LAVOISIER

Christophe Kiciak
Foto: Christophe Kiciak

 

Ao alto, a máquina tem o imponente aspeto de uma parede interrompendo o caminho da cidadela para os subúrbios. Mas a populaça grita, e com a populaça chiam as rodas dos carros e com as rodas dos carros resmungam homens esfarrapados, que pontapeiam e empilham cabeças em cestos de vime. Estamos no 19.º dia do mês de Floreal. Maximilien é o sumo pontífice da nova religião do Estado.

Antoine Laurent de Lavoisier segue com sua mulher, Marie-Anne, na proa de uma carroça, puxada por uma pileca. Chovem os impropérios e os escarros. Agitam-se forquilhas e varapaus. Também as rameiras de Paris se juntam para uivar o seu ódio ao aristocrata. Com elas increpam as vendedoras de peixe, os açougueiros, os taberneiros, os tecelões, os curtumeiros, os sapateiros, os carvoeiros, os camponeses, os alfaiates, os boticários, os doentes, os mendigos, os ladrões, os trânsfugas, os clérigos apóstatas, os loucos. Engrossa das ruelas para a praça a multidão execradora. Antoine leva os pulsos presos em cordas, como um criminoso vulgar. Marie-Anne traz o vestido rasgado e tingido de sangue. Por toda a praça se atiça o fervor sanguinolento. O incorruptível chefe da Convenção vibra. É de peso o nobre cientista. «Roubar-lhe a cabeça não servirá senão para nos afogar mais ainda no sangue da ignomínia» lamenta Joseph-Louis de Langrage.

A tropa revolucionária encarniça-se na execução de Marie-Anne Pierrette Paulze. Fá-lo desta vez com requinte, metodicamente, e não à bruta. Lavoisier, assim visto pelo exterior de vidro, não vacila. Por dentro, as moléculas possíveis da miséria humana eclodem num frenesim, quando se escuta o desamparo rude da lâmina sobre o corpo da mulher de Lavoisier. Dois pares de sujas mãos envolvem agora o pescoço do eminente cientista-filósofo, constringindo a traqueia e as parótidas. Cheiram mal as imundas mãos, cheiram nauseabundamente, se é possível dizer assim. Cheiram à pura impregnação do sangue.

Um dos supliciadores diz em horrível francês «Vais-te cagar todo, meu porco». Fede a boca que o diz. Os escassos dentes encavalitados sublinham o grotesco da cena. É a alma da própria França nestes dias de igualdade, fraternidade, revoltosa liberdade.

Fazem tombar o homem numa espécie de carreto e apertam-lhe bem os pulsos e os tornozelos. Imobilizam-no horizontalmente e empurram-no em direção ao garrote, em linha perpendicular à força que o há de matar. É uma morte abrupta esta, que inventou o Dr. Joseph-Ignace Guillotin. As crianças sorriem. É um jogo. O fascínio de uma execução pública é como andar às cavalitas ou fazer uma dança de roda, brincadeiras tão afamadas neste século das luzes.

Lavoisier pensa. Dentro de alguns segundos juntar-se-á ao tempo de outro modo. «Também a matéria se revolve, como a água em círculos depois de uma pedrada. Mas tudo se aquieta novamente. Toda a matéria se recompõe, se reequilibra e remistura. Nada mais inútil do que pretender a permanência ou a imutabilidade». São pensamentos desordenados, quase nebulosos, porém intensos, como os pilares dogmáticos de uma religião nova. «Tudo se transforma», pensa Lavoisier.

A multidão escuta agora Maximilien Robespierre, que, inflamado, perora sobre a nação que se limpa, sobre o povo sublime que «extirpa as perniciosas ervas daninhas», sobre a sociedade que se cura «da ferida das antigas abomináveis sanguessugas», sobre «o futuro que se levanta do charco atroz da peçonha de todos os viperinos cortesãos».

