As mãos

Foto de arquivo pessoal (2025)

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Um dos mais celebrados poemas de Herberto Helder principia assim: «Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado» («Aos Amigos», Poemacto, 1961). Nada se oferece tanto a nós ou nos oferece tão profundamente aos outros quanto as mãos. O seu toque adestra os sentimentos, acalenta os miseráveis, ampara os desfavorecidos, abre a forasteiros e errantes lugares de refúgio e de esperança, chama a si o diferente e o simétrico, firma pactos, constrói pontes, escreve imprescindíveis palavras a que o futuro dará tempo de germinação.

Na sua pele, na diversa composição dos dedos (como se a bendita diferença de tamanho e de função os tornasse entre si inextrincáveis criadores de vida), na beleza das unhas, nos pequenos cursos azuis de sangue até às vénulas e arteríolas mais ínfimas, nas linhas em que se dobram as suas falanges e se fecha a concha total dos seus ossos, existe uma ciência de fogo. A ciência de fogo de que falo é o dom que todos possuímos (e muitas vezes repudiamos) de amar, ainda que na sombra, mesmo que em silêncio, conquanto na pequena escala de quem faz nascer, não uma injúria, mas um poema, uma amizade no sítio do ódio, uma mão aberta e disponível em vez de um punho hostil.

Herberto termina o seu poema com versos proféticos: «– Temos um talento doloroso e obscuro. / Construímos um lugar de silêncio. / De paixão.» O mundo dos homens só poderá salvar-se compreendendo eles para que servem as suas mãos, amando os tristes que as têm abertas, com cinco dedos de cada lado.

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Nausícaa

Fotografia de Annie Spratt

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No final das férias, a alegria extinguiu-se já no semblante de muitos turistas. À medida que a praia vai ficando deserta, com os detritos infelizes que nela abandonaram milhares e milhares de forasteiros descuidados e egoístas, o rosto de Nausícaa parece acender-se. Chegou a sua vez, o seu tempo, a sua paz.

As manhãs de setembro revelam um longo areal branco voltado para um mar cor de chumbo, um e outro a necessitarem de si, da sua fala mansa e desapressada, dos seus olhos benévolos que tudo observam, das suas mãos diligentes e sensíveis correndo sobre a crista escorregadia dos rochedos. Aí deixaram restos de plástico e restos de alumínio e pedaços de vidro e de cartão e de ráfia e redes e tecidos esgarçados e tiras de borracha e mais plástico e mais despojos de alumínio e mais esquírolas ameaçadoras de vidro.

Nausícaa extrai das poças, da linha da salsugem, do manto das areias, dos altos e baixos da maravilhosa duna sem fim todo esse lixo detestável. E cuida das anémonas feridas, das aves pelágicas, das madeiras quebradas nos passadiços, dos canteiros selvagens onde o funcho-do-mar e os rabos-de-lebre e as camarinheiras e a amófila sobrevivem ao vento, ao sal e às incursões malignas dessa gente faminta de fotografias e de admiração.

– Pobres criaturas, como estais tão ressequidas, tão cansadas, tão moribundas!

Em setembro as manhãs orvalham, o frio resvala pela corola, pelas folhas espinhentas, pelo caule antipático dos cardos. O nevoeiro avança e recua, abrindo e tapando no horizonte a linha lisa das águas.

A bondade não deve ser confundida com indulgência, nem esta com a cobardia.

No mundo dos homens há uma paleta tão vasta de comportamentos que pode um poeta pintar quadros repletos de verdade e de justiça, equilibrando-os entre o bem e o mal absolutos.

Nausícaa não pensa nisso. Se alguém a observa, vê-a neste preciso instante a recolher com todo o cuidado formas pontiagudas de vidro e carcaças amolgadas de metal, agarradas como bisso, como sórdidos intrusos, como presenças infames, às rochas nuas, indefesas, subjugadas da sua pequena ilha.

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Uma pilha de livros

Fotografia de Delphine Devos, old books
Fotografia de Delphine Devos

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para a Salomé

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Numa das ruinhas da vila, à esquina com a marginal, mal se dá conta de uma casa pequena de paredes caiadas e rebordos de granito. Deve ter sido noutro tempo o lar segundo de alguma família de bem, como o testemunham o jardim com jacarandás e uma estrutura em forma de estufa, de que sobram hoje troncos e partes metálicas retorcidas: percebe-se facilmente ter sido esse espaço amplo outrora e hoje muito mutilado por força dos edifícios espalhafatosos que cresceram no lugar dos canteiros e das latadas.

