Sempre que pode, Sven Vogel atravessa a pé velhas províncias da Europa à cata de lugares arruinados. Investe pelo interior de túneis e de caminhos ferroviários abandonados, invade o segredo de florestas, devassa o silêncio de portões enferrujados, e aí, no lugar onde as teias de aranha amortalham e os grandes silvados escondem, Vogel fotografa.
Fascinam-no especialmente os castelos, os antigos sanatórios, os edifícios estatais reduzidos a escombros, os teatros mal seguros nos pilares, os hotéis maravilhosos da Belle Époque caídos numa decadência luxuosa e sem piedade. A objetiva das suas câmaras alimenta-se deste entulho, deste silêncio podre, do pó, da oxidação dos ferros e dos vitrais ultrajados, da coisa humana comida já pela morte.
Recentemente, numa das suas deslocações à Baixa Baviera, Vogel descobriu o que resta de uma antiga escola primária.
Na mesa que outrora pertenceu ao professor, dentro de uma pesada gaveta que precisou de arrombar, ao lado de obsoletas canetas de tinteiro e de sujíssimos frascos de vidro fosco, os seus dedos tocaram um caderno pequeno, de contornos arredondados, em cuja capa (sobre a águia e a suástica), o tempo lavrou um líquen peculiar em forma de caranguejo.
No papel amarelecido, entre cálculos e exercícios de gramática, no meio de frases da propaganda nazi e de pequenos improvisos pueris, podia ler-se o seguinte:
Meu querido Franz,
Enobreces a tua escrita com a paixão de um poeta e a lucidez de um filósofo. Graças à nossa escola e a alunos como tu, a sagrada pátria alemã permanecerá para sempre viva e pujante. A tua composição é um hino ao Führer. Ele, expoente da força e da superioridade, há de guiar-nos através da eternidade.
Vogel olhou em volta. O estuque derruído, as janelas estilhaçadas, as fezes dos pombos, e a intensa impregnação devida à urina dos ratos estrafegavam a sombra, mal permitindo respirar.
Debaixo do carimbo desbotado da suástica, assinava o panegírico Karl Oberheim. A data, completamente tomada pelo bolor, não a conseguiu o fotógrafo decifrar.
A classicista Hilda Ruthgenstein acorda todos os dias cansada. Ergue-se, senta-se na beira da cama, espevita os olhos no escuro, esforça-se por recordar algo com que sonhou e só depois abre a janela do quarto. A abundância de luz e, sobretudo, o ar limpo das manhãs de outubro devolvem-lhe parte da antiga alegria.
Neste momento, todo o seu ser equivale a uma pilha de cacos de uma ânfora que se quebrou. Subsiste em si a ideia de perfeição, mas nenhuma inteireza ou capacidade de albergar premissas labirínticas ou a velha excelência em que foi educada.
Porquê?
Oh, essa é uma excelente questão. Hilda caminha pela casa e vai abrindo uma após outra todas as persianas, uma após outra todas as vidraças. Vencer a paralisia dos gestos é um empenho sério, porque as primeiras conquistas animam as segundas e encadear o sucesso constitui um modo de superar-se.
O seu escritório é a imagem da sua existência: folhas avulsas, não numeradas, de formatos e texturas distintas, livros abertos e sobrepostos, objetos fora do lugar, o computador com marcas de sujidade na tampa e no visor, uma gaveta expulsa do carreto, o busto de Homero tombado sobre papéis de jornais sem cor, eis o que aos nossos olhos se mostra como um exemplo de caos facilmente corrigível.
Todavia, a professora Ruthgenstein não tem vontade de emendar nada.
A doença, a impressão de derrota, a asfixia insuportável que medra no reino dos triunfadores, e, sobretudo, um cansaço imenso, uma fadiga de todas as fadigas, uma fraqueza de se não tolerar fraca e malsucedida corroem-na dos ossos à caverna monstruosa da alma. Hilda Ruthgenstein odeia-se, odeia a sociedade, odeia a cabeça abstrata de um deus que lhe cobra a todo o instante juros sobre sonhos irrealizados, odeia o futuro inalcançável, odeia o presente prenhe de migalhas e armadilhas. Apenas a rememoração de uma pequena parte da infância atenua tudo.
