O REI E O MONGE

Daniel Fleischhacker
Foto: Daniel Fleischhacker

 

Teodorico, o Rei tinha-o mandado chamar e ele foi. Três dias de jornada até perto da capital, até à praia onde o esperava um ror de gente. O desgrenhado eremita entrou no areal, trajando farrapos, segurando um longo cajado, sem um esgar de ansiedade, medo ou hesitação. À medida que avançava para o baldaquino ou tenda real abria-se à sua frente uma clareira de espaço e de silêncio. Por fim, João deteve-se diante do monarca.

Teodorico levantou-se impressionado e deu um pequeno passo na sua direção, mas o monge barbudo recuou um passo maior ainda. Depois, em modo de compasso, o monge escreveu com o cajado um círculo na areia. Ninguém poderia nele entrar, sob pena de extrema maldição e vergonha para a posteridade. O bispo enojou-se do cheiro e do aspeto dos seus andrajos, os nobres arregalaram os olhos, o povo sussurrou.

Teodorico sentou-se e disse:

– Bom homem, agradeço que tenhas vindo. Há muito que te procuro. Os meus batedores trouxeram a boa notícia de que vinhas. Sei da tua santidade, conto com ela para que me ilumines o pensamento!

Os guardas trouxeram então, atados e sujos, sem sinal da anterior opulência e de magnificência, o deposto Almostancir e seis dos seus filhos, califa e senhores das ricas províncias do sul, terras ímpias e infiéis, em cujos palácios se cultivava agora o hábito de lançar seguidores da religião de Cristo a covis de leões e de víboras.

Teodorico não sabia que destino dar a tais prisioneiros. Confundia-o o amor devido ao próximo e o ódio merecido a estes distantíssimos inimigos da fé. Dar-lhes a morte atentava contra os preceitos, deixá-los vivos contra a vitória dos seus exércitos e a segurança do seu império.

– Este homem, rei nascido e agora execrado, matou impiedosamente, com ódio absoluto, incontáveis dos nossos irmãos. Quis a mão de Deus que se fizesse justiça. Tu, o mais desapegado dos filhos de Deus, que escolheste as montanhas para refúgio de todos os perigos do mundo, dirás o que fazer com ele e com os seus descendentes!

O monge ouviu estas e todas as palavras de Teodorico.

– Escutei as palavras do nosso bispo (o bispo afetou uma vénia ao ser apontado pelo rei), escutei as palavras dos meus generais (os chefes militares endireitaram mais o tronco), escutei os homens mais sensatos de entre os mesteirais e camponeses (os representantes do povo ergueram orgulhosamente o rosto), mas em boa verdade o digo: Deus por ti falará!

Viviam-se tempos agónicos, apocalípticos. Nunca como então, no virar do milénio, se desejara com tal veemência o ouro, em lado nenhum como ali se desprezava tanto o sagrado exercício de Paulo de Tebas, Antão ou Macário, santos anacoretas. Era preciso que as Escriturasvoltassem a ser lidas, era preciso que as palavras de Jesus voltassem a soar, nesse terrível século de lutas, limpas e desembestadas, como soaram outrora nas praias da Judeia.

O eremita olhou o rei nos olhos, profundamente, demoradamente, afetivamente. Depois sentou-se no meio do círculo, fechou os olhos, cruzou as pernas, colocou sobre elas o bordão e permaneceu imóvel, ausente, sem uma palavra, durante muito tempo. Teodorico, inquieto, escutava os cochichos crescentes dos conselheiros, o murmurar da multidão, o abespinhar das ondas, o grito selvagem das gaivotas.

Por fim, cansado, impaciente, cheio de tédio, perguntou.

– Então?

O asceta abriu os olhos de novo, levantou-se, fitou o céu e, brandindo o cajado, declarou:

– Porque me perguntas, Teodorico, o que tu próprio sabes já?