Os veraneantes atravessam uma avenida e depois arruamentos mais estreitos e por fim esta esquina silenciosa, abrindo para o mar. Nenhuma alma há de ter posto a sua força contra a cancela enferrujada nos últimos dez anos, de tal modo o óxido tingiu a primeira laje do passeio e se disseminou por todo o corpo desta vivendazinha.

Um escritor, que nesta localidade faz a sua vilegiatura, observou já o curioso limoeiro bravio que na parte mais esconsa do quintal oferece ainda, fordo, o seu fruto avantajado e solar.

Numa das janelas sobranceiras ao lancil, que o destino ou os antigos donos não puderam ocultar, surpreendeu o ocioso forasteiro, sombreada por uma velha cortina de ponto aberto, uma pilha colorida de livros com encadernações de pele e letras de ouro: D. Quixote em dois tomos, O Vermelho e o Negro, Assim Falava Zaratustra, Werther, Otelo, Quo Vadis, Viagens na Minha Terra, O Tartatufo seguido de O Doente Imaginário, O Príncipe e o Pobre, Eugénia Grandet. Outros estariam sobrepostos, mas já a piedosa curiosidade alheia os não atingia por culpa do plástico sórdido da persiana.

O escritor, que manteremos no anonimato, sentiu como um golpe de punhal este abandono particular.

Que uma geração esqueça todo o investimento das gerações precedentes é algo a que obriga a lei absoluta da modernidade. Ainda assim, com que falta de amor. E de escrúpulos!

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Apúlia, 11.08.2025

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Crónica de dois turrões

Fotografia de Alan Pope

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Desde que a minha mãe partiu a casa é uma armação de tijolos presa por arames. Divido a maior parte do tempo com o meu pai, cujos interesses são sobretudo a horta e os trabalhos manuais. E o meu pai divide a maior parte do seu tempo comigo, cuja evasão são sobretudo a escrita e o sonho de uma casa nova.

Vejo-o muitas vezes de sandálias nos pés, sem peúgas, no meio da hortaliça e do cebolo, mesmo nas difíceis manhãs frias de nevoeiro e chuva. Ou então derreado ao sol, sem chapéu, com um alicate nas mãos, a embeiçar uma dobradiça ou a corrigir as tamis de uma peneira. E eu irrito-me com a sua teimosia, com o olhar que me faz de lado como se estivesse mesmo a dizer-me:

Vai para o raio que te parta.

E preciso de aspirar uma grande quantidade de oxigénio, de escolher melhor as palavras que saltitam na cabeça num modo de peixes na canastra:

Pai, olha o frio. Mete-me umas meias. Calça umas botas.

E ele, barricado em si, cheio de impávida mestria, a consertar a dobradiça, a remendar a peneira, a arrancar ervas dos talhões verdíssimos, a ignorar-me, a fazer de conta que a idade não é para todos, à espera da reprimenda seguinte:

Pai, este sol mata. Põe um boné nessa cabeça, se faz favor.

O tempo apanha-nos quase sempre nas dúvidas metódicas. O carteiro veio? O que havemos de fazer para o almoço? A tua irmã virá aqui mais logo? Quando é mesmo a tua consulta de urologia?

Uma casa com dois homens é um barco sem leme e com dois motores. Parecemos abelhudos porque somos abelhudos. Turramos como bichos teimosos, inflados da certeza de que o outro não sabe o que faz e que se a mãe fosse viva isto piava de outra maneira.

Porém, seria hipócrita não falar de mim.

Muitas vezes paraliso na sanita com o Expresso de há quatro dias nas mãos, a coaptar pedaços de um artigo de economia, a passar os olhos pela revistinha de turismo, a pastar com a palha dos analistas políticos.

Vais demorar muito aí dentro?

E o tom é repleto de sarcasmo. É irritante. Um tipo precisa de paz para apurar as nuances da sociedade, para se informar, para curar o mal da cabeça. Não respondo. Nunca respondo a provocações desta espécie.

Anda-se com o aspirador de um lado para o outro, com esfregões e detergente dos vidros. Mas às tantas cai um verso de cangalhas, jeitoso, precioso, fundamental. Atiro-me ao caderno, escrevo, rasuro, releio, reescrevo, anoto, gloso, divirjo setas entre os versos e as linhas. E é nesse poço de silêncio, quando mais e melhor me sabe o ritmo das palavras, que me atordoa a voz intrusa das coisas práticas:

Vou ao LIDL. Precisas de alguma coisa?