Robespierre é jovem, tem o rosto ruborizado pela exaltação, os olhos de quem sabe amestrar a multidão, a expressão de quem fará triunfar princípios morais há muito sonhados. A lâmina da guilhotina, tantas vezes levantada e descida, pode bem aguardar. É imperioso que aguarde. É-o a bem da doutrina, para que esta penetre mais e mais no crânio desta feliz geração de analfabetos raquíticos, a quem a Providência destinou o papel de fazer erguer um patamar novo da história da humanidade. Robespierre apregoa ab imo corde, tem as rédeas da manipulação, tem o rastilho da ideia. Sabe que o veem como um messias, um jovem messias no cataclisma que a Europa está prestes a viver.

«Todo o universo é regido pelos mesmos princípios, leis, regras físicas», pensa Antoine Laurent. Não teme a morte, como não temeu a vida. «Em todo o esplendor da ideia há o formoso acaso da matéria revelada». O mecanismo circular das moléculas torná-lo-á irmão de cada mosca, das pedras, do sangue derramado e da alma dos mártires da violência, dos de agora e dos de toda a infindável geografia do tempo.

Já Robespierre se calou. Já a mão do algoz se soltou. Já o geométrico aço desce, dividindo o que antes era um portentoso espírito da humanidade. Já Langrage profere a célebre máxima de que «Não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo». Já a aclamação do vil poviléu se alastra, passando muito para lá da Praça da Bastilha, por todos os meandros desse coração às artérias menores… Já Lavoisier, ou a cabeça dele, é segurada por um palafreneiro embriagado, que a sacode como um troféu. Já o seu corpo restante é retirado do palanque para dar lugar a outros nobres que aí vêm, em carroças de bois, uns enjaulados, outros caídos, outros a pé, sofrendo o enxovalho final de suas desconcertantes existências.

Há de um cronista qualquer, meu mestre, tomar a sério o duro ofício de narrar estes funestos acontecimentos. Estamos a 8 de maio de 1794, 19 do mês de Floreal.

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FOTOGRAFIA

Alexei Sovertkov
Foto: Alexei Sovertkov

 

Na noite de 23 de junho desse ano, o único candeeiro aceso na residência universitária era o meu. Do terceiro piso podia inteirar-me dos céus iluminados da cidade e da festa. No Porto é obrigatório divertirmo-nos na véspera de S. João. Os pátios, escadarias, becos, vãos, pracetas, avenidas enchem-se de ruído, concertinas coloridas de papel, escamas de sardinha. É obrigatório sair, conviver, algazarrar, beber até dizer basta, empunhar e esfregar alhos-porros no nariz benevolente das raparigas. A tradição diz que é a noite de solstício. Se não é a noite mais curta do ano, é a mais longa. Todos os foliões o sabem.

Quanto a mim, teimei fechar-me no quarto a estudar Linguística. De fora o mundo chegava com estrondo, cheio de vida, como uma punhalada. Podia apreciar da vidraça os telhados e as torres das igrejas por onde subia o rasto de lume dos balões. Podia avistar as inúmeras varandas apinhadas e as churrasqueiras acesas, os grupos retardatários, correndo com os martelinhos plásticos. Podia jurar que as dezenas de quartos dos estudantes se encontravam vazios. Desde o meio da tarde não avistei ninguém nos corredores, nem escutei uma única voz no interior do edifício.

Os apontamentos de Martinet pareceram-me monstruosamente enfadonhos. Sublinhava-os com um marcador fluorescente e recitava em voz alta as glosas do caderno. Estava só.

Foi nessa solidão que me dei conta das cores cada vez mais verde-negras, estranhamente semelhantes ao óxido de crómio, que afundavam o espaço e o asfixiavam. O primeiro relâmpago e o primeiro trovão confundi-os com o aparato da festa. Mas depois vieram outros. A tempestade não demorou a sacudir as janelas e a empurrar a chuva mais pródiga de vingança a que assisti em toda a minha vida.

