. Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade. Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas …
Quando os dias são um só dia interminável
. Por fim, o cansaço faz-me dormir. Precisei de cinco dias para o conseguir. Jantei e lavei os dentes. A penumbra desenha-se no horizonte. No podcast, as palavras do locutor são exatas, informadas e tranquilizadoras: «… a começar Poema dos Átomos; a música de Armand Amar, com as palavras de Jalaluddin Rumi, poeta sufi do …
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Ódio à mediocridade
. «Um escritor não é a soma dos seus livros, é a fuga ao livresco. Um escritor não escreve. Inventa.» Pedro-Daniel Névio, Escoriações . . A casa do escritor ficava no subúrbio norte, numa área sossegada, a seguir a campos, entre curtos eucaliptais. Lembro-me do cheiro a limpo, do perfume da alfazema, da frescura da …
O domingo está prestes a fechar
Apresento-me à entrada do bosque como fiz durante anos por esta altura. O cão segue-me, farejando com o contentamento eufórico deste regresso dos dois a um lugar de ambos. O bosque é o mesmo e é outro. A nostalgia faz crescer em cada uma destas grandes árvores uma sombra mais triste. A ausência parece irreparável, …
O homem muito triste
. Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito …
Crónica de um domingo de outono
. Foi bom ter vindo. É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas …
Volto às crónicas
. Recomeçar é o mais difícil. Destapo, tapo, volto a poisar a caneta, ponho-me a andar pela casa, a tocar nos objetos, a retocar-lhes a posição (as gavetas guardam ainda segredos), a anotar mentalmente os ruídos que me chegam de todas as partes, regresso à mesa, abro o caderno, destapo a caneta, a cabeça parece …
Vozes de burro
No começo da rua Franquelim Pimenta batia na sola dos sapatos com fúria. E era depois de lhes pôr em cima uma camada bastante de cola industrial, de lhes cuspir uma gosma de álcool e de imprecações, enquanto os olhos iam e vinham, conforme o movimento dos pares de pernas das senhoras e raparigas …
Gosto do silêncio
«Os olhos percutentes encontram os meus. Quem diria que são olhos dormentes? O silêncio. O silêncio. Quando o azul desce, e se transforma no negro chumbado da noite, acende-se sobre ele uma densidade que o protege, e lhe permite continuar a vadiar. Convido-o para o meu quarto, que se desfaz na espuma do texto.» Maria …