Ultimamente tenho-me perguntado para que serve tudo. Uma casa é um labirinto de tarefas. Há sempre pó nos mesmos esconsos e reentrâncias, nos mesmos rendilhados da madeira, nas mesmas dobras de marfinite dos anjinhos. O sabão da espuma reaparece sempre na mesma cerâmica e sobre o mesmo espelho. Por muito que me acocore para aspirar a base dos móveis e por debaixo das camas, lá me encontra o sempiterno cotão malfadado a obrigar-me a despedir do seu poiso, numa sequência de dominó, edredões e cortinas e caixas com arrumos e sapatos e sapatilhas e chinelos. E há os pratos para lavar, a roupa a estender, o ferro à espera do cesto com calças e camisas, os pátios a suplicar por água, os vasos das orquídeas a exigir manutenção. Uma casa é um cativeiro brutal. De recordações, de objetos, de embrulhos, de quinquilharias e bagatelas que acumulamos por simples deslembrança da vaidade e do vento que passa do Eclesiastes.

E depois há o relógio que oxida tudo. As caleiras, as tubagens, as linhas de raciocínio, a memória.

Pai, a porta do frigorífico!

E ele, como quem não quer a coisa:

Não fui quem deixou a luz do escritório acesa.

E eu a inchar de vingança:

Nem eu quem deixou uma torneira aberta na casa de banho do anexo!

E ele saturado de razão:

Sempre quero ver quando chegares à minha idade, sim, sim.

Contemplo a minha vida. Velho e jovem em simultâneo. Derreado e criativo paradoxalmente. Esperançado e sem fé no mesmo passo. Cismo nos livros abandonados sobre a mesinha de cabeceira, nas muitas viagens que devo à vida, nos projetos esfarrapados pela invernia precoce, na agulha que pulou na bússola das minhas paixões. De repente já não sei quem sou nem no que acredite.

E é por culpa disso que me agrada tomar o pequeno-almoço com o meu velhote. É certo que me repete todas as manhãs as suas façanhas de Don Juan dos tempos da tropa. Mas recompensam-me os morangos frescos, acabados de colher no quintal. Há alturas em que maça escutar pela milésima ducentésima quinquagésima quinta vez a peripécia das faúlhas do comboio que lhe sujaram a camisa branca e o fizeram abortar missão numa conquista romântica para os lados da Trofa. Mas impressiona tê-lo ao pé de mim, a viver com energia autêntica o sopro de Adão, em lugar de estar longe, perdido numa penumbra de corredor, mordido por uma ventosa qualquer.

E a aturar-me. Porque se há coisa que muito me espanta é que haja no mundo quem disponha de paciência para o fazer.

Como disse, de repente já não sei quem sou nem no que acredite. Tiro um café na máquina e desço ao esconderijo. Atiro-me ao computador e ponho-me estas frases à frente. Precisava delas. Por uma ou por outra razão precisava.

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Pausa

Héleboro, Helleborus, Natal, Christmas
Fotografia de Annie Spratt

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Por fim a pausa.

Reconhecemos uma pausa quando trocamos o café pela poesia grega, quando trocamos a poesia grega pelo jardim.

Herman de Coninck, poeta e jornalista belga de que cujo sentido de humor gosto bastante, escreveu que num texto maravilhoso, dedicado à mãe, que «poesia tem a ver com a duração» e que é preciso «deixar que as coisas ganhem bolor / deixar que as uvas se transformem em álcool». Dito de outro modo, é bom chegar ao final de um lancil, olhar para trás, compreender o tamanho da nossa jornada e ficar quieto.

Trocar o ruído da cafetaria pelo longo tropel dos cavalos e pelo estrugir das armas em Homero constitui um excelente exercício de quietude, mas exíguo se comparado com a luminosa perfeição das heléboros ou do azevinho nestes dias de Natal.

De repente, tudo em volta se parece excedentário e absurdo. Pausar é regressar à justa medida da nossa alma, deter o passo seguinte (o passo em falso) e compreender como Coninck, no já aludido poema, «Tu és o relógio: o tempo passa / mas tu ficas».

21.12.2024

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Logótipo Oficial 2024

A inveja

Natureza, folha de ácer, água, Japão, Kioto, Tomoyuki Mizuta
Fotografia de Tomoyuki Mizuta

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Como naquele conto de Jorge Luís Borges em que Aureliano de Aquileia foi condenado a morrer numa fogueira, atraiçoado pelo ciúme de João de Panónia, assim Kamo no Chomei se viu enredado na maior das perfídias por conta da inveja de Katsuo Hashira, poeta rival, poderoso, incapaz de lidar com a gloriosa humildade desse eremita a quem apodava de “provinciano”, mas cujas reflexões sabia superarem em brilho, sageza e inteligência a enfadonha e aristocrata tanka que ele, Katsuo Hashira, oferecia ao xógum e aos cortesãos de Quioto a transbordar de manha, soberba e sabujice.

