No centro da cidade, no lugar que tinha sido uma floresta de amieiros no tempo dos celtas, fizeram os romanos nascer um grande jardim de figueiras. Acredita-se que em homenagem à deusa Pomona, ou como lembrança da Figueira Ruminal do Capitólio. Outros, porém (versão mais crível), asseguram que os soldados de Sulpício Galba plantaram ali um bosque de carvalhos-brancos, evocativo daquele outro bosque em que moravam as dríades querquetulanas, em Roma, junto à muralha de Sérvio.
Esse carvalhal sagrado existia ainda no tempo do visigodos, porque (um cronista contemporâneo de Santo Isidoro declara-o) “com madeira de um roble dos antigos pagãos construíram a Hermenegildo o féretro, encimado por uma grande cruz esculpida, por amor da qual mandou Leovigildo, seu pai, cortar-lhe a cabeça. E a inumeráveis outros godos mártires deram a morte e os enterraram com lenhos trazidos da mesma mata”.
Uma centúria se passou, ou pouco mais. Os omíadas de Tárique subiram de África, passaram a fio de espada o rei Rodrigo, trucidaram sem piedade os nazarenos que lhes faziam frente, pilharam e incendiaram vilarelhos, escravizaram servos e senhores das cidades da sua conquista, e aos poucos, num vagar de séculos, levantaram do solo carbonizado e ensanguentado planícies magníficas de amendoeiras.
Com elas branquejou a paisagem muito tempo, até Alfonso, filho de Urraca, imperador da Hispânia, ordenar que fossem arrancadas todas essas árvores e, para melhor purgação dos vestígios islâmicos, abrissem no lugar onde elas frutificavam os caboucos de um mosteiro cisterciense. Quis o destino que os monges de S. Roberto cultivassem nos seus vergéis e bosquedos toda a espécie de plantas e ervas e árvores. Um deles, Frei Juan de Zamora, lendo muitas vezes cartapácios de antanho com cronicões e memórias preciosas, meditando amiúde sobre os desígnios do Senhor, tão esquecido da barbárie humana, sugeriu que no centro do claustro, a ladear o belo repuxo de águas cristalinas, plantassem cinco romãzeiras.
Assim fizeram e ainda hoje, no lugar que foi de amieiros, figueiras, carvalhos e amendoeiras, vermelheja, tantas quantos os dedos de uma mão, as cinco árvores do romeiral. Uns afirmam que em louvor das cinco chagas de Cristo. Outros, porém (tese erudita, menos defensável), asseveram que para homenagear todo o sangue inocente, derramado em dois milénios de terrível predação.
Por cima da velha mobília, dos lavatórios, da cerâmica, dos fogões, dentro dos quartos e da cozinha, nas casas de banho, pelo meio dos corredores, atravancando, entulhando, asfixiando fardos e fardos de palha, e pó, um pó imenso e fundo, e excrementos de pombos, e urina de ratos. Imunda.
Foi assim que a encontraram Theo e Larissa Minakis, o jovem casal de músicos. Haviam aterrado hora e meia antes em Heraclião, vindos de Frankfurt, depois de quase oito horas de voo desde que deixaram o Aeroporto Internacional John Kennedy. A casa estava imunda e eles exaustos, perplexos, enojados.
– Há anos que aqui ninguém vem. – explicou, dando safanões numa das janelas para as traseiras, o Tio Panos. – A casa, meu filho… Tu sabes, desde que o teu pai partiu, nunca mais cá ninguém veio…
A reputação de Theo como um dos maiores oboístas da sua geração corria mundo. Larissa, a mulher russa com quem casou, granjeara-a tocando harpa, embora encantasse também no violino e até no violoncelo. Ambos pertenciam à Orquestra Filarmónica de Berlim, pertenciam a Camille Saint-Saëns, a Fauré, a Debussy e a Ravel, pertenciam um ao outro, ao mundo inteiro, aos palcos onde a música pudesse sublimemente ser interpretada.
Agora, contornando as velhas paredes da casa, era como se tivessem descido ao mundo impiedoso dos homens. Havia bichos fossilizados no soalho, que os sapatos pisavam como grandes migalhas de pão seco. Havia mascarras nos tetos e nos vidros, pesando como grandes úlceras nos lugares onde existiu outrora brilho e aconchego. Havia teias infinitas e sujas, descendo de todos os ângulos retos de todos as esquinas, ensarilhando-se-lhes no rosto e nas mãos de quem passava. Larissa segurava com esforço um lenço sobre o nariz, disposta a ceder a qualquer instante aos impulsos eméticos provocados por aquele labirinto de lixo.
– Os meus irmãos? – arriscou, desconcertado, o mais novo dos Minakis.
– Nem um vaso de manjerona sobre a campa dos teus pais…
O Tio Panos teve de assoar o nariz e de limpar as lágrimas. Uma vez na rua, via-se uma coluna de pó amarelo a sair do antro aberto.
Theo estendeu os olhos até ao porto de Atherinolakos. Era um pouco maior do que antes, mas igualmente deprimente, com pequenos barcos coloridos ziguezagueando na barra, com as grandes chaminés listradas de vermelho e branco das fábricas em pose militar, com os homenzinhos de barrete e o azul tristonho da praia a rolar diante do betão e do cimento escaldante.
– Ficais em minha casa, filho. É um gosto…
Theo traduziu o convite, a esposa sorriu.
– Tio, não queremos dar-lhe trabalho. De qualquer forma, temos reserva no hotel. Amanhã começaremos a limpar tudo isto.
Era melhor assim. Cortesias para o demo, ninguém ali parecia à vontade.