De rosto fito nalgum pormenor da casa em silêncio, extrai um pouco do outrora grande orgulho. Falamos de um klismos onde os seus dedos poisam sem peso. Falamos de quadros com ilustrações da Atenas de Péricles e da Roma de Cícero. Falamos das pequenas estátuas de mármore que figuram Hermes Trismegisto, Júpiter Capitolino ou Minerva. Falamos de uma curiosa ampulheta, vinda de Creta, com grânulos muito finos e luminosos, capazes de erguer uma pequena nuvem de ouro cada vez que Hilda os faz escoar pelo fino gargalo afunilado.
Dentro destas presenças vivem pessoas, baloiçam falas, subsiste uma aura.
Mas a académica não se comove. Nunca se comove. As lágrimas esqueceram o caminho de vir. Sente, isso sim, uma pontada recrudescer, um fulgor ainda não totalmente extinto. É como se dentro do seu ser pugnassem dois exércitos sem misericórdia, dois verbos que a quisessem ora noite ora dia, ora morte ora nascimento, ora a sua pessoa ora ela mesma na verdadeira aceção.
De repente dou-me conta da bestialidade dos homens num ponto em que a jamais sentira na minha existência de quase meio século. Profana-se o lugar-comum, o lugar dos outros, o lugar próprio. Cada pessoa é um inimigo latente, um ódio possível, uma briga, um insulto, uma forma de agressão física, um ato predatório. Dou-me conta do modo fácil como se fere alguém sem causa, sem motivo, sem preocupação pelo que é e significa cada gesto: um condutor abandona a viatura para erguer um braço violento contra o condutor imediatamente atrás de si; um garoto de dez anos profere uma barbaridade na sala de aula, ameaçando de morte um colega ou o professor; um doente morre numa maca de hospital, em frente ao médico que o devia tratar; um presidente calunia e divide os cidadãos do seu país, desprezando o juramento feito sobre a Bíblia; um povo outrora dizimado assassina em massa, justificando a força com a covarde e hipócrita justiça de que se diz herdeiro. De repente dou-me conta de que o sol limpo que corre sobre o parapeito da janela e sobre a mesa lisa do meu caderno é impuro e insuportável.
Busco Johann Sebastian Bach como um leproso busca a sua toca. Busco a infância, a memória dos bons amigos que tive, das caminhadas idílicas para a escola primária, do cheiro ancestral das ervas à beira dos regatos. Busco o rigor das cores, o sentido inequívoco das palavras, o cuidado das unhas, a verdade nos olhos. Havia naquela altura um sentido incomensurável de esperança. Aprendi a respeitar, a agradecer, a ser gentil, a cultivar o bom-humor, a valorizar os belos objetos raros que me ofereciam, a ler com delicado manuseamento os livros, a imprimir o espírito nas pensadas frases que devia pôr – umas atrás das outras – nas composições escolares e nas respostas à subtileza dos diálogos. Busco o silêncio para me lembrar de tudo isso, para escutar as suítes para guitarra, para me desligar da pátina ruidosa que os dias segregam.
Há dias um aluno perguntou-me o que faço para obter inspiração. Por instantes baloiçou-se-me na boca uma banalidade, um chavão, uma resposta pronta. Estávamos numa sala comprida, ladeada de computadores de última geração, respirando o ar impregnado dos cabos e dispositivos eletrónicos. Falávamos de António Vieira e da coragem de discursar sobre o abismo. «Não sei», «nunca soube». E esta é a certeza. Inspiração, como quem abre os brônquios a um ar leve e lavado de outubro, tangendo o orvalho e as folhas muito verdes do funcho e da lúcia-lima, não a sei explicar. A não ser, talvez, como uma grande nostalgia, uma vontade melancólica de reinventar os dias de trás para a frente, como quando o lápis se quebrava na linha nervosa e eu pensava «este não é o caminho». De repente, a humanidade esfarela-se no papel, entumecida de estupidez e de orgulho perverso. E é necessário que alguém diga «este não é o caminho».
No final das férias, a alegria extinguiu-se já no semblante de muitos turistas. À medida que a praia vai ficando deserta, com os detritos infelizes que nela abandonaram milhares e milhares de forasteiros descuidados e egoístas, o rosto de Nausícaa parece acender-se. Chegou a sua vez, o seu tempo, a sua paz.