Murmurava-se.

Esse labrego não só pretende fazer perder neste palácio a jovem mulher do nosso senhor, a quem ministra as artes da sedução, como conspira com o inimigo, recebendo-o nas choupanas sórdidas onde pernoita e onde o informa continuamente acerca dos passos dos nossos samurais.

Dizia-se.

Kamo no Chomei compõe palavras viciosas, fingidas de sabedoria, mas acutilantes como a lâmina de uma wakizashi. Simula-se despojado e pobretanas, mas um dia – haveis de ver – governará a cidade e punirá severamente aqueles que, como nós, com justiça, dele desdenham.

Pedia-se.

O nosso xógum deve cuidar do seu jardim e cortar cerce as ervas daninhas, essas que medrando no verde livre da primavera se prendem aos pés e fazem tombar os poderosos. Kamo no Chomei merece a prisão e merece um fio de espada sobre o pescoço.

Quando os soldados do governador, subindo devagar as encostas atafulhadas de caruma e folhas de bordo, lobrigaram lá no alto uma cabana débil formigando fumo branco e ao pé dela avistaram Kamo no Chomei abstraído deste mundo, mirando com olhos ternos um sem-número de níscaros que medravam sob o tronco de uma grande árvore vestida de amarelo, duvidaram que aquele zé-ninguém constituísse uma ameaça a uma libélula, quanto mais ao senhor de Quioto.

Ainda assim, cumpriram ordens. O casebre de Kamo no Chomei foi reduzido a cinzas e o seu corpo posto a ferros.

Durante o inverno, enquanto a neve sepultava a terra com mantos sucessivos de silêncio e de perdão, Katsuo Hashira – cujas intrigas, ardilezas e femininos caprichos haviam tornado alvo de todos os ódios dentro da corte – morreu estrangulado. Aos poucos, a natureza sacudiu-se da neve e do gelo e o sol – desensarilhado das curtas noites da estação – regressou ao vigor da sua juventude, iluminando os belos renques com as cerejeiras em flor.

Tal como se viu apartado do mundo num instante, noutro instante Kamo no Chomei foi devolvido à liberdade. Não quis o cargo deixado vago por Katsuo Hashira, mas aceitou com alegria um quintalejo no cimo da floresta, perto da fonte de Iwojira.

Mais do que tudo, um homem deseja um pouco de paz e um quinhão de terra onde a morte o possa encontrar, livre e limpo de todo o lixo que a humanidade – ou parte dela – infatigavelmente fabrica e esconde no mais fundo da sua alma.

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Logótipo Oficial 2024

O cemitério

Wilderness, Mikkel Wejdemann
Fotografia de Mikkel Wejdemann

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O cemitério paroquial de Ancohuma, na província boliviana de Larecaja, situa-se a mais de seis mil metros de altitude. Pese os nevões contínuos que se abatem sobre ele a maior parte do ano, aí celebra-se a vida como num campo de girassóis. No lugar onde cada mulher e cada homem da aldeia foram sepultados erguem-se lápides de madeira colorida, pintadas em tons de amarelo vivo, mel, limão ou ocre, com dizeres rememorativos a respeito dos defuntos e não sobre a eternidade ou acerca da dor dos que ficam e que podem ainda contemplá-las:

«Aqui mora Hernández, que gostava de comer bem e cujos peidos enchiam a taberna», «Neste lugar jaz a pequena Emília, que sabia já escrever o nome quando o Pai Celestial a chamou para junto da sua lareira», «Esta é a campa de Eva, mulher de Pablo e depois de Juan Alonso, mãe de tanta filharada como a primeira que veio ao mundo», «Aqui enfiaram os restos mortais de Romero, forasteiro encontrado em Ventanas Rojas com estricnina na boca. Dizem que era um biltre. E era».

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O ninho

Baby
Fotografia de Ummu Nisan Kandilcioglu

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Todos os anos no primeiro dia de janeiro, Artur Bentino punha as suas notas de conto a soalhar, presas por pedrinhas brancas no parapeito da janela alta do quarto. Às vezes chovia e então esperava mais algum tempo até o sol de começo de ano poder acariciar o papel.

«É para dar sorte» explicava aos poucos que ousavam perguntar.