O Tio Panos não tardou a queixar-se da anca: seria impossível ajudá-los! E o trabalho que os dois tinham pela frente!
– Oh, oh, uma esfrega, filhos…
De resto, o Tio Panos não tinha a certeza se algum dos seus dois rapazes podia ajudar naquele biscate. A fábrica de conservas de Demóstenes, primogénito, Theo desconhecia-o certamente, abrira falência e agora «O bom do teu primo dobra a espinha nos pomares de nectarinas de Messara e de Asterúsia», terraplanando e metendo estrume, arrancando ervas de sol a sol, quando não colhendo e encaixotando, patrulhando (patrulhando sobretudo) carradas de turcos preguiçosos. O mais novo, Giannis sofria de um tipo raro de doença de pele. Pior do que isso, tinha asma e aquela maleita que nos põem tontos, por causa do ouvidos.
– Ah, Theo, aqui o clima gasta-nos a puta da vida. O melhor é não contares com ninguém para isto, filho. Aqui todos morremos antes do tempo, à conta deste sol, deste sal, desta pobreza infinita. Tu ao menos…
Theo fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ele e Larissa não vinham com pressa. Pretendia dedicar-se à memória do pai e da mãe, a única coisa que não podia ser disputada nem desbaratada, a única herança que valia todos os sacrifícios.
O Tio Panos escutou-o de olhos arregalados, sem ripostar.
«Sacrifícios? Que percebia ele de sacrifícios?»
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Em bom rigor, a cabeça também é uma casa. Possui áreas solares (salas abertas, varandas largas, jardins comunicantes, arrumos fáceis de localizar no tempo, sempre próximos da boca). Possui, por outro lado, as suas gelosias, os seus desvãos, corredores sombrios, portas e escadas interiores, possui caves, compartimentos imersos em nostalgia, lugares de noturnas e infantis e impartilháveis rememorações.
Theo teve de empilhar vários sacos de bagatelas no pátio. A ferrugem consumira grande parte da antiga armação de ferro que emoldurava ainda a ramada e o lugar do poço. Trabalhava sem pressa e sem descanso.
Logo na primeira manhã a mulher chamou a sua atenção para algo encontrado nos fundos do lagar de azeite, soterrado em camadas asfixiantes de serrim. Era uma gaida. A velha gaida familiar!
Theo passou devagar os dedos pelo corpo articulado do instrumento, sentindo com uma excitação assustada a pele de ovelha e a madeira.
– Meu Deus, este objeto vem de longe. Vem de há tanto tempo, Larissa!
Receava alguma escoriação, algum golpe, algum rombo fatal. Mas não. Miraculosamente a gaida permaneceu íntegra e intacta, submersa e protegida pelo entulho. Theo limpou o bocal e levou-o aos lábios. Depois pôs-se a soprar. O som que principiou (vindo das profundezas da casa ou das profundezas da sua memória) era poderoso. Theo sentiu-se recuar centúrias, ou mesmo milénios. Sentiu-se embalado em viagens de barco e atravessar caminhos empoeirados até aldeias de pastores, nos confins de uma montanha. Na lonjura espremida dos dias, aquele som era toda a sua origem, toda a memória da sua gente, da sua coragem, da sua errância, do seu fado. Aquela gaida, mais do que um objeto envelhecido, queimava como um vínculo, ardia como um vulcão acordado.
O fascínio de Larissa era o deslumbramento do marido, mas dificilmente podiam ser o mesmo sentimento.
– O meu pai recebeu-a em herança do avô. Nunca imaginei que tivesse ficado para trás.
Theo explicou a origem balcânica do instrumento, que parecia conter em si o ânimo de um guerreiro invencível e o lamento de um homem eternamente em crise. A toada, que a custo começou, tornou-se um fluxo, um jorro de angústia e de amor, uma manifestação de fé na vida e de veneração pela morte.
Larissa sentia-se subjugada. Que som maravilhoso no meio de tanto esterco!
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– O teu primo estica até aos cinquenta mil. Nem a casa vale mais do que isso.
– Não a vendo nem por cinco, nem por cinquenta, nem por quinhentos mil…
– Mas, filho, para que hás de querer tu manter de pé este tugúrio?
Não, definitivamente, o Tio Panos não podia compreender aquela estúpida decisão. Theo cortou, como costumava fazer o seu pai, a conversa.
– A decisão está tomada.
Larissa, que pouco entendia de grego, mas que compreendeu todo o diálogo, poisou a mão esquerda sobre a mão direita do marido e encarou com uma carga mal medida de desprezo as fuças do velho tio resmungão. Este sentiu-a, sem dúvida, porque (fincando-se na bengala) imediatamente se ergueu e se encaminhou para a saída.
– Bem. A nossa proposta é esta. Tu, claro está, faz como entenderes… Amanhã mesmo devolvo-te o molho das chaves.
– Não precisa. Todas as portas e janelas serão mudadas. As obras começam em breve.
– E os teus irmãos? Hão de querer por ela alguma coisa, não?
– Com os meus irmãos entendo-me eu. Não se preocupe, tio!
Pelo rosto de Panos Minakis pisou lenta uma sombra imensa, como a que as nuvens fazem na água quando as vemos da janela de um avião.
Então, sem mais palavras, deixou-os.
Theo sentia-se esplendidamente bem-disposto.
