PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

IMG_3863
Fotos de arquivo pessoal (2018)

El 1 de septiembre de 1730, entre 9 y 10 de la noche, se abrió de pronto la tierra a dos leguas de Yaiza, cerca de Chimanfaya. Desde la primera noche se formó una montaña de considerable altura de la que salieron llamas que estuvieron ardiendo durante diecinueve días seguidos.
Relato de Andrés Lorenzo Curbelo Perdomo, cura de Yaiza, intitulado Diario de apuntaciones de las circunstancias que acaecieron en Lanzarote cuando ardieron los volcanes, año de 1730 hasta 1736

ao quarto dia entranhámo-nos no centro-sul da ilha: de manhã Tinajo, à tarde San Bartolomé, Tías, La Gería, Uga, Yaiza. volto a espantar-me com a limpeza e brio dos lanzarotenhos, em cujas povoações não permanecem muito tempo à solta o maldito plástico ou o maldito ruído. fotografo a estrada, uma reta gigantesca que, submergindo de quando em quando num declive, reaparece quilómetros mais à frente, até se perder de vista, muito longe, no sopé de uma das escuras montanhas que por cá proliferam. depois fazemos um desvio para subir lentamente, de curva em curva, até ao lugar onde nos recebe um diabo de pernas escancaradas e braços abertos, cauda pontiaguda, a segurar uma tábua com a legenda PARQUE NACIONAL DE TIMANFAYA

dominada por vulcões sucessivos, a paisagem repete-se. talvez por isso, a boca procura agora mais fundo para dizer melhor, para dizer diferente. esperamos uma hora, apeados, dentro do carro, numa monstruosa fila que quase não avança, observando os cones que se multiplicam de lés a lés, de cores tão vivas como o açafrão e o ocre, o vermelho, o laranja, o verdete, ou o marrom, cores muito misturadas, sotopostas, em estrias, em cachos, escorrendo umas sobre as horas. esperamos. às vezes a beleza cansa, facto blasfemo mas verdadeiro. esta beleza confunde os sentidos. não, não há palavras para ela

IMG_3885.JPG

entramos no que chamam Islote de Hilario, centro nevrálgico do parque onde o visitante pode estacionar a sua fatigada viatura, dar satisfação às premências humanas, observar em círculo toda a extensão do fenómeno geológico que alimenta este poema, embarcar num autocarro turístico, assistir à prova de fogo, pasmar-se com o jorro de água fervente cuspido a meia dúzia de metros de altura, descansar, comprar recordações. fotografo quase com obsessão, aqui, ali, além, o calor aperta (nada que se compare aos quatrocentos graus que sopram da boca da terra), tu trazes os bilhetes, também nós viajaremos pela estreitíssima rota asfaltada, entre píncaros e vales, a que chamam Vale de Tranquilidade

pelos vidros sujos chega-nos o bizarro elenco que as colunas de cinza fabricaram, fileiras de chaminés e maciços de lava, estranhas formas nodosas e retorcidas que lembram fósseis, crateras e encostas policromáticas, minerais, inóspitas, lunares, nenhuma tão bela como a Caldera del Corazoncillo. assim o diz a gravação que escutamos em castelhano, inglês e alemão, a que nos recorda a grande erupção de 1 de setembro de 1730, a narrativa dramática do padre de Yaiza, a lenda do eremita Hilário, os povoados férteis sepultados debaixo de toneladas de magma

não sabemos decidir se é este lugar um hino à vida ou à morte. prometi escrever sobre o assunto. tanto tempo depois, a dúvida mantém-se

20.08.2019

HARÍA

Haría
Foto de arquivo pessoal (2018)

