Nimbo

Fotografia de Ali Rowshani

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Então à tardinha, o sol decide juntar-se todo e – um pouco esfarrapado, é certo – bater em cheio no vidro poente da casa. É preciso que se note o quanto por ele se perguntou ao longo do dia, especialmente de manhã.

A mulher, que agora se consola com a boa luz para lá e para cá da cortina, acalentada pelo silêncio tépido instalado entre as paredes, enfureceu-se com os aguaceiros açulados pelo vento, com a casa que ficou por abrir, com a roupa que não pôde estender, com a saída que precisou de adiar. Olhando agora o patiozinho e os telhados em volta, os gatos adormecidos nos beirais, o céu retomando as cores citrinas do bom tempo, sente-se tentada a sorrir.

O terço em cima da cómoda e as pagelas, o retrato do marido e dos filhos, o cofrezinho de nácar onde guarda os anéis e o colar, a própria madeira reluzente, expressam-se num tom ameno de condescendência, como se dissessem tudo vale a pena, tudo vale a pena ainda.

Este é o momento em que o rapaz da vizinha chega da escola e se põe a tocar o violoncelo. A mulher gosta muito de escutar os sons graves que nascem das suas cordas. Sentada na beira da cama a meditar, a lembrar, a rezar, descobre que um punhado de coisas pode bastar para que se viva bem, com amor suficiente, com leveza que chegue para reconhecer outra vez todo o caminho.

O sol conta muito. O solzinho é como um velho amigo que se espera e que sabe exatamente o que dizer quando precisamos que nos digam alguma coisa.

A mulher às vezes interrompe-se no repetir das ave-marias. Vem-lhe à cabeça que decerto amar tanto o sol e sentir por causa dele vontade de perdoar todas as ofensas sofridas e pedir perdão por todas as lástimas provocadas, assim mesmo, a meio do terço, como um parágrafo especial com Deus, é também um modo de orar. Sente a pele eletrizar-se, engelhar-se como tomada por um arrepio de descoberta.

Mas depois arrepende-se. Decide que foi talvez longe demais. Talvez tenha blasfemado só de pensá-lo.

E retoma a mastigação das palavras, quase a ceder ao sono, quase com um sorriso galante a enformar-se-lhe nos lábios. Sente-se rejuvenescida, como se em vez do agora vivesse outro tempo, como se no lugar do sol outro lume viesse, sorrateiro, benévolo, cheio de ternura, a beijar-lhe as mãos.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Oblívio

old woman, Marnix Detollenaere
Fotografia de Marnix Detollenaere

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Sobre a cómoda ficaram a caixa de madrepérola com os medicamentos por tomar, a pagela da Sagrada Família, os sobrescritos fechados com as contas, o branco sujo do pó. Cristo continua pregado na cruz, o coração em sangue de Maria continua pingativo, o Santo António não se alterou, não se cansou, não cedeu um milímetro com Jesus no braço. Do mármore, a todo o cumprimento dele, perpendicularmente, sobe a lâmina emoldurada do espelho. A idosa olha-se, detém-se, escava com os olhos a pessoa que diante de si responde sem perguntar, inquire sem replicar.

Depois de muito tempo é-se outra vida. Na beira da cama o corpo equilibra-se mal.

Quando se regressa a casa, vozes há que voam desordenadas na concha do ouvido. Não se preocupe, minha senhora, tudo se resolverá. Precisa de alimentar-se, compreendeu? O seu filho não voltará a pôr-lhe as mãos em cima, dou-lhe a minha palavra de honra. Há vozes, mas tão opacas como o olhar através do nevoeiro, como o vidro onde o pó lentamente acamou, como o pequeno quarto às escuras que espera do seu inquilino eterno uma explicação, uma fresta de luz, um sinal de que não morreu.

O que dói não é o velho corpo macerado. O que dói é esse não poder não doer, essa dor infiltrada em tudo o que é nervo, espírito, amor de mãe ofendida.

São horas de fazer alguma coisa na cozinha.

O que terá restado no miserável frigorífico ferruginoso, nas velhas estantes dos armários, nas bolorentas fruteiras quase vazias? É preciso limpar a casa, obrigar os músculos a um derradeiro sacrifício, impor uma ordem à existência cansada. Olha-se ainda, sem palavras, sem ruído, sem compaixão ou ódio, sem tristeza ou saudade. É-se alguém preso a um corpo e um corpo preso ao tempo, como um resto de sabão que se deixa esquecido num tanque. Como um tanque de água estagnada e podre. Como um tanque vazio. Como um tanque meio desmantelado, onde em tantas tardes e noites e manhãs se lavou o rosto.

No princípio é o verbo, no fim é-se um verme. A anciã segura nas mãos a fotografia que lhe tiraram há muito, com o marido e o filho. Não sabe quem sejam os três que ali se juntam, nem que acaso os juntou.

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