Eugénio e a Foz

Foto de arquivo pessoal
. Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade.

Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas partes do Porto que o final do verão torna imprescindíveis, luminosas e enxutas como enxutos, luminosos e imprescindíveis são todos os poemas do autor de Os Sulcos da Sede.

Os jardins, o cheiro das algas e da água, a pedra branca e ardente de alguns antigos edifícios, o corpo generoso das árvores (em cuja sombra nascem estátuas de bronze e casais jovens perdidos de amor), o burilar da luz no vidro alto dos prédios ou nos rochedos húmidos em frente às esplanadas, o azul do horizonte e os navios ao longe cosendo horizontalmente o oceano e o céu lembram estrofes inteiras de Eugénio:

«Um dia chega / de extrema doçura: / tudo arde. // Arde a luz / nos vidros da ternura. // As aves, / no branco / labirinto da cal. // As palavras ardem, / a púrpura das naves. / O vento, // onde tenho casa / à beira do outono. // O limoeiro, as colinas. // Tudo arde / na extrema e lenta / doçura da tarde.»

Há muito que a Foz me fascina. Para ser preciso, desde que a descobri nos tempos de caloiro na Faculdade de Letras, desde que nela e por ela aprendi (seguindo em direção ao Parque da Cidade, a Serralves, ao Campo Alegre, ou então à Ribeira, à Sé, a S. Bento) a calcular a distância entre as diversas camadas temporais do Porto e a por elas calcorrear a literatura dos poetas e romancistas que a têm como ponto de chegada, ou de partida. Pisar o chão da Foz é gostar da escrita de António Nobre e de Raul Brandão, talvez também da de Manuel António Pina e da de Rui Lage. Cirandar pelo arvoredo do Jardim Botânico é reler Rúben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen. Apearmo-nos no Largo Amor de Perdição, junto aos clérigos, torna obrigatória a lembrança da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. E nos últimos anos já não consigo descer de Miragaia à Alfândega sem rememorar, por exemplo, Intermezzi, Op. 25 de Manuel de Freitas. De todos os cantos da Invicta, da Foz sobretudo (volto a ela), chega o eco nada distante das praias de Matosinhos e de Vila do Conde, o eco demorado dos poemas de Ruy Belo. Ou a serenidade da poesia de Albano Martins, vinda da outra margem do rio.

Mas é aqui, neste pedaço da costa, que a poesia mais se acende, em especial nesta altura do ano, iluminada pelo génio de composições como esta de O Sal da Língua:

«No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos / cantar com a chuva. / A criança voltou. Corre no vento.»

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Foto do jornal Público
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Agora as crianças correm de outro modo, montando perigosas bicicletas atrevidas ou serpenteando turistas com trotinetes, segurando às vezes o venenoso telemóvel que as desliga da realidade. Mas a Foz é delas, ainda. Delas e do vento. Dos salpicos de azul por entre metrosíderos e figueiras. Delas e dos muros amarelos que ladeiam o alcatrão. Delas e das gaivotas que poisam sobre os curiosos candeeiros em forma de tridente. Delas e do macio aroma da relva cortada (enleando-se no cheiro do pó e no cheiro a iodo do mar). Delas e da cor indecifravelmente bela das varandas tocadas pelo rútilo da luz, digo, do sol doirando o mar.

Também deste brilho (desta exultação) dá conta Eugénio, no poema «Mar de Setembro», do livro homónimo:

«Tudo era claro: / céu, lábios, areias. / O mar estava perto, / fremente de espumas. / Corpos ou ondas: / iam, vinham, iam, / dóceis, leves – só / ritmo e brancura. / Felizes, cantam; / serenos, dormem; / despertos, amam, / exaltam o silêncio. / Tudo era claro, / jovem, alado. / O mar estava perto. / Puríssimo. Doirado.»

