BELLE ÉPOQUE

Jean Béraud, Sortie des ouvrières de la Maison Paquin, 1902
Jean Béraud, Saída das Operárias da Casa Paquin, 1902

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‒ Nestas circunstâncias, o melhor é contar sempre com um segurozinho de acidentes pessoais. – explica o cavalheiro anafado, que enverga um casaco de peles zibelinas.

‒ Melhor, sem dúvida… – assentem os outros senhores, ensalsichados noutros casacos de pele e de charuto ao canto da boca.

Um paquete do Grand Hotel ajuda a levantar a rapariguita. Bem se vê quem ela é: uma pobre, uma aprendiza de costureira. Escorregou nas pedras polidas do pavimento. Está agora a recalçar o botim esgarçado. O moço apanha o embrulho, que ela num instante recolhe e faz sobraçar. Quer seguir, ir, fugir. Sente embaraço. Muita vergonha.

‒ Uma apolicezinha hoje em dia é tudo. – conclui o cavalheiro obeso, que vigorosamente atravessa o peristilo do hotel, seguido pelos outros conspícuos senhores do grupo síndico. – É preciso cautela. Paris no inverno é particularmente traiçoeira. Quem está habituado à patinagem sabe do que se trata: um movimento em falso e zás, está-se estatelado no chão. Muita cautela, Messieurs

A rapariga tem pressa. Quer sair dali, escapar aos olhos de peixe dos transeuntes. O moço de farda pergunta-lhe se se sente bem. Sente-se bem, já disse que sim. Bom trabalho teve ela para engomar os vestidos de Madame Dousseau. Tudo embalde, como se vê… Um joelho esfolado, um braço dormente, pouco mais. Que bracinhos tão finos. Lembram os gravetos do Bois de Boulogne que os garotos usam para os bonecos de neve. Ela aconchega o casaco. É engraçado. Tão curto nas mangas que faz sorrir. Que tonta.

Alguns caem, outros levantam-se, todos seguem a estrada do seu destino. O da moça já lá vai à frente, na esquina do Magasin Fragonard. O paquete gostou do seu rosto, das suas lágrimas escondidas. Gostava de lhe ter falado, de lhe ter valido, de a ter acalentado. É uma manhã de dezembro, como tantas outras. A Belle Époque é sobretudo isto: bela!

DEUS

Lars Nissen
Fotografia de Lars Nissen

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A pequena igreja enche-se com o ressoar dos tacões. O estampido cresce pela nave e sobe aos altares. Depois dele é o rumor das preces, uma longa murmuração gelada, um marulho de bocas dançantes repetindo-se.

O efeito destes dois ecos consecutivos distrai quem ali não encontrou ainda o seu canal para a Providência. O mais certo é ficar-se a mastigar à toa algumas palavras da comum ladainha.

Quando o padre pronuncia a fórmula trinitária, ouve-se o arrulhar contínuo de um bando de rolas. A espaços, no intervalo das réplicas da assembleia, o coro ornitológico torna-se mais efusivo.

Os distraídos veem apenas a movimentação teatral do sacerdote, o tom ensaiado dos acólitos durante as leituras. Mas quem busca Deus não pode ficar indiferente ao amor veemente destas avezinhas durante o cio. Há quem se escandalize com a animalesca alegria.

Mas Deus é um lugar insondável. A maior parte dos fiéis não sabe onde procurá-Lo. E se O encontra não sabe reconhecê-Lo.

Quando a eucaristia termina, os tacões voltam a ecoar nas lajes frias. Os sinos ocasionalmente repicam, mas o silêncio faz subsumir tudo outra vez.

Só as pequenas aves nalgum canto seu, sobre o telhado do templo, insistem no gemido doce. Dão entre si leves bicadas, dobram e encastoam com o vagar de ourives as palhas do ninho.

Se entendessem a nossa fala, se lhes falássemos do pecado, que belas risadas não dariam.

CRÓNICA DE UMA INVENÇÃO

Shenshen Dou
Fotografia de Shenshen Dou

 

Não reparam, acaso, nos pássaros que pairam sobre eles, protraindo e recolhendo as suas asas? Ninguém os mantém no espaço, senão O Clemente, porque é Omnividente.

 Alcorão, LXVII, 19

 

Viajar no tempo é coisa que muitos afirmam ser impossível. Afirmamos nós o contrário. Quantas outras julgadas igualmente impossíveis deixaram de o ser todos os dias, ao longo de milénios? AGORA mesmo estamos AQUI, dois segundos mais tarde percorremos a pé as ruas de Córdova, guiados pelo relato atónito de Yussuf ibn-Haroun, cronista, filho de Haroun al-Muzaffar, o mais rico comerciante de gemas e metais de todo o emirado.