A mulher sabia que era por vaidade e velhacaria. Assim, convenceu o amante a ir lá roubá-las, usando uma estaca com um prego na ponta em forma de gancho.

À medida que as notas se iam desprendendo dançavam um momento no ar, às voltas, e vinham depois cair no chão recoberto de lama e de bosta e o tipo recolhia-as uma a uma, raspadas já pela imundície.

«Isto também dá sorte» satisfazia-se ele com orgulho irónico.

Quando o serviço ficou terminado, a mulher jurou que uma pega-rabuda tinha acabado de levantar voo da janela, levando no bico o último dinheiro.

«E como era a pega?» desesperou-se Bentino.

«Ora, como era a pega! Há de ser como todas as outras: matreira, arisca, linda…»

Artur Bentino bem a procurou, à cata do milionário ninho que tanto lhe custara a juntar. Mas o melhor que descobriu foram duas ou três tocas de poupa, vazias, repletas de fezes ressequidas e de velhas tiras de jornal – a fazer de palha.

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A igrejinha do perdão

Igreja românica com neve
Fotografia de Georgi Danielyan

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Há invernos em que o ermo alcantilado e a pequena igreja de São Benedito não se veem por causa da neve. Ela suavemente mergulha do céu níveo e negro, cai durante dias e semanas, fina camisa de camadas frias, lentas e insonoras, até desfigurar por inteiro a paisagem.

Os habitantes de Reosa-Romano persignam-se na direção do horizonte branco, porque a igrejinha lá está, escondida ao lado da grande magnólia-perene, uma e outra grandes borrões inseparáveis das outras formas ajoujadas pelo fremir do vento e pela bruma.

Dizem que na era dos cruzados se refugiaram nela cristãos e mouros, judeus e ciganos, gente foragida e gente rica, gente vilã e gente nobre. Dizem que nos lugares onde a terra acaba e o abismo se precipita todo o coração é coragem e toda a coragem uma forma de perdão. Os habitantes de Reosa-Romano repetem esta frase há demasiado tempo e, por isso, já só em parte a compreendem.

Nos dias de sol, os montanheses escalam o granito íngreme e sobem ao adro. Depois penetram o espaço escuro e silencioso do templo para rezar, para descansar ou simplesmente para saciar a curiosidade.

Desde há séculos que um velho padre espera os visitantes no confessionário. Merecer a absolvição é um feito de que vale todo o esforço. Se esse sacerdote é chamado para junto de Deus, outro toma o seu lugar. Esse velho benevolente, cuja penitência é pedir e conceder o perdão, aí nos espera desde sempre, é o que dizem.

Nos meses hiemais de dias opacos e ínvios ou nos meses luminosos da primavera e do verão, de alguma coisa hão viver estas pobres criaturas eremitas. Ninguém ao certo sabe de quê, ou como, ou onde.

Há quem afirme que tudo não passa de uma fantasia e que no interior da pequena igreja não se vê vivalma desde há mais de quinhentos anos, quando uma horda de cavaleiros cristãos, ou sarracenos, ou mercenários a soldo, massacrou todos os inocentes que dentro dessas paredes se ajoelhavam e erguiam as mãos.

Há quem afirme, pelo contrário, que tudo é verdade. E aponta uma adaga ao próprio ventre. Quem não acreditar que faça justiça, ou que retire a sua palavra.

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Logótipo Oficial 2024

«Em Nome da Luz» ou uma Poética do Silêncio

Em Nome da Luz (poesia de João Ricardo Lopes
Crédito fotográfico: União de Freguesias de Fânzeres e S. Pedro da Cova (Gondomar)

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Nenhuma palavra é mais obsidiantemente procurada na obra de João Ricardo Lopes do que aquela que escreve silêncio. Em todos os seus livros, não excluindo os de ficção, ela (re)ocorre investida do peso, do poder, do prestígio de um vocábulo-fétiche (como o próprio autor reconhece [1]), em torno do qual se estrutura uma poética de recusa, cisão e reconstrução do mundo, a partir da visão minimalista que a si mesmo e aos outros impõe.

