. Duas vezes por semana vinha Nicolau Balestra a cambalear ao longo da linha do comboio, muito bêbedo, muito zangado com o governo, muito capaz de tirar o cinto das calças e de começar a espalhar amor pela casa, vergastando indiferentemente um dos dois rapazes ou uma das quatro mocinhas bonitas de tranças loiras, que …
O cemitério
. O cemitério paroquial de Ancohuma, na província boliviana de Larecaja, situa-se a mais de seis mil metros de altitude. Pese os nevões contínuos que se abatem sobre ele a maior parte do ano, aí celebra-se a vida como num campo de girassóis. No lugar onde cada mulher e cada homem da aldeia foram sepultados …
O ninho
. Todos os anos no primeiro dia de janeiro, Artur Bentino punha as suas notas de conto a soalhar, presas por pedrinhas brancas no parapeito da janela alta do quarto. Às vezes chovia e então esperava mais algum tempo até o sol de começo de ano poder acariciar o papel. «É para dar sorte» explicava …
O fradinho
. Embora estivesse acostumado à solidão, o velho frade agostinho gostava de descer ao povoado de quando em quando. Fazia-o uma vez por mês. Nessa altura saciava-se de conversa, bacalhau frito, imagens do mundo capazes, no regresso, de alancarem consigo e com o asnozito serra acima. Era o último da congregação. O mosteiro, tomado de …
Vim até cá acima e fiquei
Fico e às tantas fecho os olhos. Às tantas as coisas fluem, as coisas vêm-me involuntariamente à boca, as coisas passam-me diante as retinas, atiram-se-me à nuca, coisas como os murmúrios da avó Amélia, coisas como o cheiro triste da murta nos dias que se seguem ao Natal, coisas como a castidade absoluta das suítes de Bach, coisas como a maciez dos seixos, como a cor fulminante do papel debaixo dos versos de Camões.
A igrejinha do perdão
. Há invernos em que o ermo alcantilado e a pequena igreja de São Benedito não se veem por causa da neve. Ela suavemente mergulha do céu níveo e negro, cai durante dias e semanas, fina camisa de camadas frias, lentas e insonoras, até desfigurar por inteiro a paisagem. Os habitantes de Reosa-Romano persignam-se na …
Crónica dos dias que vão
. Um dos meus maiores medos começou há uns tempos, subtilmente, numa das conversas em família à hora do jantar: disseram-me que nesse dia fora a sepultar a última das saboeiras da freguesia. Não era do meu conhecimento que tivesse havido fábricas de sabão e saboeiras na terra, por isso senti uma puada cá dentro, …
Da crónica dos lusitanos
. Muito tempo se acreditou na existência de um livro chamado De Bellīs Lusitaniae, composto por um tal de Cesarino de Arábriga nos meados do primeiro século da nossa era. Dele pôde, por fim, encontrar-se fragmentos inequívocos, um dos quais registando no latim triunfante o desabafo emocionado de um autor autóctone anónimo, se de um …
Uma espécie de autoridade
. «No espaço de uma aula espera-se que um professor saiba, queira e possa ensinar e que um grupo de alunos possa, queira e saiba aprender.» «Tudo o mais é admirável, decerto indelével, muitas vezes possível. Tudo o menos deve ser contraposto, esmagado com violência, como se esmaga uma barata, e varrido para o caixote …
Nunca digas «Deste vinho não beberei!»
. Vivemos hoje num estranho mundo em que os vizinhos se olham uns aos outros com ar ciumento e com aquela expressão “Vós é que a levais boa!» É o resultado deplorável do desconhecimento que mantemos sobre as casas alheias. E, nesta matéria, ninguém é mais vítima deste desconhecimento recíproco do que o Padre Inocêncio. …
Um milagre
. Nesse ano de 1371, ou 1372, ou 1375 (as crónicas incoincidem), um grande nevoeiro estendeu as suas mortalhas sobre a aldeia de Santa Chiara d’Oro, isto nos começos de fevereiro, ou de março, ou de maio, e tendo-a inteiramente coberto no que nela cabia (bosques, campos, o mosteiro das monjas, os casebres tortos de …
O choro dos mortos
. . Numa pequena povoação entre o Camboja, o Laos e o Vietname, os montanheses têm por costume pendurar no alto das árvores um insólito instrumento constituído por longos emaranhados de fibras atados por tiras de couro e presos a uma espécie de cravelha, que os nativos constroem abrindo orifícios em ossos de tigre ou …
História do Padre Angélico
. Saiu de Fiumicino em direção à Sicília, como faz todos os anos. Entrando no vulcão, cujo cone fez o tempo parcialmente derruir num amontoado de lixo basáltico, põe-se a alisar o solo cinzado e sujo onde, com a ajuda de uma vara, faz perfurações para nelas sepultar bolotas de carvalho vermelho. Lança-lhes um gole …
Questões sobre o riso e sobre o humor
. – Há precisamente cinco anos dei uma gargalhada – disse assim de repente, sem mais nem quê, o meu sócio. – Eu há sete que o não faço – atalhou o meu outro sócio. – Sete anos, cinco meses e vinte quatro dias. Quase sete anos e meio! Frases como estas aborrecem-me. Nunca sei …
Oblívio
. Sobre a cómoda ficaram a caixa de madrepérola com os medicamentos por tomar, a pagela da Sagrada Família, os sobrescritos fechados com as contas, o branco sujo do pó. Cristo continua pregado na cruz, o coração em sangue de Maria continua pingativo, o Santo António não se alterou, não se cansou, não cedeu um …