As tâmaras e o açafrão, alcachofras e figos secos, mel e resinas do Oriente incensam nesta altura do ano os bazares da cidadela. O perfume serpenteia por entre eles com as notícias trazidas e levadas pelos mercadores e almocreves, vindos de todo o al-Andalus, mas também do reino fronteiro de Alfonso e de muitos outros da inimiga Cristandade. Assim foi no tempo do poderoso Abderramão, antecessor de Maomé; assim será nos dias que se seguirão, de Al-Mundhir, que nela há de governar somente por um par de anos.

Transpondo os arcos em ferradura da almedina os estrangeiros escutam a derradeira proeza de Abbas ibn-Firnas, que a voz rouca de Muça al-Jamil não cessa de lembrar. Podia um tal prodígio da humanidade ser realmente ignorado? Yussuf ibn-Haroun escuta-a também, e há de em breve (O Preservador seja louvado!) anotá-la. O texto não é indiferente à comoção geral: quantos cálamos de junco em toda a história irregular desta humanidade puderam narrar um feito tão extraordinário?

Traduzimos omitindo o acessório (pese o sentimento que nos fica de amputar a grandeza e o estilo do autor) os factos doravante narrados, sucedidos no ano de 882 (dirão dentro de portas ano 220 da Hégira) nesta poderosa capital do Islão. O nosso agradecimento ao Professor Juan Ibarra Martínez, da Universidade de Málaga, que generosamente nos facultou o texto autógrafo (desenhado com a bela caligrafia cúfica, em papel de algodão polido, com tintas pretas, vermelhas, ou ocres, e castanhas). Segurá-lo nas minhas próprias mãos é dificilmente traduzível.

[…] Começa o Livro Sagrado com estas palavras «Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso». São para toda as coisas boas e cabe-nos modificar as más em coisas boas e honrá-l’O. Escrevo estas palavras persuadido do dever de lembrar os prodígios que O Originador de Tudo opera. […] Nasci e vivo nesta cidade santa de Qurṭuba, num tempo em que os sábios acorrem de todas as partes do levante e do magreb, do setentrião e do meridião. […] Governou-a na minha juventude Abd ar-Rahman, o segundo desse nome, mas o primeiro em prosperidade, civilização e no amor que lhe devotou o nosso povo. Muhammad, seu filho, não lhe fica atrás. Não existe um só dia em que por vontade d’ O Misericordioso não se dê entre nós o prodígio de uma invenção, a descoberta de um teorema matemático, o maravilhamento e a perfeição de um novo texto filosófico ou de uma nova muwashshah. […] De todos os sábios que aqui vivem, um visita-nos com frequência no suq, esse a quem O Todo-Poderoso sobressaltou o entendimento como faz com os loucos: amiúde vemo-lo observar as favas e o coração das amêndoas com a minúcia de um avaliador de pedras preciosas; e raramente fala, pois prefere guardar todos os seus pensamentos e ditá-los a um escravo, al-Jamil, que os escreve sobre estas espantosas folhas, tanto ou mais macias que a seda, trazidas de Samarcanda (ou Maracanda, no dizer dos bizantinos). Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini é o seu nome. Nasceu nos dias de al-Hakam, há setenta e dois anos. […] As crianças seguem-no por toda a parte, pois creem no rumor de que um dia voará sobre os céus como as aves e as estrelas. […] Muitos o receiam, acreditando nas maléficas origens do seu saber. Contudo, não temos conhecimento de que haja alguma vez procedido em púbico com rudeza para com o seu semelhante. Bem pelo contrário, sua ilécebra e bondade são conhecidas entre os doentes, a quem ministra, de acordo com os ensinamentos antigos, unguentos e xaropes à base de ásaro, eufórbio, briónia, genciana, alfavaca, melissa, centáurea, ládano, olíbano, estoraque, gengibre, açucena, costo, za’atar e lauréola, livrando-os muitas vezes da morte. […] Poucos homens terão sido mais benévolos que Abbas ibn-Firnas, que gozou sempre da proteção e da estima do nosso Emir e que entre seus pares é um homem muito considerado, amado e […] <Segue-se um passo inteiramente ilegível!> […] Asseguraram-me que muitos anos levou este homem a estudar as criaturas do céu, anotando o movimento das asas e o modo como se soldavam as penas umas às outras. Servindo-se dos ensinamentos de al-Khwarizmi e de madeira de umas canas leves e muito resistentes, vindas do império longínquo de Sin (a que chamam bambu), construiu ele o que parecia ser o esqueleto de uma mariposa. Seguidamente recobriu-o com penas de águia, usando goma das acácias (que trazem de Ifriqiya <Tunísia>) e fios de seda para as coser e entrelaçar. Para poder prendê-lo ao corpo, como se de um manto se tratasse, usou tiras sólidas de couro. […] Muitos dias se demorou neste ofício, esquecendo-se até das obrigações comuns, como comer ou dormir, interrompendo-se somente para as orações quando a elas chamava o muezim.