O corpo dos prisioneiros pendia, exausto, macerado, sem esperança. Teodorico, o Rei voltou a inquirir.

– Como podes tu saber o que eu sei?

– Foste ungido. A tua semente nasceu da semente d’Aquele que entre nós viveu um dia, as palavras d’Ele habitam as tuas palavras, o que Ele disse tu o dirás… Não perguntes mais!

Depois, perfurando pelo meio da multidão, pelo mesmo caminho por onde veio, o eremita partiu, infundindo nela o mesmo temor de antes. Afastavam-se os homens à passagem, juntavam as mulheres curiosas cabeças nas suas costas. Em breve desaparecia, sumindo-se na floresta que havia de o levar aos lugares trogloditas onde gastava os seus dias.

O monge dissera nada e tudo dissera. As suas palavras eram a afirmação de uma ideia, mas podiam sê-lo também da ideia contrária. Teodorico, perplexo, quis saber o que pensavam os outros da enigmática resposta do monge João.

Era um doido, declarou o anelado bispo: a resposta dele era um opróbrio, uma estultice, uma marca do demónio. O que o eremita quis dizer era óbvio, defenderam os generais, olho por olho, dente por dente: aqueles cães moiros mereciam ser atirados a um poço e deixados apodrecer à fome e ao frio! Isso não, corrigiram os homens do povo, devia era negociar-se a sua vida, exigir-se os resgates devidos a um rei e a príncipes: se o nosso dinheiro é útil, o do inimigo é-o duas vezes mais, para curar as feridas da guerra!

Teodorico levantou-se. Todos se ajoelharam.

Era mister que olhasse para o fundo, para dentro, para onde não podia mais enganar-se. Ele sabia, sim. O monge acertara. O paradoxo é inerente à condição de mandar.

Beijou a cruz que trazia no peito e ergueu-a para que os infiéis conhecessem o novo poder. Depois, brandindo a espada fê-la descer sobre as odiosas cordas que sujeitavam os cativos. Libertou-os, sem saber porque o fazia ou com que riscos. Ordenou que os montassem nos cavalos saqueados.

E eles foram, pelo mesmo caminho do eremita, a caminho da floresta. Ninguém sabia em direção a que deserto.

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O VELHO POLÍTICO

Sergei Smirnov
Foto: Sergei Smirnov

 

O velho político estava bastante confiante. Ia defrontar o antigo partido nas eleições do outono e dar uma valente lição aos ex-correligionários, provando ser capaz, sozinho, de derrotar toda uma máquina de angariar votos e de eleger-se à boa maneira antiga: berrando e prometendo, prometendo e berrando. O velho político tinha de si a mais alta estima, ele era uma instituição!

No início do debate, o jornalista moderador, à maneira de um introito, colocou um par de questões a cada candidato. Eram sete ao todo. O velho político terminava a ronda. Tinha bebido. Estava bastante bem-disposto. As faces vermelhuscas não ajudavam à imagem. mas sabia exatamente o que dizer.

– Começo por questioná-lo sobre o leitmotiv da sua candidatura independente: vinte anos ao serviço e agora a decisão de enfrentá-lo. Porque o faz? Não receia que muitos dos seus camaradas vejam nesta sua candidatura um ato de traição?

O velho político tinha resposta para aquilo.

– Oiça. É uma falsa questão. Eu não posso ser mais conotado com o partido a que pertenci. Foram outros tempos! Tenho uma visão nova sobre os mesmos problemas…

– Perdoe a insistência, mas não admite a hipótese de haver alguma contradição em liderar um partido duas décadas, ser eleito sucessivamente nas suas listas e agora refutá-lo liminarmente?

– Nem pouco, nem mais ou menos… Sou um homem com visão, um cidadão livre, com convicções próprias! Esta terra precisa de um pulmão. Temos de a catapultar…

– Terra que liderou durante vinte anos…

– Sim, mas com a minha equipa agora…

– Porque pensa que conseguirá fazer no próximo mandato o que não conseguiu em cinco?

