HERANÇA

Foto de Arquivo Familiar

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A nossa mãe queria ter sido professora. E tê-lo-ia sido melhor do que muitas professoras que nos ensinaram na escola. Arrancava-nos ao marasmo da lareira, enquanto a ajudávamos a cortar linhas aos bordados da fábrica, com historietas da Branca Flor e de almas penadas. E punha-nos ao corrente das peripécias da avó Amélia, determinada a manter a ordem da casa mesmo que à distância. E recitava-nos a catequese, ditava-nos a tabuada, exigia-nos o terço familiar todos os fins de tarde, ao som da Rádio Renascença. Mas, sobretudo – e isso é uma grande saudade – rematava quase sempre os pensamentos com um provérbio certeiro, com um adágio prodigioso, com uma daquelas suas frases que pareciam chegadas de milénios de sabedoria.

– Meus filhos, comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos.

Crescemos a escutar-lhe coisas. No preciso lugar onde escrevo esta crónica, num escritório que foi, há trinta e muitos anos, um armazém e o poiso de máquinas de costura, vieram palavras de insulto, de cansaço, de desabafo. Uma das máquinas desobedecia-lhe constantemente e, então, o pedal, pisado com uma fúria lendária, ao jeito de Aquiles (às vezes seguida de uma risada louca de descompressão), provocava em nós um espanto imenso, um susto sem palavras, como se compreendêssemos já que algo ruía nela antes do tempo.

– Como diziam os antigos: pelo bom não te poupes, pelo mau não te mates!

No final dos anos oitenta, tinha a seu cargo a fábrica entretanto posta de pé, a avó acamada e nós. Nestas paredes que o silêncio calafetou, vejo-a a trocar as toalhas pelas notas de mil escudos, vejo-a ao telefone com os clientes caloteiros, a vociferar contra os fornecedores mentirosos, a fazer contas com o lápis vermelho da Viarco, a chorar nos dias difíceis dos saldos bancários contrários. Porque uma coisa a mortificava mais do que as outras: dever dinheiro. Julgo que nos passou a todos esse desgosto. E nunca se deitou sem fazer cálculos, cismando no modo de pagar as dívidas depressa e bem, sem inveja da fortuna dos outros, mas sem abdicar da sua porção de sucesso, do retorno do muito investimento que fez ao lado do pai.

– Não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra.

A nossa mãe teria sido uma excelente professora. Gostava de conversar (as modulações da sua voz denunciavam maravilhosamente os estados de espírito, sobretudo quando o fazia com alguma amiga dos tempos da escola primária). Gostava de repetir chalaças, provocações, citações, alcunhas, paródias de acontecimentos antigos, episódios que apenas ela e o pai subentendiam e que a divertiam muito, a ponto de lhe soltarem gargalhadas mordazes. Gostava de dizer adivinhas, poemas, anedotas, esconjuros, orações. Sabia de cor milhares de pequenos imensos textos, colhidos aqui e ali e acolá, nos lugares e nas ocasiões mais e menos impróprias.

– Ricardo, eu te talho em cruz; Deus te livre do acanho e de quem te acanhou e a má vista te deitou. A casa dessa pessoa vá ter tudo quanto te quer fazer…

Escrevo convencido de que lido ainda mal com as memórias. Está um dia bonito — aliás, absolutamente formidável — nem demasiado quente, nem frio; um dia de verão antecipado, uma manhã doce, com o perfume das laranjeiras e das cravinas (de que tanto gostava) a ondular desde os jardins em volta da casa até ao lugar onde me escondi para isto. Trouxe café. Julgo que o café de borra se tornou outra das suas influências sobre nós os quatro. Escrevo procurando a lucidez que dominou e a dominou até ao fim. Vejo-a na cama, na última cama, com os fios presos às veias, o olhar periclitante mas sem medo, a bater-nos com força, a ditar (já sem paciência, mas repleta de amor) as últimas lições, a rematar com um:

– Pois é assim, meus filhos: com papas e com bolos se enganam os tolos.

E as minhas irmãs muito fortes a ouvir, eu a sangrar pelo nariz, elas a sorrir, eu esganado pelas lágrimas, todos a decorar aquela que foi sempre a sua dádiva mais alta. Não tivesse sido a obstinada recusa do avô (que obscuramente o não permitiu jamais), a nossa mãe teria sido uma professora exímia. Não por acaso lhe seguimos o rasto e o fazemos todos os dias como ganha-pão. Algures, num dos inumeráveis pedaços do universo, ela continua a proferir verdades num tom magistral e nós a escutá-la:

– O mal e o bem sempre à cara nos vem.

Ou aquele, em especial, quando a nossa preguiça a exasperava:

– É bem certo: manda e faz e servido serás.

Ou, ainda, aquela lengalenga que dizia em tom bem-disposto, todos os anos por altura das ceifas, aprendida seguramente nos serões da sua juventude, quando com a avó e as tias fazia a trança:

– Diz o milho ao centeio: “Ah, meu Gandarela. Andas sete meses na terra…” Responde o centeio: “Ah, meu reboludo. Quando tu faltas, eu acudo!”

