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Então à tardinha, o sol decide juntar-se todo e – um pouco esfarrapado, é certo – bater em cheio no vidro poente da casa. É preciso que se note o quanto por ele se perguntou ao longo do dia, especialmente de manhã.
A mulher, que agora se consola com a boa luz para lá e para cá da cortina, acalentada pelo silêncio tépido instalado entre as paredes, enfureceu-se com os aguaceiros açulados pelo vento, com a casa que ficou por abrir, com a roupa que não pôde estender, com a saída que precisou de adiar. Olhando agora o patiozinho e os telhados em volta, os gatos adormecidos nos beirais, o céu retomando as cores citrinas do bom tempo, sente-se tentada a sorrir.
O terço em cima da cómoda e as pagelas, o retrato do marido e dos filhos, o cofrezinho de nácar onde guarda os anéis e o colar, a própria madeira reluzente, expressam-se num tom ameno de condescendência, como se dissessem tudo vale a pena, tudo vale a pena ainda.
Este é o momento em que o rapaz da vizinha chega da escola e se põe a tocar o violoncelo. A mulher gosta muito de escutar os sons graves que nascem das suas cordas. Sentada na beira da cama a meditar, a lembrar, a rezar, descobre que um punhado de coisas pode bastar para que se viva bem, com amor suficiente, com leveza que chegue para reconhecer outra vez todo o caminho.
O sol conta muito. O solzinho é como um velho amigo que se espera e que sabe exatamente o que dizer quando precisamos que nos digam alguma coisa.
A mulher às vezes interrompe-se no repetir das ave-marias. Vem-lhe à cabeça que decerto amar tanto o sol e sentir por causa dele vontade de perdoar todas as ofensas sofridas e pedir perdão por todas as lástimas provocadas, assim mesmo, a meio do terço, como um parágrafo especial com Deus, é também um modo de orar. Sente a pele eletrizar-se, engelhar-se como tomada por um arrepio de descoberta.
Mas depois arrepende-se. Decide que foi talvez longe demais. Talvez tenha blasfemado só de pensá-lo.
E retoma a mastigação das palavras, quase a ceder ao sono, quase com um sorriso galante a enformar-se-lhe nos lábios. Sente-se rejuvenescida, como se em vez do agora vivesse outro tempo, como se no lugar do sol outro lume viesse, sorrateiro, benévolo, cheio de ternura, a beijar-lhe as mãos.
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© João Ricardo Lopes (2026)
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