No seu último volume de poemas, Em Nome da Luz (2022), a palavra-conceito silêncio é convocada em onze das quarenta composições do livro. Significativamente, como o penitente que pratica um ato de ablução, como o neófito que encontra a sua paz, como o caminhante que descortina um sentido para a sua existência, como o criador que define uma fórmula, o poeta anota:

EM LOUVOR DO SILÊNCIO
quando precisas de silêncio,
lavas as mãos muitas vezes,
aqueces sem pressa uma chávena de café,
lês os haicais de Bashô
o silêncio, como os caminhos procurados
entre as cidades, não é absolutamente fiável –
é uma adoração apenas, uma labareda,
onde arde o teu amor
e às vezes, sem querer,
um poema [2]

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Há aqui a verbalização – e recordo apenas o grande mestre Ruy Belo – de um ensinamento que vem confirmar que “Nenhum grande poeta terá deixado de sentir a sedução do silêncio”, porquanto “É-se poeta em exercício, não tanto pelo que se diz como pelo que subtilmente se indica ficar por dizer” [3]. Clarifica-se nestes versos, com efeito, não apenas um intuito purificador, do poeta que deseja desprender-se da sujidade (“lavas as mãos muitas vezes”), mas também – consumada a purificação – o desejo de (re)unir-se a rotinas simples despoletadoras do ato criativo, como sejam o preparar uma chávena de café, o ler os haikus de Bashô, o nutrir-se do fascínio – leia-se “labareda” – que o contacto com as coisas íntimas e despidas torna possível.

Esta grande introspeção que o silêncio traduz para João Ricardo Lopes, sinónima de catarse, de ascese, vem já embrionariamente plasmada em obras anteriores, particularmente no magnífico Eutrapelia (2021). Nele, no poema “Duomo, Milão”, ecoam com leveza espantosa os gestos que o peregrino, o asceta, o homo silens escrevem num esforço de supressão de si mesmos, num empenhamento para o vazio interior e para a busca de redenção:

DUOMO, MILÃO
as primeiras impressões são a pedra talhada,
a luz periclitante nos vitrais
depois os joelhos tocam a madeira
e as mãos tocam o rosto
a oração segregada devagar
num fio de voz
invade a rocha até ao último dos nossos pecados
o silêncio é total.
através das naves e das colunas, ele atinge
o extremo do templo
e é puro
pertencemos a outra era,
as impressões derradeiras são já distantes,
como alguém chamando de dentro de um sonho
ou chamando de outro mundo [4]

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De que se se pode salvar, ou sobreviver, pela catarse sabemo-lo desde os gregos. A força dramática das palavras tem, a par da beleza (rudeza) lírica das suas imagens, constituído uma das conquistas mais sublimes da literatura. No caso particular da poesia de João Ricardo Lopes, poeta que conheço desde a sua inclusão na terceira e última edição da antologia Anos 90 e Agora (2005), tende esta catarse a confundir-se com fuga à realidade, ou antes com uma feroz resistência à realidade, através do alheamento e da busca de solidão, através da escolha de (dir-se-ia preferência por) pormenores dessa realidade que propendem em última instância a anulá-la: falo da realidade que o poeta decompõe e recompõe em elementos simples, insignificâncias, bagatelas, detalhes que apenas o silêncio e a atenção autorizam a conhecer, aquilo a que Jean-Luc Nancy designa por “misérias literárias” [5] e que conferem à sua escrita um ímpeto (por vezes enumerativo) absolutamente encantador.

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO
esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas
e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar
sou agora toda a minha vida, o meu destino
e a casa estremeceu
e as palavras – ferro congelado –
doeram nas mãos [6]

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O inusitado fundo imagético que decorre das mãos deste outrora novíssimo leva-me a recordar o agrado com que, na malograda Bulhosa, acolhi o seu Contra o Esquecimento das Mãos (2002), quando compelido a estudar a nova geração de poetas, li versos deste jaez:

de refracção em refracção afunda-se
o pensamento nos linhos da casa
é branca a tarde
na alma garimpam-se as impuridades [7]

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Ou:

durante o intermezzo
cumprimos o possível
das enxúndias, do bodum
dos lodos nos limpámos
até sermos desta transparência de água [8]

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Recordo, a propósito, uma conversa com Jorge Reis-Sá, que deste poeta me propôs também a leitura do seu primeiro livro, premiado pela Associação de Escritores Portugueses, em 2001. Nele, um curto poemário intitulado A Pedra Que Chora Como Palavras, surgem já – em alicerce – as temáticas que o tempo viria a permitir enovelar e desenvolver. Por exemplo, o apelo (magnetizante) da metapoesia. Por exemplo, o exercício cinematográfico dos cenários onde se faz retratar (autobiográfica ou fictivamente) a voz que se ergue das / se esconde nas paredes translúcidas do poema. Por exemplo, a musicalidade e o ritmo sincopado dos versos, quase sempre curtos e lapidares. Por exemplo, a minudência visual, o olho veemente que absorve as nuances de um anoitecer. Por exemplo, o apuramento da metáfora, muitas vezes insólita, acutilante, desarvorada. Por exemplo, em conclusão, o poder reparador do silêncio – do silêncio de que vimos falando – e que representa bem a tensão permanente entre equilíbrio e desequilíbrio de que fala Rosa Maria Martelo [9].