O velho político vermelhava agora ostensivamente, sorrindo com afetação. Havia mais candidatos na sala e não lhes fora dirigida qualquer questão com a mesma veemência. Irritava-o já o tom, os esgares, a insistência do jornalista moderador, para não falar da sua muito provável falta de isenção.

– Oiça! Do que esta terra precisa é de uma de uma liderança forte e experiente. Sou o candidato mais cotado. Tenho experiência e prestígio. Sei bater às portas certas!

Rapidamente o atacaram os adversários. Oportunismo, nepotismo, clientelismo, cizentismo. Acabados em ismo, as palavras soam como chocalhos. O velho político não se livrava do coro crítico que lhas pendurava como vis medalhas ao pescoço. Da plateia às escuras chegavam invisíveis imprecações rudes.

– Corrupto!

O candidato mais à direita soltou a língua.

– O senhor é a pessoa nesta sala menos capaz de entender o futuro e, mormente, de o assegurar. É responsável pelas decisões mais vergonhosas de que há memória na nossa terra, no período democrático… Se houvesse justiça neste país, o senhor estaria preso!

Atenazado pelo rigor, força e juventude dos seus adversários, acossado pelo passado recente a que não eximir-se, vencido pelo torpor do bom alentejano que fizera juntar  à feijoada, o velho político principiou a descambar.

– Esse investimento, a que o senhor chama de «negociata», senhor candidato, é uma mais-valia para esta cidade. Todos, exceto o senhor naturalmente, sabem isso… De resto, o senhor no meu lugar, e conhecendo-o eu como conheço, tinha metido umas boas milenas ao bolso. Mas isso é outra questão…

O jornalista moderador precisou de acalmar os ânimos e de lembrar ao velho político e a todos os senhores candidatos o dever de elevação e de respeito pela democracia.

Mas logo ao primeiro ensejo, o velho político destratou a jovem candidata do partido ecologista, que o inquiria sobre benefícios e benfeitorias alegadamente associadas à sua presidência e a diversas empresas poluidoras.

– Ó senhora candidata, ou menina (talvez seja mais correto tratá-la por menina), suponho que ainda usava cueiros quando eu já governava esta terra. Faça o obséquio de não me vir com pedagogia. Os empresários são, toda a gente sabe isso, a alma de uma região. Não se seja, ou não se faça de pretensiosa, de inocente ou de parva!

Os apupos vieram sob os mais variados registos. Repreendido, admoestado, confrontado com ferocidade por todos os rivais, enxovalhado pela escura assistência, posto perante factos de que se esquecera ou de que não pretendia recordar-se, humilhado pela sua prestação errática diante uma geração diferente daquela que o erguera em braços, o velho político sentia encurralar-se-lhe o raciocínio e roncarem as entranhas. Os gases corriam de víscera em víscera, tomando de assalto o sossego de que tanto necessitava numa hora tão cruel.

Discutidas, arengadas, propostas as melhores, rejeitadas as ideias mais espúrias, chegou-se à fase final do debate.

Quando o candidato do centro-direita, no seu timbre descansado, fazia já o apelo final ao eleitorado, escutou-se um arroto. Foi sonoro e explosivo.

O orador interrompeu-se, surpreendido. Depois, como querendo mascarar o que parecia ser um momento embaraçoso na sala, prosseguiu. Mas teve de parar novamente, quando de novo à sua esquerda, berrando como um sopro de trombone (em escalas diferentes nos diferentes microfones), se escutou indisfarçável, longo e superior o efeito terrível da flatulência.

Os olhares voltaram-se todos na mesma direção. Escarlatíssimo, a espirrar sangue, aceso com um rubi pelos holofotes, o velho político pediu desculpa.