Junto à estátua de Camões, o mar ainda sedutor de entre agosto e setembro sopra-me o seguinte pensamento: que bom que seria se estes e outros poemas de Eugénio de Andrade pudessem nascer dos canteiros floridos da Foz, ocupando – quem sabe em bronze ou pedra – o lugar sujo dos cartazes propagandísticos e publicitários que tanto a enfeiam. Não digo que se ponha de pé uma estátua ao poeta maior deste canto da cidade (tenho a certeza de que Eugénio havia de repudiá-lo). Contudo, seria um ato de justiça que ele fosse lembrado de uma ou de outra maneira. E a justiça, ainda que tantas vezes tarda, faz-nos bem. Eugénio merece-a.

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O castigo

Foto: Norbert Maier
Fotografia de Norbert Maier
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Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais a procurar refúgio no meio dos hortos ou dos poços, ou das grutas, ou das caves, ou das adegas húmidas. A Andaluzia é um inferno de junho em diante.

À noite, as janelas são escancaradas. A imensa massa de ar quente precisa de ser expulsa das paredes, dos recessos, dos sótãos, do interior dos armários, da própria alma. Sente-se uma quietude a que os forasteiros jamais se poderão habituar, mas que às gentes de cá confunde a mágoa de uma vida tão árdua. Para lá do lintel das portas ergue-se então um vasto mundo de sombras, de alcáceres, de castelos mouriscos, de montanhas, de ecos de batalhas que o tempo não apagou ainda.

De madrugada, não muito longe, aqui em Escañuela, ouve-se o acelerar de uma moto de alta cilindrada. Uma ou duas por vezes semana, este despudorado atravessa as ruas da aldeia e acorda quem tarde se deitou e cedo tem se levantar. Não contente com a velocidade, com o fazê-lo a desoras, com o ruído partido do cano de escape, nunca repete a trajetória nem as noites em que decide apunhalar o silêncio geral.

Na cabeça de Emilio Morales correm pensamentos assassinos. Imagina uma desforra, uma lição brutal, um exemplo para quem desafia o sentido da responsabilidade cívica e abusa da liberdade. Esta moto é todo o seu ódio de estimação. Há momentos em que ela se afasta e outros em que ela se aproxima. Em todos, o cano de escape parece soltar, além de fumo, um longo pernáquio trocista. Emilio perscruta o chiar dos pneus, o furioso cavalgar do motor ao longo das retas de alcatrão aquecido. Não consegue desligar-se desse movimento agressivo e traiçoeiro: mesmo nas madrugadas em que o pária não vem, ele aguarda-o, aguarda ansioso o momento em que o seu descanso seja interrompido pelo sopro da máquina, o momento em que essa vinda maldita termine de vez com a angústia da espera, porque adormecer antes dessa vinda pode significar por ela ser acordado e é esse o seu maior pavor.

Em agosto, porém, o ar pode mudar bruscamente. O ar abafado é substituído num par de horas pelo soprar dos ventos da tempestade. Assiste-se a um formidável fender de relâmpagos desde as camadas mais elevadas da atmosfera, pingos grossos cobrem as gretas do solo e fazem deslizar e transbordar as gorduras do asfalto, o cheiro da terra seca invade os quartos sobreaquecidos. Chamam a este perfume petricor. Há muito que os poetas andaluzes o cantam e anunciam ao mundo, mas as palavras não bastam para exprimir a grandeza deste espetáculo.

Escuta-se o zumbido de uma moto. Ela aproxima-se. O trovão do cano de escape parece querer competir com as forças da natureza. Emilio descarregou a sua praga, e nela o seu rancor. Vem à janela ver o criminoso. As luzes da moto lá estão, um olho vivo no meio da treva e da chuva, monstruosamente idêntico ao do gigante ciclope. Mas subitamente os pneus guincham, não é a derrapagem costumeira, deliberada, provocatória. É mais o estertor de uma manobra imprevista, o som desesperado de um erro de cálculo. Eleva-se o estrondo de uma queda, o replicar cavo e o raspar metálico, durativo, de um embate.

Na Andaluzia o luto tem sempre a dignidade pesada de um tema que não se arquiva.

Na manhã seguinte contam a Emilio os pormenores: o desgraçado teve morte imediata. Sofreu tantos cortes e tão profundos quantos os que a imaginação permita adivinhar. Os railes afiados são uma faca, particularmente se contra eles somos impulsionados.

