O FALSÁRIO

Foto: Raul Pires Coelho

 – Quem é afinal este Georges Le Brun? – perguntou o Procurador. 

O Oficial de Justiça deu um jeito às sobrancelhas, arqueando-as, encheu os pulmões, levantou-se, abriu um dos armários metálico gigantes, apontou com o polegar à retaguarda e fê-lo deslizar horizontalmente, de maneira a incluir toda uma estante a abarrotar de capas e dossiês atados por cordéis de ráfia.

– Isto tudo, doutor….

Depois, como quem tem uma boa história para contar, encontrou uma frase sua disse-a num gozo antecipado. 

– O doutor sabe. Em Montreal, os invernos são especialmente cruéis para quem é de fora…

O Procurador estava prestes a conhecer a prodigiosa biografia do maior falsário de literatura de Sainte-Anne-du-Lac no Quebeque, de todo Canadá, provavelmente do mundo inteiro.

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Georges Ambroise Roger Le Brun nasceu em 25 de agosto de 1944, em Brénac, na margem direita do rio Vézère, na comuna de Montignac. A singularidade da data e a proximidade da gruta de Lascaux criaram no rapaz uma certa crença de que a sua vinda ao mundo fora de algum modo providencialmente preparada para grandes feitos. Na escola sempre os professores o consideraram um aluno excelente, tendo aprendido e dominando vários idiomas (vivos e mortos), entre os quais o alemão, o neerlandês e o russo, o latim, o grego, o hebreu e o aramaico. Desde os tempos universitários tornou-se um incansável perseguidor de arquivos, frequentador assíduo de cronicões e livros hagiográficos, leitor ávido de biografias, colecionador de histórias raras, mas também estudioso de caligrafia e, sobretudo, de literatura comparada. Nesta última área fez o seu doutoramento na Sorbonne, com vinte e sete anos, e na mesma academia permaneceu como professor agregado até surgir o convite que o fez atravessar o Atlântico, rumo à Universidade de Montreal. Publicou dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de recensões para os jornais da elite intelectual francófona.

Mas, curiosamente, foi na escrita de Kafka que os seus olhos poisaram definitivamente. Sentiu ciúme muitas vezes de Max Brod, figura que lhe pareceu indecorosamente bafejada pela fortuna, não apenas por a si ter o genial escritor confiado testamentariamente escritos que mais ninguém conhece, como por ter privado, conhecido e sabido de Kafka o que jamais mortal algum (nem porventura Felice Bauer) pôde saber.

Georges Le Brun leu os romances de Kafka com obsessão. Depois de anos de estudo aturado, principiou a escrever ao estilo do escritor de Praga, acalentando a ideia de poder acrescentar à sua bibliografia e à que ficou nos cofres de Brod escritos inéditos, manuscritos, novidades com que o mundo dos literatos jamais sonhara.

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– Não me vai dizer que este Le Brun inventou obras de Kafka? – sorriu o Procurador. 

– Inimaginável, doutor… Este tipo conseguiu enganar alguns dos decanos dos melhores centros de literatura, apresentando papéis autenticados, cadernos, autógrafos de alguns dos maiores autores do século XX (Kafka foi apenas um deles) e vendeu-os a leiloeiras, institutos, colégios, bibliotecas a preços absurdos.

 – Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – completou o outro, dando um jeito nos óculos.

– Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – confirmou o Oficial de Justiça.

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Georges Le Brun sentiu na juventude um fascínio enorme pela figura de Han van Meegeren, o fracassado pintor holandês que impingiu vermeers aos nazis. O mesmo fascínio fê-lo descobrir Tommaso Debenedetti, jornalista italiano, autor de entrevistas falsas que correram mundo, confundindo tudo e todos com opiniões de figuras públicas que trazia para a ribalta, sem que as mesmas tivessem alguma vez proferido o que quer que fosse do que Debenedetti publicava. Mais recentemente, no início do milénio, Le Brun divertiu-se com as pirâmides que Semir Osmanagićh descobriu na sua Bósnia natal. O mundo torna-se maravilhosamente mais rico, mais criativo, mais liberal com os falsários. 

Após uma visita à Bodley, em Oxford, durante a qual mergulhou com penetrantíssima atenção nos sagrados papéis deixados a Max Brod, Le Brun concebeu o romance que Franz Kafka gostaria de ter escrito. Chamou-lhe O Labirinto. Nele, o conhecido agrimensor K. cava um labirinto, profusamente preenchido de corredores e de memórias, cada vez mais fundo (como os círculos infernais de Dante) e, osmoticamente, cada vez mais dentro da sua cabeça, como se escavando a terra escavasse a alma e a consciência, até chegar aos primórdios, ao lugar absolutamente escuro onde a picareta, batendo em pedra, fez saltar a chispa que deu origem à sua própria vida. Um romance freudiano, o mais freudiano de todos os que o checo compôs.

Para dissipar dúvidas autorais, estudou até as elipses, as interrupções que Kafka faria num texto de publicação incerta, como se tomado de assalto por dúvidas e por um cansaço progressivamente mais letais. O Labirinto não seria publicado pela forte razão de não ser imperfeito, mas tão perto de o ser que o leitor ajuizado descontaria na fúria de Kafka o valor da obra deixada praticamente completa. Georges Le Brun cometeu o atrevimento de forjar uma carta recebida de Dora Diamant, na qual a amente aludia à muita expetativa em torno do livro. Não contente com isso, depois de pacientemente o ter redigido com caneta de aparo, com tinta e sobre papel que metodicamente envelheceu na cave, junto com garrafas de moscatel e serrim, Le Brun sobrepôs rasuras, hesitações no alemão, glosas, sinaléticas iguais às que consultou nos manuscritos de Oxford. Fê-lo três vezes. Esperou vinte e um anos pelo envelhecimento apressado do original. Depois pediu por ele dois milhões e meio de dólares. E obteve-os.

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– Diz-me que há outros. Deixe-me quem são os outros…  

O Procurador retirava dossiês, deslaçava capas, abria ficheiros. Era um depósito monstruoso de provas.

– Vai divertir-se. O tipo foi HemingwayGertrude SteinBrechtSimone Beauvoir, até Shakespeare. Andava ultimamente a traduzir evangelhos apócrifos. Não o tivesse a Interpol apanhado a tempo, tínhamos aí outra Bíblia.

– Caramba. – disse o Procurador. – Este tipo promete…

– Também o que se pode fazer em Montreal, no meio do gelo?

Ambos quiseram rir. Mas rir seria estranho, como quem receasse parecer demasiado idiota perante um caso difícil, impossível de adivinhar.