no outono, quando se oxidam
as folhas,
parece-se mais nítido e
perturbador o brilho dos poetas
com os cigarros no casaco
e um bilhete de comboio para parte incerta
anotamos brevemente na pele da mão
que um dia, se voltarmos,
será apenas por este pouco silêncio (…) [10]

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Estarei, porventura, a desviar-me do ponto nevrálgico em que gostaria de fixar a atenção. E esse ponto consiste na admissão de que habitam a poesia do autor de Em Nome da Luz – insuficientemente conhecida, escassamente divulgada – apelos sucessivos a uma prática diária de limpeza, de decantação, de precisão, de higienização, insinuada mais ou menos explicitamente em poemas inúmeros onde o eu voluntariamente renuncia aos luxos literários para se comprazer com a dignidade do mínimo, mínimo esse que, paradoxalmente, transporta o máximo do ethos poético. Assim o exprime, por exemplo, no belíssimo penúltimo poema do seu último livro.

HIGIENE DIÁRIA
coisas de que um homem precisa:
dos doze girassóis de van Gogh,
dos quatro Evangelhos,
de sabão rosa [11]

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Sublinho este apontamento. Sublinho-o, visto que me parece notório que a poesia deste autor tem evoluído no sentido de um pendor sincrético, que confunde progressivamente mais obra e autor, deixando perceber que a poesia não é para si uma mera arte de versos (como a metapoesia sugere), mas uma apologia da vida eremita, um manifesto pessoalíssimo de cosmificação [12], um caminho salvífico do sujeito pelo meio das veredas do abismo: nada lhe importa tanto como a curta vida do poema, como o poder habitá-lo seja de que forma for, ainda que possa, como tão bem o escreveu Gastão Cruz, “Tratar-se de um trabalho destinado ao malogro” [13], ainda que esse pouco possa albergar tudo quanto foi capaz de aquilatar na vida.

Será, porventura, esse o fito desta poética do silêncio de João Ricardo Lopes: incumbir ao escrito a missão de se anular a si mesmo, de se nadificar [14] no sentido em que Jean-Paul Sartre o aduz, de criar (num processo antecipado de autoapagamento) o milagre da vida e, nele, muito em particular, o parto do poema, mais ou menos como quem efemeramente desenha ou constrói sobre um areal e existe apenas porque existiu. Esse processo, assumido cada vez mais como única via, abre a porta a toda uma ordem do caos: o poeta é aquele que descobre por acaso, aquele que desvenda por acidente, aquele que encontra algo buscando outra coisa.

SERENDIPISMO
pensava em Fernando Pessoa,
em ti,
na quantidade de amor que nos exigem as palavras,
no nevoeiro sobre o Zambeze,
nas trovoadas de maio,
na nervura rigorosa de cada folha
encontra-se a perfeição procurando outra coisa,
o vazio, por exemplo
hoje relembrei os abetos de Cremona.
senti de novo a dureza do frio e o pavor do vento
percutindo na floresta
o vazio é também uma forma de serendipismo:
buscas o poema e achá-lo-ás [15]

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Considero interessantíssimo este poema de Em Nome da Luz, título recebedor há poucos meses do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres. Todo o volume pede olhos avisados. Quem acompanha o percurso poético deste autor saberá reconhecer que ele se vem impondo um pouco em contramão (ou em contramaré), não apenas pelo destaque que confere à metáfora [16], nem pelo reaproveitamento lexical de termos já em franco desuso (ou até mesmo esquecidos), nem pelo quase monacal voto de isolamento a que o escritor se entregou (razão justificadora por si só do seu quase anonimato), como sobretudo pelo quieto movimento de compor o nada, de amar o insignificante, de acreditar piamente no inútil de todo o ruído do mundo.

DA SABEDORIA
alimenta-te da chuva,
de tubérculos ocasionais, da fruta
silvestre,
alimenta-te das paisagens,
do silêncio mais
rigoroso
a poesia, na sua essência,
é eremita.
tudo o mais é excessivo
e inútil.
tudo o mais é vento,
veneno que passa [17]

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Valerá a pena lembrar que tudo o que é “excessivo” e “inútil”, “vento” ou “veneno que passa” não cabe na poesia (“inutilia truncat” prescreveria Horácio”), tão-pouco na alma de um homem limpo, profundamente cônscio da exiguidade da vida (não sou eu quem o diz, mas o Eclesiastes).