Multiplicaram-se de um momento para o outro gritos de confusão, histéricos, perplexos. As bátegas metravalhavam sem piedade as mesas compridas nos terraços. Os fogareiros eram arrastados de qualquer maneira para debaixo das lonas. Velhos e novos apinhavam-se como podiam nos coretos e abrigos das portas. A imagem do rebuliço pareceu-me tão divertida e tão amorosa que abri a gaveta e retirei de dentro dela a minha Leica.

Apesar dos vidros embaciados e do ar saturado, a paisagem era outra agora. Dir-se-ia que bela, humana, protetora, aconchegante.

Lá ao longe, os holofotes das igrejas alumiavam o temporal. Ao perto, os postes elétricos deixavam perceber o desastre. Desci para ver melhor. Mal abri a porta dei de caras com um desses pobres que abundam, infelizmente, nas nossas cidades.

‒ Não queria assustar-te, rapaz. Desculpa-me!

‒ Não assustou. Esteja descansado!

Fiquei um instante sem saber se saía ou se o convidava a entrar. Havia sob o alcatrão uma mistura de fumo e de vapor. A máquina fotográfica estava pronta.

‒ Esta chuva. Quem podia imaginar!

O homem não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros. Segurava numa das mãos uma maçã, na outra um saco de serapilheira. Aquela chuva parecia não ser para ele nada extraordinária.

‒ De maneira que vai ficar todo ensopado… Entre e proteja-se!

Sem uma palavra, o homem obedeceu.

Olhei a rua, uma caixa de pimentos no chão, cervejas abandonadas, gritos, gatos debaixo dos carros, fumaça. Estava constatada a falta de decência do santo. Não conseguia decidir-me a disparar o flash. Então o homem disse.

‒ Em todo o caso, estás a sentir agora um déjà vu

Com efeito, sentia que toda aquela cena me era familiar, como se nalgum elo da minha memória se tivesse acendido a impressão de que já vivera aquele momento. O homem, embora nunca o tivesse visto antes, era (podia jurá-lo) bastante familiar.

‒ Vais acabar por não fazer um único disparo com essa máquina. Os objetos não te importam. Só o sujeito que tens diante de ti é digno de nota. Não é verdade?

Os modos quase arrogantes impressionaram-me. O homem prosseguiu.

‒ Estás agora a pensar em como sair desta alhada. A rua já não é o lugar mais estranho do mundo, mas este bocado aqui, sim. Não é verdade? Estás a pensar em como aquela caixa de pimentos no chão, aquelas cervejas abandonadas, aqueles gritos, aqueles gatos escondidos debaixo dos carros, aquela fumaça em nada se comparam com o caos que reina na tua cabeça.

‒ E como pode o senhor saber tudo isto?

‒ Os Elementos de Linguística Geral de André Martinet lá em cima são a prova de que ambos nos deixámos afundar na mesma miserável solidão.

‒ Quem é você?

‒ Escolhes sempre uma saída lateral e nunca o corredor em frente… Pensas ainda em labirinto. E, no entanto, desde que nos vimos pela primeira vez há pouco sabes que somos os dois a mesma pessoa!

‒ Somos a mesma pessoa?

‒  A mesma personagem, sim! Mas não fiques muito surpreendido. Borges, que ainda não conheces, faz o mesmo no primeiro conto do Livro de Areia. Dickens, de que já te esqueceste, faz o mesmo com Ebenezer Scrooge. Dante, que estás prestes a conhecer, sonha com a sua própria alma cirandando nos círculos dos Inferno, do Purgatório e do Paraíso.

‒ E vem você mostrar-me o meu futuro, é isso? Provar alguma coisa? Que eu sou má pessoa e preciso de emendar-me?

‒ Não venho provar absolutamente nada…

O meu outro eu pôs-se a comer a maçã e de trouxa às costas saiu para a noite, sem medo do dilúvio, engolido pelo reflexo sujo das mil e uma luzes quebradas.

Com a Leica apagada nas mãos vi-o partir sem ter podido acrescentar alguma coisa. A fotografia, essa, como sucede muitas vezes com os sonhos, renasce vezes sem conta na cabeça.