A nossa mãe completa hoje setenta anos (recuso a ideia de que não o faça). Vim ao computador como quem necessita de se confessar a um padre amigo. Os provérbios, emersos de algum esconderijo misterioso, dançam-me agora na cabeça. Preciso de os anotar nalgum caderno. Seria bom que o fizesse. São a prova de como a pedagogia lhe corria no sangue. De como fomos privilegiados. Do quanto precisamos de não deixar esquecer, recordar, de deixar tudo isto aos pequenos em herança.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Vim até cá acima e fiquei

montanha, solidão
Fotografia de Jeremy Sanders

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Vim até cá acima e fiquei.

De quando em vez venho até cá acima e fico. Fico em silêncio, a escutar muito tempo as coisas que só se escutam em silêncio, sentado num lugar pertíssimo de mim, num sítio onde as palavras me parecem aos poucos pequenas assombrações, quero dizer pequenas cabeças enevoadas, minúsculos vultos sem sentido, fósforos frios que deixei de saber deflagrar.

Fico e às tantas fecho os olhos. Às tantas as coisas fluem, as coisas vêm-me involuntariamente à boca, as coisas passam-me diante as retinas, atiram-se-me à nuca, coisas como os murmúrios da avó Amélia, coisas como o cheiro triste da murta nos dias que se seguem ao Natal, coisas como a castidade absoluta das suítes de Bach, coisas como a maciez dos seixos, como a cor fulminante do papel debaixo dos versos de Camões.

Vir e ficar é doloroso.

As memórias conhecem caminhos, encontram-me, convulsionam num modo de regurgitação. Estou em silêncio e sinto gente desesperada a querer falar-me, sinto pedaços avulsos de mim a precisar de paz, a pedir que os apague ou lhes dê uma morada acalentadora, que os compreenda ou que os exorcize em definitivo.

Vem-se cá acima e fica-se.

Fica-se a meditar na quantidade de fracassos. No primeiro romance por escrever. Na profissão mal encontrada. No amor que se abandonou em parte incerta. Fica-se a matutar na mole de sonhos interrompidos. No doutoramento por fazer. Nos filhos que não vieram. Nas viagens ao Japão e à Antártida. Fica-se a cismar na multidão de rostos que foi preciso conhecer e esquecer ao longo dos anos. No peso morto que se deixou atrelar aos tendões e não é a nossa pessoa e não é a pessoa dos outros e não, na verdade, a pessoa de ninguém. Fica-se a cair para dentro, como uma pedra num poço.

A avó Amélia era um colosso sem que o tenha sabido. Foi-o até ao fim, quando muda, paralítica, cega, se queixava em gorgolejos, em sibilâncias, em gestos que nos diziam que queria comunicar e não podia. Só os pensamentos a mantinham viva, suponho. Só teimando com a comida ralada, suponho. Só apertando-lhe as mãos e afagando-lhas e beijando-as. Só assim a mantínhamos no lado de cá da solidão. Só pronunciando devagar pequenas frases que o seu ouvido, suponho, aceitava ainda.

Venho cá acima e fico defronte a isto.

Diante desta paisagem de granitos e ervas ressequidas pela geada. Fico sem um pio, a escutar o vento, a deixar que o caracol dos anos que me leve e me traga de volta, sem saber ou poder replicar ao parto doloroso das imagens que se soltam deste movimento em espiral de ir e vir.

Venho e fico.

Fico, suponho, à espera que alguém se dê conta de como estou a ficar cego, paralisado, emudecido. À espera que me segurem ambas as mãos e me não deixem partir para o lado de lá. O lado de lá dá-me arrepios. Tenho pavor ao outro lado da solidão. Não sei se a avó Amélia pensava muito nisso. Nos fracassos e sonhos por acabar, não creio. A avó era um colosso. Suponho que os colossos nunca morrem inteiramente sozinhos e a avó era, sem o saber, um colosso. Suponho que só os fracos vivem atormentados por esse medo. O medo de levarem uma vida inteiramente desperdiçada. O pavor de saberem que nunca serão grandes, ou lembrados, ou apertados na mão.

Vir e ficar é doloroso.

As memórias conhecem atalhos, encontram-me, despoletam pesadelos. Ninguém imagina com que remorso. Com que furor. Com que que ódio.

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Logótipo Oficial 2024

Do velho hábito de cuidar dos velhos

Anna Kudriavtseva
Fotografia de Anna Kudriavtseva

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Vejo a minha mãe a cuidar da minha avó, a colher rapando o fundo do prato, enquanto quieta, como uma garota velha, a minha avó se entregava a esse cuidado, frágil, absorta em nebulosos pensamentos indecifráveis, consoladoramente. O último dos seus vícios: um copo de vinho às refeições. Com a bênção de São Gonçalo de Amarante, cujo báculo estampado no copo alto de asa, parecia tocá-la amigavelmente. Era, na verdade, uma minicaneca. De estimação. Como todos os hábitos e objetos do final da sua vida.