Em suma, não existe melhor entendimento do que possa valer um livro, um poema, um verso, do que o sentimento de retidão nele defendido até ao “silêncio mais rigoroso”. Signifique esse silêncio – meça-o o leitor – o muito que significar.

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Bahia, 08.06.2023 / Paulo José Miranda

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[1] Cf. entrevista de João Ricardo Lopes à revista Novos Livros – “João Ricardo Lopes: “Dormir uma noite inteira e acordar com vontade de recomeçar a vida”, disponível em linha em https://shorturl.at/beky8 (consultado em 2023-06-03).
[2] Em Nome da Luz, Elefante Editores, s.l., 2022, p. 43.
[3] Ruy Belo, «Poesia e Crítica de Poesia», Na Senda da Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 61.
[4] Eutrapelia, Editora Labirinto, Fafe, 2021, p. 14.
[5] Jean-Luc Nancy, «Compter avec la poésie», Resistance de la Poésie, William Blake & CO, s.l., 2004, p. 24 : « Si la poésie insiste et résiste – elle résiste à tout, en quelque sorte, et c’est peut-être aussi pourquoi les poètes font souvent «figure de peintres du dimanche», comme vous dites avec raison : l’insistance de la poésie va jusq’aux formes les plus humbles, les plus pauvres, les plus démunies, jusq’à des véritables misères littéraires, jusq’au goût le plus sucré ou le plus sot pour des bouillies à demi cadencées d’ésotérisme et de sentimentalité (il y là comme une clochardisation), mais elle va jusque-là, si bas, parce-qu’elle insiste, elle demande quelque chose, et quelque chose que, je le crois vraiment, on ne peut pas réduire aux retombées petites-bourgeoises du pire romantisme (…) ».
[6] Op. Cit. (2022), p. 30.
[7] Contra o Esquecimento das Mãos, Editora Labirinto, Fafe, 2002, p. 46.
[8] Ibidem, p. 48.
[9] Rosa Maria Martelo, «Poesia e des-equilíbrios», A Forma Informe, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 9: “Se a poesia pressupõe ou procura o equilíbrio, é porque se joga no limiar de o perder e num permanente confronto com o desequilíbrio. (…) Faz parte do movimento construtivo da poesia um certo desencontro do poema com ele mesmo, isto é, o desajuste das suas próprias estruturas e a possibilidade de fazer «oscilar» (o termo é de Luiza Neto Jorge) os pressupostos que lhe serviram de ponto de partida.”
[10] A Pedra Que Chora Como Palavras, Editora Labirinto, Fafe, 2001, p. 35.
[11] Op. Cit. (2022), p. 46.
[12] O termo é de Luís Miguel Nava, que o diz assim: “Todo o acto poético é uma cosmificação. Cosmificação que se opera a partir do caos a que dá lugar a destruição da língua. Não por acaso o acto poético se chama de criação e a etimologia aproxima a poesia do fazer.” Cf. «Artaud: Tric Trac du Ciel – Uma visão de conjunto», Ensaios Reunidos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 40.
[13] Gastão Cruz, As Leis do Caos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1990, p. 35.
[14] No primeiro capítulo de O Ser e o Nada, Sartre anota: “(…) é preciso, primeiramente, reconhecer que não podemos conceder ao nada a propriedade de «se nadificar». Já que, ainda que o verbo «nadificar» tenha sido concebido para tirar ao nada até a mínima aparência do ser, é preciso confessar que somente o ser se pode nadificar, já que, seja de que modo for, para se nadificar é preciso ser. Ora, o nada não é. Se podemos falar dele é porque possui tão somente uma aparência de ser, um ser emprestado (…). Por outro lado, o ser pelo qual o nada vem ao mundo não pode produzir o nada mantendo-se indiferente a essa produção, como a causa estoica produzindo o seu efeito sem se alterar. (…)” Cf. «A Origem da Negação», O Ser e o Nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica, Edições 70, Lisboa, 2021, pp. 77-78.
[15] Op. Cit. (2022), p. 17.
[16] Bastará levar em linha de conta o que Rosa Maria Martelo assinalou, quando diz que “Creio que uma das consequências do empobrecimento da condição ontológica da poesia passa pela secundarização do papel da metáfora e pela construção de um modo de expressão essencialmente alegórico.” Cf. «veladas transparências (o olhar do alegorista), Vidro do Mesmo Vidro – Tensões e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961, Campo das Letras, Porto, 2007, pp. 86-87.
[17] Op. Cit. (2022), p. 44.

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