 

ANÍBAL

 

Bo 19
Foto: Bo 19

 

pedro dióniso vaz (nascido sem negrito e com maiúsculas como Aníbal Oliveira) pousou a caneta junto à chávena. Tinha o texto terminado.

«No coração da serra, o silêncio é maior do que as pedras. Circula com o vento, engole as árvores, extenua as ervas e o musgo contra o granito, corre nas patas lépidas dalgum javali transviado. O silêncio torna o tronco dos pinheiros mais rugoso, mais sinistra a água lacustre onde as reses vão beber, mais duro o céu imóvel durante as horas caniculares. Às vezes escuta o som das pinhas caindo, do chão rachando, dos milhafres gemendo em círculos. É quando se dá conta do modo como o silêncio invade todas as formas até que  lhe pertençam todas, de como invade o seu corpo até ao osso, como invade a própria terra arfante.

Nos meses de verão, durante as férias, o rapaz ajuda nesta ancestral profissão de guardar o gado. É uma existência de eremita, longe dos amigos de escola e das frases macias dos professores. A ardósia do quadro é agora a ardósia dos montes, o som da campainha a dividir as aulas é agora o chocalho do rebanho ao longo dos tapetes verdes de pasto. O silêncio fá-lo pensar, pensar muito, pensar na vida, pensar no futuro, pensar no quanto terá de suportar até que um dia possa como as beldades da turma rumar ao Algarve ou às praias de Espanha, pensar no quanto as suas mãos, o seu tronco e a sua cabeça terão de trabalhar até que o destino lhas desalgeme, o endireite, o desanuvie deste modo de vida. Segurando o milenar cajado, o rapaz sonha com esse dia em que seja um homem do mundo, em que o seu talento intelectual valha alguma pena, em que o não acordem com rudeza às quatro da madrugada, em que lhe não deem a sacola com o pão e o vinho e o mandem ir (encosta acima, encosta abaixo) para lá do negrume, em mais uma transumância, sozinho, sem afagos de espécie alguma, que nesta era de infantilismo ainda há precoces e homens feitos antes do tempo.

A fome só desperta com a luz. Então, sim! Senta-se no dorso anguloso de uma penedia a comer e a olhar o horizonte. O sol alumia as cumeeiras de um modo sublime. Lá em cima os aviões com o seu rasto aceso parecem caracóis segregando uma baba luminosa. O rapaz alegra-se. No seu telemóvel (os pastores de hoje não o dispensam) acede à bendita aplicação que lhe narra a história de cada um daqueles bicharocos distantes, de onde vêm e para onde vão, a quantos pés de altitude, a que velocidade, transportando quantos passageiros, a hora de partida e a de chegada, exibindo em 3D o espaço visual acessível ao cockpit(mas também visto debaixo das asas, por cima, em ângulo lateral). Vê em baixo, no pequeno ecrã,  o que de cima  se vê na sua direção. Lê siglas de aeroportos, o nome mítico de grandes cidades, a tipologia das aeronaves (Airbus,Boeing, Embraer). Este que agora mesmo se cruza sobre a sua cabeça e sobre os animais alheados vem de Miami e viaja para Barcelona. Outro que não tarda faz o itinerário oposto, de Madrid para Nova Iorque. Por cima da sua cabeça. Custa a crer! Grandes voos intercontinentais, gente cosmopolita, gente importante, do desporto, da cultura, da alta finança, gente rica, 40 mil pés acima de si, tão perto e tão longe, ignorante de si, indiferente, gente das grandes cidades onde tudo é frenético, vivo, extraordinário.  Por cima da sua cabeça!

O rapaz põe-se pé.

É como se, erguendo-se, pudesse crescer com o seu sonho. Um dia viajará num desses fabulosos pássaros de fuselagem prateada, habitará esse oceano exaltante que é o de todas as cidades abertas e repletas de saber. Um dia voará sobre esta e outras terras de silêncio, onde talvez outros garotos de província, de terras encolhidas na sua própria sombra (de Portugal, da Índia, da selva brasileira, da tundra siberiana, das florestas de África), com outros aparelhos imitadores de Deus, possam sonhar com o desconhecido, com o mundo fácil, vertiginoso, meteórico que os bancos de escola ensinam como se ensina um conto de fadas.»