Não houve forma de dominar as gargalhadas, as casquinadas alvares, o apupo de uns e de todos. Nem o caudal de ferozes caricaturas que doravante se publicaram, pintaram e reproduziram em som, a cores e em tarjas insultantes.

Por essa, ou por outras superiores razões, o velho político não foi capaz de reeleger-se.

O VENDEDOR

Kharinova Uliana
Foto: Kharinova Uliana

 

Era ali que ficava a casa. Câmaras de vigilância sugavam a toda a volta dela os latidos da rua e os sussurros da bisbilhotice. Nada escapava ao cuidado do vendedor. A mulher tocou à campainha. Vinha de longe. Aquele homem foi-lhe recomendado. Tocou mais vezes. Teve de esperar.

Por fim, um gordo com porte bovino abriu-lhe o portão. De seguida fê-la entrar no seu gabinete, observou-a com interesse, achou de imediato na sua magreza um modo de a consolar.

‒ Minha filha, tu estás muito doente…

A mulher contou tudo, chorou. Todos os obstáculos do mundo pareciam ter-se abatido sobre ela em simultâneo, vinha de longe, alguém lhe dissera que ele a podia ajudar.

Depois foi a vez de o gordo discorrer. A doente escutou palavras complicadas, que a tornavam alvo de uma conspiração de maus-olhados, sortilégios, vilezas sem fim. O gordo explicou que seriam precisas paciência, força de vontade e, sobretudo, a sua ação mediadora.  Não disse que o dinheiro tinha o poder de um antídoto. Disse que o poder das orações, das suas orações, junto com uma miscelânea de alecrim, incenso e terra de um cemitério conseguiriam curá-la.

‒ Entende ‒ disse ele num modo de advertência ‒ estas forças malignas são obra de um inimigo poderoso, de alguém que te deseja a morte!

A mulher, desfeita em lágrimas, aluída em cansaço e desilusão, não sabia bem o que entender, nem se a decisão de ter vindo havia sido realmente a melhor.

Desde o divórcio a sua sorte mudara. Mudara tanto que ainda não conseguira voltar a trabalhar e, por causa disso, já quase nada sabia dos amigos, que a evitavam por não lhe suportarem a melancolia atroz. A história atual resumia-se a uma luta contra a vontade de chorar e contra a falta de apetite, contra as cefaleias e contra a aversão provocada pela vida. Era pele e osso, um corpo vencido pelos nervos, pela nostalgia, pela astenia, pela insinuação tremenda do sono suicidário.

O gordo entalou os indicadores nas frontes da mulher e pôs-se a babujar palavras incompreensíveis. As pálpebras descerradas começaram a tremer, as palavras pareciam girar com os dedos num movimento de alarde, galgando as paredes, sumindo-se pelas frinchas como uma horda de demónios.

Depois, como acometido por choques elétricos, o principiou a estrebuchar, a soltar roncos temíveis, a barafustar consigo mesmo, como se se travasse uma batalha. O gordo sabia vender bem e com arte o seu espetáculo!

Exausta, com as frontes magoadas, a mulher queria só libertar-se, sair dali, daquilo, expulsar o maldito que a amarfanhava.

O gordo parecia agora sossegar, regressar a si. Pôs-se com as mãos juntas a orar. Por fim, persignou-se com uma lentidão teatral e olhou-a de novo com interesse untuoso. Era um vendedor. Tinha ali toda a uma gama de soluções abaixo do preço de mercado.

‒ Minha filha, precisamos de começar já, antes que o mal te engula!

Sem resistência, num torpor de carneiro sacrificial, a mulher doente limitou-se a dizer que sim.

«Todas as soluções se obtêm por caminhos tortuosos.» Não nos recordamos do autor desta frase.

A CREDORA

Andrei Nicolas - The Traveler
Foto: Andrei Nicolas

 

Ela realmente não esperava aquele dinheiro.