Yussuf ibn-Haroun é ainda bastante jovem. Permite-se escrever longos trechos sem uma pausa, atendendo a todos os detalhes, importando-se somente com a verdade, apenas com o que possa conduzir à verdade. Neste momento vemo-lo de pé, caminhando por um fresco corredor de arcos alfizados, dando para um pátio onde uma fonte antiquíssima sussurra a doçura da noite. Dirão mais tarde que com o som do alaúde, o murmurar das águas, o tilintar do ouro e a voz de uma mulher amada são os mais doces melodias que pode um homem escutar.

Lamenta que o cargo de hájibe, que tanto o honra, que as obrigações na alcáçova, as que qualquer homem almejaria, lhe roubem tantas horas, penalizando o seu ofício predileto. Refugia-se até muito tarde nesta escrita fluente que vimos estudando. Algo que transcende o seu tempo, o seu corpo e o seu espírito paira na atmosfera, como se a harmonia do cosmos e a sua própria harmonia se imbricassem e se tornassem uma só. Estamos no mês das canículas. O perfume da flor de laranjeira e das hortelãs, do tomilho e do funcho atravessando o horizonte noturno entontece-o. Espreita a cidadela dormindo sob o poderoso conforto de uma lua cheia, que as brancas almádenas recortam e lhe fazem recordar as histórias da saudosa Xerazade. Pensa na perfeição, na felicidade, em Deus. Mas também em Buthayna, na bela filha do mercador de cinábrio, cuja visita a Córdova o atormenta uma vez por ano. Nenhuma mulher se lhe compara e algo lhe diz que a bendita terra de Silves, pátria de poetas, há de nele despertar também o doce ghazal, que a ninguém confessa, que apenas de Al-Alim, O Que Tudo Sabe, não pode esconder.

«O amor e a poesia são as duas faces da mesma moeda de ouro», pensa Yussuf, depois da ablução e, de voltado para sul, orar em frente ao muro da quibla. Regressa em silêncio a um compartimento amplo, hipostilo, onde uma mesa baixa de madeira, adornado de incontáveis jaezes, ampara o apontador, o tinteiro e as suas penas. Esmera-se a apará-las, desejando que neste ritual obtenha o lucro inimaginável de possuir a mais admirada caligrafia de Córdova.

Retoma, por isso, a narração que deixou suspensa. Pretende que os factos recentes não possam ser olvidados, para benefício da pessoa que neles se fala, mas também para seu benefício e para benefício de todos os povos que se hão de seguir, e a quem possa importar a magnificência de Alá, cujo poder é admiravelmente mostrado aos homens, como se verá.

Al-Jamil narrou-me, à puridade, que o velho sábio conheceu na juventude o poeta Abu al-Hassan Ali ben Nafi, conhecido entre os de nós que falam o linguarejar da aljamia por Zyriab, que lhe contou muitas histórias dos kuffar <infiéis>, entre elas a de certo Aikarus <traduzo com rigor fonético o original, ressalvando não ter encontrado em nenhum dicionário a mesma palavra, que indubitavelmente se reporta a Ícaro>, filho de um mágico artesão, que caiu no mar depois de ser ter erguido aos céus. Não duvido que uma tal fantasia se tenha apoderado deste homem, a quem Al Muhyi, O Doador da Vida, encarregou da proeza de construir asas idênticas às que à nossa volta vemos assistir aos animais alados. […] A novidade passou de boca em boca. No vigésimo quarto dia do passado mês de Rajab, ibn-Firnas subiu a uma das torres da nossa medina, seguido por al-Jamir, que chorava e lhe implorava, invocando o nome d’ O Criador, que desistisse. Vendo que de modo nenhum o demovia da obstinada empresa a que se propunha, e considerando a idade desse homem a quem as forças parecem não querer abandonar, quis tomar o seu lugar. Nem isso aceitou. Muitos diziam que o velho escolar tinha enlouquecido e que O Todo-Poderoso o privara de razão, punindo-lhe a audácia e a teimosia. Alguns asseveram o emir se encontrava entre todos os demais. Não posso corroborá-lo. Outros que al-Jamil foi ali mesmo libertado da sua escravidão por ibn-Firnas, o que posso testemunhar […] À hora em que o sol atinge a máxima altura, depois da oração, vimos este homem despenhar-se do alto, tendo muitos de nós lançado aos céus gritos de tristeza. Como as aves do céu, que delicadamente abrem e fecham as asas e com elas vencem os abismos, como um negro abutre alcandorado, como Aikarus das histórias fantasiosas, também o velho ibn-Firnas, dando brados de alegria, abrindo e fechando os braços acorrentados por tiras de couro à máquina prodigiosa, voou de modo igual sob as cortinas do sol, ultrapassando os limites da cidade e as longas dobras do majestoso al-Wadi al-Kabir <Guadalquivir> em direção às terras onde o sol tem o seu ocaso, as terras do Garb, da longínqua e amada Xelbe, mãe de poetas, ou da lendária Al-Ushbuna <Lisboa>, construída sobre o grande oceano no fim do mundo. […] Pude reconhecer facilmente recordar as palavras sagradas do al-Qurán: «Não vos disse que conheço o mistério dos céus e da terra, assim como o que manifestais e o que ocultais?»

