Uma espécie de autoridade

Professor de Matemática
Fotografia de Hans B.

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«No espaço de uma aula espera-se que um professor saiba, queira e possa ensinar e que um grupo de alunos possa, queira e saiba aprender.»

«Tudo o mais é admirável, decerto indelével, muitas vezes possível. Tudo o menos deve ser contraposto, esmagado com violência, como se esmaga uma barata, e varrido para o caixote do lixo.»

«Incluo entre os feios insetos do ensino a falta de respeito, as péssimas decisões superiores (provenham elas de onde provierem), a intromissão nefasta de quem não é professor e não é aluno e não respira a natureza deste anfiteatro.»

Estas e outras foram durante quarenta e cinco anos as palavras de abertura do ano escolar de que se serviu o Professor Sebastian Gruber, responsável pela cátedra de Geometria Analítica na Universidade de Tübingen.

Não consta que tivesse sido mau mestre, ou pedagogo incapaz e atávico, ou colega presunçoso e displicente, ou pessoa malquista e desprezível. Pelo contrário, era estimadíssimo dentro e fora do campus.

Todos conheciam as suas aptidões e fraquezas e o Professor Gruber conhecia-as melhor do que ninguém. Dele são, também, as palavras que a seguir se reproduzem.

«No espaço de uma aula ensina-se e aprende-se. Tudo o resto é uma perda indesculpável de tempo. E eu recuso-me a deixar que os meus alunos sejam vítimas ou beneficiários da sua expressão, em todo caso, numérica.»

Resta-nos desejar ao emérito docente as maiores felicidades, agora que, conhecida a jubilação, poderá dividir o tempo precioso da sua vida com os netos, a helicicultura e o tratado sobre fractais que vem redigindo aos bochechos.

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Uma conversa

Tuna Angel
Fotografia de Tuna Angel

No leste da Escócia, em Aberdeen, o vento e a chuva são infalíveis nesta altura do ano. Um e outra costumam fustigar as janelas a maior parte do dia, razão por que uma das grandes necessidades aqui é o bocado entre turnos do trabalho, ou então à noite, que se passa ao lado de um par de canecas altas de cerveja, chips e caraoque. Os pubs existem por toda a parte, muitas vezes porta sim, porta sim.

Nélida viajou de Espanha para estudar os artefactos e incisões nas rochas na aldeia de Rhynie e para rever e documentar-se sobre as maravilhosas, antiquíssimas e enigmáticas esferas de pedra que nas últimas décadas foram desenterradas do chão misterioso desta e de outras regiões limítrofes, aumentando a aura que desde Júlio César esconde este país do mundo fácil e óbvio do saber.

Em mau inglês pediu e foi servida. A língua franca tem ainda muito que se lhe diga. Alguém pusera a tocar The Whole of The Moon numa Jukebox anacrónica. Almoçava-se, bebia-se e fumava-se alegremente em linha, em cadeiras altas, rostos desconhecidos frente a frente, nos dois lados da simétrica bancada, separados pelo exército de galheteiros, saleiros e pimenteiros e pelas inevitáveis bases dos copos. Discutia-se tudo, ao mesmo tempo, em pares quase sempre, às vezes em grupo, um falando todos ouvindo, como nos tempos comunitários das tabernas: futebol, caça às orcas, fraudes eleitorais, pornografia. Nada é mais prazenteiro que uma boa conversa, mantida à custa do álcool e de um prato de bangers and mash ou de surf and turf ou mesmo haggis, seguido de um victoria sponge cake ou de um scone com geleia.

Nélida explicou a sua paixão. Um dos comensais sorriu: para ele a História era como a Matemática, uma treta.

– Como assim?

– Vocês historiadores passam a vida a tentar dizer-nos que o passado foi assim, deixando de fora informações que nunca poderão ter e que seriam preciosas para que soubéssemos como tudo aconteceu realmente…

– O senhor exagera. A História baseia-se em provas, em testemunhos, em evidências, em documentos, caramba…

– E que importa dizer que foi assim, se não for capaz de explicar todo o mecanismo de emoções, todas as fases de um pensamento, todo o cenário de uma batalha, todas as perspetivas de uma revolução, toda a verdade escondida na mentira de uma omissão e de uma peça a menos?

– Meu caro senhor, isso é como o paradoxo de Tarski.

– Ora, explique lá!

– Qualquer coisa como isto: entre o zero e o um há todos os números. Se os números são infinitos, então será logicamente impossível avançar de um número para o outro. E, no entanto, veja: tenho aqui um pedaço de pudim. – Engoliu-o – E agora tenho zero pedaços de pudim. Meu caro, a História é prática, é razoável e tem imenso charme!

Todos em volta se riram. Muito bem respondido. Pediu-se uma rodada de Belhaven para celebrar. Nélida recusou. Agora só o café.

Quem assistia sem participar olhava o céu fusco, de uma cor esverdeada e suja, que caía sobre os telhados e sobre a marina. Ao longe, um navio de carga descia a Edimburgo ou a Newcastle. Também ele parecia cheio de sono e sem vontade de tagarelar.

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