Acocorou-se e apertou a polpa dos dedos nas folhas de citronela do vaso que tinha diante de si. Agora que a casa se via desentupida de tudo quanto nela haviam depositado usurpadoramente, usando-a e confundindo-a com uma pocilga, via outra vez o desenho limpo de cada ação familiar. Podia até imaginar o sorriso galhofeiro da mãe, descendo ao pátio com as suas maravilhosas travessas fumegantes, com as suas saladas e as suas espetadas de cabrito. Podia ver a grande mesa que a ramada defendia do sol cheia de gente. Podia ver o irmão Filipos, à esquerda, com o cachimbo de meerschaum, dando grandes fumaças, enquanto folheava os poemas da Ritsos. Podia ver no lado oposto o irmão Andreas, a cardar a superfície pilosa da gaida, acariciando-a como à nuca de uma mulher. Podia ver à cabeceira o pai, Nikos Minakis, erguendo à luz clara de junho um jarro do seu melhor Kotsifali, «O vinho dos imperadores, meus filhos», dizia antes de o verter num dos copos de cristal que se tiravam do aparador em cada boa ocasião.
Eram uma família orgulhosa. E tinham razões para isso.
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O reflexo da luz sobre a água transparente do tanque foi a última imagem que Larissa fixou. Sentia-se bem ali. Mas agora tinham de voltar.
Em rigor nunca se deixa Creta. Os homens vão e voltam. Sós ou acompanhados, regressam sempre. Os gregos fazem culminar na chegada todo o caminho para a perfeição. Só atingindo de novo a soleira da porta paterna se compreende o movimento de sair. «Se Ulisses tivesse prescindido da última viagem, não valeria um dracma» dizia a mãe às vezes.
Theo e Larissa consultaram o painel eletrónico. Saíam por tempo indeterminado, convencidos, porém, de que algo novo tinha principiado. Para os gregos, todo o tempo é uma oportunidade de começo.
Ao rodar a gazua na porta principal, o mais novo dos Minakis sentiu o que sentem os filhos empossados de uma missão: nostalgia, arrependimento, esperança e uma dose necessária de soberba. Era de si que precisava a casa. De si e de obras, de gente nova que a continuasse, da gente velha que a não deixasse morrer.
No interior de um saco magnífico de couro italiano, Larissa transportava a primeira memória que aquele lugar fabricou: também na Rússia havia pastores e montanhas e camponeses tresmalhados pelo horizonte. Também na Rússia se chorava de saudade, quando se encontrava, fortuita, uma brecha no destino.
«Não desejes o que não sabes encontrar, não busques a fonte do que não podes compreender. Uma âncora desce da tua alma para que não se te confundam os olhos, não te ensoberbe a língua, não se te tresmalhe a razão.»
Sem grande esforço, o noviço ia traduzindo do latim as palavras piíssimas de São Germano, desatento a anacronismos como o da âncora que o eremita jamais poderia ter usado como metáfora, se por inventar se encontrava o mecanismo. Não era mau traduzir. Noutro século teria ele de replicar aquelas palavras medievas, enchendo com laboriosa e abnegada e infatigável mão o seu pergaminho no Scriptorium de todos. Precisaria de uma pena de ganso, e de tinta avonde, e de arte de desenho. Agora bastava-lhe um dicionário e uma certa capacidade equitativa de disfarçar bocejos e de provocar à sorrelfa os outros irmãos.
Porque raio lhe atribuíra o mestre um dos velhos não fazia ele ideia? Seria punição, ou má vontade, possivelmente ambas. Só por castigo se obrigava alguém a mergulhar num discurso tão resseco (ou recesso, tão insosso, tão ressentido) de um homem que via, que ouvia, que pressentia Deus no brilho da mica, no farfalhar das árvores, no hálito dos lobos, mas que desconfiava do sopro sulfuroso das minas, do sibilar das ervas e, sobretudo, do olhar das mulheres.
«Porque diabo o prazer pode ser tão mau, se tudo o que a ele diz respeito se parece tão dúlcido, saboroso e vivo? Tão próximo do maravilhamento e do êxtase divinos?»
O moço fazia perguntas, mas mantinha-as bem calafetadas na cabeça. Não eram sequer perguntas. Talvez desabafos, corredios pensamentos, entoações da sua retórica juvenil já ornamentada. Nada que uma careta ocasional, vinda de um dos cantos da grande sala, logo não abafasse e lhe provocasse um ar de contidíssimo riso.
«Não cobices o esterco do mundo.»
De quando em quando, as palavras do santo iam longe de mais.
«Não macules a nívea candura da tua alma com os pífios apetites da carne.»
Traduzir era o seu forte. Mesmo se tropeçando, como acabámos de notar, em pleonasmos. O moço cismava na forma libidinosa de certa rapariga morena que todos os dias o ia espiar, para lá das grades do claustro. O bater do coração era então um rufar de sangue. Porque havia de ser mau, perverso, pecaminoso, amar?
Traduzia sem esforço. Enquanto o fazia, as palavras iam e vinham. Dificilmente ficavam.
Dezembro verte uma fina camada de vidro sobre as casas. Em toda a parte doem os nós dos dedos e os ossos. Páraic levanta as golas do sobretudo e sai da taberna. Na Irlanda, a lua cheia é neste mês uma presença transfiguradora: os telhados e chaminés húmidos das aldeias, os bosques e rios atafulhados de velhas divindades mágicas, os promontórios cheios de espuma lá em baixo, tudo para onde o nosso olhar se dirige espelha uma majestade que as palavras não sabem dizer, tal como acontece nos sonhos. Páraic vê nessa iluminação (e em nenhum outro lugar mais do que nela) a presença antiga e visceral de Deus. Não o entendem.
Desde que abandonou o mosteiro (porque foi monge este Páraic O’Reilly), escreve, bebe e às vezes ensina. É vagamente o que se imagina ser um poeta e sem dúvida o homem mais só em todo o condado de Clare nesta noite solsticial de vinte e três, ou vinte e quatro.