Yussuf sente a fome bulir-lhe nas entranhas. As mãos tombam sobre a pena com extrema fadiga. Pensa em como muitas vezes o nobre exercício de escrever se vê impedido do seu próprio voo pelas baixas necessidades do corpo. Voar é uma libertação para que faltam palavras. É a suprema alegoria que requer todo o sacrifício. Como ele próprio costuma lembrar, tê-lo-á aprendido da falsafa (dos eruditos que tão apuradamente lê e medita) que «O sábio se abstrai sem nunca se distrair». Prossegue, pois, o seu texto, vinte e oito dias decorridos do grande feito que o fascina e o impede de dormir.

Corriam os velhos e as crianças, os nobres e as mulheres, os soldados e os almoxarifes para as portas, seguindo com o dedo erguido o espantoso planar daquele que um dia chamaram de «bárbaro», por ser de origem estrangeira e possuir hábitos que estranham aos olhos vulgares. […] Nada se sabe deste Abbas ibn-Firnas, exceto que amou na sua juventude uma mulher e que esta, contra a vontade da família, o preferia a um mercador de minério (ainda seu parente e de quem se tornaria, ainda que por breves meses, mulher). A voz sempre escusada dos vilipendiadores sugere que a noite, campo onde todas as sementes germinam, os acolheu primeiro e separou depois. Não pude aclarar o nome dessa mulher. Apenas que a levaram para as terras do al-Garb, onde veio a conceber uma filha pouco tempo antes de morrer. Ibn-Firnas entregou-se inteiramente aos estudos, um dos muitos faylasuf <filósofos> que enriquecem a nossa cidade e dignificam O Omnipotente. […] Conta ele setenta e dois anos, recuperando no maristan da violenta queda em que se findou o seu voo, ao derrubar-se sobre as árvores das hortas que existem ao redor da nossa cidade. […] Al-Jamil visita-o todos os dias e, tendo embora deixado de ser seu escravo, continua a servi-lo com o mesmo amor que é de longe a maior escravidão entre os homens. Por ele soube esta mesma tarde que o nosso emir Muhammad o proíbe de repetir a façanha, tendo conhecido a sua vontade de voar de novo. E ao sabê-lo turva-se profundamente o meu ser, pois nenhum outro homem, vivo ou morto, me parece capaz de igualar a coragem do velho Abbas ibn-Firnas, o primeiro de que há notícia a ter conseguido voar, como uma ave do céu, ou um inseto, ou uma das muitas estrelas que iluminam as estradas da noite. E alegra-se o meu coração com este prodígio, com que nos revela O Infinito os insondáveis caminhos da sabedoria e do porvir, pois acredito que outros homens, guiados pela sua mão, hão tornar possível o que nesta noite não se pode divisar. E para eles redijo estas palavras. Porque todas as coisas que existem e hão de existir estão no universo, porque todas as coisas de que carecemos habitam a nossa inteligência e é nosso dever encontrá-las, porque o dever do sábio é o de iluminar os outros homens e ser iluminado pela voz da verdade. Assim o fez Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini. E por isso o louvo e o deixo ao juízo severo do tempo!

Já o vago dilúculo assoma no orbe celeste. Exausto, todavia insuflado dessa felicidade que consola os justos, Yussuf ibn-Haroun poisa o cálamo e tomba a cabeça sobre uma almofada que ali mesmo o recebe e o conduz em sonhos a longínquas paragens, de onde vem no dorso de um cavalo a bela Buthayna, a bela filha do obscuro mercador de cinábrio, para (assim Alá o permita), se unir a si, não como a primeira do seu harém, mas como a única mulher da sua vida…

Quanto a nós, que igualmente louvamos Abbas ibn-Firnas e nos sujeitamos ao juízo rigoroso do tempo, gostamos de viajar e o fizemos nestas palavras, desenterrando dos pergaminhos em que se achavam embrulhados fragmentos de uma longa crónica com mais de onze séculos de esquecimento.