Emilio Morales rejubila em segredo. Sente que se cumpriu uma espécie de justiça divina, fulminante, atraída quem sabe pelo para-raios das suas preces.

Mas agora tem pesadelos todas as noites. Vê o diabo em pessoa a arpoá-lo com o tridente, a empurrá-lo ao encontro de lâminas atrozes. Vê do outro lado do quarto labaredas altíssimas, cujo sufoco parece persegui-lo das unhas dos pés ao pescoço. Acorda em água, não se sabe aos berros, mas julga que sim.

Aproxima-se da janela aberta e volta a escutar as trevas. O silêncio é total, somente interrompido de quando em vez pelo ladrar dos cães ao longe. .

O estrangeiro

Fotografia de Raymond Hoffmann
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Empoleirado no alto rochoso das serras nevadas, no cimo dos juníperos e dos pinheiros bravios, o vento torna os dias nesta fase do ano mais insuportáveis. Aqui chamam araucárias aos pinheiros e “El triste” ao vento. É uma metonímia. Não é o vento que é triste, mas a solidão daqueles que se aventuram há séculos a dividir esta paisagem com as lamas e os condores e os coiotes. Mais a sul, na Patagónia, erguem-se os contrafortes das Torres del Paine, uma das rotas de peregrinação do turismo internacional. Para norte e oeste estende-se o enxuto Atacama, santuário do silêncio e das estrelas, dos remoinhos de pó, das paisagens lunares, dos astrofísicos, dos arqueólogos.

Aqui não há forasteiros. Há gente pobre, pastores e tecelões, oleiros e obstinados cultivadores de batata e de uma espécie de milho raquítico, mas saboroso, a quem dão o nome de “pan del diablo”. É realmente uma proeza que a agricultura sobreviva em latitude e altitude tão duras.

Não há forasteiros exceto um. Já a coletiva memória se esqueceu de que veio de fora, há tanto tempo que isso foi, aquele que habita uma das casas mais altas da aldeia. Falamos de Frei Juan Miguel Ibañez, o padre, o doutor, o filósofo, o eremita que gasta os seus dias há mais de cinquenta anos em oração, contemplação, leitura e escrita.

Entrando no seu casebre entra-se numa biblioteca. O ar entrincheirado por baixo da porta volta-lhe as folhas, faz tremelicar a luz da vela, sacode-lhe as farripas brancas do cabelo. Está habituado a esta brincadeira. Há muito que deixou de pertencer às preocupações do mundo e se concentra na sabedoria dos homens. Grossos fólios, tomos, atlas, dicionários, missais, textos de teologia, exemplares da Bíblia e de exegese bíblica, manuais de anatomia, biografias, volumes de poemas e de teatro, discursos e tratados filosóficos empilham-se nas suas paredes. É tudo o que possui. Foi condiscípulo de Hubert Reeves, aluno outrora de mestres do pensamento moderno, sacerdote admirador da vida dos santos anacoretas. Hoje sente-se um estrangeiro no mundo e por isso lê-o, estuda-o, interpreta-o.

– Ler é o meu modo de agradecer à Providência. Só Deus poderá dizer-me quando parar.

Os aldeãos respeitam-no, procuram-no às vezes, estranham o seu parco comer, sentem-se fascinados pelas palavras tocadas de música que ele usa, mais belas do que o som da flauta ou da ocarina. Mas nunca o entenderam verdadeiramente.

– O que faz um homem da cidade, um homem do outro lado do mundo, aqui? Foge de quem? Que crime terá cometido? Como poderemos nós saber se é verdade tudo quanto ele afirma?

O padre Juan Miguel Ibañez amassa o seu próprio papel, pacientemente, com materiais e métodos arcaicos. Deixa secar longas tiras que depois corta com precisão, servindo-se do gume de uma obsidiana. Cose os seus próprios cartapácios, recobre os seus livros com peles de animais. Quando não está nestes ofícios, nem a rezar, nem a ler, nem a estudar os nativos, gosta de subir aos píncaros azulados das montanhas desta parte do Chile e de anotar nos seus cadernos o sopro intraduzível da existência.