Emborcado o último gole da última cerveja em Killarney, toma a resolução. Vem caminhando perpendicularmente ao bojo negro da Catedral de Santa Maria, onde os coros locais ensaiam já, ou ainda, cânticos de louvor ao que nasceu e ao que há de nascer nesta data. Páraic mete-se no carro e arranca para norte. São duas horas e meia, a andar bem, mas vale a pena.
Aqui viveu a infância, aqui vive ainda a melhor parte de si. Páraic sente o formidável cheiro do mar misturado com o do campo. Ardem-lhe os olhos, a garganta também dá sinal de si. Não será por muito tempo. Encontra-se pertíssimo das falésias de Moher. A meia-noite não tarda. Calculou com minúcia cada etapa da viagem. Abandona o automóvel num estradão, espiado somente pelo olhar atónito das corujas, e avança em passo firme até ao extremo do penhasco onde ergueram a Torre O’Brien.
O revérbero lunar nas águas do Atlântico hipnotiza-o. A beleza das coisas não pode provar senão a magnificência do Senhor. Os homens deviam contemplá-la assim, amá-la sem limites ou subterfúgios. De nada serve rezar se não se compreende o encantamento da perfeição divina. Desde que abandonou a condição de monge, foi-lhe ministrada por completo a lição mais dolorosa da sua vida: os caminhos do Senhor são, não apenas insondáveis, como sobretudo paradoxais. É um eremita, um pária, e conhece melhor do que ninguém o significado da busca de redenção, agora que passou à vida secular e se sente odiado por toda a gente.
Lá ao fundo as ondas fosforejam, o vento glaciar empurra-o, todos os seus sentidos o impelem a seguir em frente. Liscannor oferece passagens excecionais para o outro mundo: um passo avante e será um salto, duzentos metros de voo e o fim de todo o seu suplício.
Mas é, então, sugado para o âmago de um círculo de fogo. À sua volta, à meia-noite em ponto, uma claridade terrena acende-se como por milagre. São fogueiras altas, deflagrando desde as escarpas de Doolin, a norte, até aos promontórios de Baile an tSéipil, a sul. Páraic ouve, de chofre, um cântico levantar-se, nascido na garganta de centenas de mulheres que ali de súbito, será um prodígio, surgem do meio das trevas, vindas do nada.
É uma festa pagã, um ritual de que ouvira falar uma vez há muito, mas em que não acreditara. Talvez em honra de Dagda (deusa da sabedoria), ou de Fand (deusa do mar), ou de Tan Hill (deusa do fogo), ou de Arianrhod (deusa do lar), ou quem sabe de Aine de Knockaine (fada do amor e da fertilidade). A vozearia multiplica-se com o rufar de tambores e guizos e ululantes saudações ao inverno que chega.
As mulheres dançam frenéticas, percorrem o manto esverdeado do litoral e atiram os braços à lua cheia. Depressa engolem na sua roda Páraic, apertam-no contra os seios e as coxas, beijam e acariciam-no. Trazem-no de volta à vida para que nelas produza a vida. Esta, insuflado por uma espécie de êxtase orgíaco, cumpre. Cumpre com todas as suas obrigações, não sabe como, nem com quem. Dizem que nessa noite gera setenta filhos.
Evidentemente que as lendas mentem. Do sémen de Páraic O’Reilly vêm ao mundo, quem sabe, sete, três, um filho, talvez nenhum. Setenta, juram por cá.
Quando entrou na igreja do Sacré-Cœur, em Paris, na tarde de 21 de abril de 2011, Quinta-Feira Santa, Samwell Lodge, empresário norte-americano, oriundo de Orlando, sentiu um aperto no peito. Possuía de algum modo a certeza de ter vivido já aquele momento: sabia que o Cristo dourado, sob a abóboda azul, lhe roubaria todo o amor; sabia que o coro das freiras beneditinas, durante o ofício religioso, o transtornaria até ao fundo da alma; sabia que a cerimónia do lava-pés iria despertar em si uma vontade incomensurável de lavar-se de toda a sujidade.
Com efeito, a vida tornara-se-lhe insuportavelmente cansativa e vulgar. Todas as ambições, que alimentou durante a juventude, pareciam-lhe agora profundamente ridículas. Todas as conquistas, sobretudo as mais difíceis, pareciam subsumir-se num desastroso sentimento de tristeza e de banalidade. Disto se deu conta certa noite, quando ao regressar a casa ouviu na rádio Brian Ferry cantar My only love e lhe pareceram escritas para si as palavras da canção:
Does it seem so funny For a fool to cry? Do you know the Meaning of goodbye?
Na primavera de 2011 viajou para a Europa, à procura talvez do que procura um fugitivo: de um antro, de uma qualquer espécie de abrigo, de um cisma, de um sinal, de um fim, de uma conversão…
Enquanto, nessa tarde de abril, assistia à missa, recordou as três mulheres de quem se divorciara, os filhos que o não amavam, dos pais anciãos com quem não falava havia quase um quarto de século. Pela cabeça passaram-lhe os detestados colegas de negócios, as falácias em que persistia ao cabo de tantos anos, os golpes de mestre e os de misericórdia. Tanta gente, tanto ódio, tanto tudo!
Tarde quente essa. Tinha a certeza de que passara já por aquele instante. Nesta ou noutra vida, definitivamente não era só um déjà-vu, nem um sonho coincidente com a realidade. Acicatava-o a dolorosa convicção de que toda a sua existência afunilava desde sempre para ali e para o que dali em diante se seguiria. Doía-lhe o coração. Lutou contra as lágrimas, mas o cheiro das velas acesas, milhares de flâmulas espalhadas pelo templo, fê-lo chorar. Avivou-se nalgum imo obscuro dentro de si a recordação do futuro, esse pressentimento impérvio, incógnito, difuso, de que ele ou alguém que ele reencarnava ali regressava. Como podia isso ser? Como podemos nós voltar a um lugar onde nunca estivemos?