NASCER DO DIA

Gary McParland
Fotografia de Gary McParland

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Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos.

Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a época do ano), o estado do tempo, o cenário com que a rua se apresenta, tudo o impressiona como se em cada manhã nascesse outra vez.

Porque se levanta cedo? Tem pressa de ir para o emprego?

Na verdade, não trabalha já. É um aposentado. Mas dá-se pressa de assistir ao nascer do dia.

Ao longo da sua já considerável vida, sempre o alvorecer (devota grande amor a essa palavra e a outras praticamente sinónimas, como alba, alvorada, aurora, arrebol, dilúculo), dizíamos, sempre o alvorecer lhe pareceu o truque de magia mais extraordinário do universo.

Sai para o terraço com uma chávena de café nas mãos, imaculadamente vestido, impecavelmente penteado e entrega-se à contemplação. A essa hora o cheiro das folhas molhadas pelo orvalho ou pela chuva, o sopro meigo e frio do vento nas árvores, o curto saltitar dos pássaros entre as telhas ou no quintal, o perfume misturado da murta, da terra e do café são como dádivas intraduzíveis.

Um pouco antes de o horizonte ser atingido de lés a lés pela labareda do sol, diverte-o a confusão de linhas esbranquiçadas que os aviões deixam à sua passagem. São traços gelatinosos, translúcidos, como aqueles que os pachorrentos caracóis desenham no cimento.

Vive com o filho, a nora e quatro netos. Ninguém em casa compreende este ritual. Ver a luz nascer, ainda que no inverno, sobretudo quando a cama tanto apetece, não é coisa de somenos importância.

Espera-se uma vida inteira pelo prazer de combinar estas coisas todas. Não há aqui qualquer toque de religião ou de poesia. Um homem em certo momento da sua vida prescinde de tudo. Menos de si.

CIÚME

Fotografia de Assaf Lazar

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Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm o segundo filho.

Uma tarde, quando os telhados principiavam a desmaiar na poalha do outono, a mulher encontra o marido de costas, em pé, com um envelope nas mãos, segurando uma fotografia. Nela vê-se uma jovem mulher lendo uma carta. Uma carta que ele mesmo escreveu muitos anos antes. É precisamente essa carta a que lhe chegou agora no correio, muito dobrada, dentro de outra carta, como um bebé no interior do ventre materno. O homem chora. Uma mulher outrora amada explica-se, explica tudo.

Desde então o homem não volta a tocar na mulher. Passa a odiá-la. Usa o silêncio para a punir do crime. E das poucas vezes que lhe dirige a palavra, trata-a por Marjan.

Marjan é o nome da sua antiga paixão.

O MOLEIRO DE SALZEDAS

Fotografia de Martin Rak

A chuva, depois do intenso tropel que protagonizou com o vento noite fora, retira-se para alguma parte onde a não vemos. Da sua passagem pela aldeia fica o enlameado dos caminhos, o ar miserável das árvores (mais ossudas e descabeladas do que nunca), fica a neblina sobre os outeiros e sobre a igreja, sobre as cercas, sobre a linha torcida do riacho, sobre os telhados tímidos das casas pequenas de pedra. Nelas, nos nichos, nas empenas, nas teias fabricadas pelos aranhiços, nos fios dos estendais, observa-se o modo como a água abundante de fim de outubro pôde deixar uma marca maravilhosa: pequenas lágrimas teimando não cair, esperando o sol que às duas por três as acende a todas. Nenhuma criança esquece a imagem das gotas aguentando-se nas cordas, cheias de luz, sem medo dos olhos gigantes que as cativam.

Conhecemos num desses domingos lentos, véspera de feriado, o velho moleiro de Salzedas. Tem tantos anos que deixou de saber contá-los, tantas histórias na cabeça que começou a misturá-las. Fala devagar, limpando muitas vezes o nariz comovido, espreitando a porta muitas vezes. Sabe o que diz. Diz que o Diabo lhe quer comprar as terras pelo preço de um palácio, mas que a ele não o enganam. O justo justo, o seu a seu dono, nada de trafulhices. Não as quer vender, mas se as vender não será ao Diabo, e se lhas vender ter ele, o Diabo em forma de pessoa, de pagar muito menos, porque o receber a mais é caminho para o inferno.

Apesar desse ar de entulho nas coisas, sempre que assim chove, a aldeia gosta de limpar-se. O solo barrento volta a secar, endireitam-se as veredas, as janelas reabrem-se para purificar o cheiro que no interior das madeiras, dos tijolos, das almas, se torna venenoso. A chuva é um modo de fazer ver melhor.