– Existir é o mais extraordinário milagre sobre o universo. Tudo o que existe é o prodigioso dedo de Deus sobre o vazio, irmão do mesmo ar que os lábios do Senhor sopraram sobre as narinas de Adão. E por isso todas as estrelas e todos os planetas, todas as plantas e todos os animais, todo o pó e todos os pensamentos são a mesma fórmula e o mesmo intento e a mesma miraculosa revelação…

Meio século de escrita é mais do que tiveram alguns dos grandes autores da história da humanidade para compor e criar. Juan Miguel Ibañez escreve sobre o sentido da vida e sobre a perfeição de todos os corpos, escreve sobre a espantosa alegria das palavras combinadas umas com as outras e sobre o espírito original que existe em cada poema, escreve sobre a sublime e sobre a miserável evolução da nossa espécie, dada a capítulos de luminosa sensibilidade e a capítulos de abjeta selvajaria, escreve sobre a matemática omnipresente nas formas físicas e sobre o profundo mistério que se esconde do outro lado da cortina da ignorância humana.

– Porque quererá o Senhor esconder-nos a verdade toda? Quem seríamos nós se a conhecêssemos? Destruí-Lo-íamos? Destruir-nos-íamos? Será o nosso próprio fim o propósito da Criação?

A tinta dos cadernos mais antigos é já ténue, como uma tatuagem semiapagada. Talvez ninguém venha a aceder a este manancial de literatura e de filosofia e de antropologia. Ultimamente, um pesadelo ocupa-lhe a cabeça com persistência durante a noite. Vê-se no meio de um incêndio, de um fogo voraz que tudo consome, madeiras, papel, a sua própria carne. Sofre com este sinal, julga que Deus lhe envia uma mensagem.

– Se o Senhor assim quiser, assim será. Do pó ao pó. Sempre soubemos que tudo é pó, vaidade, vento que passa…

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A explicação do pintor

Fotografia de Branislav Fabijanic
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Andrew Dwight discursava sempre na primeira pessoa do plural, no modo majestático dos professores universitários e académicos. Na abertura da mostra antológica alusiva aos últimos anos da sua pintura, ia contando pequenas narrativas da cada tela exposta.

Entrávamos no sonho como se entra num filme de Antonioni, debaixo de um manto intenso de nevoeiro. Aos poucos já conseguíamos distinguir a forma dos nossos sapatos, o caminho para o jardim, o sulco dos nossos pés sobre a terra. Então, o nevoeiro miraculosamente desaparecia e em vez dele víamos a relva, árvores de pequeno porte (oliveiras, cameleiras, bonsais, bordos japoneses com a sua cor avermelhada). Era um horto, um terreno cuidado que nos levava a um casebre de madeira, cujas vidraças pareciam atentas ao que os nossos olhos iam querer espreitar. Dentro, um casal fazia amor. Ele segurava-a, ela entregava-se. Havia nos gestos de ambos não brutalidade, mas desejo de perfeição, arte, conhecimento mútuo. O sonho levava-nos ali e logo depois abria-nos a porta. Escutávamos mais perto, quase rosto com rosto, o ardor sexual, escutávamo-lo aturdidos e fascinados, como quando se escuta pela primeira vez o som vindo de um lugar desconhecido. Havia quase choro, quase demência, quase júbilo, quase orgulho no suceder de movimentos, na antecipação de prazer e dor. Mas o sonho expulsava-nos agora dali, com receio de que (intrusos) pudéssemos interromper a veemência do instante. O sol principiava a rasgar por entre as trevas, a transbordar das nuvens, rebrilhava nos mesmos vidros que antes atiçavam a nossa curiosidade e nesse momento nos rechaçavam. O orvalho escorria do cálamo das roseiras, resvalava na corola das delicadas flores que se abriam e acendiam por toda a parte. Quem eram eles? Porque nos conduzia ao seu encontro a nossa cabeça perturbada? Como explicar a beleza surpreendente do curto filme que acabáramos de fixar? Quando voltaríamos a sonhá-lo e até quando o sonharíamos? No derradeiro pedaço de tempo, o jardim via-se de cima, como alcançado pelo olho visionário de uma ave. Era, sem dúvida, uma espécie de Éden, uma variante do paraíso primitivo.