Ao seu lado, no banco, um jovem casal sussurrava. Ambos de pele clara, olhos verdes e cabelos aloirados. Pareciam felizes, unidos por um laço de ingénua satisfação. Também eles miravam com fascínio (lia-se bem nos olhos) as rosáceas, o Cristo Ressuscitado, o altar de mármore travertino, o estranho rito quaresmal.
O cântico das monjas ecoava outra vez, feérico, pela nave ampla e luminosa. Depois, o padre repetiu cheio de veemência as palavras de João:
– Je vous donne un commandement nouveau : Aimez-vous les uns les autres ; comme je vous ai aimés, vous aussi, aimez-vous les uns les autres.
Um pouco antes do crepúsculo o americano saiu.
Do alto de Montmartre caía sobre os céus de Paris uma poalha luminosa, cor de fogo, trespassada apenas pela silhueta pontiaguda das grandes torres e dos prédios descomunais. Perscrutava-se uma paz imensa, um silêncio incomum, interrompido ao de leve pelo trissar das andorinhas, pelo murmúrio da cidade, pelo altear ocasional de uma voz em volta.
Samwell Lodge desceu devagar cada lanço da escadaria imensa, reparando em cada um dos artistas que nesse esconderijo pintam, cantam, escrevem e filmam. No funicular passava o jovem casal apaixonado. O americano sorriu.
Em muito tempo, nem ele saberia dizer quanto, era a primeira vez que o fazia.
Era um pedreiro quase analfabeto, originário de uma das aldeias mais recônditas de França, daquelas que vemos poisadas como ninhos de grifos nos píncaros das montanhas. No entanto, as suas mãos cortavam, cinzelavam e ornavam os blocos de granito com a prodigiosa sabedoria com que os autores escrevem tratados.
A catedral precisava de obras, por isso, de mãos como as suas. Subiu a um lugar tão alto que nele não se podia caminhar sem o poderoso mal das vertigens. Ficava no campanário, acima do vigamento e dos sinos. Aí, mal disfarçada por teias de aranha, lia-se a seguinte inscrição:
LUCIUSC RECTOR FABRICAE
ANNUS DOMINI MCLXIII
Não compreendeu o que dificilmente podia ler. Também pouco diziam as duas linhas abertas com o escopro. Nelas apenas o nome daquele que no passado conduziu os trabalhos de construção do imponente e maravilhoso templo – outro montês e iletrado, a quem o tempo destruiu o rasto.
Visto do alto, é um telhado de quatro águas caindo para um pátio interior (o implúvio), onde neste preciso momento se encontra Vulca, a observar fascinado um grande pássaro negro a não mais do que dez passos de distância.
É o primeiro dos oito dias da semana, dia de mercado, e Vulca aguarda visitas em casa. Como este, assistiu já a mais de meia centena de meses inaugurais do calendário etrusco, contado das neves em diante, das neves que Voltumna faz precipitar amiúde sobre Veios, cobrindo-a de uma branquidão tão bela e tão imaculada que o artista nunca deixa de se comover. Os deuses conhecem os segredos do mundo e os homens podem também intuí-los, em parte pelo menos, se não lhes faltarem a inteligência e a atenção. Tudo está à vista de todos: a natureza, mesmo as dos mortos, pode revelar-se, desde que a saibamos sentir, compreender e amar profundamente.
Vulca está intrigado.
Um pouco depois da primeira hora do dia, quando o sol atinge o zénite, vê uma revoada de corvos a descrever, em completo silêncio, círculos perfeitos no horizonte. A seguir, um deles separa-se do grupo e vem poisar na mão direita da grande estátua de terracota que virão de Vetulónia buscar. Trata-se de uma imagem em tamanho natural de Apulo, encomenda de que se ocupou nos últimos meses e onde empregou todo o seu talento indiscutível: o deus caminha em pose majestática, coberto por finas vestes que enrugam com o movimento; um pilar decorado com palmetas e um serpentar de círculos opostos e concêntricos (como esses simétricos) ergue-se do pedestal em direção ao corpo, travando-lhe o passo; longos cabelos frisados e entrançados (à maneira oriental) caem-lhe pelas costas e sobre os ombros, intersecionando-se com as pregas do manto. Na mão esquerda segura uma lira (prova de que na Etrúria se continuam os mitos gregos) e agora na mão oposta (que deveria mostrar um dedo altivo, indicador da estrada solar e das artes, e também do destino) o funéreo animal.
Vulca está ao corrente da arte dos auspícios. Sabe que o adejar, o crocitar e o olhar dos pássaros é um modo de as divindades nos ditarem mensagens, ensinamentos ou profecias, porventura inalcançáveis no seu todo. Quando a mulher, Athínia, abre uma das janelas do piso superior, a ave assusta-se, bate as asas e foge em direção ao poente. Presságio infausto, indício de que algo doloroso vai encontrar em breve na jornada da vida.
Dos dedos e dos fornos deste artesão saíram vasos e inumeráveis estatuetas, urnas cinerárias e relevos, em bronze ou barro, muitos deles representando Vanth, o demónio da morte, Carunos sovando as almas acabadas de embarcar para o reino de Aiter e de Phersipnei (outros chamar-lhes-ão Hades e Perséfone), mas jamais o fim lhe pareceu tão seu, tão cruamente exposto, ou tão certeiramente revelado como agora. Tem a certeza de que vai morrer, não um dia, mas proximamente, talvez amanhã ou daí a uma semana, quem sabe se na próxima lunação ou no ano que virá.