O escritor fincou os dedos sobre o caderno. Pudesse agora mesmo voltar atrás, voltar à aldeia pobre da juventude, e morrer lá como morrem os velhos carvalhos, numa aura de amor ao solo e útil como uma lição de moral e não desperdiçado em palavras que ninguém lê, ama ou repete!

Atenuada ou exagerada, a sua biografia era sua. E que interesse há em saber dela? pedro dióniso vaz repegou na caneta e desenhou um xis de alto a baixo nas três páginas que havia acabado de manuscrever.

 

CAVANI

King Douglas
Foto: King Douglas

 

É como um jogo de chamas e de vento este que fazem os violinos e os violoncelos, o combinado som de uns e de outros, crescente e ondulante, um labirinto de labaredas, tão vivo agora que se parece todo ele combustível, todo ele feito de lume, ardente, matéria em convulsão.

Na cabeça de Antonio Cavani, as Quattro Stagionisão sobretudo luz, luz forte, fortíssima, e por isso ensaia de olhos fechados, a batuta solta na mão direita, para que o não ofusquem o movimento dos instrumentistas ou a veemência mágica da própria música.

Entre todos os compositores, prefere os do Barroco. Entre todas as composições deste tempo, ama com um amor mais sincero e humilde esta dúzia de andamentos de Vivaldi, que lhe lembram mais que Bach, ou Pergolesi, ou Händel, a sua infância bucólica na Toscana.

Na sua opinião, escassas se lhe comparam na celebração da humanidade, tanto incendiando-a de graça juvenil como consumindo-a na depressão das suas tonalidades  elegíacas, soturnas e hiemais. Por isso, exige que esta celebração da sublimidade humana seja interpretada sem erros, no ritmo, na intensidade, na volúpia exata. Os ensaios sucedem-se, às vezes escutando somente o arco e as cordas de Margaret Duchamps, muitas vezes juntando à solista o tumulto maravilhoso da orquestra, para que uma e outra se afinem infinitamente.

Em Berlim já se diz, e isso parece impossível, que esta performance será melhor do que Karajan, que Duchamps supera Mutter, que se fará História. Calvani transcende-se, é como se as chamas do próprio sol o engolissem, um violino, vários, o violoncelo, outros violoncelos, o cravo, uma pletora de formas deslizando no devir dos quatro concertos, entre os andamentos e ao longo de todos eles, como se fosse a própria fala de Deus que assim se exprimisse, vibrando, contorcendo-se, ferindo o espaço no frenesim das cerdas contra os encordamentos, na percussão das teclas, na concentração fanática do maestro.

Cavani gesticula com uma lágrima no canto do olho. Imagina o público no intervalo de som e silêncio, a opressão das imagens que correm dentro dos olhos, a física e dolorosa simpatia dos músculos que acompanham a perfeição do momento, a alma que se liberta do mundo como nele nascesse de novo, orgástico e genesíaco recomeço este, o cardíaco entusiasmo ecoando nas paredes, no teto, na noite de Berlim, e depois «Bravo!», «Bravo!», o maestro em água, os pupilos esgotados, «Bravo!», pode a morte sobrevir, Cavani deseja-a, nem mais um minuto, que mais não pode desejar-se nesta vida e não valeria a pena ir mais além, não valeria. Mas o transe termina. É um ensaio mais apenas. O inverno pode ser esplendoroso. Quanto tempo passou? Onde estamos? Cavani respira com dificuldade. «Bravo!» diz com secura.

ESTHER

Leon
Foto: Leon

 

Na linha de montagem do novo avião supersónico militar, de uma cor invulgarmente escura e não refletora de luz, a quem chamam vantablack, e revestido por uma película macia e anecoica que o tornará imune à ciência e paciência dos radares, a engenheira espacial Esther B. Godwell, filha de um pastor cristão ultraconservador, e membro ela própria de uma seita adventícia, proferiu palavras que se repetem e usam agora como um slôgane: «Para o bem comum: indetetável, imprevisível, inelutável, como a própria mão de Deus!»