As manhãs de setembro revelam um longo areal branco voltado para um mar cor de chumbo, um e outro a necessitarem de si, da sua fala mansa e desapressada, dos seus olhos benévolos que tudo observam, das suas mãos diligentes e sensíveis correndo sobre a crista escorregadia dos rochedos. Aí deixaram restos de plástico e restos de alumínio e pedaços de vidro e de cartão e de ráfia e redes e tecidos esgarçados e tiras de borracha e mais plástico e mais despojos de alumínio e mais esquírolas ameaçadoras de vidro.
Nausícaa extrai das poças, da linha da salsugem, do manto das areias, dos altos e baixos da maravilhosa duna sem fim todo esse lixo detestável. E cuida das anémonas feridas, das aves pelágicas, das madeiras quebradas nos passadiços, dos canteiros selvagens onde o funcho-do-mar e os rabos-de-lebre e as camarinheiras e a amófila sobrevivem ao vento, ao sal e às incursões malignas dessa gente faminta de fotografias e de admiração.
Em setembro as manhãs orvalham, o frio resvala pela corola, pelas folhas espinhentas, pelo caule antipático dos cardos. O nevoeiro avança e recua, abrindo e tapando no horizonte a linha lisa das águas.
A bondade não deve ser confundida com indulgência, nem esta com a cobardia.
No mundo dos homens há uma paleta tão vasta de comportamentos que pode um poeta pintar quadros repletos de verdade e de justiça, equilibrando-os entre o bem e o mal absolutos.
Nausícaa não pensa nisso. Se alguém a observa, vê-a neste preciso instante a recolher com todo o cuidado formas pontiagudas de vidro e carcaças amolgadas de metal, agarradas como bisso, como sórdidos intrusos, como presenças infames, às rochas nuas, indefesas, subjugadas da sua pequena ilha.
Numa das ruinhas da vila, à esquina com a marginal, mal se dá conta de uma casa pequena de paredes caiadas e rebordos de granito. Deve ter sido noutro tempo o lar segundo de alguma família de bem, como o testemunham o jardim com jacarandás e uma estrutura em forma de estufa, de que sobram hoje troncos e partes metálicas retorcidas: percebe-se facilmente ter sido esse espaço amplo outrora e hoje muito mutilado por força dos edifícios espalhafatosos que cresceram no lugar dos canteiros e das latadas.
Os veraneantes atravessam uma avenida e depois arruamentos mais estreitos e por fim esta esquina silenciosa, abrindo para o mar. Nenhuma alma há de ter posto a sua força contra a cancela enferrujada nos últimos dez anos, de tal modo o óxido tingiu a primeira laje do passeio e se disseminou por todo o corpo desta vivendazinha.
Um escritor, que nesta localidade faz a sua vilegiatura, observou já o curioso limoeiro bravio que na parte mais esconsa do quintal oferece ainda, fordo, o seu fruto avantajado e solar.
Numa das janelas sobranceiras ao lancil, que o destino ou os antigos donos não puderam ocultar, surpreendeu o ocioso forasteiro, sombreada por uma velha cortina de ponto aberto, uma pilha colorida de livros com encadernações de pele e letras de ouro: D. Quixote em dois tomos, O Vermelho e o Negro, Assim Falava Zaratustra, Werther, Otelo, Quo Vadis, Viagens na Minha Terra, O Tartatufo seguido de O Doente Imaginário, O Príncipe e o Pobre, Eugénia Grandet. Outros estariam sobrepostos, mas já a piedosa curiosidade alheia os não atingia por culpa do plástico sórdido da persiana.
O escritor, que manteremos no anonimato, sentiu como um golpe de punhal este abandono particular.
Que uma geração esqueça todo o investimento das gerações precedentes é algo a que obriga a lei absoluta da modernidade. Ainda assim, com que falta de amor. E de escrúpulos!
«Sou feminista» principia deste modo todas as suas palestras, conferências e leituras poéticas Măgira Rumanesca, ficcionista romena, jovem, lésbica, feminista.
Por conta de um misterioso talento comunitário venceu todos os prémios literários do país na última década, tendo atraído a si um grau de conspicuidade raramente ao alcance de escritoras tão novas e audaciosas.
