Ritual

Fotografia de Hannah Reding

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Adquirira o hábito de lavar meticulosamente as mãos e de aparar as unhas antes de discursar. Passava as palmas e as costas dos dedos por água, ensaboava-as com Clarim e voltava a oferecê-las ao fio que saía da torneira quase a ferver. Era um ritual.

Depois, antes de sair do gabinete, lia uma última vez o texto e corrigia-o com um lápis barato, riscando mais palavras do que as que reintroduzia no papel. Desagradava-lhe o encontro com as fórmulas, os lugares-comuns, as frases que soavam a muito e não diziam nada.

Por fim, olhava-se ao espelho.

Fazia-o em silêncio, procurando lobrigar no rosto à sua frente os mínimos sinais da infância. Ia por aí, atrás do garoto de socos, de camisola rota e buço feio, cuja bravura no trabalho de outrora ele parecia estimar mais do que o prestígio por si alcançado com os anos. Esse miúdo era a sua inspiração.

Permanecia num mutismo quase absoluto muito tempo, tempo incontável, uma hora, um minuto, uma eternidade, até que uma assessora lhe batia à porta.

Esperavam-no.

Era agora. Milhões de espetadores tinham a televisão sintonizada num canal por onde as suas palavras ecoariam, urbanas, escolhidas, talvez um pouco rudes, competentes, em voo picado até ao âmago dos problemas.

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Catarse

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Fotografia de Angella Elimende

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No velho e saudoso dicionário de Grego-Português e Português-Grego de Isidoro Pereira, publicado pela Livraria Apostolado da Imprensa, releio na página 283 (terceira entrada da coluna à direita), um dos termos mais belos da língua ática: κάθαρσις, εως – purificação, purgação, catarse, consolação da alma pela satisfação de um dever moral, cerimónias de purificação para os candidatos à iniciação.

A necessidade das palavras antigas recorre nos dias em que nos faltam saídas de emergência. Nos dias em que sentimos falta de um bem maior e precisamos de nos lavar com um sabão profundamente eficaz, e não apenas a pele, mas o olhar, o sentir, a parte de nós onde corpo e espírito se miscigenam e soltam amarras em direção a lugar mais etéreo. Creio que me sentia assim quando escrevi o curto poema «Higiene Diária», incluído no livro Em Nome da Luz e que, à distância, me parece quase uma lista de bens imprescindíveis, um memorando, uma pobre oração: «coisas de que um homem precisa: / dos doze girassóis de van Gogh, / dos quatro Evangelhos, / de sabão rosa».

Ninguém fica igual depois de uma catarse. O preço dessa água, a bem dizer o padecimento e ardura do verbo καθαίρω, é parte do caminho para a salvação. Os gregos (todo o teatro de Ésquilo o ensina) acreditavam que nada na vida se aprende sem sofrimento. E quem aprendeu sente-se profundamente limpo, ainda que poucas vezes perceba ou tome partido do privilégio dessa salubridade.

02.11.2024

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