Tínia, divindade dos céus, ou Fébruo e Leinth, senhores da morte, ou o próprio Apulo, ou algum deus oculto, ou todos juntos, enviaram-lhe esse recado: um corvo é um sopro impossível de ignorar, ainda que sem o habitual grasnar sombrio, sobretudo se a sua pupila dilatada nos mira com a intensidade de uma pua: deve, portanto, preparar-se.
Tardam a chegar de Vetulónia.
Vulca lança mão às coisas de que sempre se serviu para trabalhar. Não pode quantificar o tempo que lhe resta, nem quer esbanjá-lo. Um pensamento acaba de o acometer: seria a sua ou a morte de Athínia a que viera anunciar o agoirento animal?
Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas. Mais insuportável do que morrer é sobreviver a uma catástrofe, e nenhuma maior do que a de perder alguém que muito se ama.
O firmamento empalideceu.
Uma cortina álgida cresce sobre os céus da cidade, sobre os telhados de Veios, sobre a cabeça encanecida deste homem que dirá de si para si que o calendário pessoal principia com o dia inaugural de qualquer facto violento e insuportável. Pode-se começar a viver ou a morrer nesse dia, ou ambas as coisas.
Vulca desenha numa tabuinha. É um sarcófago.
Um dia, saído da terra (como Tages, a criança divina), os homens passarão a polpa dos dedos e o olhar estupefacto por este túmulo. Hão de dizer que em mil anos de história deste estranho povo da Itália nenhum outro tesouro se lhe compara. Sobre o tampo, à maneira de outros tantos túmulos etruscos, abraçam-se as figuras de Vulca e de Athínia. No meio de ambos, sobre um curto ramo de loureiro, um corvo desfere sobre nós o olhar.
No interior das suas pupilas, algo nos prende. O quê, ninguém o diz.
Ruggero Montefforti foi batizado no dia 22 de novembro de 1925, com apenas três dias de idade, na pequena igreja medieval de Santa Cecília, em Chizzola, localidade alpina pertencente à comuna de Ala, na região de Trentino-Alto Ádige. A sua morte prematura era um dado adquirido no seio familiar, pelo que a devoção à santa mártir de Roma, padroeira da música sacra, prosperou.
No princípio da adolescência, Montefforti trocou Ala por Cremona, para ingressar na oficina de um tio materno, Gianluca d’ Oglio, reputado luthier, de quem aprendeu quase tudo o que sabe em matéria de fabrico de instrumentos de cordas, escolha de madeiras, perícia no desenho e no corte, firmeza no desbaste e no polimento, domínio de soluções e vernizes, tempos e técnicas de secagem, apuro auditivo.
Casou no final da Grande Guerra com Stefania Pasquarelli, três anos mais nova, de quem teve catorze filhos, todos natimortos. Enviuvou aos quarenta e dois, justamente aquando do último parto da mulher.
Quase centenário, mantinha o porte cavalheiresco. Todos os dias de manhã passeava pelas margens do rio Pó, impecavelmente trajado de fato, colete e gravata. Encontrava-se com os amigos no Bar Ai Portici, onde lhe serviam um café acabado de fazer e o seu torrone de amêndoa, nozes e avelãs. Perdeu a conta aos violinos, violoncelos, baixos, violas de gamba, violões, tiorbas, guitarras, alaúdes, harpas, liras, até balalaicas, cítaras e pianos em que trabalhou, toda uma floresta cantante, que intérpretes famosos, como Jordi Savall, Anne-Sophie Mutter e Christina Pluhar usam, guardam e têm entre os seus bens mais preciosos.
Na manhã do seu octogésimo quarto aniversário, o senhor Montefforti sentiu uma espécie de chamamento. Dias depois, na companhia de um sobrinho-bisneto, viajou até à terra natal. Visitou os lugarejos que a memória lhe devolvia ainda nítidos. Depois seguiu viagem para o Vale de Fiemme, em direção à floresta de Paneveggio. Aí, no coração do Trentino, sentiu como na infância o frio das Dolomitas, o rosto fustigado pelo vento gélido, os pulmões abertos pela corrente sem mácula de milhões de espruces ondulando. Veio por eles, pela madeira prodigiosa destes abetos vermelhos, que desde Stradivari enche as bancadas de todos os artesãos de Cremona.
Ruggero Montefforti soube sempre que a escolha das árvores deve ser meticulosa. As melhores têm delicados anéis concêntricos, finas fibras elásticas, pequenos canais linfáticos ressoantes. Devem ser cortadas nos meses que antecedem o solstício de inverno, evitando a abundância de seiva. «Só a mais perfeita das árvores pode oferecer ao liutaio mais experimentado o instrumento que há de servir para glória e génio do maior dos artistas» reza o credo da guilda a que pertencia.
Durante anos, sem se apressar, o velho Montefforti quartejou os troncos de abeto e de bordo trazidos do norte, avaliou-lhes com inusitado escrúpulo a humidade e a porosidade (acariciava as pequenas tábuas saídas do corte, levava-as ao nariz, encostava-as ao ouvido, enquanto se punha indagativamente a tamborilar nelas). Depois, com gestos calculados e com a ajuda de um compasso fez curvar e contracurvar a ponta certeira do lápis sobre cartão. Farto de imitar Giuseppe Fiorini, Leandro Bisiach, Annibale Fagnola, Ansaldo Poggi, Montefforti esmerava-se na criação de um novo molde, original, ousado, único. Este exercício levou-lhe semanas. A seguir, apertadas as tábuas nos pequenos tornos, serviu-se de um velhíssimo serrote de cabo, usou tupias e fresas, fez deslizar sobre a superfície rugosa plainas e goivas, aplacou arestas e veios escuros com grosas e lixas, tingiu a alvura lenhosa com trinchas e pincéis. Quando aplicou à madeira uma mistura de claras de ovo, mel e goma arábica (de molde a suturar os orifícios mais minúsculos), já alguns dos seus amigos diletos lhe anteviam o fim, tal era o seu definhamento.