Assim que o recontou, humedecendo bem os dedos para que as notas  corressem mais facilmente entre o indicador e o polegar, a credora fez com elas um rolo, envolveu-as com um elástico e guardou-as no antiquíssimo baú enferrujado, com motivos orientais. Era aí que acumulava as poupanças, antes de as aprisionar no banco ou de as trocar por peças de ouro. Quando viesse a noite, bem embrulhado num velho xaile, tornaria o baú ao esconso onde deveria permanecer intocado, até que a credora o abrisse e desse ao seu conteúdo o melhor caminho.

Ela estava satisfeita. Uma dívida difícil resgatada é sempre um motivo para acender uma vela. Encheu a cafeteirazinha com água, pô-la nas brasas e espreitou as imagens esverdeadas que dançavam no vidro do anacrónico aparelho de televisão.

A tarde viera mais fria. Novembro costuma arrefecer os nossos contentamentos. Um bom café e um pouco de geleia no pão consolariam a esta hora o autor destas palavras.

Bateram à porta. A credora sentiu as pancadas como uma contrariedade. Calçou os velhos sapatos de homem, cuja pele cortara para lhe dar aspeto de chinelos, passou a mão pelas cãs e foi ver quem era.

Houve um murmúrio, altear de vozes, uma altercação.

– Só me faltava essa. Vai mas é trabalhar, seu vadio!

A credora descalçou os chinelões improvisados, colocou os pés na pedra da lareira e esperou. Daí a tempo quase nenhum, com a estremunhada expressão de quem abreviara criminosamente a sesta, o marido entrou na cozinha. Quis saber:

– Quem era?

– Um pantomineiro qualquer, a pedir para comer…

– Deste-lhe alguma coisa?

– Dava-lhe com o cabo do engaço se o tivesse à mão!

O marido esboçou o gesto de quem acabava de ter um arrepio. Saiu. A credora tinha os olhos de novo no ecrã esverdeado. Na novela desenhava-se uma cena importante. Um dos doutores, um macaco, descompunha a pobre secretária negligente, que lhe interrompera o avanço amoroso com a nova diretora dos recursos humanos.

O marido regressou. Trazia nos braços um curto feixe de lenha. Desviou a cafeteirazinha e deitou sobre as brasas três pequenas achas, formando com elas um tripé. Depois soprou sobre os carvões incandescentes e quando destes deflagrou uma labaredazinha recolocou a minúscula cafeteira na área do calor.

Novembro anunciava o inverno. A chama sabia bem. O marido colocou as mãos em concha sobre o lume e esfregou-as.

A cena da descompostura acabara. Agora na televisão esverdeada (por causa do cinescópio quase fundido) ouvia-se uma conversa anódina entre padre e pecadora. Depois principiou o quarto de hora dos anúncios.

A credora olhou a lareira e viu a chama generosa lambendo a lenha. Levou instintivamente ambas as mãos à cabeça, num movimento de fúria e viva indignação.

– O que estás tu a fazer, meu grande macaco? Ai, meu Deus, meu Deus! Tu julgas que este chamiço veio de graça para casa?

A credora pôs-se de cócoras e tentou puxar as ripas para impedir que se consumissem tão depressa. Mas o fogo, áscua gulosa, queimou-lhe os dedos. A credora silvou, repleta de cólera.

– Ouve-me bem, meu pantomineiro desgraçado: seja a última vez, ouviste? Seja a última vez que pões lenha no lume sem a minha autorização. Ouviste-me? Ouviste-me bem?

A tremer, a credora destapou a cafeteirazinha e atirou-lhe uma colher de má chicória para tingir a água. Quem pensava ele que era. Desperdiçar lenha àquela hora da tarde, quando a casa ainda estava tão morninha!

Ele não abriu a boca. Viu o baú oxidado em cima da cristaleira. Precisavam de enchê-lo de novo. Ela tinha razão. No poupar estava o ganho. Sentiu vergonha. Não sabia o motivo exato, mas, sim, sentia uma grande vergonha.

