. Duas vezes por semana vinha Nicolau Balestra a cambalear ao longo da linha do comboio, muito bêbedo, muito zangado com o governo, muito capaz de tirar o cinto das calças e de começar a espalhar amor pela casa, vergastando indiferentemente um dos dois rapazes ou uma das quatro mocinhas bonitas de tranças loiras, que …
O cemitério
. O cemitério paroquial de Ancohuma, na província boliviana de Larecaja, situa-se a mais de seis mil metros de altitude. Pese os nevões contínuos que se abatem sobre ele a maior parte do ano, aí celebra-se a vida como num campo de girassóis. No lugar onde cada mulher e cada homem da aldeia foram sepultados …
Via-se bem
. A velha, via-se bem, lacrimejava. Não havia meio de acender o fogão maldito. Já por duas vezes os dedos trémulos haviam precisado de imiscuir-se no buraco do serrim e de retirá-lo aos bocados. Recolocou o bastão numa das bocas e pela terceira vez, via-se bem que com irritação, pôs-se a peneirar a serradura para …
O sapateiro
. O disco do esmeril continua a girar um bom bocado. É esse som que enche a oficina quando o velho a abandona por alguns instantes e vem para a mesa de pinho no pequeno átrio pregar as tachas. Lá dentro deixa tudo à mão de semear e de colher, a porta escancarada, a lampadazinha …
Um explorador
. Durante a noite Emerenciano Castanheira voava. O corpo descobria-se livre e leve, abria os braços e punha-se a subir e a esvoaçar à volta da casa, cada vez mais depressa, cada vez mais alto, cada vez mais amplamente, em círculos, como um pássaro enlouquecido. Era um sonho recorrente. Emerenciano via-se a encostar a escada …
Uma primavera
. Nesse ano a primavera manifestou-se muito cedo. Em meados de dezembro, em vez do frio e da chuva, os aldeãos, veem as mimosas a amarelar e no mês seguinte já as magnólias vão despontando, tal como a flor das cerejeiras. Não chove e o sol atordoa as velhas, que se põem a namorar os …
Um novo dia
. Na cama ouve a chuva a cair, às vezes tocada pelo vento com uma tal intensidade que o seu corpo, por instinto, adota a posição fetal. Depois adormece, sonha com um caminho enlameado em direção à escola primária, põe-se a conversar com velhos simpáticos que trabalham nos campos e lhe dizem adeus. Algo em …
O Costa
. «Comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos» repetia o Costa, enquanto irritado com a garlopa ia desbastando e alisando o pau do eucalipto que trouxera do monte. Tinha quarenta e três anos. O cabelo e a barba haviam tomado a feição rala e grisalha de um velho, os dentes escasseavam, o lombo curvava, …
Bruxa
. O som das árvores, o amor das rolas, o fosforejar do céu são dádivas de que se alimenta o sono. O tempo para, adormece-se só de olhar, cai sobre os camponeses uma poalha repleta de luz. Derreada, muito para lá do alpendre, Amância fareja as ervas certas. É preciso que alguém acredite esta noite. …