Em que gastava ele o tempo?
Na construção de um violino. Não de um violino, mas do violino, do derradeiro, do mais primoroso, da sua obra-prima, de um legado por excelência.
Com dedos trementes, Ruggero Montefforti ia conferindo uma e outra e outra noites a maciez do tampo, a robustez do braço, a firmeza do cavalete, a acuidade do afinador e da cravelha, a respiração do arco, o equilíbrio e harmonia das cordas. Comovia-o profundamente a sensação de que naquele corpo repousava em simultâneo uma grande angústia e uma grande paz, um movimento de irreprimível sensualidade e um apelo à mais pura das castidades. Era um violino belo, muito belo, maravilhoso. Com dentes trementes Montefforti pôs-se a tangê-lo: do fundo da madeira transformada (tornada música sublime), repercutiu todo o sentido da sua vida longeva. Sentiu saradas as mágoas longínquas, a dor da vasta descendência que a natureza e o destino lhe sonegaram, a tristeza e a saudade da vida desvivida. Se de outro modo não podia deixar quem por si falasse, deixava um violino que por si era uma forma de falar. Chamou-lhe «Rinascita».
No primeiro dia de janeiro, sobraçando um estojo, dirigiu-se à Piazza del Comune, onde confraternizou com os amigos. Depois encaminhou-se sozinho para a catedral. Aí, diante da alta torre que assinala o poder de Cremona, fez ressoar a majestade da sua criação. Olhos emudecidos puderam contemplar e ouvir a veemência com que Ruggero Montefforti agradecia a todos, a Deus, a Santa Cecília, a Stefania, a Cremona, à sua terra natal, aos amigos e inimigos, tudo quanto foi. Era, de facto, um renascimento.
Pediu que entregassem «o seu último filho» na Piazza Gugliemo Marconi, no museu onde muitos outros dos seus trabalhos repousavam já como referências absolutas da lutherie. Tinha 94 anos. Morreu a tempo de evitar a grande peste dos nossos dias. Dificilmente se poderia imaginar uma mise en scène mais soberba.
No alto de uma colina, fora do perímetro da vila, escorraçadas pelas muralhas pedregosas do grande castelo mandado erguer por Fernando, rei de Leão, restam de pé – ainda que votadas ao abandjono dos homens (sem teto, portas, vidros ou vitrais, sem espécie alguma de madeiras, soalho, mobílias, figuras de santos, anjos ou pombas sacramentadas, sem dignidade eclesiástica ou profana) – as paredes vazias, românicas, da igreja de São João Extramuros.
São um escombro.
No outono, as neblinas passam o umbral e o pórtico escancarado, sem mirar a arquivolta, perpassam nos interstícios de granito, revoluteiam no interior frio e silencioso, saem por onde outrora existiram um caixotim, um travejamento sólido de pinheiro ou de carvalho, onde telhas poisavam, apertando-se umas sobre as outras; defenestram-se depois as neblinas pelo olho aberto das frestas nuas e se alguém ali contempla o espetáculo daquela solidão, vê-las-á errar novamente pelos ermos da colina, perguntando «Onde está a gente deste lugar?», «Como permitiram tão descuidada ruína?», «Porque matam outra vez João Batista, envenenando-o de desgosto?»
Marzagão é longe.
Na primavera os pomares acendem-se de uma alvura comovente, capaz de arrancar aos poetas mais empedernidos e citadinos exclamativos versos de admiração. O castelo e a desmoronada igrejinha adquirem uma feição simpática. De quando em vez vêm aqui um fotógrafo, um historiador, uma jornalista. Lá se mostra de novo ao país o perdimento, o estado escandaloso do que bem podia ser uma atração turística, a vileza do assim se achar tão desconservado o património comum.
Mas as primaveras voam com as retornadas andorinhas.
Depressa as estações circulam, vai-se o verão, voltam as neblinas de outubro, as bátegas de novembro, o silêncio. Pouca é a necessidade de aqui virem os de cá, menor a dos forasteiros, nenhuma a dos homens do poder. Dir-se-ia, de resto, que não podem o vento, a chuva, a neve, o sincelo, o gelo, estragar mais do que já fizeram no curso do tempo. O que aqui ficou é o dente obstinado na boca de um velho, é só um restar de memória, um travo da piedade de antanho, uma minudência mais no quotidiano de uma província toda ela ameaçada de morrer.
Não há mal que não encontre uma surpreendente continuação.
Sucede que um automóvel furtivo veio pela mesma estrada por onde outros não vieram. Enganou-se numa saída da autoestrada e depois deixou-se ir. Conduzia-o um estrangeiro, um curioso, um homem de longe. Ia, vinha, voltava à direita, parava, engrenava a marcha à ré, volvia à esquerda, prosseguia. Aqui, ali, além, disparava a máquina fotográfica, tirava apontamentos, fazia rasuras num caderno confuso, desenhava a trouxe-mouxe às vezes uma torre, esquemas, ideias e tudo muito circundado de círculos e setas.
Era um argumentista.
