. Na sala estão vinte pessoas, devidamente afastadas umas das outras por marcas de fita colada no chão. Ocasionalmente o sistema sonoro anuncia nome e um número. O doente levanta-se e encaminha-se para o gabinete indicado. Nesse curto intervalo de tempo, os olhos circulam, respira-se fundo, inveja-se o sortudo. Depois volta-se a considerar o infinito, …
Só queria dormir
. Olhada do quinto andar a rua era toda ela chuva. Chuva miúda, persistente, escorrendo nos vidros, dos telhados, debaixo dos candeeiros, contra as pernas apressadas das senhoras que entravam e saíam na estação de metro. Ao tipo do 5.º D apetecia-lhe dormir, dormir indefinidamente. O asfalto molhado, o som dos pneus a cortar os …
Quando os dias são um só dia interminável
. Por fim, o cansaço faz-me dormir. Precisei de cinco dias para o conseguir. Jantei e lavei os dentes. A penumbra desenha-se no horizonte. No podcast, as palavras do locutor são exatas, informadas e tranquilizadoras: «… a começar Poema dos Átomos; a música de Armand Amar, com as palavras de Jalaluddin Rumi, poeta sufi do …
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A última vez
. para a Ângela, in memoriam . Entrei no hospital dominado pela vertigem da fraqueza, por imagens incontáveis, em ebulição, incapazes de fabricar entre si um único pensamento. Suponho que fiz um esforço, que soube manter-me firme. O maxilar dorido. O coração acelerando. As mãos subtil, sub-repticiamente suando. Disseram-me «Coragem, João». Nos corredores as pessoas choravam. Disseram «Aqui é sempre …
Uma maçã
. Houve um momento na minha vida em que as expressões «cirurgia», «recobro», «cuidados intensivos», «cateter», «convulsão», «estável» e outras afins foram estranhamente próximas. Estava desempregado, mas isso não era importante. A minha namorada quis acabar tudo: eu esqueci-lhe o nome num mês. Lembro-me é do hospital. Das zonas húmidas. Dos cheiros seguindo-nos pelo corredor …