Andrew Dwight terminou a sua explicação com uma frase enigmática: cada um dos nossos quadros é uma mentira negociada com a verdade. Depois prosseguiu, acompanhado por um batalhão de jornalistas, críticos e admiradores. Havia tantas narrativas por partilhar ainda. A noite mal havia principiado.

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Facebook

Fotografia de Amer Kapetanovic
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Na sala estão vinte pessoas, devidamente afastadas umas das outras por marcas de fita colada no chão.  Ocasionalmente o sistema sonoro anuncia nome e um número. O doente levanta-se e encaminha-se para o gabinete indicado. Nesse curto intervalo de tempo, os olhos circulam, respira-se fundo, inveja-se o sortudo. Depois volta-se a considerar o infinito, a ler com fastio as notícias do jornal que se tem nas mãos, a vigiar as duas funcionárias maldispostas do lado de dentro do guichê. Na parte mais próxima dos janelões, duas mulheres certamente conhecidas uma da outra conversam. De quando em quando, erguem a voz. Se alguém lhes deita uma mirada, voltam a sussurrar. A espera é paciente, resignada, sem sofrimento já.

Na fila da frente está sentado um homem forte, de cabelos lisos, muito brancos, com um casaco azul e a bengala poisada na perna direita. É, sem dúvida, um octogenário. Surpreende que esteja a mexer no telemóvel, com um dedo em riste, como um adolescente, fazendo deslizar as imagens. Os óculos do senhor forte da frente espelham o visor. Por eles vão passando mulheres jovens em trajes e poses atrevidas. As duas mulheres soltam uma gargalhada. O homem está tão absorvido que tudo o resto não parece importar.

Volta a escutar-se o altifalante. O homem endireita a bengala e com ela põe-se em movimento. As duas mulheres voltam a dar uma risada. Dura apenas o tempo que se demora a saborear uma anedota. Depois fica tudo calado, ou quase. À espera que outro nome e outro número coincidam com a nossa vida e nada mais importe.

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O canto do café

Fotografia de Natalia Ciobanu
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Gostava daquele canto do café, em cujas janelas podia ver o encontro do mar e do rio. Gostava de sentar-se na mesma mesa, na mesma posição, com a chávena entre os dedos, à espera que ela chegasse.

Vira-a uma vez havia quase um ano. Desde então sonhou todas as noites com a possibilidade de voltar a trocar o olhar com ela.

Esse dia não chegava. Por isso, para melhor se alimentar da esperança, sentava-se naquele sítio, espreitava o modo como a ondulação do rio se entregava ao mar, lia poemas, escutava conversas, tornou-se íntimo dos empregados e de alguns clientes.

Uma tarde, quando entrou, deu de caras com ela. Trajava de negro da cabeça aos pés. Reparou como tinha os olhos envelhecidos e como em volta deles o rosto murchara. Não era bonita já, nem sequer atraente.

Sentiu-se atordoado. Aquele lugar pareceu-lhe demasiado pequeno, cheio de sombra, bolorento. Asfixiava. Levantou-se e saiu sem a olhar. Nunca mais ali voltou.

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Ainda

Fotografia de Chaim Chv
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Nos começos da primavera, Chelb, a joia do ocidente, cobre-se de um branco sem mácula, em cuja beleza e esplendor o próprio sol se demora, como que extático ou enternecido. É assim em toda a extensão de al-Gharbiyah, de Saqris a al-Qasruh. Assim é em toda a península do al-Andalus, louvado e proclamada seja o Profeta.

