

O engenheiro

Daniel Guarnido, engenheiro de telecomunicações, lunático, declara ser pedido expresso de sua mãe, Leonor del Prado, festejar a partida como festejaria um novo casamento ou o centésimo aniversário. Todos os interessados em participar no programa exequial devem rever o repertório dos ABBA. Com efeito, o sistema sonoro da capela mortuária prepara-se para repetir o Chiquitita, o Mamma Mia, ou o Voulez-Vous.

Momento culminante –garantiu-o Caballero ao El País, sob palavra de honra – acontecerá quando os músicos tocarem um arranjo musical, especialmente concebido para a ocasião, do Take A Chance On Me e toda a assistência responder em coro, e comovida, eufórica, incapaz de resistir – e muito fácil de adivinhar – se entregar a um pezinho de dança.

Nota: o engenheiro quer filmar o evento e oferecer a todos os amigos e convivas a possibilidade de o recordar, contando que acedam a uma plataforma de streaming. Caso é para que reflitamos neste sábio pensamento de um autor anónimo: «Nunca nada será tão estranho que o não possa ser mais ainda.»

O traficante

Na mesma linha de pensamento – sem que, contudo, tenha ocorrido a Hernán Diego Caballero a evidente falta de originalidade temática – Pablo Iñigo desejou que o seu derradeiro avistamento neste mundo fosse assinalado com a presença de um DJ, colunas de potência máxima e dançarinas repletas de sensualidade. Aos convidados – “Convidados, pois claro”, enfatizou o cangalheiro, “e do melhor pano social” – a eles foi servida uma mistura de uísque, bebidas energéticas e o remanescente do produto que na etapa final da sua curta vida Iñigo comerciou “entre os nossos filhos, nos melhores bairros da nação”.

Não importa que o barulho, as moças delirantes, as drogas, o álcool, o grotesco ataúde enfeitado com fitas néon coloridas, os gritos orgásmicos saídos de todos lhe hajam parecido um fornízio bíblico.

“Na nossa empresa o lema é «Em tudo agradar ao cliente, como se não houvesse amanhã»”.

O eletricista

Por último, o caso de Jose Luis Ibarzabal, eletricista. Mostrou-se irredutível no modo de aparecer diante do Criador. Em lugar de um terço, quis as mãos unidas a uma lâmpada vulgar em forma de pera, das antigas. Também desejou que o não vestissem com fato e gravata, mas com o macacão azul-sulfato. Não quis sapatos, mas as botas de trabalho e o cinto das ferramentas. “Se Deus fez a luz e a luz se fundiu, vou em boa altura”.

Foi de rir.

Ao forro acetinado da tumba decretou que cosêssemos as placas retrorrefletoras com os sinais de perigo e de aviso a que se acostumou. O mais bizarro de todos – obra do seu engenho e sentido de humor – uma caveira iluminada com o brilho de uma explosão e o seguinte dizer: Cuidado com os mortos. Eles cagam-se!

* N. A. Todos os nomes próprios foram devidamente reintegrados no nosso texto, pese a inoportunidade e deslealdade” (sic) de o termos feito, como muitíssimo bem o lavrou no seu protesto (a nós dirigido em sobrescrito de janela e com monograma dourado) Hernán Diego Caballero, acionista principal da empresa TE INMORTALIZAMOS, a quem pedimos (e às famílias dos visados) as mais sinceras desculpas.
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A ÚLTIMA SAGA

catalin alexandru
Fotografia: catalin alexandru

 

No Golfo de Bótnia, a meio caminho entre a Suécia e a Finlândia, fica o arquipélago de Åland. Mika, um carpinteiro naval, trabalha em Iniö com o seu irmão Thure. Presentemente, ocupa-se com a construção de um drácar viking, mas o seu pensamento desce muitas vezes a um sonho que se repete noite após noite.

Vê-se a velejar pelo espelho tranquilo das águas na costa continental, com as pequenas casas vermelhas de madeira a espreitá-lo desde os prados. É já muito velho. A família reúne-se para o ver partir. Ele entra numa cápsula futurista, espécie de grão de ervilha todo em vidro, e o estranho objeto sobe então em direção ao espaço a grande velocidade. Viaja entre planetas e asteroides, vê o movimento de aproximação e afastamento dos grandes corpos celestes, das luas, dos anéis de gelo. Não precisa de alimentar-se, nem de satisfazer quaisquer outras necessidades fisiológicas. Não precisa sequer de respirar.

Penetrou no campo da eternidade. Assim como está, assim se manterá para sempre. Distancia-se cada vez mais da Terra e daqueles que vieram despedir-se. A morte é um caminho infinito para o além e o além é o afastar-se cada vez mais daqueles que ama ainda e de que sente já saudades insuportáveis.

Desperta todas as madrugadas com lágrimas nos olhos. Noora, felizmente, dorme. Não seria fácil explicar-lhe este enredo onírico e, sobretudo, a repetição do pesadelo.

«E se a morte for exatamente aquilo, a solidão total no tempo e no espaço!»

Quando regressa à oficina, já o dia despontou. Trabalhar a madeira com a enxó e com a plaina costuma ser revigorante – esta novíssima embarcação é uma encomenda especialmente cara e desafiadora. Mais ainda quando decide velejar entre as ilhas e ilhotas vizinhas até Mariehamm, sentindo o fustigar do vento frio e o movimento do sol na água que tudo reverbera e ilumina.

Mas a sombra do pesadelo reapodera-se de si à medida que a noite cai. Chega a ter medo de adormecer.

«E se a morte for exatamente aquilo?»

Nenhum de nós garantirá que não é.