Da cátedra de Estudos Femininos na Universidade de Bucareste ao Prémio da União dos Escritores da Roménia, o seu nome corre em todas as antologias, revistas, Histórias da Literatura Moderna, encontros temáticos, jornadas de luta de escritoras emancipadas, sendo-lhe notória a aversão a homens, heterossexuais e colegas de fala apaziguadora. Escapam as figurinhas masculinas queer dos escassos alunos a quem leciona, levemente aparentadas com o timbre passivo a que deseja votar os filhos de Adão.
«Sou feminista» diz Tatiana Acaresti, vencedora este ano do prémio Femina, também ela professora, romena, lésbica, feminista.
Măgira Rumanesca teceu-lhe veementíssimos encómios públicos, legendados por expressões de militância ruidosa que em nada contribuem para escutarmos a voz peculiar daquela autora, a mais jovem de sempre a receber o galardão da revista francesa.
«Acaresti supera o vazio testicular de séculos de ostentação sementícia machista, negadora do âmago criador da mulher» anotou para o jornal Le Monde Măgira Rumanesca. O ódio das palavras que se seguiram não admitiu uma só vez, em sete parágrafos, o nome da laureada.
O que reputamos como estranho. E, bastante a medo, como desagradável outrossim.
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Nota: A fim de se evitar futuras extrapolações, o autor desta narrativa declara-se antecipadamente desideologizado, apolítico, apartidário, não misógino. Inimputável.
Para Maria Alice Pereira Costa, (08-06-1956 – 21-09-2024), in memoriam
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Arde sempre uma luz junto à Sagrada Família. Fiz uma promessa, que cumpro inquebravelmente. O lugar da luz deve ser esse, esse lugar onde até a noite chega a ser a bonita. É como nos quadros de Caravaggio: a sombra aconchega-se às velas, às candeias, aos olhos flamejantes, às cores fortes das túnicas e adormece. Quando tu partiste, jurei que haveria sempre luz a amansar a escuridão cá em casa, ainda que ao menos com um fósforo aceso, com uma frase dita de dentro para o fundo, ao menos com um olá, mãe.
As datas são terríveis. Digo sempre a mesma coisa, mas não encontro outra forma de o dizer. Foi o um de novembro, assombroso, pesado, anestesiante. Foi o Natal, esse golpe certeiro: estiveram cá o Presépio e o Pinheiro – a Catarina fez questão – mas a aldeiazinha de Belém pareceu-me mais longínqua do que o canto do universo de onde saiu a estrela eufórica. Foi o Dia da Mãe e eu incapaz de escrever uma linha. Agora o teu aniversário. O primeiro. E eu às voltas com a casa desarrumada pelas lembranças, eu perdido nas frases, no riso, nas subtilezas da voz, evocando essas cordas de peripécias que nos punhas à mesa à noite, enquanto o caldo ia cozendo nos potes de ferro da lareira e rezávamos o terço, com a Renascença a ditá-lo diretamente da Capelinha das Aparições. A tua vida era cheia e difícil, mãe. Tenho a alma em pantanas. E, sim, as datas são atrozes.
Fazes 69 anos hoje. E, no entanto, como te direi, não fazes anos. Fazer anos era tu estares cá, e tu estás cá mas não os fazes. Um filho (e somos quatro) baralha-se com as palavras: ainda há pouco sentenciavas, profetizavas, insuflada por uma certeza irritante:
Esta é a última vez que me cantais os parabéns.
E já esse dia tão remoto, tão próximo ainda, nos abre fissuras nas paredes do juízo.
Não digas isso, mãe.
E o teu silêncio, os teus opacos olhos sem claridade ou fosfenos, a tua lassidão crescendo até sair pelo nariz sob o arranque de um suspiro.
Deus lá saberá.
Era como quem ouve o comboio antes dos outros, a tremer, a apitar, a vir no remanso da noite, a acercar-se da luz como as trevas dos quadros de Caravaggio, a fingir que é maravilhoso estar tudo bem.
Não digas isso, mãe.