Penso muitas vezes na minha avó. Na sua mudez. Na cegueira. Na paralisia. Penso em como movimentos tão simples, como o de trocar de posição na cama, ou de levantar-se a meio da noite para ir à casa de banho, ou de acender o candeeiro, ou de beber um gole de água lhe eram inacessíveis. Penso no abismo do silêncio, multiplicado pela falta de voz, de imagens, de movimentos. Penso nos seus próprios pensamentos. Em como terá pedido ao seu Deus (em noites furiosamente insones) que a levasse, que a libertasse dessa prisão do corpo e da mente, que a deixasse fora do alcance das palavras que, dentro da sua cabeça, chocalhariam sem piedade, vergastando-a.

Quando algum de nós se aproximava da sua cama (que, com o tempo, se tornou numa espécie de lugar assustador, onde um corpo morria devagar e, vivo ainda, nos ensinava os tortuosos caminhos para a morte) sentia o arrepio que se tem diante de um santo. Puxávamos-lhe o cobertor. Dizíamos qualquer coisa. Despedíamo-nos. E a minha avó emitia meia dúzia de sons guturais, decerto em agradecimento.

O quarto adquirira, igualmente, um cheiro característico. O da caixa dos remédios. O da lixívia. O do sabonete Patti. O do detergente da roupa. O da velha manta de alpaca. O do cartucho dos doces ‒ traziam-lhe sempre um cartucho de doces aos domingos ‒ e o do pão de ló. O das bananas maduras. O da madeira da mobília. O da velhice. Tudo junto. Como uma orquestra de odores desafinada.

As visitas rarearam. Deixámos de escutar-lhe os passos no corredor. Repetir as mesmas histórias, vezes sem conta, com a mão da minha avó poisada na sua mão deixou se ser possível, porque os poucos amigos da minha avó foram desaparecendo. A solidão nos derradeiros meses foi apenas contrariada pelos magníficos esforços da minha mãe e dos outros filhos, que a lavavam, vestiam e alimentavam, entre discursos e censuras começados sempre por um «Ó minha mãe…». Penso muitas vezes nessa solidão. Porque a receio mais do que tudo na vida. Porque essa solidão se transformou na minha definição de inferno. Imerecido, profunda e totalmente, no caso da minha avó…

Quando morreu, ninguém se espantou. A tristeza foi-se entranhando em nós… Não fui capaz de chorar, exceto muitos dias depois, quando na imensidão do quarto vazio compreendi que o lugar de cada pessoa é insubstituível e que a morte (pese os labirintos para onde nos foge a memória às vezes) tem em si, no seu escuro alçapão, um ser definitivo e terrível. «Não, nada será como dantes!»

Revejo os desvelos, as arrelias, os ditos por dizer, a segurança e o conforto desse último reduto, que (como num casulo) embrulharam a minha avó Amélia no fim. Aprendi tanto com a sua decrepitude! Jamais se pôs sequer a hipótese de um lar de terceira idade. Jamais se equacionou outra proteção que não a da casa. Os tempos eram, ainda, os do alto dever de «proteger os nossos velhos». Os ralhos eram manifestações de amor zangado e não de profissionalismo mascarado de amor. As chagas curavam-se com mercurocromo e tintura de iodo. Acordava-se a meio da noite para, como aos recém-nascidos, ser trocada a fralda. Se havia lágrimas no canto do olho da avó, a voz da minha mãe crescia no torpor da casa, «Ó minha mãe, você que tem?», e uma sucessão de chamadas telefónicas (para os outros filhos, para a médica, para o hospital) punha-nos a todos em sentido. Ganhar tempo contra o fim inevitável parecia, mais do que uma obrigação, uma obstinação.

Leio, agora, que o Governo quer punir os maus-tratos contra os idosos. Como se a lei pudesse pela força suprir o que o amor perdeu em força… Como se uma sociedade ‒ como esta, como a nossa! ‒ pudesse, à conta de normativos legais, reaprender a cuidar dos mais velhos. Como se uma cegueira (uma amnésia quanto ao futuro) a tivesse desabituado à ideia de que envelhecer envelheceremos todos e que, assim como fizermos, assim nos farão.

E, por isso, penso. Penso muitas vezes, aproveitando o vago marulhar das árvores nestes dias outoniços de agosto. Como se ainda fosse a tempo de alguma coisa. Penso na minha avó. Penso na minha mãe, metendo-lhe a comida na boca. «Ó minha mãe, você é pior do que uma criança…». Penso nos resmungos da minha avó. Nos sons guturais. No báculo de São Gonçalo que usaria, se pudesse, para dar à minha progenitora um enxerto. E o tempo passou. E é como se não tivesse passado…

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