Como se chama esse velho? Ninguém ali o lembra já (como foi possível olvidá-lo?), se alguma vez o souberam. Fala devagar, assoando-se com estridência, muitas vezes. O Diabo é no fundo bom, porque a bondadosa natureza dos seres não pode extinguir-se. Devemos é procurar-lhe essa semente esquecida. O moleiro de Salzedas é de opinião que o Diabo pode ser repescado por Deus, houvesse forma de lhe obter o arrependimento. Como assim? Ele suspira. Há forma, há forma…

Quando calçamos as botas e nos dispomos a ir, tudo regressa. O fontanário, as alminhas, os muros de granito e de xisto, as cortes, o colmo empilhado, o cheiro atrevido da murta e do alecrim, da cidreira, do funcho, da hortelã, o cantar do açude, a antiquíssima azenha, os carreiros junto aos choupos. Tudo regressa aos poucos. Como fantasmas, os homens e mulheres que aqui viveram existem de novo, regressam às esquinas onde apalavram, riem ou simplesmente se despedem. Ânsias perdidas no tempo tornam-se subitamente vivas, digressionam como sonhos, doem fundo naquela parte de nós que é exatamente o ser nós.

Que o Diabo possa ser reconquistado é o propósito desse homem singular. Não lhe tem medo, espreita-o, espera-o. Põe dois pratos na mesa, dois copos, dois pedaços de broa. No dia em que o acharam morto, com um sorriso serenando-lhe a boca, de ambos os pratos se tinham servido, bebido de ambos os copos, de ambos os nacos de pão sobrado migalhas.

A chuva, depois do intenso tropel da madrugada, é como uma conversa remota que se recorda. A aldeia é sobretudo isso, um manto verbal onde cada um descobre a sua ponta, o seu retorno, a sua dor protegida. As botas pisam-na a medo. É um território sensível. Nunca sabemos o que debaixo de nós quer nascer ou renascer. A chuva é um preparo. Depois dela vem o sol e o silêncio. Nenhuma criança esquece o adulto que assim a observa, sabe-se lá de que mundo. Não esquece.

O CASTIGO

Foto: Norbert Maier

Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais a procurar refúgio no meio dos hortos ou dos poços, ou das grutas, ou das caves, ou das adegas húmidas. A Andaluzia é um inferno de junho em diante.

À noite, as janelas são escancaradas. A imensa massa de ar quente precisa de ser expulsa das paredes, dos recessos, dos sótãos, do interior dos armários, da própria alma. Sente-se uma quietude a que os forasteiros jamais se poderão habituar, mas que às gentes de cá confunde a mágoa de uma vida tão árdua. Para lá do lintel das portas ergue-se então um vasto mundo de sombras, de alcáceres, de castelos mouriscos, de montanhas, de ecos de batalhas que o tempo não apagou ainda.

De madrugada, não muito longe, aqui em Escañuela, ouve-se o acelerar de uma moto de alta cilindrada. Uma ou duas por vezes semana, este despudorado atravessa as ruas da aldeia e acorda quem tarde se deitou e cedo tem se levantar. Não contente com a velocidade, com o fazê-lo a desoras, com o ruído partido do cano de escape, nunca repete a trajetória nem as noites em que decide apunhalar o silêncio geral. 

Na cabeça de Emilio Morales correm pensamentos assassinos. Imagina uma desforra, uma lição brutal, um exemplo para quem desafia o sentido da responsabilidade cívica e abusa da liberdade. Esta moto é todo o seu ódio de estimação. Há momentos em que ela se afasta e outros em que ela se aproxima. Em todos, o cano de escape parece soltar, além de fumo, um longo pernáquio trocista. Emilio perscruta o chiar dos pneus, o furioso cavalgar do motor ao longo das retas de alcatrão aquecido. Não consegue desligar-se desse movimento agressivo e traiçoeiro: mesmo nas madrugadas em que o pária não vem, ele aguarda-o, aguarda ansioso o momento em que o seu descanso seja interrompido pelo sopro da máquina, o momento em que essa vinda maldita termine de vez com a angústia da espera, porque adormecer antes dessa vinda pode significar por ela ser acordado e é esse o seu maior pavor.

Em agosto, porém, o ar pode mudar bruscamente. O ar abafado é substituído num par de horas pelo soprar dos ventos da tempestade. Assiste-se a um formidável fender de relâmpagos desde as camadas mais elevadas da atmosfera, pingos grossos cobrem as gretas do solo e fazem deslizar e transbordar as gorduras do asfalto, o cheiro da terra seca invade os quartos sobreaquecidos. Chamam a este perfume petricor. Há muito que os poetas andaluzes o cantam e anunciam ao mundo, mas as palavras não bastam para exprimir a grandeza deste espetáculo.