Tinhas razão. Tudo aconteceu de súbito, muito depressa, tudo devagar e tudo vertiginoso, tudo carregado de espanto e de dor, tudo cá dentro a soltar-se de cada memória que me põe a alma num desarrumo: tu comigo ao colo, tu deitada na cama do hospital, tu derreada sobre os teares, tu com o dedo erguido a suspeitares de alguma, tu a cuidares da avó, tu a amassares o pão e a metere-lo no forno, tu a despedir-te, entubada, cheia de hematomas, tu corada de alegria, tu no féretro – fria como um papel – quando pela última vez te beijei.
Para o ano, sabe Deus!
Não digas isso, mãe.
E eu, nós os quatro, os cinco (que o pai também entra, evidentemente), a alucinar, a murmurar ao almoço que farias hoje 69 anos se fosses viva. E eu, nós os cinco, a odiarmos esses verbos conjugados no condicional, no conjuntivo, como se não estivesses viva, como se não estivesses aqui entre nós, a escutar com o teu sorrido trocista o «Parabéns a você, nesta data querida», como se nos falhasses numa data tão importante, tão inesquecida, tão acordada logo pela manhã na pequena vela bruxuleando ao pé da caixa de madeira com a Virgem, o São José e o Menino.
O cancro intrometeu-se. Sempre abominei a minha cobardia em relação a doenças. Estou sempre a rever-te, com os pulmões a laborar num esforço tremendo, com o punho empurrado para o peito:
Este filho da puta não para.
E nós, com os olhos mergulhados em nevoeiro, com o nariz a pingar de tristeza, com a voz aluindo na garganta:
Ó minha mãe.
Jurei – na véspera de nos deixares – que enquanto for pessoa neste mundo há de existir sempre uma luz a irradiar da Sagrada Família, a alastrar pelos interstícios da casa, a fazer recuar corajosamente as sombridões, a trazer no lume amigo de um círio a tua segurança, a tua sensatez, o teu desenvencilho, os teus provérbios, a tua liderança, a tua maneira de contar histórias com humor e sem maldade. Jurei explicar-me assim quanto à saudade, que às vezes soca e asfixia com violência. O lugar da luz é o interior das metáforas. A luz deve dizer mãe com a mesma solene suavidade com que a chama diz amor.
Será errado escrever muitas vezes sobre alguém que se ama?
Herberto Helder escreveu em A Colher na Boca, 1961, aquela que me parece ser a mais pura justificação para esse amor: «As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam, porque se colocam / na combustão dos filhos, porque / os filhos estão como invasores dentes-de-leão / no terreno das mães». Estes versos não podiam caber mais direitos nem mais luminosos nesta crónica.
Esta não será a última vez que te cantamos os parabéns, minha mãe.
Estou bem agora. Não vos preocupeis comigo.
E é por isso que me parece a luz tão delicada, tão macia, tão catártica, agora que a noite vem e as sombras – tenho de o repetir – chegam quase como em Caravaggio a ser bonitas.
Desde que a minha mãe partiu a casa é uma armação de tijolos presa por arames. Divido a maior parte do tempo com o meu pai, cujos interesses são sobretudo a horta e os trabalhos manuais. E o meu pai divide a maior parte do seu tempo comigo, cuja evasão são sobretudo a escrita e o sonho de uma casa nova.
Vejo-o muitas vezes de sandálias nos pés, sem peúgas, no meio da hortaliça e do cebolo, mesmo nas difíceis manhãs frias de nevoeiro e chuva. Ou então derreado ao sol, sem chapéu, com um alicate nas mãos, a embeiçar uma dobradiça ou a corrigir as tamis de uma peneira. E eu irrito-me com a sua teimosia, com o olhar que me faz de lado como se estivesse mesmo a dizer-me:
Vai para o raio que te parta.
E preciso de aspirar uma grande quantidade de oxigénio, de escolher melhor as palavras que saltitam na cabeça num modo de peixes na canastra:
Pai, olha o frio. Mete-me umas meias. Calça umas botas.
E ele, barricado em si, cheio de impávida mestria, a consertar a dobradiça, a remendar a peneira, a arrancar ervas dos talhões verdíssimos, a ignorar-me, a fazer de conta que a idade não é para todos, à espera da reprimenda seguinte:
Pai, este sol mata. Põe um boné nessa cabeça, se faz favor.
