CALETON BLANCO

IMG_5796

viajamos no tempo quando nele se equivoca o corpo, revendo-se no acontecido, ou porventura antecipando-o. grande enigma, porém, é a sensação de regresso aonde nunca se esteve, como este asfalto interminável em linha reta (uma lomba além, outra mais longe ainda), esta mole de lava e lapili, esta areia branca em pequenas dunas até ao mar (mais branca onde o basalto é mais negro), este verdeazul da água que agora mesmo me parece um convite libidinoso, assim tão calçado e tão vestido eu, grande enigma será, porque me sinto de novo em casa não a tendo antes conhecido, e ainda a viagem não acabou. chega-se a Caleton Blanco por estraditas empoeiradas, entre filas de automóveis e jipes estacionados onde calhou. é-se recebido pelo flamenco, pelo cheiro bendito da carne na grelha (famílias inteiras à roda das salsichas, do entrecosto, das costeletas), que um pai, um tio, um avô diligentes manuseiam com a arte, acompanhados sempre da inevitável Tropical,que outras mãos, zelosas, lhes municiam, ou que vão buscar à geleira, essa também parte do ritual. repito que me parece isto uma viagem no tempo e que viajamos no tempo quando, como aqui, nos parece a ida à praia uma grande festa e a não incomodam os anúncios publicitários nem o velhaco snobismo de quem a transformou num estado social, onde a carne rescendente, a música popular e as famílias inteiras já não são bem-vindas nem cabem onde a vaidade e o pedantismo ergueram restaurantes com estrelas Michelin e resortsà prova de pobres. em Caleton Blanco a soberba água transparente e cálida, de um toque aveludado que nos faz estremecer, ainda é de todos e, também por isso, viajamos no tempo, também por isso fotografamos o que por instantes nos parece um paraíso quem sabe gozando derradeiros dias tranquilos. é uma da tarde. prosseguimos viagem. uma tabuleta indica-nos Órzola à direita, Arrieta em sentido oposto. o aroma da carne grelhada persegue-nos alguns quilómetros. sentimos fome. uma fome descomunal

Caleta de Famara, 26.08.2018

Anúncios

LOS CHARCONES (PLAYA BLANCA)

IMG_4481

depois de atravessarmos, a pé e debaixo de um sol inclemente, uma vasta planície de terra árida, onde cicatrizam sulcos de chuvadas distantíssimas no tempo e piroclastos repletos de pó (aqui e além um desses prodigiosos arbustos carnudos, nascidos e crescidos rente ao chão, acizentados e em forma de cato), chegámos ao hotel em ruínas. dizes-me que aqui moraram os ciganos. e de facto a cerca de arame foi derribada e nas varandas postas portadas de madeira, estores, pequenas peças de mobiliário, provas de um improviso de vida que víramos já lá atrás, em restos de fogo no meio de pedras que para esse fim terá juntado quem aqui pernoitou. nunca terminaram este edifício, que alberga aos ombros, como o gigante Atlas, um pedaço do mundo. estamos na costa, o oceano bate com ímpeto nas rochas, rochas tortuosas, em cujas arestas pomos os pés em modo de degraus, descendo com prudência até ao lugar que me querias mostrar. chamam-lhe Los Charcones e é esplendoroso. a maré baixou, as cavidades sem água rutilam com os estiletes do sal, de um branco que fere os olhos. mas a beleza a que me trazes é outra, são estes olhos que a toda a volta impressionam, pequenas lagoas de um sem-fim de verdes graduados, profundos, como vidros para as entranhas do estranho mar que neles se encafuou, vertiginosos anfractos que não paramos de fotografar e entre os quais caminhamos com um arrepio. isto é bonito, não achas? julgo que sorrio em vez de responder-te, um pouco embriagado, vendo o azul e o verde digladiar-se num empenho de espuma e de espanto. é meio-dia, o sol bate-nos em cheio, não sei bem em que planeta 

Caleta de Famara, 29.08.2018

MIRADOR DEL RÍO (LANZAROTE)

Mirador_del_Río

 

para a Catarina

entre as escarpas e os talhões de terra vulcânica, há uma estrada limpíssima, bordejada por um contínuo muro não muito alto de pedra basáltica, perfeitamente geométrico e a perder de vista. de um lado o oceano, em baixo, e a mansuetude da ilha Graciosa. do outro lado, a terra ocre e os retângulos frisados desse chão de grânulos negros onde os nossos sapatos caminham com dificuldade. ao fundo, a encosta imponente do La Corona. são sete da tarde. O nevoeiro sobe rapidamente do mar, galgando os píncaros e atravessando à nossa frente a estrada de que falo. ocultado e desocultado no vapor, o sol deixa tudo a contraluz: e é a beleza das imagens assim nascida da neblina, a silhueta dos nosso corpos depurada, a distância tão breve do abismo, o som das vozes que aparecem e desaparecem, que se desvanecem ao longo da estrada, é esse instante antes do crepúsculo, acima das origens, o que fica

Caleta de Famara, 24.08.2018