Escuta-se o zumbido de uma moto. Ela aproxima-se. O trovão do cano de escape parece querer competir com as forças da natureza. Emilio descarregou a sua praga, e nela o seu rancor. Vem à janela ver o criminoso. As luzes da moto lá estão, um olho vivo no meio da treva e da chuva, monstruosamente idêntico ao do gigante ciclope. Mas subitamente os pneus guincham, não é a derrapagem costumeira, deliberada, provocatória. É mais o estertor de uma manobra imprevista, o som desesperado de um erro de cálculo. Eleva-se o estrondo de uma queda, o replicar cavo e o raspar metálico, durativo, de um embate. 

Na Andaluzia o luto tem sempre a dignidade pesada de um tema que não se arquiva. 

Na manhã seguinte contam a Emilio os pormenores: o desgraçado teve morte imediata. Sofreu tantos cortes e tão profundos quantos os que a imaginação permita adivinhar. Os railes afiados são uma faca, particularmente se contra eles somos impulsionados.

Emilio Morales rejubila em segredo. Sente que se cumpriu uma espécie de justiça divina, fulminante, atraída quem sabe pelo para-raios das suas preces. 

Mas agora tem pesadelos todas as noites. Vê o diabo em pessoa a arpoá-lo com o tridente, a empurrá-lo ao encontro de lâminas atrozes. Vê do outro lado do quarto labaredas altíssimas, cujo sufoco parece persegui-lo das unhas dos pés ao pescoço. Acorda em água, não se sabe aos berros, mas julga que sim. 

Aproxima-se da janela aberta e volta a escutar as trevas. O silêncio é total, somente interrompido de quando em vez pelo ladrar dos cães ao longe.

O TÚMULO

Foto: Gianluca Morello

Da janela e portas da sua oficina, Andreas Agrafiotis, artesão, professor, escultor, septuagenário, avista uma das faces das montanhas Zas. O sol refulge nos cumes e pedreiras arduamente estriadas e escarvadas de mármore, marga, calcário, produzindo um efeito de sede a que ele se habituou há muito. Em Naxos, os minerais coexistem com algumas espécies de árvores características da Cíclades. Não é impossível que na linha descendente dos vales se sucedam pinheiros, oliveiras e até abetos azuis. Mas a mancha de floresta é escassa, não serve senão para acentuar a sensação de que a ilha é uma gigantesca bossa lítica branquejando o ano inteiro.

Durante praticamente toda a sua existência, Agrafiotis perscrutou a melhor pedra das melhores marmoreiras. Viu separar da rocha-mãe blocos imponentes que camiões e carretas puxadas por animais transportaram até ao seu local de trabalho. Depois a sua cabeça, as suas mãos, os seus olhos ávidos e exigentes viram surgir da matéria informe estátuas de numes (Zeus, Poseidon, Afrodite, Atena), de semideuses (Hércules, Jasão, Prometeu), de heroínas trágicas (Medeia, Electra, Jocasta), de homens e mulheres comuns, de colunas, de bustos, de ornamentos eclesiásticos, de criaturas fabulosas, nascidas da tradição quimérica, que o estado grego muitas vezes subsidiou, comprou e fez migrar para os templos arruinados e espoliados pelo tempo e pelos povos estrangeiros.

Agora, perto dos oitenta anos, Andreas tem uma obsessão: criar o seu próprio túmulo de mármore. Imagina-o como uma cápsula para a eternidade, uma grande bolota de lajes finamente ligadas entre si, desenhadas com o escopro, contendo um punhado de versos da Ilíada (os versos 146 a 149 do Canto VI, os mais belos de todo o poema, os mais belos de toda a história de literatura), assinalando na terra a sua passagem pelo mundo dos vivos. 

Mas fascina-o igualmente a ideia de um dia ser encerrado no âmago selvagem de uma destas colinas rochosas, à maneira dos imperadores chineses que desistiram de construir desastrosas pirâmides de argamassa para se emparedarem no solo humilde das montanhas sagradas. Fascina-o desde sempre o mito daquela que o rei Creonte fez encerrar viva numa garganta pedregosa. Naxos, como o lugar sombrio de castigo de Antígona – sepulcro e, simultaneamente, ventre materno – é um cemitério natural e um berço cósmico. Aqui morreram e nasceram forças que vão para além do entendimento humano.

Todas as tardes, um pouco antes do pôr do sol, o velho escultor percorre os caminhos ínvios de Apollonas, de Koronos, de Skado, de Apiranthos, de Stavros. Pretende que a última réstia de sol lhe marque como um traço de grés, o local onde deve principiar a sua derradeira obra. Há de construí-la em segredo e em segredo há sepultar-se nela, como se sepulta o grito do mar no pequeno promontório da praia de Azalas, em Montsouna.