O tempo apanha-nos quase sempre nas dúvidas metódicas. O carteiro veio? O que havemos de fazer para o almoço? A tua irmã virá aqui mais logo? Quando é mesmo a tua consulta de urologia?
Uma casa com dois homens é um barco sem leme e com dois motores. Parecemos abelhudos porque somos abelhudos. Turramos como bichos teimosos, inflados da certeza de que o outro não sabe o que faz e que se a mãe fosse viva isto piava de outra maneira.
Porém, seria hipócrita não falar de mim.
Muitas vezes paraliso na sanita com o Expresso de há quatro dias nas mãos, a coaptar pedaços de um artigo de economia, a passar os olhos pela revistinha de turismo, a pastar com a palha dos analistas políticos.
Vais demorar muito aí dentro?
E o tom é repleto de sarcasmo. É irritante. Um tipo precisa de paz para apurar as nuances da sociedade, para se informar, para curar o mal da cabeça. Não respondo. Nunca respondo a provocações desta espécie.
Anda-se com o aspirador de um lado para o outro, com esfregões e detergente dos vidros. Mas às tantas cai um verso de cangalhas, jeitoso, precioso, fundamental. Atiro-me ao caderno, escrevo, rasuro, releio, reescrevo, anoto, gloso, divirjo setas entre os versos e as linhas. E é nesse poço de silêncio, quando mais e melhor me sabe o ritmo das palavras, que me atordoa a voz intrusa das coisas práticas:
Vou ao LIDL. Precisas de alguma coisa?
Ultimamente tenho-me perguntado para que serve tudo. Uma casa é um labirinto de tarefas. Há sempre pó nos mesmos esconsos e reentrâncias, nos mesmos rendilhados da madeira, nas mesmas dobras de marfinite dos anjinhos. O sabão da espuma reaparece sempre na mesma cerâmica e sobre o mesmo espelho. Por muito que me acocore para aspirar a base dos móveis e por debaixo das camas, lá me encontra o sempiterno cotão malfadado a obrigar-me a despedir do seu poiso, numa sequência de dominó, edredões e cortinas e caixas com arrumos e sapatos e sapatilhas e chinelos. E há os pratos para lavar, a roupa a estender, o ferro à espera do cesto com calças e camisas, os pátios a suplicar por água, os vasos das orquídeas a exigir manutenção. Uma casa é um cativeiro brutal. De recordações, de objetos, de embrulhos, de quinquilharias e bagatelas que acumulamos por simples deslembrança da vaidade e do vento que passa do Eclesiastes.
E depois há o relógio que oxida tudo. As caleiras, as tubagens, as linhas de raciocínio, a memória.
Pai, a porta do frigorífico!
E ele, como quem não quer a coisa:
Não fui quem deixou a luz do escritório acesa.
E eu a inchar de vingança:
Nem eu quem deixou uma torneira aberta na casa de banho do anexo!
E ele saturado de razão:
Sempre quero ver quando chegares à minha idade, sim, sim.
Contemplo a minha vida. Velho e jovem em simultâneo. Derreado e criativo paradoxalmente. Esperançado e sem fé no mesmo passo. Cismo nos livros abandonados sobre a mesinha de cabeceira, nas muitas viagens que devo à vida, nos projetos esfarrapados pela invernia precoce, na agulha que pulou na bússola das minhas paixões. De repente já não sei quem sou nem no que acredite.
E é por culpa disso que me agrada tomar o pequeno-almoço com o meu velhote. É certo que me repete todas as manhãs as suas façanhas de Don Juan dos tempos da tropa. Mas recompensam-me os morangos frescos, acabados de colher no quintal. Há alturas em que maça escutar pela milésima ducentésima quinquagésima quinta vez a peripécia das faúlhas do comboio que lhe sujaram a camisa branca e o fizeram abortar missão numa conquista romântica para os lados da Trofa. Mas impressiona tê-lo ao pé de mim, a viver com energia autêntica o sopro de Adão, em lugar de estar longe, perdido numa penumbra de corredor, mordido por uma ventosa qualquer.
E a aturar-me. Porque se há coisa que muito me espanta é que haja no mundo quem disponha de paciência para o fazer.
Como disse, de repente já não sei quem sou nem no que acredite. Tiro um café na máquina e desço ao esconderijo. Atiro-me ao computador e ponho-me estas frases à frente. Precisava delas. Por uma ou por outra razão precisava.