ZUÑIGA

worker
Foto: Cezar Gabriel

 

Os pensamentos mais sombrios e dementes descem sem dificuldade à ponta dos dedos. Quem o poderia ter dito é Pablo Zuñiga, que observa a cisalha como se a ele tivesse acabado de ocorrer uma ideia. O objeto é-lhe tão familiar, foi-lhe tão útil sempre que não será custoso imaginar aquela e uma outra e esta vez em que, no meio do ofício, se pusesse a considerar o apuro da lâmina sobre o seu próprio corpo.

«O melhor é nem pensar no assunto.»

E, apesar disso, pensa-o. A imagem persegue-o como uma Fúria antiga, acompanha-lhe a respiração, fá-lo ver sem o olhar o gesto de mutilar-se, invade-lhe os sonhos, onde sente a dor, o pasmo e o sangue, uma parte de si caída diante de si, e estremece, e acorda, e dá graças por tudo não passar de uma febre de uma cabeça que por muito passou já.

«O melhor é nem pensar!»

É um objeto demoníaco este. Belo e terrível como todos os que dividem a matéria e disputam o divino poder de mudar a face do mundo. Zuñiga não desbarata o seu tempo com reflexões destas, ainda que tão pouco filosóficas elas sejam. Limita-se a cesurar, cortar, amputar metal e pedra.

Não sabemos se sempre assim será. Simplesmente não sabemos.

TELA EM BRANCO

Foto: Peter Davidson
Foto: Peter Davidson

 

Mesmo à sua frente o pintor tem o cavalete e apoiada nele uma tela de razoáveis proporções imaculadamente branca. O pintor está sentado. Os olhos estão fixos no vazio e as mãos quietas.

Ao lado, sobre a única mesa do ateliê, repousa um sem-número de espátulas, godés, frascos de resina e diluentes, aerossóis, pincéis, pedaços de madeira, palhetas, um boneco de madeira, jornais chapiscados.

O pintor colocou lado a lado, em montículos de pó colorido, todos os pigmentos de que se serviu ao longo da vida: chumbo branco, barite, gesso, cré, óxido de ferro, carvão vegetal, lápis-lazúli, composto de cobalto, azurite, malaquite, viridian, verde de crómio, verdete, açafrão, limonite, pó de ouro, ouro-pimenta, amarelo de nápoles, antimoniato de chumbo, ocre, carmim, vermelho-cinábrio, hematite, vermelho de cádmio, castanho-siena, úmbria, betume. É uma imagem alegre, como a que sentimos num bazar de Marrocos.

O pintor sente a cabeça fervilhar. Aos oitenta anos os olhos fraquejam, mas a visão é nítida, saturada de contrastes, relevo e pormenores. Fascinado, contempla a tela em branco. É um instante genesíaco. Tudo é ainda possível. Assim que lhe atravessar a primeira pincelada rebaixá-la-á à condição humana.

As imagens ocorrem-lhe vertiginosas, como aceleradas no disco de um caleidoscópio. Cada uma delas é simultânea e parte de todas as outras.

O pintor está agora deitado num parque. Vê ao modo do suprematismo um líquen trepar pelo ramo de um ulmeiro e vê o baloiçar suave dos ramos e das pequenas folhas trémulas e iluminadas.

E vê num pontilhado cor de toranja o sol descer sobre as torres arabescas e vastas planícies de heliantos da Andaluzia.

E vê um a um, cubisticamente, os maravilhosos desenhos da Catedral de Charles, alumiando em certa manhã as entranhas da sua fé perdida.

E vê ao modo de Monet as varandas e cúpulas caiadas de Creta. E vê as colunas vermelhas do palácio de Cnossos.

E, surrealista, uma lua quase azul por entre os pilares hieroglíficos de Luxor.