Nenhum sonho da sua vida foi tão belo, tão ousado ou tão legítimo: abrir a cavidade onde há de o seu corpo acamar, esculpir o silêncio, polir o invólucro final onde não possa existir qualquer diferença entre os seus ossos e a pedra. Imagina que precisará de pelo menos vinte anos para o concluir. Mas nada é impossível na vida de um homem. Nada é impossível na ilha de Naxos. 

Andreas Agrafiotis gostaria (para nos servirmos da expressão homérica, tanto do seu agrado) que a escuridão lhe cobrisse os olhos no preciso instante em que terminasse a sua tarefa, em que, morrendo, nascesse.

PIEVE DI SANTA MARIA ASSUNTA

Foto: retirada daqui

A igreja é pequena, antiga, no cimo de uma colina. Todo o seu encanto advém justamente destas três características: da sua dimensão modesta, do românico tardio, do modo como domina o vilarejo, mesmo agora, em tempos de prédios, grandes fábricas e armazéns industriais.

Pietro Foragini é um dos cuidadores deste lugarzinho santo. Com paciência, com gosto, com a ajuda de uma colher de trolha ou às vezes de uma faca de cozinha, dedica-se a extirpar as ervas e as hastes das gramíneas do meio das pedras. Elas nascem nas paredes, na boca das gárgulas, no meio do adro, no cimo da cruz, entre as linhas ogivais dos pórticos. São obstinadas, persistentes, ubíquas. O grande orgulho do senhor Foragini é o de garantir que este templo se mantém asseado, sem sinais excessivos do atrevimento herbáceo, da ferrugem, da imundície das pombas. Justamente, o guano é um dos grandes inimigos do granito, tal como urina dos bêbedos ou as sementes que o vento mistral costuma disseminar nos intervalos mais insuspeitos.

O interior da igreja é responsabilidade das mulheres. São elas quem encera o soalho, quem limpa o pó da talha, quem limpa as teias de aranha à bela rosácea na fachada principal, quem espalha óleo de cedro sobre as madeiras, quem tapa e destapa o rosto dos santos, quem cuida dos altares, quem acende e apaga os círios, quem cuida dos linhos e paramentos sacerdotais. 

Ele, Pietro Foragini, lubrifica o mecanismo dos sinos, cuida-lhes do bronze e do badalo tonitruante. Duas a três vezes por ano sobe aos telhados, verifica a integridade das telhas e das caleiras, dá pequenas pancadas nalgum cubo de pedra suspeita, estuda-lhe a resposta, avisa o padre Giovanni de anomalias sobre a cupulazinha e sobre a abside. É uma autoridade ali. Ele decide quando é preciso intervir.

Nem sempre o entendimento é fácil. Delimitar a jurisdição de cada um é árduo na Pieve di Santa Maria Assunta. Entre a boa intenção e a boa ação corre um rio de diferenças.

Esta semana, por exemplo, Ornella Sforza travou-se de razões com Pietro Foragini. Discutiram por causa das glicínias. “Sem autorização”, Foragini segou e fez desaparecer perto do cruzeiro toda a latada destas flores lilases. Foi um debate acalorado. As senhoras tinham ficado coléricas.

– Não se faz! – repetia a senhora Sforza, descontrolada, cheia de ódio. 

– Ora essa. Era só o que me faltava, ter de pedir licença para limpar o esterco da nossa igreja.

Também há a questão dos vidros. Estão sempre sujos do outro lado. Elas acrescentam os maus fígados de Foragini, que não se importa de martelar, perfurar, lavar a pedra com o compressor, arrastar ferramentas ruidosas pelo campanário e à porta da igreja quando as senhoras estão a ensaiar os salmos. Ele não esquece a voz esganiçada de Ornella, o tom autoritário com que se lhe dirige e lhe dita ordens. Era só o que lhe faltava, aturar a antiga professora, baixar a orelha, obedecer-lhe.

Não sem motivo, exige-se amiúde a voz meiga e apaziguadora do padre Giovanni, sempre pronto a velar pela reconciliação, pelo bom entendimento do seu rebanho. 

Quem visita esta igreja no Piemonte e se fecha na penumbra do seu granito, ou se ilumina na beleza dos seus afrescos magníficos, sente a paz, a boa paz herdada dos tempos da cavalaria, dos romeiros, dos homens e mulheres que buscavam a salvação da alma acima de todos os tesouros do mundo. É um bem precioso, raro, quase impossível de explicar. 

Não há dúvida que a igreja está impecavelmente conservada. Quem aqui vem não imagina a que preço.

O ESTRANGEIRO

Foto: Raymond Hoffmann

Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.

Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras. 

Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita. 

Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.

– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.

Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente. 

– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?

O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.

– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…

Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana. 

– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?

A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.

– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…