O SENHOR NAKATA

Captura de ecrã 2019-03-31, às 16.47.11

para a Céu

Na cidade de Quioto, no antiquíssimo bairro de Higashyama, numa das casas mais humildes, próxima do templo de Kyomizudera, vive o senhor Nakata.

É um artesão legítimo e completo. Os turistas gostariam de o tornar uma atração fotográfica, ao lado das aprendizas de gueixa (as maiko) e das casas de chá. Mas o senhor Nakata, como manda a boa tradição nipónica, gosta do silêncio e da sombra, prefere o seu trabalho livre das perguntas incómodas e do olhar indiscreto dos forasteiros.

A oficina fica nas traseiras da casa. Um pequeno caminho condu-lo todas as manhãs de uma à outra e devolve-o à noitinha ao ponto de partida. É uma viagem curta, mas suficiente. O ar frio das neves ou o ar morno da primavera são-lhe igualmente maravilhosos. Os telhados recurvos do templo e a fronde rosada das cerejeiras ao fundo despertam-lhe o mesmo agradecimento que a água das fontes e o perfume do musgo do jardim.

O senhor Nakata descalça-se sempre ao entrar e permanece imóvel algum tempo, até que a visão se acostume à penumbra. Aproveita esses minutos para escrever poesia.

Escreve-a de memória, às vezes repetindo-a nos monólogos, esforçando-se por usar a palavra certa no lugar certo. É, além do trabalho manual e da poesia, cultor da sopa de miso e dos banhos de água gelada, da filosofia budista (wabi-sabi) e da obediência samurai. Acredita que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior e que mil anos não chegariam para que se atingisse a perfeição. Mil e um anos, sim!

Ninguém sabe a idade certa deste homem. Dito de outro modo, ninguém sabe quantos anos faltam para se sentir preparado para morrer.

O senhor Nakata é paciente, laborioso e apaixonado. Depois de compor o seu poema (como quem apara uma folha de bonsai ou lhe extirpa uma erva), escolhe o papel, o couro, o molde, as linhas com que há de coser mais um caderno. Cose-os tão devagar como cose uns aos outros os três versos dos haiku. Para quê apressar o amor se pode nele morar e não noutro sítio?

Uma vez, depois da guerra, vieram dizer-lhe que o filho tinha sido encontrado morto num poço. O senhor Nakata manuseava a sovela, à luz escassa de uma lâmpada.  Na sua mesa via-se uma coleção de tesouras, facas, réguas, linhas, um esmeril, giz, pilhas de papel, tiras de couro de boi e de cordeiro. O cheiro das colas impregnara todo o espaço. Os visitantes afogueavam-se, dobravam-se numa mesura fúnebre, emocionados com a tragédia. Esperavam não matar o vizinho, já então velho e atingido por várias desgraças.

Sem se mexer, sem um esgar de surpresa, o senhor Nakata escutou a notícia. Aos poucos afastaram-se às arrecuas todos os que ali foram levar-lha.

O caderno que sustinha nas mãos era esmerado, impolutamente branco, cosido com precisão. Faltava-lhe o resguardo em pele com que deveria fechar-se. Era imperioso que o papel pudesse contar com essa capa de tecido animal para permanecer no tempo, para assegurar ao futuro proprietário o prazer máximo de uma escrita lenta e longeva. Aquele caderno não seria apenas mais um objeto, mas o objeto de que alguém jamais prescindiria. Diriam «Foi este o caderno que Nakata cosia quando lhe deram a notícia da morte do filho!»

O artesão prosseguiu com a sovela, abrindo um a um os equidistantes buracos da sua dor. Depois, até que a noite sobreviesse, tapá-los-ia com orgulho como quem prende a si um destino ou uma missão na terra. Cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior. Mil anos não chegarão para que atinja a perfeição. Desejá-lo em cada dia, isso sim!