Uma conversa

Tuna Angel
Fotografia de Tuna Angel

No leste da Escócia, em Aberdeen, o vento e a chuva são infalíveis nesta altura do ano. Um e outra costumam fustigar as janelas a maior parte do dia, razão por que uma das grandes necessidades aqui é o bocado entre turnos do trabalho, ou então à noite, que se passa ao lado de um par de canecas altas de cerveja, chips e caraoque. Os pubs existem por toda a parte, muitas vezes porta sim, porta sim.

Nélida viajou de Espanha para estudar os artefactos e incisões nas rochas na aldeia de Rhynie e para rever e documentar-se sobre as maravilhosas, antiquíssimas e enigmáticas esferas de pedra que nas últimas décadas foram desenterradas do chão misterioso desta e de outras regiões limítrofes, aumentando a aura que desde Júlio César esconde este país do mundo fácil e óbvio do saber.

Em mau inglês pediu e foi servida. A língua franca tem ainda muito que se lhe diga. Alguém pusera a tocar The Whole of The Moon numa Jukebox anacrónica. Almoçava-se, bebia-se e fumava-se alegremente em linha, em cadeiras altas, rostos desconhecidos frente a frente, nos dois lados da simétrica bancada, separados pelo exército de galheteiros, saleiros e pimenteiros e pelas inevitáveis bases dos copos. Discutia-se tudo, ao mesmo tempo, em pares quase sempre, às vezes em grupo, um falando todos ouvindo, como nos tempos comunitários das tabernas: futebol, caça às orcas, fraudes eleitorais, pornografia. Nada é mais prazenteiro que uma boa conversa, mantida à custa do álcool e de um prato de bangers and mash ou de surf and turf ou mesmo haggis, seguido de um victoria sponge cake ou de um scone com geleia.

Nélida explicou a sua paixão. Um dos comensais sorriu: para ele a História era como a Matemática, uma treta.

– Como assim?

– Vocês historiadores passam a vida a tentar dizer-nos que o passado foi assim, deixando de fora informações que nunca poderão ter e que seriam preciosas para que soubéssemos como tudo aconteceu realmente…

– O senhor exagera. A História baseia-se em provas, em testemunhos, em evidências, em documentos, caramba…

– E que importa dizer que foi assim, se não for capaz de explicar todo o mecanismo de emoções, todas as fases de um pensamento, todo o cenário de uma batalha, todas as perspetivas de uma revolução, toda a verdade escondida na mentira de uma omissão e de uma peça a menos?

– Meu caro senhor, isso é como o paradoxo de Tarski.

– Ora, explique lá!

– Qualquer coisa como isto: entre o zero e o um há todos os números. Se os números são infinitos, então será logicamente impossível avançar de um número para o outro. E, no entanto, veja: tenho aqui um pedaço de pudim. – Engoliu-o – E agora tenho zero pedaços de pudim. Meu caro, a História é prática, é razoável e tem imenso charme!

Todos em volta se riram. Muito bem respondido. Pediu-se uma rodada de Belhaven para celebrar. Nélida recusou. Agora só o café.

Quem assistia sem participar olhava o céu fusco, de uma cor esverdeada e suja, que caía sobre os telhados e sobre a marina. Ao longe, um navio de carga descia a Edimburgo ou a Newcastle. Também ele parecia cheio de sono e sem vontade de tagarelar.

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Duplo! sem gelo, se faz favor!

Fotografia de Mathew Schwartz

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Improvavelmente tornámo-nos amigos. Não perguntámos o nome. Aceitámos partilhar o balcão e uma garrafa de uísque. Tem um certo gosto por frases elaboradas. Com o mate melhora. Às vezes cai para o teatral. Mas não me importo: tornámo-nos amigos, aceitamo-nos com as impurezas. Prefiro que caia para o teatral do que para o lamechas: um homem bêbado fica a isto (a isto, olhai bem para o minúsculo hiato entre os meus dedos) de se lançar ao choro. Deus nos guarde de um bêbado chorão. Gosta de inventar o meu amigo. Agora, por exemplo, puxa um guardanapo, destapa a caneta, embebe-a com um minúsculo ponto de tinta preta.