«O homem eleva-se da terra com duas asas: a simplicidade e a pureza. A simplicidade deve estar na intenção, a pureza na afeição. A simplicidade procura Deus; a pureza toma dele posse e nele se compraz». Assim começa Thomas de Kempis o quarto capítulo do Segundo Livro da sua célebre Imitação de Cristo, obra mais conhecida na Cristandade, depois da Bíblia, e cuja leitura me parece hoje um revigorante desafio às mulheres e aos homens que ainda procuram compreender a luz e se não resignam à medíocre condição do ser medíocre.
Francisco, aliás Jorge Bergoglio, personifica o homem elevado da terra com as duas asas. Dificilmente se obterá outro testemunho que não o de pessoa humilde, servidora, surpreendente que foi, no modo como ao longo dos doze anos de missão pontifícia conduziu os destinos do Vaticano e renovou a Igreja Católica, reaproximando-a dos ideais de Cristo, que eram os de São Francisco, ou de Thomas de Kempis: amar o próximo, perdoar os pecadores, acolher os pobres, defender os fracos, incluir os ostracizados. Francisco, ou Jorge Bergoglio, lavou os pés a condenados, ministrou o sacramento da comunhão a divorciados, acarinhou mães solteiras, disse que a Igreja era de «Todos», olhou para dentro da comunidade, quis que se justiçasse as vítimas de pedofilia, renovou o cardinalato, exigiu limpeza nas palavras e nos atos, apontou o dedo aos poderosos hipócritas (que, a espaços, o visitaram), denunciou o massacre fratricida de Gaza ou na Ucrânia, posicionou-se em favor do planeta e das criaturas atacadas pela lupina ambição ou insensatez dos filhos do seu Deus: animais, florestas, embriões no ventre materno, (i)migrantes, etc., etc., etc.
A minha simpatia por este Papa, que supera largamente a que podia ter nutrido por qualquer outro, começou na escolha do nome Francisco. Cresceu em reação ao modo como, prescindindo do anel e da cruz de ouro, ou dos sapatos vermelhos da Prada do seu antecessor, como sem voz ornamental e intelectualizada, se entregou ao exercício de ser pastor dos povos, líder exemplar, homem corajoso e muitas vezes sozinho (e não me refiro à comovente imagem que dele nos na Basílica de São Pedro em 2020), pugnando por uma fé íntegra, verdadeira e disponível para aceitar o outro. Como certeiramente nota José Tolentino Mendonça em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, «na sua espantosa leveza, e sem alardes, a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nós: faz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora». Julgo que este Papa era, na sua essência, um amigo de todos nós. E, por isso, a dor tão coletiva, tão universal, tão unívoca que hoje sentimos.
Quando a noite se parece uma lâmpada acesa, até os lugares feios da cidade se tornam estranhamente acolhedores. Era um pensamento como os outros.
A moça caminhava devagar pelo empedrado. Esse último sacrifício doía-lhe mais do que o corpo que se magoava também de si mesmo. Os homens gostam de ver cumpridas exigências que as mulheres abominam. Ninguém sabe porque lhes pertence a eles o mundo e não a elas. Isto era outro pensamento.
À distância de três ou quatro passos, a porta pareceu-lhe um sumidouro de alegria. A noite é um vidro instável. Umas vezes assusta de tão desprendida, outras exige-nos tudo, quer-nos parte do seu caminho marginal. O doce perfume havia-se já estendido pelo beco, onde somente o fedor do creosoto e o suor do indivíduo dominavam.
A moça considerou o grande relógio no frontão do edifício principal do outro lado da plataforma ferroviária. Faltavam cinco minutos para as onze. Havia tempo ainda. Hesitou. Ele, o tipo imundo, pagava bem. Ela precisava do dinheiro. A lua plena de eletricidade fazia erguer tufos de funcho e de cerefólio no meio das travessas.
Admitamos que a vida é a vida. Quando a noite se parece uma lâmpada acesa, até os lugares mais esquálidos possuem a sua beleza.
A moça bateu com o punho cerrado, mas sem força. Nem era preciso. A porta entreabriu-se em silêncio. Ela entrou.