Dos terraços do reino os poetas cantam em cada muwashshaha, em cada zajal, a suave estação que desponta, as amendoeiras e laranjais em flor, as quietas tardes adormecidas sob o rumor sonolento das picotas e das enxadas, o voo das cegonhas e dos milhafres. Dizem que o murmurar das águas, o metálico tinir do ouro, o cicio da voz amada são o mais doce que podem os ouvidos humanos captar. Mas também a eles juntariam o estridular das cigarras, o chilreio dos pequenos pássaros saltitantes, o som do alfange desembainhado, o grito de guerra para justiça e glória eterna de Alá, O Todo Poderoso.

A poesia sempre deveu o génio ao sentido de oportunidade.

Vejamos o caso de ibn‘Ammâr, um dos discípulos diletos de al-Mu‘tamid. Desejoso de poder, não deixou de conspirar contra o amigo, mestre e monarca. Amou Buthayna, quis no íntimo da sua existência que a fortuna o favorecesse com dignidade bastante para que pudesse tomá-la por esposa. Foi perdoado e por fim condenado à morte. Buthayna, por seu turno, será feita prisioneira, vendida e tomada por um inimigo. Também al-Mu‘tamid conhecerá o cárcere, levado por aqueles que primeiro vieram ajudá-lo contra os cristãos e depois, descompadecidos, o destronaram e em extremo vilipendiaram, abandonando-o à fome e à sede, atado à morte por sórdidas grilhetas. A poesia dos três, de ibn‘Ammâr, de Buthayna e de al-Mu‘tamid canta e chora na penumbra a sorte instável, mãe do instante, filha do destino.

Por agora, Chelb (em breve lhe chamarão Silves os odiosos nazarenos do norte) é ainda um reino seguro, magnífico e luminoso. Os senhores tomam ainda o seu banho retemperador. Os bazares repletam-se de todas as mercês e riquezas que Alá multiplicou pelo mundo, vindas de todos os cantos da Terra pela mão dos mercadores e dos almocreves. Físicos, matemáticos e filósofos esquadrinham as profundezas do universo, curam os males do corpo, escrevem tratados insuperáveis. Poetas abundantes erguem o sopro rasteiro da vida à altura majestosa de cânticos. Ainda as hordas malignas da cruz não chegaram. Ainda a delicada poalha da tarde cai numa lentidão de sono sobre hortos e jardins, sobre torres e minaretes. Ainda os olhos vivos de ibn‘Ammâr al-Andalusî  cobiçam o mais alto voo dos falcões. Ainda as cigarras ziziam.

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Sonhos

Fotografia de Jess Foami

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Durante a noite sonhou outra vez com pessoas do seu passado. Primeiro com ex-colegas do trabalho, de quem se despedira havia anos. Depois com rostos antigos (que via agora, uma ou duas vezes por anos, em círculos ovais nas lápides musgosas do cemitério da aldeia), rostos que readquiriam a sua graciosidade e lhe faziam perguntas, rostos que tinham sido importantes e que ela quase por completo esquecera.

Acordou imersa numa impressão de tristeza infinita. Esforçou-se por recordar pormenores dos sonhos sucessivos que tivera, escavando dentro de si como se escava um sítio arqueológico. Vinham-lhe um ou outro detalhes, mas escapava-lhe a narrativa onírica, fugia-lhe a lógica das imagens e dos sons (até dos cheiros) que sabia terem-lhe passado pela cabeça. Sentia-se mole, prostrada, com uma nota de amargor na boca. Acontecia-lhe cada vez mais amiúde. Rosana reagia de modo imprevisível. Tomava um duche de água fria, ligava o aparelho de música, entregava-se ao sol com uma chávena de café nas mãos, saía para a rua com vontade de implicar com quantos transeuntes se cruzasse, lia a Bíblia, colocava os óculos escuros e tampões nos ouvidos e seguia para o trabalho no maior mutismo. 

Viver sobre sonhos, tê-los guardados dentro de si, no âmago imperscrutável da sua própria alma, sonhos destes, sem compreender bem porquê devastadores, sabendo que regressariam, que a dominariam, que a humilhariam, era igual a transportar barris de petróleo, era uma bomba-relógio. Rosana odiava sonhar, odiava nada poder fazer contra estes fantasmas que se acovilhavam na sua própria casa, que a assaltavam sem autorização e, pior ainda, com o seu próprio e vil consentimento.