«Veja você: a minha vida é isto. Um mundo rodeado de vazio. Vê este branco todo ao redor do pontinho? É a minha vida. Eu sou um ponto final no meio do nada. Não termino nenhuma frase, não anuncio nenhum futuro. Sou apenas um borrãozinho no meio do nada. Inútil e desamparado como isto!»

Acho piada ao meu amigo. Tem um ar de tipo importante. Cheira-me que por detrás desta máscara, deste gentleman esfarrapado, há muito coração lá dentro. E dinheiro também. É ele que paga a conta. Quando tentei pagar da primeira vez quis bater-me. Paga sempre com notas grandes o meu amigo. Suspeito que paga o bocado de companhia. Homens há que preferem as putas. Outros carros de luxo. Outros fugir para o Tibete. Este quer-me a mim (passe a expressão) para se emborrachar coloquialmente.

«Sabe qual é o dia que mais detesto na semana, sabe, meu amigo?»

«Aposto que o domingo!»

«Errado!»

«Eu cá odeio o domingo!»

«Nã!…»

Tropeça um pouco, ameaça rodopiar sobre si mesmo, mas detém-se. Um copo de ótimo scotch é uma âncora na mão de um homem, não sei quem o disse já. O tipo aguenta-se. Faz com a boca o esgar de quem vai contar um segredo.

«A sexta.»

«A sexta?»

«Iá.»

«Então porquê?»

«Porque a seguir vem o fim de semana… Conhece você por acaso pior desculpa do que o fim de semana?».

Mostro-me surpreso.

«Sabe, você, qual é a diferença entre a minha mulher e um velório»?

«Pois… não faço a mínima ideia.»

«Veja lá, somos dois!»

E solta uma gargalhada que lhe faz mancar as cordas vocais.

O meu amigo tem gargalhadas cómicas, daquelas que provocam o riso dos parceiros de ofício. «Boa, boa!» aplaudem do lado. Não, esta apanhou-me. O meu amigo dava um comediante dos bons, está visto!

Mas depois, mudando de registo, resguardando-se na filosofia, empurrando-me para uma espécie de confissão, mano a mano, reflete, explica, aclara:

«Um tipo engana a mulher uma e outra e outra vez… Acaba, mais dia menos dia, por chegar ao seu perdão! Mas quando à sexta-feira à noite esse mesmo tipo vai para casa, como se fosse para o seu próprio funeral, será que algum dia se irá perdoar?»

Se calhar este malandro é daqueles que têm sempre um trocadilho na ponta da língua. O Jack Daniels torna-nos maus juízes do quilate dos trocadilhos. Sente-se o ar espesso do bar, a vontade de sair. Mas o tipo já regressou à comédia. Todos aqui adoramos o fulano que nos paga mais uma rodada, enquanto nevoeirento, arrefecido, o Tejo lá ao fundo se esvai, se esgueira para o Atlântico, feliz por deixar esta terra de pacóvios. Julgo mesmo tê-lo escutado desabafar, uma ou outra vez, quando me aliviava contra a parede dalgum contentor no cais: «Safa! Aqui nunca mais me apanham!»

Exagero.

Exagero sempre que me ponho a narrar as minhas coisas de boémio. No fundo, sou tão estúpido que ainda não consigo olhar de frente o desastre. Prefiro olhá-lo nos olhos do meu amigo misterioso. O tipo é do caraças. Até usa gabardina no inverno. Tem as suas semelhanças com o Bogart. Quando o conheci reparei no modo como fumava. Um ator, sim senhor. Chegou ao balcão e pediu sem se engasgar:

«Tire lá uma garrafa de Macallan. 12 anos, faz favor!»

Não havia.

«Então, Talisker. 10 anos».

Também não.

Contentou-se com Jack Daniels. E rapidamente nos convocou a todos para o seu círculo. Bom tipo. Tipo tristíssimo. Amigo do seu amigo. Mal o conheço. Podia jurar que somos amigos.

No fundo, sou tão estúpido que ainda não consigo olhar-me de frente. Um velório, diz ele. Como se não houvesse outros modos de ter conhecido a morte. Como se o amor não fosse a maior sacanice, a maior vigarice que inventou a espécie.

«Sim, aceito outro. Duplo! Sem gelo, se faz favor!…»

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