E vê como van Gogh os socalcos de arroz no Cambodja, os soldados de terracota do imperador Qin Shi Huang Di, e os jardins de Quioto, repletos de silêncio e de sombra.

E vê como Jackson Pollock o formigueiro frenético nas ruas de Tóquio.

Vê-se a si mesmo, jovem outra vez, amando a sua mulher num atol da Micronésia. Sério, meticuloso, absorvido pelo cromatismo de cada recordação, reconstitui como Gauguin as águas do Pacífico e a íris verde-azulada onde pela primeira vez descobriu o seu próprio rosto apaixonado.

E, numa quinta do sertão brasileiro, sobre uma toalha de linho, vê em chiaroscuro o brilho de uma jarra de cobre entre orquídeas e frutos tropicais. Não a mostrariam de outro modo os mestres italianos da renascença.

E vê no alto de uma montanha no deserto do Atacama a linguagem colossal do universo, com as suas cifras inumeráveis de constelações e poeira sideral. Se fosse Kandinsky esse seria o seu quadro.

E vê, num banco de jardim do Central Park, uma mulher índia com o traje ancestral dos Sioux contemplando as nuvens alaranjadas que cobrem Manhattan e lhe parecem as nuvens ao crepúsculo da sua cidadezinha nas margens do Missouri. Vieira da Silva amaria esse retrato.

O pintor vê com apreciável precisão a turba fuliginosa que sai das entranhas de uma mina de carvão no Botswana. Vê os vincos e sulcos profundos no rosto dos jovens negros e o complexo aracnídeo das máquinas (tapetes rolantes, engrenagens e braços basculantes) que tornam mais árida a paisagem. E vê as grandes fossas abertas na rocha escalavrada e o nome da companhia multinacional no topo de um dos abismos. Um dos operários leva ambas as mãos à boca para impedir-se de tossir. O pintor vê como a terra esquálida lhe absorve a expetoração sanguinolenta e como ninguém ao redor parece importar-se. Assim é o preço da vida humana. Edvard Munch, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat mostrá-lo-iam de modos tão distintos quanto inesquecíveis.

E vê um oásis no Magreb, com as suas palmeiras e sicómoros e uma cáfila sequiosa deslizando nas dunas avermelhadas. E vê o Estreito de Messina, as Colunas de Hércules e a costa irregular da Cantábria com a sua linha de imponentes faróis. O pintor vê agora o verde puro da Irlanda, os castelos arruinados da Escócia, os grandes albatrozes sulcando as vagas e temporais do Atlântico. E vê no amplo horizonte do oceano o movimento sincronizado e argênteo de todo um cardume de sardinhas, e a respiração veemente de uma baleia azul na Gronelândia, e as pequenas traineiras dos portugueses. Caspar David Friedrich e William Turner veriam nestas paisagens o supremo heroísmo da solidão.

O pintor vê agora a sua infância. Como pintado ele próprio por Joaquín Sorolla, está a brincar no areal de uma praia quase deserta. Há limos e sargaço, búzios e salsugem. Nas mãos alvas e enregeladas segura o corpo ainda vivo de um peixe palhaço dada à costa. Um prodígio de cor e de correntes marítimas. Nesse dia, soube que seria esse o seu destino: colorir o vazio.

Aos oitenta anos viveu talvez tudo. Na tela vazia vê, não sabe se ao gosto clássico, alegórico, romântico, pré-rafaelita, impressionista, expressionista, surrealista, dadaísta, concetualista, neoconcetualista, neo-expressionista, as formas iluminadas e umbrosas da sua própria alma e da alma de todos.

A melhor das galerias está disposta a pagar-lhe uma fortuna por um quadro original, pelo trabalho de uma vida, pela sua magnum opus.

Como ser original?

O cavalete permanece imóvel, a tela intocada. Sem se mexer, de olhos fechados, o pintor atinge todas as cores, formas e texturas inominadas. Sabe que o primeiro gesto comprometerá para sempre a sua visão. Em branco, a tela é todo o seu génio magnífico, intraduzível e divino. Assim a entregará.

Hão de pagar-lhe milhões por ela.