Neste conto satírico e incisivo, o narrador disseca o estrelato literário de Măgira Rumanesca, figura proeminente do feminismo romeno contemporâneo, cuja militância estridente e ambiguidade ética revelam tensões entre ideologia, vaidade e autenticidade. Um retrato mordaz das derivas do activismo cultural e do culto à imagem no meio literário.
A inveja
. Como naquele conto de Jorge Luís Borges em que Aureliano de Aquileia foi condenado a morrer numa fogueira, atraiçoado pelo ciúme de João de Panónia, assim Kamo no Chomei se viu enredado na maior das perfídias por conta da inveja de Katsuo Hashira, poeta rival, poderoso, incapaz de lidar com a gloriosa humildade desse …
O cemitério
. O cemitério paroquial de Ancohuma, na província boliviana de Larecaja, situa-se a mais de seis mil metros de altitude. Pese os nevões contínuos que se abatem sobre ele a maior parte do ano, aí celebra-se a vida como num campo de girassóis. No lugar onde cada mulher e cada homem da aldeia foram sepultados …
«Em Nome da Luz» ou uma Poética do Silêncio
. Nenhuma palavra é mais obsidiantemente procurada na obra de João Ricardo Lopes do que aquela que escreve silêncio. Em todos os seus livros, não excluindo os de ficção, ela (re)ocorre investida do peso, do poder, do prestígio de um vocábulo-fétiche (como o próprio autor reconhece [1]), em torno do qual se estrutura uma poética …
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Páraic O’Reilly
. Dezembro verte uma fina camada de vidro sobre as casas. Em toda a parte doem os nós dos dedos e os ossos. Páraic levanta as golas do sobretudo e sai da taberna. Na Irlanda, a lua cheia é neste mês uma presença transfiguradora: os telhados e chaminés húmidos das aldeias, os bosques e rios …
Muito tarde
. Era tarde. Adiante de Lampedusa, o homem deixou de bater os remos. Não fazia a mínima ideia de para onde ir. Pôs-se a imaginar a profundidade do mar no ponto exato em que se encontrava. Pensou também que daí a horas todo o orbe se cobriria de estrelas e que, entre elas, se avistariam …
Tu partiste, eu esqueço-me de tudo
. A manhã é dolente. Tu partiste. Eu esqueço-me de tudo. Na praceta, as pessoas repetem o dia anterior. Recebo notícias. Os pássaros voam eufóricos sobre os telhados. Alguém diz «Bom dia». Cheira-me a pão torrado. Dou-me conta das extremidades frias, geladas, dos meus dedos. Respondo «Bom dia» a alguém. Podia pensar na operação, em …
Tudo gente boa
. Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de …
Gosto de conversar contigo
. Gosto de conversar contigo. Gosto da tua voz, que é meiga e cheia. Gosto dos teus olhos, caindo e recaindo sobre os meus, tão devagar como duas pedras em câmara lenta. Gosto das tuas palavras. Do teu perfume. Do modo como apanhas o cabelo e penteias as farripas tresmalhadas. Às vezes nem te oiço. …
O homem que pedia cigarros
. O homem chegou e sentou-se na mesa ao lado. Suspirou. Fê-lo tantas vezes e tão fundo que conseguiu a minha atenção. Foi o bastante. Endireitou a posição da cadeira de modo a ficar mais próximo. Sorriu. Pediu um cigarro. Dei-lho. Não tardou a contar-me a sua vida. ‒ O meu problema são estes dentes …
Pessimismos e happy ends: um guião, o filme
. Acordei esta manhã encavalitado num ponto de interrogação: porque somos todos tão pessimistas? Todos, sim! Ou quase todos! A esmagadora maioria dos espécimes da espécie! Pessimistas, avessos à ideia de sorte, descrentes de que o happy-end ainda se vende nos mercearias antigas e nas lojas gourmet, aziagos, autorrebaixadores, soturnos. Porquê? Eu sou um dos …
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Café
Logo pela manhãzinha o cheiro do café espalha-se pela casa, intenso e delicado como os pés de uma criança. Minha mãe sempre acordou cedo. Foi ela a primeira pessoa no mundo a quem admirei o vício. Fá-lo fresco, de borra, todas as manhãs, na velhinha cafeteira de alumínio: a água ferve, depois são duas colheres …
Delírios
Na cabeça enviesada de um doente passam-se coisas inexplicáveis, coisas como decerto as que descreve o senhor Brás Cubas nas suas Memórias Póstumas, labirínticas coisas que são o eco da batalha entre o devaneio e a razão, que é como quem diz entre a febre e doses cavalares de ben-u-ron. Por qualquer motivo da …
