Fico e às tantas fecho os olhos. Às tantas as coisas fluem, as coisas vêm-me involuntariamente à boca, as coisas passam-me diante as retinas, atiram-se-me à nuca, coisas como os murmúrios da avó Amélia, coisas como o cheiro triste da murta nos dias que se seguem ao Natal, coisas como a castidade absoluta das suítes de Bach, coisas como a maciez dos seixos, como a cor fulminante do papel debaixo dos versos de Camões.
Crónica dos dias que vão
. Um dos meus maiores medos começou há uns tempos, subtilmente, numa das conversas em família à hora do jantar: disseram-me que nesse dia fora a sepultar a última das saboeiras da freguesia. Não era do meu conhecimento que tivesse havido fábricas de sabão e saboeiras na terra, por isso senti uma puada cá dentro, …
Da crónica dos lusitanos
. Muito tempo se acreditou na existência de um livro chamado De Bellīs Lusitaniae, composto por um tal de Cesarino de Arábriga nos meados do primeiro século da nossa era. Dele pôde, por fim, encontrar-se fragmentos inequívocos, um dos quais registando no latim triunfante o desabafo emocionado de um autor autóctone anónimo, se de um …