Ocorreu-lhe, então, quase por acaso, de modo ténue, vaporoso, que num dos sonhos da última noite vira a avó a chorar. Era muito pequena, segurava ainda uma fralda de flanela, percebia nos lábios o sabor de uma chupeta rançosa. Estava na varanda da casa velha de granito, protegida por um gradeamento simples (duas barras de ferro carcomido). Sozinha, de pé, espreitava o quintal e o quinteiro em baixo. A avó no campo, de enxada em punho, erguia torvelinhos de pó. 

Rosana consegui paulatinamente desvendar o nevoeiro ao redor deste estranho cenário. A avó, dobrada sobre a terra, extraía batatas. A lâmina da enxada cortava um pouco adiante de cada tufo de folhas. Depois alavancava o torrão cortado, puxava-o para si e do emaranhado de raízes e terra sacudia os preciosos tubérculos pálidos e avermelhados que nessa manhã quente (provavelmente de julho) a prendia àquela parcela. A avó tinha uma cinta apertada, um pano escarlate segurando-lhe o ventre. Bem via a sua gravidez. 

Rosana surpreendeu-se com esta descoberta. Começava a duvidar que tivesse realmente sonhado com a velha avó grávida. No trajeto diário para o local do seu emprego, ou no regresso a casa, costumava rememorar partes da sua infância. Não era raro fixar-se em lugares perdidos, como um sótão onde brincara, uma cave, um quarto onde partículas de pó bailavam sob o efeito oblíquo da luz, uma mina, um caminho entre giestais e matos floridos, a sala de aulas da escola primária, o confessionário e o púlpito da igreja românica, a corte dos animais. Também lhe acorriam feições apagadas, risos, presilhas em volta de certos olhos, mulheres de lenço preto na cabeça, timbres de voz. Era como um imenso bastidor de teatro, um armazém de máscaras e de tipos humanos. Mas perturbava-a muitíssimo que esse legado misturasse factos, que a confundisse, que lhe trouxesse memórias de uma maneira avulsa e revolta. Como podia ele ter sonhado com a avó grávida? E porque chorava a avó?

Lentamente desceu a si mesma. Deixou que o esquecimento retornasse com o seu véu apaziguador. Era preciso estar viva e pronta para o seu dia de trabalho.

Haveria de sonhar dias depois com a mesma mulher, erguendo e baixado a enxada, guardando no seu ventre o fruto bendito de que Rosana não podia lembrar-se. Enquanto isso retirava da terra seca batatas grandes como punhos. Não saberia dizer se o rosto era o da avó, se o da sua mãe, se era o seu próprio rosto. Sentia nas mãos, ao mesmo tempo, o peso do cabo de madeira e o peso da fralda puída, pressentia no fundo do útero o aperto e a dor de um ser que era ela mesma e era outra pessoa. Nesse sonho alguém lhe dizia nas costas (de modo sonoro, mas ininteligível) «És bem como a tua avó, que Deus a tenha!».  Não sabia porque chorava, mas sentia sempre vontade de chorar, porque era uma menina só, numa varanda mal protegida, porque era velha sozinha, dobrada no campo a trabalhar.

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Just like Heaven

Fotografia de João Almeida
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Era como se em vez de pés e mãos o seu corpo deslocasse trajetórias invisíveis de ar. Mary viajava a partir do mesmo parque de estacionamento, ao longo das mesmas estradas, para as mesmas ruelas com aquela expressão que o tempo costuma ter no início de março, leve, frágil, veemente, adocicada pelo sol imenso, prometedor, talvez não duradouro, sem saber mais do que o agora, sem pedir mais do que viver assim.

Daí a um par de horas voltaria a vê-lo. E ele voltaria a segurá-la nos braços, voltaria a beijá-la, voltaria a olhá-la nos olhos com ternura desmesurada, voltariam a abraçar-se como se abraçam duas folhas de erva, voltariam a trocar doces palavras também elas sem peso, costurando essa cumplicidade que nos prende a uma razão maior de ser.