 

descemos a Haría, depois de serpentearmos uma montanha onde as curvas e contracurvas nos traziam ciclistas solitários e retângulos repletos de aloé vera. as casas são tão brancas como as folhas deste caderno, branco imaculado que se estende com os muros ao campanário de uma igrejinha e ao relevo dos poços. li que chamam oásis a este povoado, porventura à conta destas palmeiras que cresceram e balançam entre jardins negros de pedra-pomes, ou, quem sabe, por causada paz que repousa com o pôr do sol nas pequenas ruas sem gente

o carro desliza no asfalto num som dormente e quase tão discreto quanto os lagartos que me garantem existirem nesta ilha e que ainda não vi e talvez não veja. uma rapariga sobe agora em sentido oposto ao nosso, por dentro de um reduto particular, calcando com dificuldade o chão feito desta rocha, tão idêntico ao cascalho que chocalha e desequilibra, mas mais mole e muito mais escuro. paramos para fotografar a vista do vilarejo. é estrangeira a rapariga, como estrangeiros somos nós, inglesa decerto, uma entre milhares. afeta o mesmo ar perplexo de quem escreve estas palavras e se atreveu a invadir uma propriedade para lhe pisar o quadrado de cinza dura ao redor dos catos

IMG_5280
Foto de arquivo pessoal (2018)

 

voltamos ao carro, retomamos a viagem, avançamos para o centro da povoação, a tarde já muito próxima da noite. impressiona a limpeza geral, o desenho arrumado das habitações de estilo colonial, o aprumo das paredes e do alcatrão, o ruído disciplinado das lojas, cafés e das casas de pasto, uma certa dúvida de que Haría exista de facto ou seja parte de um conto por contar. aqui como em toda a parte, os homens precisam do seu vinho para celebrar. vejo mesas de madeira e jarros de sangria e t-shirts brancas erguendo os braços para brindar. estamos perto do Corona, o maior dos fornos adormecidos de Lanzarote

quando nos metemos a uma das vias rápidas, perto do mar, escureceu já. as luzes do carro esforçam-se por abrir os nossos olhos ensonados. faço perguntas e tu respondes, retas infindáveis, placas toponímicas com nomes estranhos (Tabayesco, Máguez, Ye, Guinate, Guatiza, Teguise, Arrieta – eco da língua guanche), trânsito quase nenhum. digo não me importava de aqui ficar, gosto deste sossego, cheio de cosmopolita tentação, tu ris. pensas decerto que isto é um bluff. e, no entanto, falo cheio de verdade, quem sabe de premonição

Caleta de Famara, 24 de agosto de 2018

CALETON BLANCO

IMG_5796

viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapili, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. é-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical,que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resortsà prova de pobres. em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. o aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. sentimos fome. uma fome descomunal

Caleta de Famara, 26.08.2018

LOS CHARCONES (PLAYA BLANCA)

IMG_4481

depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acizentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. dizes-me que aqui moraram os ciganos. e de facto a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. a maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. isto é bonito, não achas? julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. é meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta 

Caleta de Famara, 29.08.2018

MIRADOR DEL RÍO (LANZAROTE)

Mirador_del_Río

 

para a Catarina

entre as escarpas e os talhões de terra vulcânica, há uma estrada limpíssima, bordejada por um contínuo muro não muito alto de pedra basáltica, perfeitamente geométrico e a perder de vista. de um lado o oceano, em baixo, e a mansuetude da ilha Graciosa. do outro lado, a terra ocre e os retângulos frisados desse chão de grânulos negros onde os nossos sapatos caminham com dificuldade. ao fundo, a encosta imponente do La Corona. são sete da tarde. O nevoeiro sobe rapidamente do mar, galgando os píncaros e atravessando à nossa frente a estrada de que falo. ocultado e desocultado no vapor, o sol deixa tudo a contraluz: e é a beleza das imagens assim nascida da neblina, a silhueta dos nosso corpos depurada, a distância tão breve do abismo, o som das vozes que aparecem e desaparecem, que se desvanecem ao longo da estrada, é esse instante antes do crepúsculo, acima das origens, o que fica

Caleta de Famara, 24.08.2018