Sucede que parou o carro nesta mesma linha de paralelepípedos onde ficou a nossa anterior indignação. Imobilizado o veículo, subiu o homem ao castelo, flanou pelas ruelas tortuosas que sobem para os torreões, deslumbrou-se com a paisagem aberta e ampla, alongando-se infinitamente até ao azul cada vez mais ténue das montanhas de Alijó, do Pinhão, de São João da Pesqueira, de Vila Nova de Foz Coa, de Torre de Moncorvo, de Vila Flor ou Alfândega da Fé, sabe-se lá até onde mais. Opostamente à cidade, onde se vê gente e não se enxerga pessoas, ali observava toda uma humanidade sem lobrigar vivalma.
Quem procura uma coisa e outra coisa encontra não é propriamente um descobridor.
Chama-lhe serendipidade ou serendipismo o dicionário e podia chamar-lhe o que quisesse, contando a salvaguarda da felicidade de se achar uma coisa a bem e com tempo. O homem municiou-se das anotações que quis, foi e voltou. Consigo trouxe gente. Primeiro a que devia desbravar caminho: o realizador, o diretor e assistentes de fotografia, a malta do dinheiro. Depois condutores de camiões, técnicos disto e daquilo, engenheiros de som, cenógrafos e costureiras, aderecistas, maquilhadores, o elenco.
Durante semanas a magia do cinema embusteou, capeou, disfarçou.
Completaram-se as paredes, vieram carpinteiros para as vigas, assentou-se o telhado, colocaram-se quícios e madeira em todos os portais, puseram vidros nas aberturas, fez-se o assoalhamento e a mobilação, impôs-se um altar no transepto, vieram figuras (duas, em particular, mostrando o grande pregador anacoreta batizando Jesus no rio Jordão), vieram castiçais, panos, paramentos, a Bíblia. Mas tudo de madeira prensada, de gesso, barro e alumínio, tudo plástico e de cartão, tudo de empréstimo, frágil e de fazer de conta.
As filmagens fizeram-se.
Simulou-se uma grande batalha medieval, com reis e exércitos inimigos, amores, ódios e insídias, gente leal e pérfida, aristocratas opressores e oprimidos camponeses. Iam captando as câmaras o incompatível mundo da ficção. Durante semanas foi um ramerrame de «atenção», «ação», «corta», um dinumerar de «takes», um sem-fim de transeuntes desejando autógrafos, um desfilar de forças de autoridade, um entra-e-sai de secretários de estado, vereadores, cónegos, presidentes deste e daquele instituto obscuro, de notáveis do ramo hoteleiro, de representantes da confederação á e da escola superior bê, da cooperativa agá, do grémio capa, das empresas xis, ípsilon e zê.
Depois foram-se todos embora.
Levantaram ferros e contraplacados, confiscaram o recheio de aluguer, esvaziaram o espaço até voltarem (ao seu estado de esqueleto) as paredes descarnadas. Regressou o silêncio ao cimo da colina, voltou o inverno a invadir sem oposição os frios destroços de granito da igreja abandonada. Bom seria que o aspeto íntegro dos grandes planos feitos pelos operadores de câmara correspondesse à verdade. Quem olhava o pobre templo devolvido à sua decadência não podia impedir-se de muito lamentar. «Porque não vêm cá os tipos de Lisboa?», «Como não ver isto?», «A que se deve tamanho desprezo?», «Antes nos governassem os estrangeiros?»
Um facto insólito deve ser acrescentado.
A partir dos idos de dezembro, dia de Santa Luzia, sucederam-se em Marzagão relatos de vozes e misteriosos sons noturnos: choros, imprecações, relinchos e galopes. «Os mortos acordaram» espalhava-se, «Despertou-os o bulício das gravações cinematográficas», «As almas estão ressentidas, por causa das estelas funerárias partidas, por causa das tumbas esventradas», «Deus castiga quem assim deixou a sua casa ao prejuízo dos séculos».
As aldeias são férteis em cenas imaginativas.
Dizem na noite de Natal, crescendo para lá e para cá das muralhas do grande castelo ermo, se escutaram cânticos, que coros altíssimos, a coberto da escuridão, faziam ressoar nas pedras frias. Dizem que uma grande claridade riscou o céu e que, súbita, dentro da igreja arruinada de São João Batista, deflagrou uma luz maravilhosa, como um incêndio, e que por entre as sombras das grandes árvores em volta passos e silhuetas de pessoas e animais subiam na sua direção.
É um prazer que guarda desde a infância. Todos os anos no dia do santo patrono, cumpre o ritual de se passear pelos corredores do Rijksmuseum, de abrir para o passado esta janela imensa que Jan Steen pintou, de se intrometer na cena familiar da noite de São Nicolau, de se divertir com o ar choroso do garoto malcomportado (também ao seu irmão mais novo trouxe “Pedro Negro” certa vez carvões em lugar de presentes), o ritual de se enternecer com a alegria dos rostos de outrora, ávidos como ela de vida, embora felizes. Saskia contempla a obra-prima, procurando nela adivinhar o bom aroma do gengibre, as ondas de calor da casa, o som que as velhas senhoras fariam para animar as crianças.
Mais do que uma visão, mais do que um retrato de época, é todo um aconchego o que ali se guarda. Saskia sente, nos minutos preciosos que reserva todos os anos no dia 6 de dezembro, uma espécie de labareda a vibrar dentro de si. É um despertar, como quando as ruas gélidas da cidade vão dar a café animado. Como quando escuta jazz e as suas mãos retomam um desvelo saudoso por Aiden, o seu marido há quase três décadas.
Quando abandona o Rijks, gosta de sentir na pele o ar frio de Amesterdão. Sente-se de um modo muito particular rejuvenescida. O dia de São Nicolau é o prenúncio do Natal que aí vem. Apetece-lhe patinar, pôr-se ao lume numa velha cozinha, preparar doçarias. Aiden deixou de se importar com estas tolices momentâneas.