Na rádio escutava uma daquelas canções pop que preenchiam toda uma época. Achava-lhe piada, tinha ritmo, a letra não era má, a batida oferecia-lhe um pouco mais de amor.

Why are you so far away, she said Why won’t you ever know that I’m in love with you That I’m in love with you
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Em seu redor os prados reverdeciam, prolongavam-se até à linha de mar. Aquela ilha, tantas vezes carcereira, parecia-lhe agora um lugar portentoso: deslumbrava-a a sucessão monótona de campos e cercas, entontecia-a a mistura de perfumes campestres (que intermináveis meses de chuva tinham fabricado) com a brisa oceânica, os penhascos sinistros junto do farol de Skeling Michael produziam nela uma alegria imensa. Era como se o automóvel vogasse sobre nimbos, como se a sua existência simplória de empregada de caixa num qualquer supermercado de província tivesse merecido as honras de uma divindade.

You Soft and only You Lost and lonely
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Mary sentia-se cansada, feliz mas cansada, cansada mas feliz. A música na estação de rádio era vibrante, ela tinha pressa, acelerou. As curvas doíam, seguiam-se-lhe contracurvas perigosas. O sol declinava cada vez mais rápido, deixando no horizonte uma saudade terna, uma poalha luminosa que aqui e ali ofuscavam. Aquele tinha sido um sábado igual a tantos outros, com a diferença de que trabalhara mais horas. Mas valera a pena. Daí a um par de horas voltaria a sentir-se jovem, renascida, parte do mundo vivo e ótimo de que se alimentam as lendas.

Ninguém sabe como se passou. Talvez algures, numa nesga do caminho, o automóvel haja guindado depressa demais, deslizado sobre gravilha, sido encandeado pelo rútilo momentâneo de um raio acabado de desembaraçar-se de uma nuvem.

You Strange as angels Dancing in the deepest oceans Twisting in the water You’re just like a dream You’re just like a dream
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Era como se vogasse sobre nimbos, como se a sua existência pudesse (caprichosa, surpreendente, reconciliada) ter descoberto um modo de permanecer para sempre, como num sonho, sim, como num sonho. Em Cork durante meses não se falou de outra coisa.

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O cenóbio

Fotografia de Naveen Venkatesan

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Depois de ter viajado pelo mundo, pelas boas terras meridionais onde amou o sol e foi amado por belas mulheres, pelas frias paragens do ártico onde granjeou fama e respeito dos marinheiros que com ele atravessaram ilhas de gelos, Knut Peterson retirou-se aos quarenta e três anos para uma das ilhas Faroé, onde viveu anos sozinho. Mais tarde tornou-se monge regressou ao seu eremitério com cinco companheiros, fundando aí um cenóbio.

Rezavam, cantavam, aprendiam o latim e os antigos idiomas nórdicos uns com os outros, liam a Bíblia e as runas, escreviam crónicas e livros de botânica. A paz caía tão branca ali como a neve que ali caía uma boa parte do ano.

Mas uma manhã um barco deu à costa, desgovernado. Nele viajava uma formidável rapariga de cabelos ruivos e efélides, jovem ainda, tão assustada quanto cheia de fome, expressando-se numa língua aparentada com a sua, ainda assim bastante confusa.

Perceberam que tinha fugido, que viajava havia semanas, que ali aportara por força do vento e das marés que empurraram o botezinho, ou por vontade de Deus que sobre o vento e as marés manda.

Era uma boa moça. Depressa se dispôs a ajudar a apanhar lenha, a preparar o pão, a cozinhar sopa, a lavar as madeiras dos musgos e vermes, a aprender as estranhas línguas que ali se palravam. 

Um dos monges viu-a a banhar-se numa das lagoas da ilha, espantosamente branca e perfeita, como um anjo do Senhor, e o seu coração encheu-se de saudades da antiga vida continental. E a um a um (Knut resistiu o mais que pôde) cederam ao franco impulso de a possuírem como sua mulher, de amarem com o corpo o que apenas o corpo pode amar.

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